Visões do Futuro
2009-05-08 17:25 Além de ser um dos fenômenos mais antigos já registrados pela humanidade, a precognição continua envolta em certa aura de mistério. Mas o fenômeno já foi devidamente comprovado pela parapsicologia, e novas pesquisas e teorias estão sendo elaboradas.
Gilberto Schoereder
Profecias, adivinhações, visões, sonhos, intuições... A humanidade já encontrou inúmeras formas para denominar a possibilidade de ter vislumbres de acontecimentos futuros. É um dos fenômenos mais comentados ao longo dos tempos, e pode ser encontrado nos livros sagrados de várias religiões e em relatos lendários e mitológicos das mais diversas culturas do planeta.
Nos estudos parapsicológicos, trata-se de precognição, fenômeno considerado pelos cientistas como nada mais do que uma clarividência ou uma telepatia cujo conteúdo se refere ao futuro. Em outras palavras, é o conhecimento direto de pensamentos, sentimentos, sensações ou fatos futuros.
Wellington Zangari, coordenador do grupo Inter Psi, da PUC de SP, explica que é um erro referir-se à precognição como uma terceira modalidade de ESP (extra sensorial perception, ou PES, percepção extra-sensorial), ao lado da telepatia e da clarividência. “De fato”, ele explica, “ao falarmos de telepatia e de clarividência, estamos definindo o fenômeno pela fonte (de onde partiu) de informação: uma outra mente, no caso da telepatia, e um fato ‘captado’ diretamente do meio, no caso da clarividência. Se definirmos ESP pela variável tempo, então devemos considerar a possibilidade de retrocognição, simulcognição e precognição”.
Uma das formas mais conhecidas de ocorrência do fenômeno é durante os sonhos. Segundo levantamento apresentado por Zangari, entre os americanos 75% dos casos de precognição ocorrem em sonhos; na Europa ocidental, 60% dos casos ocorrem em sonhos; na Inglaterra, 74% dos casos.
No Brasil, num estudo realizado por ele e por Fátima Regina Machado, 64% de uma amostra de 181 estudantes universitários tiveram sonhos com ESP. Desse total de 64%, 92% das pessoas tiveram mais de um sonho; 97% tiveram sonho especialmente vívido; 71% sonharam com evento trágico; 75%, com membro da família; 83%, com evento ocorrido dentro de 24 horas; e 63% contaram o sonho a alguém. A maior parte dos sonhos é realista, em oposição aos sonhos simbólicos; ou seja, as imagens se assemelham ao fato, geralmente indicando “o quê” e ”com quem” o fato sonhado está relacionado.
Precognição e Ciência
É certo que ainda existem críticas e dúvidas não só com relação à precognição mas com praticamente todos os chamados fenômenos parapsicológicos. Como explica Wellington Zangari, enquanto “uma parte da comunidade científica rejeitou o fenômeno de maneira apriorística”, outra parte procurou investigá-lo como hipótese a ser validada ou não por meio do emprego da metodologia científica. Os esforços nesse sentido resultaram em evidências experimentais da existência da precognição, além de outros fenômenos. Em outras palavras, a existência do fenômeno está comprovada.
Eugene Osty, que realizou inúmeras experiências nos primórdios dos estudos parapsicológicos, costumava fazer uma experiência com relação à precognição. Escolhendo uma pessoa com supostas capacidades precognitivas, levava-a ao local onde haveria uma reunião, como uma conferência, por exemplo. Antes das pessoas chegarem, escolhia algumas cadeiras ao acaso, e o sensitivo devia fornecer dados sobre as pessoas que iriam sentar-se nelas. Mais tarde, com a chegada das pessoas e a escolha dos assentos, comparavam as informações fornecidas pelo sensitivo com aquelas fornecidas pelas pessoas escolhidas. Segundo Osty, os resultados foram impressionantes, com informações muito precisas, inclusive sobre uma cadeira que não seria ocupada. Em outro caso, um sensitivo sequer estava presente no local, indicando as pessoas que sentariam nas cadeiras a partir de uma planta geral da sala.
No entanto, os primeiros estudos considerados sistemáticos a respeito da precognição foram realizados pelo dr. Joseph Banks Rhine, em 1933, no Laboratório de Parapsicologia da Duke University. Como fez também com relação ao estudo de outros fenômenos parapsicológicos, ele utilizou as chamadas cartas Zener, um baralho formado por cartas contendo cinco símbolos diferentes (estrela, ondas, quadrado, cruz e círculo). Normalmente, as cartas eram embaralhadas automaticamente, e as pessoas deveriam adivinhar qual o símbolo, uma de cada vez, experiência que visava obter a comprovação estatística do fenômeno da percepção extra-sensorial. O que ocorreu em algumas tentativas foi que o número de erros mostrou-se maior do que seria de se esperar da média. É bom que se diga que, nesse caso, na medição do fenômeno, qualquer número muito acima ou abaixo da média deve ser levado em consideração. Assim, ao verificar os resultados, percebeu-se que estavam sendo adivinhadas as cartas que ainda iriam sair.
