Sobreviventes do Dilúvio

2009-04-17 18:17

Gilberto Schoereder

A história do Grande Dilúvio é uma das passagens mais populares da Bíblia, tendo originado inúmeras pesquisas arqueológicas e uma verdadeira caça à Arca  de Noé, que a cada ano traz novas descobertas.

    Não é muito difícil entender por que a história do Dilúvio bíblico e da gigantesca embarcação construída por Noé sempre despertou grande interesse entre as pessoas: existem relatos sobre o cataclismo na mitologia de inúmeros povos, em mais de 70 idiomas ao redor do planeta, e apesar de algumas diferenças, as semelhanças são notáveis. Existe inclusive uma Bíblia do Mundo (Bible of the World), elaborada por Hosea Ballou, que reúne a maioriua dessas narrativas, cujo número, segundo alguns especialistas, alcança mais de 80 mil obras.
    Segundo a Bíblia, numa época em que os gigantes viviam na Terra, os filhos de Deus começaram a se unir às filhas dos homens por as acharem muito bonitas. Dessa união nasceram aqueles que se tornariam os heróis dos tempos antigos. Aparentemente, isso levou Deus à conclusão de que a maldade dos homens era muito grande, com seus pensamentos continuamente voltados para o mal, e Ele resolveu exterminar sua criação. A forma encontrada foi cobrir toda a terra com uma chuva torrencial – o Grande Dilúvio. Apenas Noé e sua família foram poupados. Deus deu a seu protegido as especificações para construir uma arca, na qual seria guardado um casal de cada espécime da fauna terrestre. Quando Noé estava com 600 anos de idade, teve início o dilúvio, que durou 40 dias e 40 noites. As águas cobriram tudo por 150 dias, até que começaram a baixar e a embarcação parou sobre as montanhas do Ararat, onde os animais foram soltos para repovoar o mundo. Noé ainda teria vivido 350 anos após a inundação global.
    Esta é a narrativa do fato mais divulgada no planeta, e hoje muitos estudiosos entendem que ela pode ter se originado de um texto bem mais antigo que o próprio Antigo Testamento: a Epopéia de Gilgamesh, escrita na Suméria por volta de 5 mil anos a.C.. A quantidade de relatos parecidos, presentes nas mais diversas culturas, levou os pesquisadores a se dividirem sobre possíveis explicações para o Dilúvio. Alguns entendem que jamais existiu uma inundação global e que as lendas se referem a inundações locais. Outros acham que a imagem do Dilúvio pode estar profundamente encerrada no inconsciente coletivo e se referir aos períodos em que as calotas polares se derreteram – dizem que isso ocorreu quatro vezes – provocando a elevação do nível do mar e a inundação de boa parte dos continentes.
    Outra linha de raciocínio ainda entende que algum tipo de catástrofe ocorreu no planeta em um passado distante, como a queda de um grande meteoro no oceano, provocando inclusive a submersão da Atlântida. Desta maneira, com a dispersão dos atlantes pelo mundo, a história da catástrofe teria se espalhado e dado origem às várias lendas sobre o dilúvio.

Sumérios
    Nem todos aceitaram o Dilúvio como fruto da ira divina. Na verdade, a idéia de que o fato bíblico não tivesse passado de uma grande inundação na Mesopotâmia começou a ganhar forma com as descobertas arqueológicas de Sir Charles Leonard Wooley, na cidade suméria de Ur, entre 1926 e 1929. Encontrando camadas de limo numa profundidade onde seria impossível existir limo, ele chegou à conclusão de aquilo era sinal de uma grande inundação do rio Eufrates, ocorrida por volta de 4000 a.C.. Unindo seus achados com os resultados iniciais de outras pesquisas na Mesopotâmia, Wooley concluiu que a inundação teria encoberto uma região de 630 quilômetros de comprimento por 160 de largura, ao nordeste do Golfo Pérsico.     No entanto, estudos posteriores e mais detalhados demonstraram que o dilúvio descoberto por Wooley não havia afetado a área inicialmente imaginada por ele e, desta maneira, não poderia ser o bíblico.
    Em 1843, o pesquisador Paul Emile Botta descobriu novos relatos sobre a inundação nas ruínas de Nínive, famosas por conter a maior biblioteca da Antigüidade, construída no século VII a.C. por Assurbanípal, rei da Babilônia. Posteriormente no mesmo local foram descobertas várias tábuas de barro com escritos que só seriam decifrados por volta de 1900. O texto falava sobre a Epopéia de Gilgamesh, que remontava ao sumérios, milhares de anos antes da Babilônia e Assíria se tornarem grandes potências.
    Gilgamesh, segundo os escritos, havia se encontrado com seu antepassado Utnapistim – também chamado de Uta-Napistim ou Utna-Pishtin –, de quem esperava obter o segredo da imortalidade. E Utnapistim lhe contou sobre a época em que os deuses resolveram punir a humanidade com uma inundação. O deus Ea deu a Utnapistim todas as informações necessárias para construir um navio, que deveria abrigar sua família e animais. Os 40 dias e noites da Bíblia são reduzidos aqui para seis, quando o navio acabou encalhando no monte Nisir, entre o Tigre e o curso inferior do rio Zab, no Curdistão, onde existe uma cadeia de montanhas.

