Religião e Ciência: Um Único Caminho

2009-04-17 15:18

Gilberto Schoereder

Há séculos, ciência e religião se apresentaram como formas antagônicas de conhecimento. Mas isso esta mudando. Neste final de milênio, muitas evidências apontam para uma união entre essas duas formas de entender o universo e o espírito humano.

    Durante séculos a visão científica e religiosa do universo se mostraram bastante distintas: a exatidão das propostas pregadas pela ciência não conseguia se afinar com as formas de elaboração filosóficas um tanto ‘vagas’ da religião. Sem dúvida foi um longo período, no qual essas duas maneiras de entender a vida colocaram-se em campos diametralmente opostos, quando não radicalmente antagônicos.
    Hoje em dia, porém, é quase impossível dizer que a maioria dos chamados ‘conhecimentos místicos’ não têm seu equivalente no mundo dos laboratórios, uma vez que os cientistas têm reconhecido abertamente a importância das propostas que formam a base de muitas religiões.
    É o caso do hinduismo, que vem chamando a atenção de pesquisadores nos últimos anos. É o caso também dos cientistas americanos denominados neognósticos que, desde os anos 70, vêm elaborando diferentes teorias sobre o universo, especialmente na Universidade de Princeton.
    Se considerarmos os experimentos científicos realizado na Universidade de Duke, essa data recua algumas décadas. Foi lá que o pesquisador Joseph Banks Rhine começou a desenvolver estudos estatísticos sobre vários fenômenos paranormais até então não reconhecidos nos meios acadêmicos. Rhine propôs uma separação definitiva entre o que se conhece como ‘mente humana’ e o espaço físico onde se localiza o cérebro, entendendo que, nos fenômenos mentais, atua um outro tipo de energia, de natureza psíquica, não localizada em pontos determinados de nosso corpo.

Matéria e Espírito
    A separação entre alma e corpo físico proposta pelas religiões tem sido um dos pivôs do distanciamento entre a ciência e o espiritualismo. É comum dizer que a ciência moderna – originada no período de Isaac Newton – preocupa-se unicamente com os fatos que podem ser observados. Conceitos como alma, espírito ou mente, até pouco tempo, não tinham lugar nas considerações científicas: se um fato não pudesse ser medido em um laboratório e estudado minuciosamente, não era aceito pela ciência.
    No entanto, muitos pesquisadores já vêem essa questão por um outro ângulo, entendendo que a divisão entre a postura científica e a religiosa, filosófica ou metafísica tem acontecido de forma incorreta. O próprio Newton, segundo historiadores modernos, passou mais tempo da vida dedicando-se à alquimia e aos estudos do que hoje se chama parapsicologia do que à pesquisa da óptica e gravidade.
    Para um físico teórico como Jean E. Charon, não é possível separar a física da metafísica. Os antigos sabiam disso e procuravam manter a observação dos fenômenos físicos em estreita relação com os questionamentos da metafísica. A separação entre as duas abordagens só começou a ocorrer de fato no final do século XVII. Segundo o mesmo Charon, o que se fez com Newton, na verdade, foi ocultar grande parte de sua obra. A postura que a ciência assumiu logo em seguida foi dogmática, recusando-se terminantemente a considerar o espírito como objeto de pesquisa.

Oriente no Ocidente

    O pensamento oriental começou a se propagar com maior intensidade no Ocidente em meados do século XIX, mas foi a febre mística dos anos 60 que o popularizou nos quatro cantos do mundo e preparou terreno para a unificação do entendimento sobre o universo.
    Um dos papas nessa nova forma de pensar foi o físico Fritjof Capra, com seu livro O Tao da Física. Nessa obra, Capra afirmou categoricamente que a ciência estava apenas começando a entender algo que os místicos já conheciam há séculos usando seus métodos de busca interior. Na verdade, a abertura da ciência começou a ganhar forma a partir de 1900, quando Max Planck elaborou a Teoria Quântica e Albert Einstein, cinco anos depois, desenvolveu a Teoria da Relatividade, alterando os conceitos básicos sobre a matéria, espaço-tempo e causalidade que até então prevaleciam. A teoria de Einstein demonstrou que matéria e energia são equivalentes, e que a estrutura do espaço e do tempo permite uma ampla gama de especulações. Já o desenvolvimento da mecânica quântica alterou radicalmente o rumo de inúmeras pesquisas, inclusive criando novas possibilidades para a explicação de fenômenos mentais e parapsicológicos.

