Ufologia no Fim do Milênio
2009-04-17 15:35Roberto de Sousa Causo
Apesar dos recursos tecnológicos à nossa disposição nesse final de milênio, os estudos relacionados aos OVNIs continuam encontrando inúmeras dificuldades.
Enquanto nos aproximamos do século 21, torna-se cada vez mais difícil ligar a TV, abrir uma revista ou ir ao cinema sem dar de cara com o assunto ‘ufologia’. Em tempos que aguardam não só a mudança de século, mas de milênio, o disco voador e sua cornucópia de especulações alcançou um espaço definitivo na cultura popular.
Mas isso não significa necessariamente uma melhoria nas condições de trabalho daqueles que se dedicam ao estudo dos OVNIs. Para Eduardo Mondini, um dos cabeças do Centro de Estudos e Pesquisas Exológicas, importante organismo da chamada ufologia científica, essa maior aceitação da ufologia é uma mera curiosidade popular. Mondini também nota que predomina a visão mística dos objetos não-identificados, especialmente em tempos de crise. O relacionamento entre os pesquisadores e as instituiçòes da sociedade continua marcado pelo descrédito.
O que não quer dizer que essas instituições, às vezes, não se curvem ante o peso do fenômeno. Em 1992, o Massachusetts Institute of Technology, referência mundial na produção de conhecimento científico, realizou uma conferência sobre abduções – o suposto rapto e exame de seres humanos por alienígenas. Da conferência, da qual participou a brasileira Gilda Moura, surgiu a obra Close Encounters of the Fourth Kind: Alien Abductions, UFOs, and the Conference at the M.I.T. (Encontros Imediatos do Quarto Grau: Abduções Alienígenas, OVNIs, e a Conferência no M.I.T.), escrita por C. D. B. Bryant, que havia recebido o Prêmio Pulitzer de jornalismo com o livro Friendly Fire, sobre a Guerra do Golfo. Bryant conclui: “Se a conferência, em minhas entrevistas e discussões subseqüentes com seus participantes e investigadores, não conseguiu me fornecer uma ‘evidência clara e convincente’ de que esses abduzidos receberam a visita de extraterrestres, eu acabei acreditando na sinceridade e no mérito de sua busca. Como os abduzidos e seus examinadores, estou espantado diante de seus contatos.” Mais que o simples avistamento de OVNIs, a abdução se tornou o centro das preocupações dos ufólogos. Enquanto estes talvez se apressem demais na conclusão de que E.T.s seriam os responsáveis pelo desaparecimento de pessoas, psicólogos e cientistas da mente acreditam que se trata de uma nova síndrome psicológica.
O fator mais problemático na investigação desse tipo de fenômeno repousa na visão mística associada à ufologia – a noção de que os ‘contatos’ representam a intervenção de poderes transcendentes, que antes surgiam sob a forma de anjos e demônios, e agora são vistos como alienígenas bons (em geral antropomórficos e angelicais) e maus (os chamados ‘greys’ ou ‘cinzentos’).
“A ufologia atravessa um período de estiagem”, comenta Eduardo Mondini. Mas, enquanto seu lado científico passa por um momento de marasmo, a face mística floresce na primavera do milenarismo – à espera de definições apocalípticas para a transição rumo ao próximo milênio.
Chupa-Cabras e Mutilação de Animais
A fragilidade da ufologia científica ficou visível na febre dos chupa-cabras, que assolou o Brasil em 1996-97. O CEPEX foi o responsável pela divulgação dos supostos ataques da criatura no Brasil quando, em 1996, ela foi caçada por criadores de ovelhas no Paraná via Instituto de Biologia da UNICAMP (Campinas).
Eduardo Mondini e seu irmão Oswaldo admitem que, de 100 denúncias, 97 dos casos de chupa-cabras investigados pelo CEPEX podem ser atribuídos a animais selvagens, a farsas perpetradas por pessoas em busca dos seus quinze minutos de fama, ou por simples histeria. Contudo, o primeiro caso – com registro fotográfico de vinte e cinco ovelhas mortas, todas sofrendo amputação incomum das orelhas – permanece um mistério. A febre dos chupa-cabras acabou chegando à televisão e à imprensa sensacionalista, enlodando ainda mais o trabalho dos pesquisadores.