Caçadores da Arca
    O Agri Dagi, mais conhecido como monte Ararat, possui 5156 metros de altura e está localizado na Turquia, próximo às fronteiras do Irã e Armênia. As informações mais antigas sobre a famosa Arca de Noé surgiram na Babilônia, no século III a.C., por intermédio do sacerdote e sábio Beroso – segundo ele, a população costumava subir ao monte para pegar pedaços da arca e fazer amuletos.
    As primeiras expedições ao Ararat em busca da Arca de Noé começaram no século XIX, e a primeira com registro foi conduzida pelo professor alemão Friedrich Parrot, em 1829, atingindo o cume do monte mas sem encontrar qualquer sinal da arca. Parrot encontrou, sim, uma cruz venerada pelos religiosos do monastério de Echmiadzin, que teria sido feita  com a madeira da arca.
    Alguns historiadores não reconhecem essa expedição, afirmando que a exploração do Ararat começou bem antes, quando um pastor da aldeia armênia de Bayzit afirmou ter visto, na encosta do monte, um grande navio de madeira. Seguindo os relatos do camponês, em 1833 uma expedição partiu da Turquia à procura da Arca – cuja proa ficaria visível no verão e era oculta pelo gelo durante o inverno. Apesar dos exploradores turcos nada terem encontrado, em 1876 o historiador inglês James Bryce conseguiu chegar ao cume do Ararat e localizar  um pedaço de madeira cortado com ferramenta, num ponto muito acima da linha das árvores. Em 1892 foi a vez de um clérigo, Dr. Nouri, que diz ter visto os restos de um navio presos no gelo que cobre a montanha.
    Durante a Primeira Guerra Mundial o aviador russo Roskovitzki, sobrevoando o Ararat, informou ter avistado a Arca. O Czar Nicolau II mandou um grupo investigar. Esse grupo teria obtido fotografias que, segundo afirmaram, teriam desaparecido durante a revolução comunista. Na Segunda Guerra outro piloto soviético, além de quatro americanos, disseram ter visto a Arca enquanto voavam sobre o Ararat.
    Em 1951 foi a vez do historiador e missionário norte-americano, Dr. Aaron Smith, realizar uma expedição à montanha, com uma equipe de 40 pessoas, sem encontrar qualquer sinal da embarcação. Em 1952 o explorador francês Jean de Riquer tentou a mesma coisa, igualmente sem sucesso. Em 1955, um empresário francês, Fernand Navarra, regressou de uma expedição com um pedaço de madeira que ele afirmava ser da Arca, supostamente presa numa geleira. Porém, os resultados obtidos em testes dde laboratório não confirmaram a antigüidade do fragmento.

Outros Rumos
    Assim como a Epopéia de Gilgamesh apontava uma outra localização para a Arca, o Corão, livro sagrado dos muçulmanos, diz que a Arca de Noé teria parado no Monte Djudi, 300 quilômetros ao sul do Ararat. O monte é conhecido localmente como Cudi Dagh e, no ocidente, como Monte Nippur.     Ele fica próximo de Nínive, a 40 quilômetros do rio Tigre e dentro da região biblicamente chamada de Ararat.
    Em 1910, a arqueóloga inglesa Gertrude Bell encontrou uma estrutura de pedra no alto da montanha cuja forma assemelhava-se à da famosa embarcação e que os habitantes locais chamavam de Sefinet Nebi Un, ou Arca de Noé. Em 1995, depois do governo da Turquia declarar a região como de interesse arqueológico, foi encontrada uma formação geológica com 170 metros de comprimento e 45 de largura, muito semelhante à da suposta Arca. Além de fotos aéreas, vários técnicos realizaram análises com aparelhos de freqüências mais altas que o radar (Dell Omnitron System), que permitem enxergar através do gelo. Chegou-se à conclusão de que sob a formação poderia realmente haver uma construção humana com mais de 5000 anos de idade. Foram detectados altos níveis de óxido, talvez provenientes de algum revestimento de ferro do casco, e encontraram 11 pedras estabilizadoras, muito utilizadas por navegadores da antigüidade. David Fasold, arqueólogo da Universidade de Nova York, que esteve realizando pesquisas no local, é um dos que não tem dúvidas de que os achados no Monte Djudi pertencem realmente à Arca de Noé.
    As tentativas para encontrar a embarcaçào milenar parecem não ter fim. Em 1998, o professor de geologia Salih Bayraktutan, da Ataturk University, Turquia, organizou uma conferência reunindo diversos pesquisadores do assunto. A proposta era a visitar alguns locais históricos relacionados à Arca e planejar expedições para os anos seguintes. Isso significa que logo poderemos ter mais notícias sobre o objeto central do Grande Dilúvio – isto é, se os rebeldes curdos que infestam a região permitirem a aproximação das equipes.