Conhecimentos Ancestrais
    Segundo alguns aspectos da Teoria Quântica, a mente humana é capaz de interagir com o universo e modificá-lo, atuando através de meios energéticos desconhecidos que podem muito bem ser descritos como alma ou espírito. A noção não difere das antigas explicações esotéricas ou religiosas sobre a capacidade da mente influenciar a matéria.
    Partindo deste princípio, qualquer ato ou pensamento pode criar variantes no universo – realidades paralelas onde a ação segue um rumo ligeiramente diferente daquele em que estamos vivendo. A física teórica vem considerando seriamente esses conceitos, que não diferem muito da idéia de se criar ‘formas-pensamento’, como sugere a doutrina teosófica de Helena Blavatsky, onde a ‘vontade de realizar’ é sinônimo da ‘realização de fato’, ainda que em outro plano de existência.
    Os planos de existência propostos por inúmeras religiões e doutrinas esotéricas aproximam-se muito da noção de universos paralelos levantada pela ciência moderna. Da mesma forma, a idéia budista de que a mente influencia a matéria pela projeção de seus desejos assemelha-se à teoria da ‘opção’, ou livre-arbítrio, que daria origem às realidades alternativas: um desejo projetado de determinado modo pode criar certo curso de acontecimentos; manifestado de forma diferente pode gerar outros acontecimentos e moldar uma outra realidade.
    O cientista Ilya-Prigogine disse que um exemplo claro da relação entre a religiosidade hindu e a moderna Teoria Quântica pode ser percebida com a simples análise de uma imagem do deus Vishnu. Ele se encontra deitado, sonhando com o mundo, e é seu sonho que torna o mundo real. Quando Vishnu acordar, o mundo deixará de existir.

União
    Para Prigogine, a oposição entre ciência e religião não tem mais lugar no mundo atual. Ele explica que a ciência nasceu da teologia, no século XVII, com a função de colocar o homem mais próximo do conhecimento de Deus. A idéia que até então prevalecia era a de que, para Deus, não há diferença entre passado, presente e futuro – ou seja, todas as coisas existem eternamente. Desta maneira, para seguir a posição da teologia, os cientistas teriam de eliminar a noção de tempo. “Eu diria”, explica Prigogine, “que por essa razão o tempo foi excluído da ciência clássica e da ciência básica. Excluído o tempo, a ciência tornou-se essencialmente um tipo de mecanismo”.
    Foi esse pensamento, segundo ele, que deu origem ao que alguns chamam de ‘esquizofrenia ocidental’ – a oscilação entre um mundo que funciona como autômato e outro governado pela teologia. “A ciência moderna fica atônita diante da visão moderna de um mundo tão rico, tão variado e diferente daquele autômato que a ciência clássica imaginou. Eu diria que essa visão é uma das forças-motrizes para o surgimento de uma nova utopia, um novo diálogo com a natureza. Mas não gostaria de chamar isso, necessariamente, de religião. Prefiro usar a expressão ‘comunhão com o universo’ – pertencente e integrado a ele”.
    Ilya-Prigogine é um entre vários cientistas modernos para os quais essas “novas”  idéias estão se tornando muito mais importantes do que a descoberta de alguma outra partícula elementar. Isso faz com que a ciência passe a transmitir uma mensagem mais universal, incorporando às suas preocupações perguntas feitas por civilizações milenares, como a indiana e a chinesa, ou outras ainda mais antigas. E ainda que não seja possível afirmar sem sombra de dúvida que a ciência irá seguir esse caminho nos próximos anos, as indicações são fortes. Talvez essa seja de fato a maior das mudança no novo milênio, na Era de Aquário: a busca do conhecimento retomando um caminho que jamais deveria ter sido abandonado.

A Física Neognóstica
    A chamada ‘física neognóstica’ começou a desenvolver-se nos Estados Unidos – especialmente em Princeton e em Pasadena – nos anos 70, reunindo físicos, astrônomos, biólogos, médicos, psicólogos e até mesmo teólogos em torno de uma forma diferente de encarar a ciência.
    Originalmente, a Gnose desenvolveu-se no primeiro século da era cristã, e seus participantes pretendiam obter conhecimento direto de Deus a partir dos fatos científicos aceitos na época. Os novos gnósticos mantiveram a noção de que Deus está associado a tudo que ocorre no universo, tanto nos fenômenos físicos como psíquicos. O objetivo desses acadêmicos é fornecer explicações científicas para o que se costuma chamar de espírito.
    Os neo-gnósticos entendem que, dentro de cada ser humano, existem partículas microscópicas que carregam o “espírito dentro do universo”.     Essas individualidades seriam o que a antiga Gnose  chamava de ‘eons’ e os cientistas de Princeton denominaram ‘holon’ – um termo criado por Arthur Koestler, autor do livro. Jean Charon entende que esses corpúsculos são os próprios elétrons, carregados de informação sobre o universo – informação esta que ultrapassa em muito o atual conhecimento humano. Segundo ele, apenas uma pequena parte do que está contido nos eons ou elétrons pode ser expresso através da linguagem humana.

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