Paulo Coelho, Mago e Alquimista
2009-03-26 23:04Paulo Coelho está entre os 10 escritores mais lidos no mundo, com 20 milhões de cópias vendidas em todos os continentes. Suas histórias – simples e recheadas com lições de humildade e amor – transmitem uma verdade milenar: nós todos somos magos
Alex Alprim
Hippie, louco, marqueteiro, mago, alquimista, escritor, esperto, aproveitador. Certamente, Paulo Coelho é um homem já descrito com muitos adjetivos, sinal evidente de uma personalidade polêmica e também dona de uma preciosa sabedoria, forjada em meio às brasas de uma vida riquíssima de experiências. Na última década, seus livros alcançaram patamares de venda fenomenais, despertaram as mais variadas discussões e dividiram a crítica, mostrando que o alquimista Coelho, nascido no Rio de Janeiro, em 1947, nasceu para brilhar.
Sua reconhecida capacidade de emplacar sucessos vem desde os tempos de parceria com Raul Seixas, com quem compôs os clássicos de rock dos anos 70, Gita e Eu Nascia 10.000 Anos Atrás, além de outras 60 canções para grandes nomes da MPB, como Elis Regina e Rita Lee.
No entanto, quando se fala de seu prestígio como escritor, as coisas se complicam um pouco. Apesar do reconhecimento mundial como autor de grande sucesso e capacidade, no Brasil ele continua sendo motivo de discórdia. De um lado estão seus fãs de carteirinha, que não lhe poupam elogios; do outro, os críticos contumazes, que o tratam como uma espécie de pária do universo literário, afirmando que ele não passa de uma 'onda', algo passageiro que, de repente, desaparecerá sem deixar vestígios.
No entanto, a 'onda' Paulo Coelho já dura mais de dez anos, firmou-se como um fenômeno sem precedentes na cultura literária brasileira e se propagou para os quatro cantos do mundo. Somente Jorge Amado conseguiu vender tanto, mas isso aconteceu ao longo de 60 anos e depois de 37 livros escritos. Coelho só produziu 9 títulos até hoje.
Marcas Históricas
As mensagens de Paulo Coelho têm conquistado mercados de maneira avassaladora. É verdade que ele sabe apresentar seus livros, sabe trabalhar a mídia. Quando O Monte Cinco foi lançado na França — um país com extensa tradição literária — vendeu 180.000 exemplares nas primeiras semanas. O famoso O Alquimista já chegou à marca dos 9,5 milhões de exemplares, atingindo o primeiro lugar entre os títulos mais vendidos em 18 países. Diante desses dados, discutir se ele escreve bem ou não vira uma questão de menor importância, uma discussão até fútil. Um exemplo marcante desse reconhecimento internacional ocorreu em 1996, quando os franceses, famosos por seu extremo nacionalismo, cederam às histórias do alquimista e lhe concederam a Comenda das Artes e das Letras - um prêmio cobiçado por 10 entre 10 escritores.
Como se não bastasse, Paulo Coelho sempre rouba a cena quando comparece a eventos e feiras em qualquer lugar do mundo, mesmo não sendo indicado como representante do Brasil pelo Ministério da Cultura. E os convites que chegam às suas mãos para participar de eventos são inúmeros e bem variados, como o do Fórum Econômico em Davos, na Suíça. Suas sessões de autógrafos são um acontecimento à parte, chegando a durar 7 horas. Seus editores e agentes dizem que nunca viram algo parecido, e a agenda do autor fica ainda mais lotada quando um de seus livros está sendo lançado. A maratona de entrevistas e sessões de autógrafos o obrigam a dormir praticamente uma noite em cada cidade.
Hoje, é fácil reconhecer a fama internacional de Paulo Coelho. Mas as coisas nem sempre foram assim para esse guerreiro da luz, que passou por muitos altos e baixos durante a infância e adolescência.
Encontro Com a Besta
A parte mais turbulenta da vida de Paulo Coelho foi, sem dúvida nenhuma, sua adolescência e juventude. A situação do jovem rebelde se complicou bastante aos 18 anos, quando ia muito mal nos estudos e seu pai achou que ele poderia ter problemas psiquiátricos. O resultado disso foi a absurda internação em um sanatório mental - onde passou por tratamentos 'modernos', como eletrochoque -, de onde acabou fugindo e viajando para o Nordeste.
Como grande parte de sua geração, Coelho entrou de cabeça no movimento hippie e testou tudo o que lhe caiu nas mãos, de drogas a religiões, sem nenhuma censura ou barreira. Além de envolver-se com diferentes seitas e experiências místicas, acabou enveredando pelo que se costuma chamar de 'a esquerda da magia'. Segundo ele, esse foi um período de loucuras em que fez uso de rituais negros para conseguir o que desejava, de mulheres a dinheiro.