Em 1935, Whately Carington também realizou pesquisas na Universidade de Cambridge, nas quais os sujeitos deveriam prever o número de um dado lançado automaticamente. O pesquisador mudou a experiência e, de 1938 a 1944, utilizou desenhos, com 741 sujeitos sendo convidados a desenhar 50 imagens, uma a cada noite. Posteriormente, Carington selecionava os desenhos que serviriam como alvo, ou seja, como aqueles que seriam a base para os desenhos dos sujeitos. A comparação dos desenhos foi altamente favorável à existência da precognição.
No Brasil, um dos experimentos mais importantes de precognição já realizados foi o de Adelaide Petters Lessa, em 1972, no Instituto de Psicologia da USP (publicado em 1975 com o título Precognição, pela livraria Duas Cidades). Lessa utilizou um gerador de eventos aleatórios, desenvolvido pelo pesquisador e físico alemão Helmut Schmidt, e testou a capacidade de pessoas de vários grupos preverem qual de duas lâmpadas de cores diferentes acenderia, demonstrando o fenômeno de maneira inequívoca.
Variáveis
Wellington Zangari destaca também as variáveis que influenciam o fenômeno e que já foram detectadas. Por exemplo, descobriu-se que existem correlações entre a precognição e aspectos da personalidade, características psicofisiológicas e ambientais. Assim, a capacidade precognitiva seria dependente de outros fatores, como as crenças e expectativas. Na maioria dos casos, a precognição está relacionada a alguém com quem a pessoa tem fortes laços emocionais, e geralmente é uma informação ruim, ou seja, relacionada a desastres, doenças, mortes, etc.
No que diz respeito à variável física, as informações são muito interessantes, especialmente no que diz respeito à variação do campo magnético da Terra conforme a proximidade do Sol e da Lua. “Desde há muito”, explica Zangari, “fala-se da influência destes astros na eclosão de crimes e da loucura. Os cientistas sociais descobriram que, de fato, há elevação da taxa de criminalidade quando há lua cheia, da mesma forma que os psiquiatras descobriram que há maior número de internações em hospitais psiquiátricos nestes períodos. Acredita-se que o campo geomagnético influencie na produção de enzimas cerebrais (como a serotonina) responsáveis, por exemplo, pelo humor”.
Dessa forma, os parapsicólogos também consideraram se haveria alguma correlação entre o campo geomagnético e a precognição e, para levantar dados a esse respeito, verificaram o que ocorria nos cassinos. Descobriram que os cassinos perdem mais dinheiro consistentemente durante os períodos de lua cheia. Estenderam essa pesquisa retomando os resultados das pesquisas com baralhos, realizadas nos anos 40 e 50, assim como os estudos de sonhos da década de 60, e perceberam que existia uma correlação positiva consistente entre a maior performance psi e o campo geomagnético.
Zangari cita também as experiências relacionadas aos estados psicofisiológicos e a precognição, especialmente as realizadas por Dean Radin, pesquisador do Institute for Noetic Sciences. A experiência consiste em convidar uma pessoa a ficar diante de um monitor e simplesmente observar as imagens que aparecerão sucessivamente. Um computador escolhe as imagens aleatoriamente, e elas estão divididas em dois grupos: um grupo de imagens que geralmente produzem sensação de calma (como paisagens); outro de imagens que produzem excitação (cadáveres ou cenas eróticas). À medida que as imagens são apresentadas, verifica-se alterações fisiológicas produzidas no sujeito, compatíveis com os estados de relaxamento ou excitabilidade.
O que ocorre, segundo Radin verificou, é que o corpo da pessoa começa a reagir antes que a imagem seja exibida. Em outras palavras, o corpo apresenta sinais de alterações – no sentido de relaxamento ou de excitação – antes que a imagem que causa essa sensação seja apresentada. Mais do que isso, a pessoa não precisa saber que está participando de um experimento parapsicológico: o corpo reage independente do conhecimento da pessoa. Segundo esses resultados, a consciência, a vontade ou a atenção não são necessários para que a precognição ocorra.
Teorias
Além da dificuldade em se estabelecer uma teoria para a precognição, Zangari levanta os problemas empíricos, questionando-se se o que está ocorrendo seria precognição ou psicocinesia. As questões são muitas: “Na pesquisa mencionada de Carington, com dados”, ele se questiona, “os sujeitos previam as faces dos dados ou influenciavam a posição dos dados de forma a corresponderem com a previsão? Nas pesquisas no cassino, os sujeitos prevêem ou interferem parapsicologicamente nas roletas e nos caça-níqueis? Até que ponto os experimentadores influenciam parapsicologicamente nos resultados? Se psi (ESP ou PK) existe, não há que se avaliar o papel do experimentador nos experimentos, uma vez que são os grandes interessados nos resultados?”
