Visões de Felicidade

2009-04-29 16:49

A revista Sexto Sentido está completando um ano de vida. Para comemorar a data, apresentando nas páginas seguintes o sentido da felicidade sob a ótica de seis grandes personalidades que fizeram parte de nossas vidas durante esse período.

A Arte da Felicidade
Sua Santidade, o Dalai Lama
    Para mim o próprio objetivo da vida é perseguir a felicidade. Isso está claro. Se acreditamos em religião, ou não; se acreditamos nesta religião ou naquela; todos estamos procurando algo melhor na vida. Por isso, para mim, o próprio movimento da nossa vida é no sentido da felicidade.
Para mim, a felicidade pode ser alcançada através do treinamento da mente. Quando falo em ‘treinar a mente’ neste contexto, não estou me referindo à mente apenas como a capacidade cognitiva da pessoa ou seu intelecto. Estou, sim, usando o termo no sentido da palavra sem, em tibetano, que tem um significado muito mais amplo, mais próximo de psique ou espírito; um significado que inclui o intelecto e o sentimento, o coração e a mente. Por meio de uma certa disciplina interior, podemos sofrer uma transformação da nossa atitude, de todo o nosso modo de encarar e abordar a vida.
    Quando falamos dessa disciplina interior, é claro que ela pode envolver muitos aspectos, muitos métodos. Mas em geral começa-se identificando aqueles fatores que levam à felicidade e aqueles que levam ao sofrimento. Depois desse estágio, passa-se gradativamente a eliminar os que levam ao sofrimento e a cultivar os que conduzem à felicidade. É esse o caminho.
Deixemos de lado por um momento as aspirações máximas espirituais ou religiosas, como a perfeição e a iluminação, e lidemos com a alegria e a felicidade como as entendemos num sentido rotineiro ou material. Dentro desse contexto, há certos elementos essenciais que convencionamos reconhecer como propiciadores de alegria e felicidade. Por exemplo, considera-se que a saúde é um dos fatores necessários para uma vida feliz.     Outro fator que encaramos como fonte de felicidade são nossos recursos materiais, ou a riqueza que acumulamos. Outro fator é ter amigos ou companheiros. Todos nós reconhecemos que, a fim de levar uma vida realizada, precisamos de um círculo de amigos com quem possamos nos relacionar emocionalmente e em quem confiemos.
    Ora, todos esses fatores são, no fundo, fontes de felicidade. No entanto, para que um indivíduo possa fazer pleno uso delas com o intuito de levar uma vida feliz e realizada, sua disposição mental é essencial. Ela tem importância crucial.
    Se utilizarmos nossas circunstâncias favoráveis, como a saúde ou a fortuna, de modo positivo, na ajuda aos outros, elas poderão contribuir para que alcancemos uma vida mais feliz. E, naturalmente, nós desfrutamos desses aspectos: nossos recursos materiais, nosso sucesso e assim por diante. Porém, sem as atitude mental correta, sem a atenção ao fator mental, esses aspectos terão pouquíssimo impacto na nossa sensação de felicidade a longo prazo. Por exemplo, se a pessoa nutre pensamentos rancorosos ou muita raiva bem no fundo de si, isso acaba com a saúde e, assim, destrói um dos fatores. Da mesma forma, quando se está infeliz ou frustrado no nível mental, o conforto físico não ajuda muito. Por outro lado, se a pessoa conseguir manter um estado mental calmo e tranqüilo, poderá ser muito feliz apesar de sua saúde ser frágil. Ou ainda, quando está vivendo um momento de raiva ou ódio intenso, mesmo possuindo bens maravilhosos sente vontade de atirá-los longe, de quebrá-los. Naquele instante, os bens não significam nada. Hoje em dia, há sociedades bastante evoluídas em termos materiais, e no entanto em seu seio muitas pessoas não são muito felizes. Logo abaixo da bela aparência de afluência há uma espécie de inquietação mental que leva à frustração, a brigas desnecessárias, à dependência de drogas ou álcool e, no pior dos casos, ao suicídio. Não há, portanto, nenhuma garantia de que a riqueza em si possa proporcionar a alegria ou a realização que buscamos. Pode-se dizer também o mesmo a respeito dos amigos. Quando se está num estado exacerbado de raiva ou ódio, até mesmo um amigo íntimo parece de algum modo meio frio ou gélido, distante e perfeitamente irritante.
    Tudo isso indica a tremenda influência que o estado da mente, o fator mental, exerce sobre nossa experiência do dia-a-dia. Naturalmente, devemos encarar esse fator com muita seriedade.
Portanto, deixando de lado a perspectiva da prática espiritual, mesmo em termos terrenos, no que diz respeito a levar uma existência feliz no dia-a-dia, quanto maior o nível de serenidade da mente, maior será nossa paz de espírito e maior nossa capacidade para levar uma vida feliz e prazerosa. Eu deveria mencionar que, quando falamos de um estado mental sereno ou de paz de espírito, não deveríamos confundir isso com um estado mental totalmente insensível, apático. Ter estado de espírito tranqüilo ou calmo não significa ser completamente desligado ou ter a mente totalmente vazia. A paz de espírito ou serenidade têm como origem o afeto e a compaixão. Nisso há um nível muito alto de sensibilidade e sentimento.
    Desde que falte a disciplina interior que traz a serenidade mental, não importa quais sejam as condições ou meios externos que normalmente se considerariam necessários para a felicidade, eles nunca nos darão a sensação de alegria e felicidade que buscamos. Por outro lado, quando dispomos dessa qualidade interior — uma serenidade mental, uma certa estabilidade interna —, nesse caso, mesmo que faltem vários recursos externos que normalmente se considerariam necessários para a felicidade, ainda é possível levar uma vida feliz e prazerosa.