Mas isso teve um preço alto. Na magia, aquele que usa seus conhecimentos para fins egoístas acaba vítima da lei da ação e reação - mais conhecida como Carma —, que age de modo implacável para cobrar o mal praticado. O então aprendiz de bruxo perdeu tudo o que tinha obtido e, segundo suas próprias palavras, viu a própria Besta cara-a-cara.
Paulo Coelho não gosta de comentar sobre esta fase turbulenta de sua vida, tanto que chegou a destruir um livro, Sociedade Alternativa, para que as pessoas não se envolvessem com o lado escuro da magia, como ele fez, e cometessem os mesmos erros.
A Alquimia das Letras
As obras de Paulo Coelho transformaram a maneira das pessoas falar sobre magia, mostrando que essa arte milenar está em tudo e que nós todos somos magos.
Em seu primeiro grande sucesso, O Diário de um Mago, o autor narra uma peregrinação que fez pelo Caminho de Santiago de Compostella. De maneira moderna e objetiva, ele nos leva pelos caminhos do misticismo e da busca espiritual sem ter que evocar velhos pergaminhos e símbolos incompreensíveis. Um de seus grandes méritos foi tirar a poeira da magia e mostrar ao leitor de hoje que, eliminando-se os tabus, as artes mágicas nada mais são do que um caminho de realização espiritual. Suas obras também transmitem a forte idéia de que o homem possui livre arbítrio e que, usando o poder da vontade, é capaz de transformar o impossível em possível. Seu livro seguinte, O Alquimista, amargou vendagens muito baixas no início, mas o boca-a-boca entre leitores acabou transformando-o em um de seus maiores sucesso e o início à sua carreira internacional. Além de versões para inúmeros idiomas, o livro teve uma edição especial ilustrada pelo famoso artista Moebius — um colaborador da revista Heavy Metal e também desenhista de produção dos filmes Tron e O Quinto Elemento.
A partir de então, os livros do mago foram uma sucessão de best-sellers, abordando temas como feitiçaria, anjos e o espírito do Guerreiro da Luz. Seus contos são elaborados de forma universal, atingindo as mais diferentes culturas e classes sociais. Em cada um deles, o personagem principal é o ser humano, seus anseios mais íntimos, seu desejo de aventura, de descobrir a si mesmo, de romper limites. Poucos escritores sabem dosar adequadamente estes ingredientes. Paulo Coelho, sem sombra de dúvida, é um deles.
A Mensagem de Paulo Coelho
Depois de nove livros e milhões de exemplares vendidos no mundo todo, o que exatamente Paulo Coelho busca transmitir a seus leitores?
Segundo suas próprias palavras, "principalmente humildade, mistério e amor, a mais poderosa das forças, que tanto pode destruir como se tornar o maior dom do ser humano". Essa força assume diversas formas na obra do mago, mas nunca abandona um princípio fundamental: devemos amar sem buscar recompensas ou reconhecimento.
Coelho costuma dizer que "Deus comunica sua sabedoria por meio de sinais, de coincidências, pelo vento, usando as pessoas à nossa volta. Estando atentos, podemos perceber com clareza a essência de Seus ensinamentos. Por essa razão nunca devemos
nos fechar a nada, pois o inesperado pode conter a chave de nossa libertação".
Suas parábolas também sugerem que a Verdade, capaz de iluminar o coração do mais torpe dos homens, está contida em tudo, até no mais simples dos atos - limpar uma sala, pintar uma parede. Tudo é sagrado quando se tem atenção e disciplina. O autor procura sempre mostrar o quanto Deus é sábio e como nós sempre ganhamos com suas intervenções. Mesmo quando achamos que a derrota nos atingiu, Deus atua por meio de sinais indicando que caminho devemos seguir para alcançar a vitória.
Na verdade, a mensagem de Paulo Coelho é surpreendentemente simples: o homem comum, quando resolve ser sincero consigo mesmo, torna-se um mago.
O Caminho do Alquimista:
O Diário de um Mago
Brida
As Valkírias
Manual do Guerreiro da Luz
O Alquimista
O Monte Cinco
Verônika Decide Morrer
À Beira do Rio Piedra Sentei e Chorei
Maktub
Paulo Coelho se Confessa
A Editora Objetiva está publicando um livro surpreendente, trazendo uma série de entrevistas que o jornalista e escritor espanhol Juan Árias fez com Paulo Coelho, em julho de 1998, a pedido da Editora Planeta, da Espanha. Após longas e demoradas conversas nas quais trataram dos mais diversos assuntos, surgiram revelações inéditas que complementam a visão que, até então, se tinha do escritor mais vendido do Brasil.