[Box]
    Será que a Arca Ainda Existe?
    Em 1997, a CIA divulgou que aviões U-2 de espionagem haviam fotografado a Arca durante a Guerra Fria, durante a missão chamada de Operação Noé. As imagens apresentadas mostravam uma anomalia no Ararat, aproximadamente a 3000 metros de altitude e a cerca de 100 metros do local onde Navarra dizia ter encontrado um fragmento da embarcação. As dimensões do objeto fotografado correspondiam às da Arca, conforme o relato bíblico, tendo 155 metros de comprimento, 26 de largura e 15 de altura. No entanto, os geólogos que examinaram as fotos dizem tratar-se apenas de uma cratera vulcânica
    Alguns estudiosos discordam da localização proposta pelos exploradores. A Bíblia faz referência aos ‘montes de Ararat’ e os historiadores lembram que Ararat é a designação do antigo país de Urartu, mais ou menos na mesma região da atual Armênia, o que amplia um pouco mais o leque de possibilidades sobre a possível localização da Arca de Noé.
    Os cientistas também dizem que na Terra jamais ocorreu uma inundação com as proporções do Dilúvio, capaz de fazer as águas subirem a ponto de uma embarcação ser encontrada a 5 mil metros de altitude. Certos pesquisadores afirmam que movimentos tectônicos podem ter elevado parte do     Ararat por volta do ano 3000 a.C., mas os geólogos dizem que isso não ocorreu. A própria idéia de que a arca ainda exista intacta é amplamente combatida. Segundo dizem, madeira nenhuma poderia resistir milhares de anos sob a pressão do gelo.

[Box]
Outros Dilúvios e Arcas
    Mitologias de diferentes culturas falam sobre dilúvios que teriam encoberto a Terra e de sobreviventes que construíram uma embarcação a mando de um deus. Algumas versões modernas utilizam teorias ocultistas ou simplesmente não aceitas pela ciência para explicar o Dilúvio:
    Caingangue - uma lenda dos índios brasileiros caingangue diz que, durante o dilúvio, as almas de seus ancestrais estavam ocultas no centro da Terra. Elas voltaram à superfície na região de Guarapuava, no Paraná, nas Montanhas Negras, ou Krinxy.
    Escandinávia - nos Edas, os poemas nórdicos do século III, está escrito que a Terra surgiu num dilúvio do sangue de Ymir, durante uma guerra entre deuses e gigantes.
    Kogi - os índios kogi ou kágabas, que habitavam a região da Sierra Nevada de Santa Marta, na Colômbia, referiam-se a um dilúvio de 4 anos para punir os seres que tinham tendências contrárias à natureza. O sacerdote Seizankuan construiu um barco mágico onde colocou todos os tipos de animais e outras pessoas. Depois de 9 séculos as águas baixaram e todos puderam ‘descer do céu’ onde tinham se refugiado.
    Incas - Viracocha, o grande deus dos incas e criador do mundo, ficou descontente com os homens e mergulhou o mundo num dilúvio.
    Babilônia - herdeira das tradições sumérias, a civilização babilônica falava do dilúvio, que destruiu a civilização formada pela união entre os filhos dos deuses e as filhas dos homens. Antes da enchente, os reis lunares reinaram por 432 mil anos.
    Rig Veda – os textos hindus também se referem a um dilúvio. Manu é o personagem a quem é dada a possibilidade de escapar construindo um barco gigantesco que, depois, encalha numa montanha.
    Grécia – na mitologia grega, Zeus destruiu o mundo com um dilúvio devido à corrupção da humanidade. Deucalião é o nome do sobrevivente que construiu uma arca e flutuou 9 dias e 9 noites, chegando ao Monte Parnaso.
    Polinésia – a luta entre Rangi e Papa, os pais dos homens e deuses, resultou em nuvens e furacões que arrasaram a Terra.
    Sioux – o ancião Coiote foi avisado de uma grande inundação e construiu um barco para escapar. Esse barco também ficou encalhado no alto de uma montanha, depois que as águas do mundo baixaram.
    Maias – não falam de uma arca, mas do fim do mundo pelas águas. O mundo ou civilização destruída precedia a nossa atual.
    Bororo – na versão dos índios brasileiros, Jokurugwa matou o espírito Jakomea que, para vingar-se, fez as águas inundarem a terra. Kokurugwa refugiou-se no alto de um monte e sobreviveu.
    Faetonte - planeta ao qual se referem alguns textos antigos, também conhecido como Maldek, o astro que faltaria entre Marte e Júpiter. Uma catástrofe teria destruído o planeta e seus fragmentos caíram à Terra causando o dilúvio.
    Cosmogonia Glacial – teoria elaborada por Hans Hörbiger, também chamada de Doutrina do Gelo Eterno (Welteislehre) e ligada às idéias nazistas.     Preconizava uma série de destruições no planeta com a queda de sucessivas luas. A última catástrofe, há cerca de 12 mil anos, poderia ter causado o dilúvio.

Para saber mais:
E a Bíblia Tinha Razão – Werner Keller (Ed. Melhoramentos)
A Civilização de Assur e Babilônia – Georges Conteneau (Otto Pierre Ed.)

Voltar