Tenzin Gyatso, Sua Santidade o Décimo Quarto Dalai Lama, é líder espiritual e temporal do povo tibetano. Ganhador do Prêmio Nobel da Paz e do Prêmio Wallenberg, conferido pela Fundação dos Direitos Humanos do Congresso dos Estados Unidos. Além de sua atuação como líder espiritual, o Dalai Lama tem sido visto como uma das personalidades marcantes do século XX e um dos maiores defensores dos direitos humanos no planeta.
Texto extraído do livro A Arte da Felicidade, de Sua Santidade, o Dalai Lama, e Howard C. Cutler (Livraria Martins Fontes Editora)


A Síndrome da Felicidade
Mestre DeRose
    O que é pior: ser infeliz ou estar convencido disso?
    A teoria da Síndrome da Felicidade baseia-se no fato de que o ser humano é um animal em transição evolutiva e que, dos seus milhões de anos de evolução, somente há uns míseros vinte mil anos começou a construir aquilo que viria a ser a civilização. E experimentou o gosto amargo das restrições impostas como tributo dessa aventura.
    Como animais, temos nossos instintos de luta, os quais compreendem dispositivos de incentivo e recompensa pela sensação emocional, e mesmo fisiológica, de satisfação cada vez que vencemos, quer pela luta, quer pela fuga (a fuga também é uma forma de vitória, já que o animal conseguiu vencer na corrida ou na estratégia de fuga; e seu predador foi derrotado, uma vez que não conseguiu alcança-lo).
    Numa situação de perigo, o instinto ordena lutar ou fugir. Quando acatamos essa necessidade psico-orgânica, o resultado na maior parte das vezes é a saúde e a satisfação que se instala no estágio posterior.
Se não é possível fugir nem lutar, desencadeiam-se estados de stress que conduzem a um leque de distúrbios fisiológicos diversos. Isto tudo já foi exaustivamente estudado em laboratório e divulgado noutras obras.
    O que introduzimos na teoria da Síndrome da Felicidade é a descoberta de um fenômeno quase inverso ao que foi descrito e que os pesquisadores ainda não situaram a contento. Trata-se daquela circunstância mais ou menos duradoura na qual não há necessidade de lutar nem de fugir porque está tudo bem. Bem demais, por tempo demais.
Isso geralmente acontece com maior incidência nos países de grande segurança social e numa proporção assustadora nas famílias mais abastadas.
    O dispositivo de premiação com a sensação de vitória, sua conseqüente euforia e autovalorização por ter vencido na luta ou na fuga, tal dispositivo em algumas pessoas não é acionado com a freqüência necessária. Como conseqüência o animal sente falta — afinal é um mecanismo que existe para ser usado, mas não o está sendo — e, então, ele cai em depressão.
    Se quisermos considerar o lado fisiológico do fenômeno, podemos atribuir a depressão à falta de um hormônio, ainda não descoberto cientificamente, que denominei endoestimulina, e que o organismo pára de segregar se não precisa lutar nem fugir por um período mais ou menos longo, variável de uma pessoa para outra.