Para essa tarefa, Árias valeu-se de sua experiência como correspondente do jornal espanhol El País na Itália. Ele também é o autor de José Saramago: El Amor Possible, um livro de entrevistas com o escritor português ganhador do Prêmio Nobel, e de Fernando Savater: El Arte de Vivir, série de entrevistas com o filósofo Fernando Savater.
Paulo Coelho declarou que resolveu contar tudo, desnudar-se, para que não se construam falsos personagens sobre ele. O livro fala de tudo: das experiências com drogas aos casos amorosos e os momentos de internação no manicômio, passando pela fase em que se embrenhou na magia negra e o difícil período da ditadura militar no País, quando foi torturado.
Publicamos a seguir um trecho do livro, tratando sobre o tema que tem sido de maior interesse nos últimos anos sempre que se fala de Paulo Coelho: a magia. Neste trecho ele fala da magia como um instrumento do Mago.
Capítulo VI do livro Confissões de um Peregrino - Juan Árias
- Você continua a acreditar no elemento mágico da vida?
- Totalmente.
- E qual a diferença que você faz entre o mágico e a magia?
- A magia é uma ferramenta, e o mágico é o produto dessa ferramenta. A magia é um espaço, é um martelo, uma espada, um instrumento. O mágico é como você usa isso.
- Você ainda se sente um mago? Muitos dizem que Paulo Coelho durante um tempo foi um mago.
- Num tempo, não. Sou um mago, assim como todos os seres humanos são. E claro que eu sigo uma linha espiritual católica, mas acredito fortemente que todos nós possuímos dons que não desenvolvemos, porque o saber oficial, esse espaço vazio, não os aceita. Eu sou uma pessoa que tenta desenvolver seus dons e seu poder, e isso é ser um mago, o que não me faz ser melhor nem pior que as outras pessoas.
- Então vamos explicar melhor o que você entende por magia, antes de penetrar nas suas experiências negativas do passado.
- Olha, o que nós estamos fazendo neste momento, de certa forma, é um ato de magia, porque é um ritual em que só depende de mim se quero ou não contar tudo e se vou ou não confiar em você. E, para mim, você não é você neste momento; você é todos os meus leitores, é a curiosidade que todos eles têm. O que você faz é me entrevistar, porque essa é a sua capacidade. É a mesma coisa que você fez em seu livro sobre Saramago, El Amor Posible. Quando li esse livro, vi que ali havia perguntas que eu gostaria de ter feito como leitor, para conhecer melhor esse grande escritor português. Essas coisas me parecem quase sagradas, porque tocam o íntimo de nossa pessoa.
Guerreiro da Luz
Ser um guerreiro da luz — como Paulo Coelho define em seus livros — significa enxergar o mundo com o olhar inocente de uma criança, aceitar o milagre da vida e, o mais importante, lutar pelo que se acredita.
O Guerreiro surge nos detalhes mais simples da vida, seja ao alegrar-se com um dia bonito, ao dançar sem motivo ou simplesmente sentar em uma praça e rir de alegria por estar respirando.
Para ele, não importa ganhar ou perder. Ele sabe que essas coisas são passageiras e que o mais importante é vivenciar os mistérios da vida e lutar o combate interno, sabendo que isso o levará a conquistar o maior de seus inimigos: ele próprio.
Muitos podem achar que esse ser possui extraordinário poder e sabedoria, mas a verdade é que todos somos guerreiros da Luz. Todos fomos criados à imagem e semelhança de Deus, portanto, somos extraordinários.
Lenda Pessoal
Quando somos crianças temos sonhos fantásticos: viajar a outros mundos, conhecer reinos distantes, aventurar-se pelo desconhecido. E sempre imaginamos que, quando formos grandes, conseguiremos fazer tudo isso.
Mas, com o passar dos anos, vamos esquecendo-nos desses sonhos. A dura realidade nos torna mais amargos e deixamos essas coisas de criança para trás.
O Guerreiro da Luz observa o mundo com o olhar simples de uma criança pois, embora carregue anos de experiência e amadurecimento, não perdeu a inocência. Ele sabe olhar o mundo sem as ilusões às quais estamos acostumados e que chamamos de realidade.
Essa visão permite que ele realize seus sonhos, conquiste seus desejos e construa suas aventuras. Enfim: ele realiza a sua Lenda Pessoal.
Essa é a mensagem de Paulo Coelho. Lute por seus sonhos, seja honesto com seu coração, realize a sua tão sonhada Lenda Pessoal.
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