Um Livro Milagroso

2009-05-05 17:22

Citado por terapeutas e espiritualistas do mundo inteiro, o livro Um Curso Em Milagres foi ‘ditado’ a uma psicóloga americana e  atéia por uma intensa ‘voz interior’ durante um período de oito anos.

Brian Van der Horst
    
    Um Curso em Milagres difere de todas as abordagens que estudei na minha busca, pois sua meta é manter a bola em jogo.  Jogar significa participar, e para realmente estar no jogo, você precisa sentir que faz parte dele. É isso o que o Curso representa para mim: um treinamento, que não apenas fala de religião, mas faz a pessoa vivenciá-la.
    Um Curso em Milagres é um dos maiores fenômenos já observados na elevação da consciência durante as duas últimas décadas. São milhares os seus seguidores.
    Desde 1976 o material completo do Curso (livro texto, livro de exercícios e manual de professores) espalhou-se por todos os estados da América, além de vários outros países do mundo.  Criam-se cada vez mais grupos de estudos para meditar e estudar as lições do Curso. Nada mal para um material ditado de maneira, no mínimo, estranha.

O Surgimento
    Entre os meses de outubro de 1965 e 1975, o livro hoje disponível com o nome de Um Curso em Milagres , juntamente com um comentário sobre a natureza  da psicoterapia e mais uma série de poemas, foi recebido pela Dra. Helen Schucman, uma pesquisadora no campo da psicologia, inesperadamente abordada por uma voz interna. O trabalho não poderia ter sido realizado sem o apoio de seu chefe, o professor de psicologia Dr. William Thetford.
    A Dra. Helen era uma mulher atraente, fina, nascida em uma família de judeus não-praticantes. Ao tempo da publicação do Curso, ela já era uma autoridade reconhecida em psicologia clínica, com inúmeros trabalhos publicados. O Dr. William, profundo conhecedor das religiões — conhecimento, aliás, adquirido por influência do Curso, era igualmente considerado por sua especialidade. Contudo, apesar das revelações maravilhosas que vinham recebendo, e da conseqüente mudança em suas vidas, os dois preferiam se manter no anonimato — em parte por suas relações profissionais, mas principalmente para agilizar suas funções como receptores do material do livro.
    Estimulados por outro terapeuta, o Dr. Kenneth Wapnick, que a eles se uniu após o recebimento do Curso, juntos trabalharam sobre o material e finalmente conheceram a Senhora Judith Skutch, que fez o material ser publicado pela primeira vez. Trezentos exemplares do Curso foram levados a público – a principio apenas como xerox do trabalho original. A procura começou a crescer e, em Junho de 1976, sob a égide da Fundação para a Paz Interior, uma organização sem fins lucrativos, uma nova edição de 5 mil exemplares veio a público.
    O Curso começou a popularizar-se primeiramente entre os amigos e colegas de Judith.  Seu entusiasmo por aquilo que havia recebido era contagioso, mais pessoas foram atraídas.  Uma rede estava iniciada e, em poucos meses, numa progressão cósmica, não geométrica, cientistas, eruditos e acadêmicos de diversas áreas estavam envolvidos com o livro.

Crítico Mordaz

    Foi um cientista da Califórnia chamado Ron Hawke quem primeiro me falou do Curso. Em Dezembro de 1975, eu o entrevistava sobre um livro de minha autoria que falava de um curador paranormal — naquele tempo eu era colunista de um jornal nova-iorquino.
    Minha fama era a de ser um crítico mordaz, cínico e diletante profissional. Há dois anos eu vinha escrevendo sobre assuntos parapsicológicos e já havia testemunhado muita coisa estranha. Eu me achava numa situação curiosa: todos os casos bizarros que me fascinaram no passado estavam se tornando uma conversa cansativa. Passei então a buscar outras coisas. Fiz Cursos diversos, convivi com Swami Muktananda, pratiquei yoga, estive com psicodélicos. Li o Tão, os Upanishads. Minhas experiências demonstraram que o homem é algo além do que aparenta ser, mas eu me perguntava: onde está a coisa verdadeira?
    “Você já ouviu falar de Um Curso em Milagres?”, me perguntou um amigo. “Não”, respondi. “Bem, acho que é algo que vai lhe interessar”.
    Dois dias depois, eu estava conversando com Jim Hickman nos Laboratórios Dakin, em São Francisco. Na sua escrivaninha havia uma exemplar de Um Curso em Milagres.
    Visitei Judith no dia seguinte e retornei a Nova York. Ela me relatou a história do recebimento do Curso, me deu uma cópia do livro e algumas folhas para eu xerocar. Judith então me convidou para conhecer os doutores Ken Wapnick, Helen e William. Estavam todos extremamente ansiosos — e petrificados — de ver um jornalista. Falei-lhes de minha insatisfação com a parapsicologia, e mencionei um sonho que tivera vários meses antes, sobre uma figura de aparência crística, que passou por uma incrível transformação numa piscina cerimonial.
    Quando terminei o relato fui convidado a me unir ao seu grupo de estudos. Questionei abertamente a minha preparação para ingressar em tal grupo.