    O cão doméstico entra em depressão, mas não sabe por quê. A dona do cãozinho também não sabe a causa da sua própria depressão, já que o processo é inconsciente, porém, seu cérebro, mais sofisticado que o do cão, racionaliza, isto é, elabora uma justificativa e atribui sua profunda insatisfação a causas irrelevantes. Não adiantará satisfazer uma suposta carência, imaginariamente responsável pela insatisfação ou depressão: outra surgirá em seguida para lhe ocupar o lugar e permitir a continuidade da falsa justificativa. O exemplo acima poderia ser com pessoas de ambos os sexos e todas as idades, mas, para ocorrer, é preciso que a pessoa seja feliz.
Resumindo, quando o ser humano está tendo que lutar por alguma coisa, não há espaço em sua mente para se sentir infeliz. Se ele não pode lutar nem fugir, primeiro sobrevêm reações violentas; depois, a apatia e a somatização de várias doenças. Mas se está tudo bem, bem demais, por tempo demais, o indivíduo começa a sentir infelicidade por falta do estímulo de perigo-luta-e-recompensa. Como isso ocorre no inconsciente, a pessoa tenta justificar sua infelicidade, atribuindo-a a coisas que não teriam o mínimo efeito depressivo em alguém que estivesse lutando contra a adversidade.
Exemplos:
•    Na Escandinávia, onde a população conta com uma das melhores estruturas de conforto, paz social, segurança pessoal e estabilidade econômica, é onde se verifica um dos maiores índices de depressão e suicídio no mundo. Durante a guerra do Vietnã, onde as pessoas teriam boas razões para abdicar da vida, o índice de suicídios foi quase nulo.
•    Os países mais civilizados, que não teriam motivos para passeatas e agitações populares, pois nada há a reclamar dos seus governos, com alguma freqüência realizam as mesmas passeatas, mas agora com outros pretextos, tais como a ecologia, o pacifismo ou a defesa dos direitos humanos na América do Sul.
•    O movimento em defesa dos direitos da mulher surgiu justamente no país onde as mulheres tinham mais direitos e eram mesmo mais poderosas que os homens: os Estados Unidos. Lá, onde tradicionalmente se reconhece a imagem de superioridade da esposa com o rolo de massa dando no marido que tenta se explicar, justo lá, foi onde as mulheres reclamaram contra sua falta de liberdade e igualdade. Já na Itália, Espanha, Portugal, América Latina, Ásia, países muçulmanos e outros onde a mulher poderia ter motivos na época para reclamar, em nenhum deles ela se sentiu tão violentamente prejudicada nos seus direitos quanto nos Estados Unidos.
Assim, sempre que alguém começa a chorar suas mágoas, explico-lhe minha teoria da Síndrome da Felicidade e concluo dizendo:
– Se você se sente infeliz sem razão, ou o atribui a essas razões tão pequenas, talvez seja porque você é feliz demais e não está conseguindo metabolizar sua felicidade. Algo como indigestão por excesso de felicidade. Pense nisso e pare de reclamar da vida.

Mestre De Rose é presidente da Confederação Nacional e da União Internacional de Yôga. Foi o introdutor do Curso de Formação de Instrutores de Yôga nas Universidades Federais e Católicas de praticamente todos os estados do Brasil e na Universidade Nacional da Argentina. Fundador da Primeira Universidade de Yôga do Brasil e da Universidade Internacional de Yôga, em Portugal, Mestre De Rose é um dos mais respeitados estudiosos e instrutores do Brasil.