O que a onda de denúncias revelou foi uma assustadora verdade que nada tem de extraterrestre, mas está ligada à realidade ambiental do nosso planeta. À medida que seus habitats vão sendo destruídos, animais selvagens vagam cada vez mais na direção de áreas povoadas por pessoas que não sabem mais identificar a fauna local. Em Sumaré, interior de São Paulo, foi capturado um lobo guará adulto, e um primata de médio porte foi fotografado por pescadores; em Rafard, na mesma região, suspeita-se dos ataques de uma onça-parda ou suçuarana. Suçuaranas, aliás, têm sido cada vez mais vistas ao redor de fazendas e zonas rurais urbanas no interior do país. O encontro de pessoas com o felino, que segundo alguns biólogos alcançaria a população de 50 mil animais no Brasil, coincide com o período da histeria dos chupa-cabras.
Foi no Brasil também que se verificou o que alguns ufólogos dizem ser o único caso no mundo de mutilação de um ser humano por supostos alienígenas. Em 1988, às margens da represa de Guarapiranga, em São Paulo, foi encontrado o corpo de um homem apresentando estranhas perfurações e a remoção de órgãos internos. A pesquisadora Encarnación Zapata Garcia, que teve acesso às fotos policiais e ao laudo do legista, oibserva: “A semelhança entre os cortes e ferimentos no cadáver e os cortes em animais mutilados por E.T.s em todo o planeta era impressionante.”
Acidentes com OVNIs
Às vésperas dos cinqüenta anos de aniversário do Caso Roswell – a suposta queda de um disco voador e a captura de seus tripulantes na cidade de Roswell, Novo México, em 1947 –, o Brasil entrou para o panorama mundial com uma ocorrência semelhante em Varginha, Minas Gerais. Segundo os pesquisadores mineiros Ubirajara Franco Rodrigues, Vitório Pacaccini, Eduardo e Oswaldo Mondini, do CEPEX, um OVNI teria sido avistado apresentando sinais de avaria, pouco antes de vários moradores da cidade reportarem a visão de criaturas de olhos imensos e crânios estranhos. A aparição foi testemunhada por várias pessoas em pontos diversos de Varginha.
Uma série de testemunhos levaram à hipótese de uma ou mais criaturas terem sido capturadas por elementos do Exército ou do Corpo de Bombeiros local e, mais tarde, transportados para um hospital da região. Essa não teria sido a última parada dos E.T.s, que ainda teriam sido transportados para a UNICAMP, onde foram realizadas minuciosas autópsias.
As especulações não param por aí. Falam também de reações do alto comando militar, e que um dos corpos teria sido secretamente transportado para os Estados Unidos. Policiais na região de Varginha e técnicos da UNICAMP teriam sido entrevistados – fala-se, entre os membros do CEPEX, de militares que foram transferidos de unidades próximas a Varginha como represália pelo vazamento de informação, e os ufólogos Rodrigues e Pacaccini foram interrogados por oficiais do Exército interessados em saber quem eram os informantes.
Aqui, mais uma vez, a ufologia exibe seus limites. A equipe original de pesquisadores se dividiu por diferenças quanto aos procedimentos investigativos – e brigas de ego ante a notoriedade alcançada pelo caso. De qualquer forma, as pesquisas atingiram seu limite sem que os pesquisadores vencessem o cabo-de-guerra com as instituições oficiais. Em Varginha, a Sociedade Comercial da cidade registrou a marca e a imagem do ‘E.T. de Varginha’ na esperança de se tornar um pólo de turismo ufológico. Mas as possibilidades de uma pesquisa séria se enfraquecem diariamente frente ao silêncio das autoridades e da folclorização que os próprios moradores da cidade promoveram. Os investigadores tiveram tão pouco controle dos procedimentos que as testemunhas acabaram ‘contaminadas’ durante o fluxo de ufólogos, jornalistas e curiosos que inundaram a região, perdendo credibilidade.
Todos esses casos ilustram o fato de que, por mais que se esforcem, até hoje os ufólogos não estão preparados para a tarefa a que se propõem. Não possuem os recursos técnicos ou o treinamento científico necessário para lidar com os mistérios que investigam. Acabam reduzidos a colecionadores de casos, contadores de fábulas fantásticas de uma mística crescente neste fim de século. E essa falta de explicações bem embasadas abre caminho para um tipo de ufologia em que o ponto central é a fé e não o conhecimento científico.
Para saber mais:
Informe UFO - Henry Durrant (Difel)
Ufologia - J. Allen Hynek (Nórdica)
O Enigma dos Discos-Voadores - Jacques e Janine Valee (Global)
Transformadores de Consciência - Gilda Moura (Nova Era)
100.000 Km em Busca de OVNIs - J. J. Benítez (Nova Era)
Intrusos - Budd Hopkins (Nova Era)
Alienígenas Entre Nós - Ruth Montgomery (Nova Era)
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