A Jornada

    Comecei a ler o texto e a fazer as lições diárias poucos dias antes do Ano Novo de 1976. O livro, acima de tudo, é prático e, como diz John White, “O Curso não invade sua vida nem na chegada, nem na sua implementação”. É bom ressaltar que a Dra. Helen jamais recebeu o Curso em algum tipo de transe ou estado inconsciente. Sua “voz interna” sempre lhe ditava as mensagens quando ela estava completamente acordada, sem jamais interferir em sua vida pessoal, social ou profissional.
    Devo confessar que me vi atraído pelo livro pelo mesmo motivo que tanta gente se viu: a alegação de ele ter sido ditado por Jesus. “Bom, nada como adquirir conceitos religiosos diretamente do Chefe”, pensei. Mas quando comecei a trabalhar com o material, as referências a nomes como Cristo, Espirito Santo e Deus quase me fizeram sair correndo. Cheguei a ponto de pensar em abrir mão de tudo, quando algo muito interessante aconteceu. Eu estava copiando o livro de exercícios e uma lição em particular ficou presa na copiadora. Era a de número 184, que dizia algo assim:     “Tu vives por símbolos, e criaste um nome para todas as coisas que vês. Usa todos os pequenos nomes e símbolos que delineiam o mundo das trevas. Mas não os aceite como a realidade. O Espírito Santo usa todos eles, mas não esquece que a Criação só tem um nome, um significado e uma única fonte, que une todas as coisas dentro de si mesma... Deus não tem nome”.
    Durante todo aquele ano em que estive com o Curso, lições igualmente sincronizadas me apareciam. Na verdade, é no envolvimento com o livro que as pessoas geralmente se encontram e acabam se convencendo da eficácia do Curso. A princípio, achei tudo bastante simples e perfeitamente adequado às minhas pesquisas anteriores com a consciência. Eu continuava tão irônico e perspicaz quanto antes e, enquanto isso, meu corpo se enchia de uma alegria crescente.
    Certo dia, estava praticando minha lição às 3h da manhã. De repente, senti algo na base da espinha. Até então eu vinha ignorando essas sensações. Desta vez eu disse, “Bem, seja o que for, vou deixar fluir”. Um sentimento de tremor, de uma grande energia começou a atravessar meu corpo pelas costas. Era como se cada centro da minha espinha começava a pegar fogo. Cada explosão era melhor do que os maiores orgasmos que eu já havia tido. Senti-me voando. Pude perceber focos de eletricidade naquilo a que chamamos de chakras. Bem, aquela energia devia ser o kundaliní.
    Então comecei a respirar forte, espontaneamente. Primeiro eu sorria, depois chorava de êxtase, enquanto todo meu corpo tremia. Aquela chama subia até o topo da minha cabeça. Pouco depois, coloquei-me diante de um grande espelho. Meus olhos não conseguiam focalizar bem, e meu corpo parecia sumir. Tudo o que eu podia ver era uma sombra envolvida de luz  De repente, vi luzes se movendo dentro daquele contorno, criando uma figura, um símbolo que imediatamente reconheci como uma representação do padrão energético do meu ser. “Com certeza, devo estar sonhando”, pensei. Percebi que meia hora havia passado e fui para a cama ainda cheio de uma alegria indescritível. Aquilo durou vários dias.
    Meses depois, comparei o desenho que fiz do símbolo visto no espelho com outro, recebido anos antes pela doutora Helen num tipo de visão, presente de seu guia espiritual. Jamais havíamos comparado as imagens. Eram idênticas.
    Algumas semanas mais tarde eu estava trabalhando no ashram de Swami Muktananda. De repente, vi meu desenho pendurado na parede. Perguntei a um discípulo o que representava. “É o OM em Sânscrito”, ele respondeu.
    Até então, meu ego estava levando a melhor. Mas eu havia tido muitas evidências. Rapidamente me transformei numa daquelas pessoas malucas que amavam e perdoavam a todos. Se alguém me perguntasse se eu acreditava em Deus, pela primeira vez na vida eu afirmava que sim. Finalmente fiz as pazes com o conceito de Cristo. Como o próprio Curso esclarece sobre a autoria de Jesus, “O nome de Jesus Cristo por si só é apenas um símbolo. Mas refere-se ao amor que não é deste mundo. É um símbolo usado seguramente em substituição a todos os nomes para os quais tu oras... Este Curso procede dele porque Suas palavras te atingiram em uma linguagem que podes amar e entender. O nome de Jesus é o nome de um homem que viu a face de Cristo em todos os seus irmãos e lembrou-se de Deus”.
    Minha compreensão do Curso é a de que todos somos parte de uma filiação junto a Deus. Cristo é o reconhecimento de nossa divindade pessoal. Um milagre é a experiência de reconhecimento. O perdão é o processo através do qual reconhecemos. O Espirito Santo é o comunicador ou professor interno, se você preferir, de nossa verdadeira identidade, a  qual é inevitavelmente una com Deus. Somos todos partes de Deus. Simples, não? E será que agora ando por aí escutando uma voz que o Curso me ensinou a ouvir? Às vezes. Às vezes pergunto e recebo uma resposta. Minha experiência mostra que Jesus me vem como um sujeito sábio, mas com senso de humor. Quando pergunto coisas do tipo, “Isto é real?”, escuto, “ Precisa perguntar?“.