Os Caminhos da Felicidade
Monica Buonfiglio
    A primeira vez que a palavra felicidade foi usada ocorreu por volta do século III a.C., na Grécia, indicando um estado de perfeita satisfação íntima; um grande contentamento. Portanto, tanto eu como você temos, intrinsecamente, a capacidade de sermos felizes, criadores, de entrarmos em contato com algo existente fora do alcance dos tentáculos do tempo. Não é um dom reservado a poucos; e por que então a grande maioria não conhece essa felicidade? Por que razão alguns parecem estar em contato com a realidade profunda, apesar das circunstâncias e acidentes, enquanto outros estão sendo destruídos por essas mesmas circunstâncias e acidentes?
    A mente pode pôr-se em contato com aquilo que constituí a fonte de toda felicidade? E esse contato pode ser mantido, a despeito da educação e das exigências da vida? Sim, pode.
Nosso problema não é o jovem, mas o pai. Não é o discípulo, mas o mestre. A felicidade é um círculo virtuoso e quando não se percebe a necessidade essencial e primacial é preciso dar-lhe a atenção correta.
    Estar aberto para a fonte da felicidade é a mais sublime de todas as religiões, e para conhecê-la, é preciso dar-lhe atenção correta, como se dá aos negócios.
    A mente do "eu" deve sempre assumir a direção. O autoconhecimento é o começo da felicidade e da sabedoria. Sem isso, o saber leva à ignorância, a felicidade à infelicidade e a luta ao sofrimento.
    Ser feliz significa estar sintonizado com o movimento rítmico do "Todo" e o sofrimento é o seu desacordo. É estar de bem com nossa consciência, entre o ritmo interior e o ritmo exterior; ou seja, o ritmo da criatura deve permanecer paralelamente ligado ao ritmo divino.
    Até o asceta mais austero testemunha em favor da felicidade de viver. No fundo da depressão e do desespero, que levam ao suicídio, encontra-se um elemento de descontentamento que pressupõe a afirmação de uma felicidade imaginada, de viver sonhando, de ter preguiça de viver.
    O que é felicidade para você? Ter um ótimo saldo bancário, conhecer uma pessoa especial, ter uma saúde perfeita ou passar no vestibular?
Um psicólogo americano, Mihaly Csizkentmihalyi, conseguiu provar que a felicidade é um estado de espírito que pode ser alcançado através de um esforço racional.
    Segundo ele, estamos imersos na felicidade quando desafiados. Ela não é sorte grande ou fruto do acaso. Também  não é algo que se compre, mas depende de eventos externos, da forma de como o interpretamos.
Nessa pesquisa, ele registrou com exatidão os estados de espírito que se alteram durante o dia. Voluntários de vários países se ofereceram para participar da pesquisa. Cada um recebeu um pager e um caderno. Em uma semana, o bip utilizado na experiência tocava oito vezes ao dia. Cada participante registrava o seu estado de espírito. No caderno anotavam o que estavam fazendo, onde, quando, por quê.
    O pesquisador concluiu que os momentos de felicidade aconteciam quando a mente ou o corpo estava no limite da sua capacidade, quando realizavam algo difícil que valia a pena.
    Portanto, o importante é não deixar que as dificuldades tomem conta da situação, mas superá-las.
    Se o seu dia-a-dia está relacionado com desafios, você está percorrendo o caminho da felicidade. Ela também está associada à carga genética, diferenciando-se de pessoa para pessoa. Você pode ficar feliz escrevendo, praticando algum esporte, fazendo ginástica, etc.
    A receita da felicidade pode ser concretizada se comemorar a cada vitória, alegrando-se a cada avanço. Desta forma, você aumentará seu estímulo hormonal. Isto significa que deve evitar guardar-se para a vitória final. Também é importante conhecer suas possibilidades e limitações.     Planejar casar-se com o ator consagrado é um pouco difícil; o sofrimento será certo. Defina o que pode ser importante para você: alcançar o peso ideal, passar de ano, conseguir um bom emprego, fazer um curso de idiomas, etc.
Esta pesquisa concluiu que 50% da felicidade depende da herança genética e do meio em que se convive. A infelicidade é como um vírus: afaste-se das pessoas "baixo astral".
    Não fique reclamando dizendo que a vida é exigente demais, que você tem de enfrentar duras realidades, que é seu destino, seu carma, que é culpa dos pais; tudo isso é absurdo. A felicidade é para todos; não tem cotação no mercado, não é uma mercadoria que se vende; ao contrário, é a única coisa que pode ser universal.    
    "Tudo dá errado para mim". Uma frase típica dos adolescentes. Quanto mais pronunciar estas palavras, maior será o condicionamento perante a vida, e então nada dará certo. Se você desiste antes mesmo de começar, se não consegue enxergar um futuro sem fracasso, terá sérios problemas de adaptação.
    A auto-estima não deve ficar em baixa. Quando alguém fizer elogios, não desconsidere; agradeça.  Não dê ouvido às críticas; deixe-as de lado.
Nenhuma divindade ou ninguém pode ter prazer com a sua infelicidade. Ao contrário: quanto mais a felicidade nos afetar, quanto maior for a perfeição à qual chegamos, maior será a necessidade de participar com a  natureza divina.
    Felicidade é ter moderação pelo qual permanecemos senhores de todos os nossos prazeres, em vez de escravos.  É fumar quando podemos prescindir de fumar. Beber quando não somos prisioneiros do álcool, fazer amor quando não somos prisioneiros do desejo. Ter prazeres cada vez mais puros, divinos, porque nos deixam mais livres. Alegres, porque sabemos controlá-los.
    A felicidade é uma virtude que caminha entre dois abismos: o da insensibilidade e dos desregrados. É uma afirmação sadia de nosso poder de existir sobre os impulsos irracionais. E sabedores de tudo isso, ser o mais humilde de todos os mortais.