As teorias mais variadas já foram levantadas para tentar explicar um dos fenômenos mais incríveis da parapsicologia, exatamente por lidar com o tempo. “Psicologicamente”, conclui Zangari, “a precognição parece cumprir um papel fundamental, de ‘amortecedor psíquico’, preparador do psiquismo para suportar a informação desagradável. Entre o sonho precognitivo e o fato real, a pessoa tem tempo para se preparar, de maneira que a agressão provocada pelo fato não a desestruture completa e irremediavelmente. Do ponto de vista da Física, há muitas possibilidades aventadas, desde a existência de partículas carregadas de informação que viajariam no tempo, até a concepção de que haveria ‘buracos de minhoca’ entre universos paralelos, pelos quais as informações atemporais transitariam”.
Alguns pesquisadores chegaram a levantar a teoria de que a informação poderia viajar para trás no tempo. Da mesma forma que um evento importante tem repercussões futuras – ou seja, seu efeito se estende ao futuro –, ele também se deslocaria para trás no tempo, sendo captado por algumas pessoas em condições especiais. Isso explicaria, por exemplo, algumas previsões que nada tem a ver com a pessoa em si, mas com acontecimentos trágicos envolvendo muitas pessoas. Da mesma forma, pode-se entender que, quanto mais distante esse evento estiver no futuro, mais difícil será a percepção pela mente humana, de modo que a possibilidade da informação conter erros seria maior.
A noção dos universos paralelos é fascinante e já foi muito utilizada pela literatura de ficção científica. Ela considera a possibilidade de que existam universos mais ou menos parecidos com o nosso, normalmente invisíveis aos nossos sentidos. Nesses universos, os acontecimentos ocorreriam de forma mais ou menos semelhante aos eventos do nosso universo, e as informações poderiam “vazar” desse paralelo para o nosso, sendo captadas por algumas pessoas. Segundo algumas propostas, isso também poderia explicar o porquê de alguns eventos futuros não ocorrerem exatamente da forma como foram previstos, já que no universo paralelo eles seriam ligeiramente diferentes.
J.B. Rhine encarou a definição para a precognição da mesma forma como o fez para os demais fenômenos parapsicológicos, ou seja, entendendo que eles são fenômenos “não-físicos”, isto é, não podem ser localizados fisicamente, não estão no cérebro. Para ele, a mente possui uma característica única que é sua independência com relação ao universo material, sendo capaz de ampliar-se e estender seu campo de ação de uma forma que o universo físico não pode entender.
Assim, vários cientistas ligados a esse modo de pensar referem-se à existência de um “campo psi”, através do qual ocorreria a transmissão de sinais de informação. Esse campo seria capaz de interagir com os meios físicos, mas seria independente deles, de modo que as informações poderiam se locomover independentemente das leis conhecidas para o espaço e o tempo.
Mas essa não é uma postura generalizada. Muitos cientistas, especialmente os físicos, entendem que não se pode tentar explicar a precognição, ou qualquer outro fenômeno parapsicológico, senão por meio de teorias da Física. O próprio Albert Einstein teria sido um defensor de que os fenômenos deveriam ser estudados pela Física e que estariam ligados ao estudo da teoria quântica.
Diz-se que a causalidade é extremamente importante no desenvolvimento das teorias físicas sobre a precognição, visto que na causalidade os eventos futuros sempre têm uma causa anterior: uma folha em branco existe antes de uma folha escrita; uma pessoa é jovem antes de ser velha; um telefone não toca na casa de alguém antes que a pessoa disque o número.
No entanto, os cientistas Russel Targ e Harold Puthoff – que também realizaram experiências na área, no Stanford Research Institute – dizem que, apesar de ser um fato observável que a informação viaja do presente para o futuro, “não há qualquer motivo para desespero” se, em algumas ocasiões, em algumas experiências, verificar-se que ocorre justamente o oposto, uma vez que na física teórica, nas equações da física, muitas soluções sugerem exatamente isso.
Outros físicos também apresentam como exemplo disso o fato de que, em microfísica, às vezes ocorre de um núcleo atômico desintegrar-se antes de ser atingido por uma partícula rápida, o que é uma reversão causal aceita na física teórica.
Seja como for, estamos falando de um fenômeno cujas pesquisas ainda vão gastar muito papel e muito tempo (sem querer fazer trocadilho). O importante, no momento, é saber que se trata de um fenômeno comprovado, por mais fantástica que possa parecer a capacidade da mente em transcender o tempo.
Para saber mais:
Tempo – O Profundo Mistério do Universo - John Gribbin (Francisco Alves Editora)
Através da Barreira do Tempo - Danah Zohar (Editora Pensamento)
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