O Curso

Falando sério, se você optar por fazer o Curso, sua experiência será fantástica. Mas você ainda deve estar querendo saber do que ele se trata não é mesmo?
    Ótimo. Mas é a mesma velha história que você tão bem conhece: ama o teu próximo. O Curso declara que todas as emoções, problemas e decisões giram em torno de optar entre o amor e o medo. Ou você ama, perdoa e aceita, ou teme, se ressente e nega. Em vez de tentar reformar o mundo, ele enfatiza que você precisa mudar a si mesmo e também a maneira como vê as coisas. Pede que você se livre das mágoas passadas quando estiver se relacionando com alguém. Neste sentido, o livro é bastante Zen. Também nos pede que comecemos a amar uns aos outros projetando amor nos outros e abrindo mão da ilusão de que a pessoa que está o atacando é indigna de amor. Muitos dos envolvidos com o Curso, quando passaram por esse tipo de situação, alegam que a coisa funciona.  Mas você precisa experimentar para acreditar nele. E experimentar pessoalmente, para que a experiência de iluminação jamais negue a verdade.
    A meta do Curso é simplesmente a transformação total. Hoje, minha vida parece como muitas outras, mas, para mim, eu passei por uma metamorfose gigantesca. Primeiramente, perdi o medo. Não sei para onde ele foi, mas há muitas coisas que antes me preocupariam e que hoje não preocupam mais. “Não há ordem de dificuldade nos milagres. Um não é mais difícil e nem maior do que outro. Todos são a mesma coisa. Todas as expressões do amor são máximas.” Estas foram as primeiras instruções recebidas pela Dra. Helen. Comecei a ver esse principio em ação na minha vida. Um milagre é basicamente a percepção , a adequação , a lição sobre como as coisas são – ilusões a serem corrigidas. “O Espírito está em estado de graça para sempre”. Esta é a maneira como o Curso apresenta o seu fundamento. Portanto, é fácil – e natural – operar milagres.
    E de onde vieram todas as ilusões que percebemos? O Curso explica que consideramos realidade é criação do ego. Como resultado, sentimos culpa por nos termos separado daquilo que realmente somos. Pegamos então nossa culpa e construímos mais ilusões na forma de julgamentos, considerações e, por fim, medo. Medo da vida, medo da morte, medo de reconhecer a nossa própria natureza.
À medida que o Curso instrui a mudar sua percepção, a seção final é dedicada ao desenvolvimento da habilidade do indivíduo para experimentar o Instante Santo, ou seja, o soltar-se da nossa realidade percebida e, através do perdão, amor e expiação, criar momentos de transformação que nos possibilitam ver a verdade. Isso é milagre.
    Mas esta minha tentativa de resumir o Curso de forma nenhuma descreve sua riqueza, conteúdo e eloqüência.  Ele não só explica o espectro total da condição humana, mas também permite à pessoa experimentar estes insights de uma maneira lógica e lúcida.
Surpreendentemente, o Curso também foge da arrogância de se considerar o único caminho para a iluminação. “Há outros professores com a possibilidade de conduzir ao caminho aqueles que falam línguas diferentes e respondem a símbolos diferentes? Claro que sim. Será que Deus abandonaria quem quer que seja sem um auxílio presente num momento de dificuldade, um salvador que pode simbolizar a Ele mesmo? Cristo assume muitas formas com nomes diferentes até que a unidade possa ser reconhecida”, diz o Manual.
    Para onde vai tudo isso? Qual é o futuro do Curso? Certa vez fiz esta pergunta a Judy Skutch.
    “Só Deus sabe”, riu ela. “Acho que, se pensasse a respeito, ficaria assustada. Com certeza ele vai ao encontro dos que o estão buscando. Cada um de nós tem um papel. Ele preenche uma lacuna para aqueles que buscam diferentes caminhos espirituais. Não o vejo como um movimento de massa, como um culto ou teologia. Vejo-o mais como uma ferramenta para o desenvolvimento espiritual.”
    E essa é a minha visão de Um Curso em Milagres. Muitos caminhos nos levam à montanha da iluminação. Todos conduzem ao mesmo ponto. Esta é apenas uma das trilhas. Iluminação, me disseram, é uma questão de humildade. Portanto, seja humilde, vá em frente e viva sua perfeição.

Voltar