Monica Buonfiglio é escritora, um dos maiores sucessos editoriais dos últimos anos. Alcançou sucesso em inúmeros países escrevendo sobre anjos e, posteriormente, sobre almas gêmeas e uma série de assuntos ligados ao esoterismo. Foi colunista da revista Manchete e Predicciones, da Argentina, além de apresentar programas na Rede Bandeirantes de Televisão e CNT/Gazeta.


A Resistência e os Riscos de Ser Feliz

Luiz Antonio Gasparetto
    Será mesmo que você pode ser feliz neste mundo? Ou você é daqueles que acreditam que a felicidade não é deste mundo? Ou ainda que a felicidade é coisa rara, só para alguns momentos especiais e nada mais? Que a vida é sempre luta e sofrimento? Eu sei que você gosta de pensar no melhor, mas, na realidade, em que é que você acredita?
    Muitas pessoas foram criadas em um ambiente onde a riqueza era sinônimo de desonestidade ou de tentação que nos levaria, caso viéssemos a prová-la, a uma vida fútil. Ou, então, que o luxo nos faria perder a humanidade, tornando-nos frios e decaídos, tendo como resultado final não só a desconsideração de quem amamos como também a desaprovação de deus e uma possível punição por isso. Em resumo, a riqueza é sinônimo de perdição. Fica claro nesse exemplo que desenvolvemos defesas contra a riqueza. E, caso começarmos a chegar perto do que consideramos riqueza, os mecanismos de defesa disparam criando impedimentos para o nosso progresso.
    A verdade é que a maioria de nós tem uma série de crenças contra o sucesso das quais nem sempre estamos conscientes, mas que nem por isso deixam de atuar com perfeição. É o caso daquele comerciante que, enquanto tinha apenas duas lojas, uma que ele mesmo tomava conta e outra que a sua esposa dirigia, tudo ia bem. Porém, quando resolveram abrir a terceira — o que segundo os critérios deles já era considerado como o início do estado de riqueza — nada mais deu certo. Não só a terceira loja não foi para frente como começou a afetar o desempenho das outras duas. Quando eles, a contragosto, fecharam a terceira, as outras duas voltaram ao normal. E assim foi para o resto da vida. Tudo que tentavam fazer, além das duas lojas, jamais deu certo. Para eles, a riqueza era perigosa e sempre que conversavam com os filhos sobre as verdades da vida pregavam em bom português o indiscutível valor e a honrosa decência que era a vida deles, apesar de não terem muito dinheiro.
    Isso tudo não lhe soa familiar?
    Você pode saber lidar muito bem com uma promoção até certo nível salarial sem que represente a menor ameaça. Mas, dali para frente, se ganhar mais dinheiro, passa a se considerar rico. Claro que é preciso levar em conta o que é ser rico para um e o que é ser rico para outro. Para alguém que vem de uma família pobre, ter um carro, uma casa já pode ser considerado sinal de riqueza. Mas se a pessoa já vem de uma família que tem tudo isso, talvez só vá se considerar rico a partir do momento em que tiver a segunda empresa. Vai depender então do nível de ameaça, que não é o mesmo para todos.
    Você também tem medo de ficar muito feliz e se entregar ao prazer. Você não se deixa ter nenhum tipo de aventura, não deixa porque é contra sua segurança, contra a idéia de conforto. Só de saber que corre esse risco, já pode começar a disparar em você o sistema de resistência. Aí, surgem os empecilhos que você coleciona: falta de dinheiro, problema financeiro, familiar e de saúde. Aquele que estiver mais à mão, você pega. Diz que as coisas não estão dando certo porque não são para você. Quando forem, elas virão na sua mão. Você se conformou e, se por um lado ficou triste, por outro sentiu até um certo alívio.
    Como pode ficar feliz se cada vez que você pensa nisso vêm todos esses empecilhos? Acha que não é o seu caso, porque não quer ver. Mas será que não pode ter um minuto de felicidade? Claro que você não pode ter tudo certinho na vida, porque acha que tudo certinho é monótono. Será que quer mesmo ser feliz?
    Para ser feliz, definitivamente, você precisaria não acreditar em coitado, em dificuldade, em problema, em luta, em heroísmo, nem em “vitimismo”. Precisaria ter a ousadia de ser você, de fluir com o seu entusiasmo, de acreditar em motivação. Mas você não que deixar de ter problema, porque o desafio o motiva. Também faz muitos anos que você não sente motivação espontânea. A gente está tão preso nesse modo de pensar que não sente mais a espontaneidade do entusiasmo e da vocação.
    É por isso que as pessoas dizem: felicidade é algo bonito, mas não é deste mundo. Estamos aqui nesta vida para passar provações e sofrimento, para pagar o carma. Não é assim que a gente aprendeu? E se não for bonzinho, vai para o inferno. Mas você já está vivendo num, só que esse é um inferno familiar. O outro pode ser pior, você imagina.
    “Mas eu me dou por feliz de a minha vida não ter grandes tragédias. Só de não ter isso, já está bom demais. Afinal, coisa pior poderia acontecer!”     Nessa hora você não acredita mais em causa e efeito. O universo joga dados. Se cair um na minha vida, posso sofrer. Ainda bem que não sofri tanto; tem gente que sofre até mais!”. Não é o que você diz? “Também não vou cuspir no prato em que como. Tentar uma coisa melhor, com uma qualidade de vida melhor? E se não der certo, quem me garante? É muito arriscado, tenho medo. Eu não vou.”
    Então, você continua o mesmo, porque é perigoso mudar. Qualquer mudança, a gente já deve encarar com desconfiança. Mudar sem preparo psíquico? Não! Com essa cabeça que você tem, jamais vai ter a menor chance. Não pode nem ter entusiasmo, porque é perigoso. Não pode ficar contente, porque depois pode se decepcionar. Sobrou o quê? Sofrer pode, porque é seguro. Não adianta nem eu dar uma fórmula para você ser feliz, porque, se o ameaçar, não vai seguir. Você vai continuar igual.

Luiz Antonio Gasparetto é psicólogo e médium conhecido internacionalmente, Além de um dos grandes nomes do espiritualismo moderno, ele utiliza sua experiência no campo da psicologia para elaborar idéias inovadoras sobre a existência humana, sempre buscando oferecer novos caminhos e possibilidades para o autoconhecimento.
Texto extraído do livro Prosperidade Profissional, de Luiz Antonio Gasparetto (Centro de Estudos Vida & Consciência Editora).


Espiritismo e Felicidade

Chico Xavier
    Sentimos, desde o início de nossas atividades mediúnicas, que a religião é indispensável para a sustentação da nossa felicidade, porque ela decorre da tranqüilidade de consciência. Não podemos, por exemplo, adquirir paciência, tolerância, alegria ou tranqüilidade no supermercado.     Poderemos comprar muitas novidades em matéria de progresso tecnológico, para nosso conforto, mas, para o nosso íntimo, a religião é a base da paz a que aspiramos chegar. Creio que, observando talvez intuitivamente o declínio das atividades religiosas de outros templos que amamos e respeitamos como fortalezas de nossas origens, é provável que a maioria dos espíritas se inclinem para o lado religioso, com mais ansiedade de permanência na fé, porque a ciência, de certo modo, com todo o nosso respeito, tem desprezado a parte espiritual; sem esse patrimônio dos nossos valores íntimos, não conseguiremos vencer do ponto de vista de felicidade, de paz, que todos estamos sempre atentos em proclamar como sendo nossas necessidades primárias.
    A ambição enlouquece o ambicioso. Se tudo é meu — na condição de filho de Deus, se tudo naturalmente me pertence, o que é que vou querer? Essa idéia de posse exclusiva é altamente nociva para o homem — é uma espécie de veneno inoculado na sua cabeça, fazendo com que ele ainda mais se perturbe.
    A insatisfação diante da vida, o anseio de destaque social, econômico, de poder, nos coloca à mercê de emoções muito fortes. Muitos dos nossos homens públicos tiveram enfartes quando foram vítimas de determinados decretos; quando não puderam ter tanto como estavam habituados a ter, vem o colapso das forças orgânicas, o coração pára, porque a nossa mente tem poder absoluto sobre o corpo; não nos educamos para viver; nos educamos para ser criaturas cada vez mais possessivas.
Infelizmente, muitos de nós, considerados hoje cidadãos supercultos, revelamos grande preocupação em dotar os filhos com a instrução cultural e técnica, com as indicações acerca das vitórias práticas na vida, como sendo o ter muito dinheiro, o dispor de muitas propriedades, o possuir muito conhecimento em torno do plano externo da Vida, mas raros de nós mostramos o devido zelo à formação dos filhos que Nosso Senhor Jesus Cristo nos entregou. Notamos que sobra hoje, em quase toda parte, a consagração do egoísmo, sem aquele espírito de confraternização e amor uns pelos outros, que a família verdadeiramente cristã se empenha em cultivar. Está desaparecendo desses povos que nos dirigem. E estes povos nos dirigem!     E nós estamos atados a eles como os carros de uma locomotiva estão ligados a um comboio. Não há em nossos propósitos a maledicência. Nós sentimos em todos eles grandes líderes da inteligência. Em toda parte há bondade. Em toda parte há vontade de auxiliar mas, no fundo, há um certo descaso pela formação da alma, um certo descaso pelo sentimento cristão que orienta a vida e sem o qual a felicidade é impossível.
    Com certeza, a Terra ainda vai demorar muito a apresentar as melhoras que esperamos. O progresso espiritual das massas depende do progresso espiritual dos indivíduos que, sem dúvida, acontece com lentidão. Todavia, não podemos negar que, de Jesus Cristo para cá, em termos espirituais, as coisas deram um salto muito grande. Dois mil anos não é tanto tempo assim. Aos poucos, a noção de fraternidade vai ganhando terreno. Hoje, as religiões já estão preocupadas com a vivência do Amor; antes, era somente a adoração ritualística. Cada alma que se sensibiliza, entregando-se ao Evangelho, passa a ser um ponto de influência espiritual para muitas outras. O futuro é promissor. Não podemos querer que tudo se modifique, como alguns amigos nossos me ensinaram a dizer, a toque-de-caixa...

Chico Xavier é considerado o maior médium do Brasil. Ao longo dos anos, tem passado mensagens de paz, amor e compreensão, recebidas de inúmeros espíritos ou elaboradas por ele mesmo. Já se perdeu a conta do número de pessoas que o médium ajudou com suas mensagens positivas para a vida. Seu nome chegou a ser citado para o Prêmio Nobel da Paz.
Textos extraídos do livro O Evangelho de Chico Xavier, de Carlos A. Baccelli (Casa Editora Espírita “Pierre-Paul Didier”)


A Felicidade Dentro da Visão Messiânica

Reverendo Tetsuo Watanabe
    Num dos ensinamentos do fundador do Movimento Messiânico, o mestre Mokiti Okada, existe um trecho em que ele faz a seguinte afirmação: “Deus alegra-se quando o homem é feliz”. Portanto, o fato do ser humano levar uma vida harmoniosa e agradável corresponde inteiramente à Vontade Divina. Se o mundo estivesse de acordo com essa Vontade, já seria um verdadeiro paraíso. Mas, então, por que sofremos tanto nesta terra onde deveria estar estabelecido um mundo de saúde, paz e prosperidade? Por que tanta dor e tristeza? Por que tanta infelicidade?
    Na verdade, é o próprio homem a origem de tudo isso, porque ele veio se distanciando de Deus, na exata proporção em que transgrediu, desrespeitou e se afastou da LEI DA NATUREZA, em virtude do seu excessivo materialismo e egoísmo.
    A filosofia messiânica orienta que o homem deve-se mirar no exemplo da natureza, que é regida por um conjunto de leis. Esta filosofia, observando a mesma natureza, nos mostra que tudo no universo tem espírito e sentimento e, portanto, pulsa e respira. E a respiração é um movimento duplo que compreende dois atos distintos: o ato de inspirar e o ato de expirar.
    Imagine o leitor o que aconteceria a um homem que vivesse só inspirando? Certamente, de tanto inspirar, ele morreria sufocado pelo próprio ar.     Para viver, é preciso também expirar. Esse movimento de inspirar e expirar pode ser comparado às fases da vida do homem: a fase de receber e a fase de doar. Por isso, é uma grande verdade aquele pensamento religioso que se tornou popular: “É dando que se recebe”.
    Dessa forma, a fase de inspiração pode ser comparada ao período da infância. Qualquer criança só consegue crescer e viver ganhando amor. Ela recebe a energia da vida por meio do amor que recebe do pai ou da mãe, ou de alguém que a cuida. Por isso, é lógico que nessa fase ela seja egoísta. Será que o leitor já viu alguma criancinha preocupar-se em não chorar para respeitar o cansaço da mãe? Não existe criança assim. Quando está com fome, ela chora, grita, esperneia até ser atendida e saciada na sua vontade.
    Depois de alguns anos, chega um momento em que a criança começa a mudar sua característica. É a fase da pré-adolescência para a adolescência, quando surge o interesse em possuir e cuidar de um bichinho de estimação. Sua natureza física também começa a se modificar. A menina torna-se moça e ganha a capacidade de ser mãe, e o menino de tornar-se pai. Surge o interesse pelo sexo oposto, o despertar para o namoro. Nasce a paixão pelo ídolo.
    Essa mudança determina que chegou o momento de ganhar a energia da vida não mais pelo ato de receber, mas sim, pelo ato de dar amor a alguém. É dando amor que ela passa a ganhar a energia para viver. Dar amor significa tornar-se uma pessoa útil que consiga servir ao próximo e à sociedade. Infelizmente, como se desconhece essa verdade, as crianças não são orientadas para essa nova fase da vida. O pensamento comum é que amar é continuar dando tudo, ou satisfazendo tudo o que a criança deseja ou pede. E ela acaba sufocada por receber tanto amor e proteção. Ela fica fraca, egoísta e inútil de tanto ser mimada.
    Na verdade, existe em toda criança o desejo latente de servir. Porém, quando ela dá os primeiros sinais de demonstração desta vontade, o egoísmo dos pais não estimula a manifestação dessa espontaneidade. Muitas vezes, pior, eles até a impedem. Por exemplo: mesmo que a criança ainda não tenha segurança, experimente pedir a ela que traga uma xícara de cafezinho. Certamente, pode ser que, por falta de equilíbrio, ela quebre a xícara ou derrame um pouco de café e acabe sujando o chão. E, quando enfim o cafezinho chegar, pode ser que seja bem menos que a metade da xícara. Nessa hora, mesmo que tenha restado somente um gole, ao invés de reclamar ou repreendê-la por ter derramado o café ou sujado o chão, experimente dizer: “Obrigado, meu filho”! Ou, “Obrigado, filhinha querida, que gostoso!”.
Você vai se surpreender com o sorriso de alegria que imediatamente brota no rosto da criança. Esse sorriso é a expressão do sabor da felicidade que ela está sentindo em ter conseguido servir e ser útil. Peça a ela que faça outras vezes e, assim, pouco a pouco, vai se ensinando aos filhos o sabor de ser altruísta, estimulando aquele desejo de ser útil que a criança possui guardada dentro de si.
    A capacidade de servir não é uma simples opção; é, certamente, uma necessidade do ser humano. Sabemos que a verdadeira educação começa nos primeiros anos de vida. Desde essa época, a criança precisa ser orientada para sentir o sabor de dividir, de compartilhar e de servir.
Infelizmente, existem muitas pessoas que não compreendem essa necessidade. Acham que ser feliz é conquistar tudo para si. Algumas chegam ao ponto de prejudicar ou até fazer os outros sofrerem na busca da própria “felicidade”. Dessa forma, um dia elas também acabam sufocadas pelo próprio ar que respiraram.
    Por isso, a filosofia de Mokiti Okada preocupa-se em conduzir as pessoas para a consciência dessa verdade tão simples: o homem deve seguir o exemplo da natureza, tornando-se útil a Deus e ao seu semelhante, praticando o altruísmo e respeitando o espírito e sentimento que existem em tudo e em todos. Quem consegue dedicar a sua vida dando amor ao próximo é que consegue sentir o sabor do altruísmo. E o altruísmo é que nos conduz à verdadeira auto-realização. Não existe outro caminho para se alcançar a felicidade.
    “Todo ser humano precisa saber que a maior felicidade que se pode sentir na vida é aquela que a gente saboreia quando consegue, verdadeiramente, fazer a felicidade de alguém”. (Mokiti Okada)

Tetsuo Watanabe é presidente mundial da Igreja Messiânica Mundial, fundada por Mokiti Okada em 1935. O Reverendo Watanabe está à frente de uma série de projetos para o Brasil, como a construção da Cidade na Nova Era, um modelo de civilização pacífica e fraterna, aberta a todos os credos.

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