Paranóia Pouca é Bobagem
2009-05-04 18:36Gilberto Schoereder
Ultimamente, tem se tornado comum imaginar inimigos poderosos ocultos em cada esquina. As teorias conspiratórias e a paranóia estão se espalhando pelo mundo através da Internet. E, muitas vezes, com argumentos bastante convincentes.
Uma das mais deliciosas frases já inventadas sobre a paranóia é: o fato de você ser paranóico não significa que não estejam atrás de você querendo pegá-lo. Claro que, tratando-se de paranóia, a autoria da sentença é anônima, mas ela exemplifica um estado de espírito que pareceu tomar conta do planeta nos últimos anos, especialmente no que diz respeito a atividades secretas de governos poderosos, de grupos ligados ou não a esses governos, ou mesmo de seres extraterrestres agindo na Terra.
Essa suposta paranóia não apenas alimentou o enredo de seriados de TV — como o famoso Arquivo X, cujo lema A Verdade está lá Fora tornou-se quase que o hino de uma geração —, mas também originou uma série de teorias que encheram páginas e mais páginas de livros, para não falar de documentários de televisão e até mesmo grandes produções do cinema.
Algumas pessoas entendem que essa busca por conspirações é uma espécie de doença social, sinal dos tempos ou falta do que fazer — nada muito diferente da paranóia dos anos 50, quando o tema mais comum era comunistas embaixo da cama. Outros acham que o fato de ser paranóico não significa que não haja verdade nas afirmações apresentadas, com exceção das mais grotescas e alucinadas. E um pequeno grupo de pessoas persegue apaixonadamente qualquer ponta de informação capaz de levar a mais um segredo enterrado nas catacumbas do poder, chegando a ponto de considerar que tudo o que é dito, por mais absurdo que pareça, é absolutamente verdadeiro.
Uma das coisas que se destacam no quadro geral é, sem dúvida, a presença de extraterrestres em nosso planeta. E não estamos sequer falando em OVNIs, cuja presença já está mais do que comprovada por milhares de fotos, muitas horas de filmagens e farta documentação. Os alienígenas entram no cenário da conspiração quando se começa a falar que eles compõem uma espécie de pacto com governos da Terra, mais especificamente o dos EUA, com o qual manteriam um contato quase incestuoso. Certas correntes de pensamento entendem que esse contato não ocorre com o governo dos EUA, mas com um grupo dissidente que forma um ‘governo dentro do governo’ — a eminência parda por trás do poder, ou o real poder.
A amizade entre terrestres e aliens teria evoluído da simples troca de informações — iniciada por volta de 1947, quando um disco voador teria caído na pequena cidade de Roswell — para um relacionamento mais íntimo, que incluiria vistas grossas às abduções realizadas pelos irmãos do espaço, cujo acordo permitiria realizar operações dentro de naves alienígenas e implantar microchips em dezenas de pessoas. Existem diferentes linhas de pensamento a esse respeito, mas a maioria acredita que diferentes grupos de extraterrestres estejam atuando na Terra. Basicamente, eles podem ser divididos entre os que desejam nosso bem e os que não estão nem aí com o que possa nos acontecer, desde que possam tirar alguma vantagem conosco.
Guerra na Terra
Charles Fort (1874-1932), autor de O Livro dos Danados (1919) — tido como a primeira tentativa organizada para compilar o que existe de estranho em nosso planeta —, levantou a possibilidade que estivesse ocorrendo uma guerra no espaço, nas imediações da Terra. O renomado psicólogo Wilhelm Reich (1897-1957) chegou a afirmar que extraterrestres estavam brigando em nosso planeta para obter a energia do orgônio existente em nossa atmosfera — um elemento que ele afirmou ter descoberto em suas pesquisas e que compunha a matéria vital do universo. Reich também pensava em termos de seres amigáveis e inimigos dos terrestres.
Portanto, apesar de não ser nova, a idéia evoluiu para um combate de proporções bíblicas. Há ufólogos que defendem a idéia do confronto, mas entendem que ela possa ter se originado na narrativa de Bob Lazar, que disse ter trabalhado na secretíssima base americana conhecida como Área 51. Segundo Lazar, terrestres e alienígenas tiveram um desentendimento em 1979, que resultou num pequeno confronto nas dependências subterrâneas da base. Algumas pessoas e extraterrestres morreram, diz ele, e houve um rompimento de relações entre as partes.
Mais pedaços de informações surgem no que diz respeito às manipulações que os aliens estariam fazendo em nosso planeta, como as experiências genéticas com o objetivo de criar uma nova espécie, um híbrido humano-alien — idéia que foi utilizada no seriado Arquivo X e originou ainda mais suposições. Fala-se, também, que alterações de genes foram realizadas pelos primeiros ETs que chegaram aqui, milhares de anos atrás, praticamente criando a raça humana como ela é hoje.
Manipulações do tempo também surgem entre os boatos — ou informações? — a respeito dos alienígenas. Alguns seres poderiam ter vindo do passado e estariam ligados a inúmeras atividades malignas, travando uma batalha sem trégua em nosso planeta. Diz-se que um terrível combate aconteceu numa região dos EUA, anos atrás, e que o armamento utilizado teria originado uma zona semelhante à do Triângulo das Bermudas, de modo que qualquer pessoa que passasse por lá seria afetada, podendo inclusive saltar para outra dimensão.
Os relatos sobre alterações temporais vão ainda mais longe, afirmando que seres conhecidos como Xpotaz forneceram uma ‘nave do tempo’ ao chamado Governo Oculto da Terra, para ajudar na manutenção do poder. Outra versão ou complemento dessa história fala sobre um colapso ocorrido no tempo, num futuro distante, que fez alguns grupos extraterrestres viajarem para o passado — que é o nosso presente — com o objetivo de impedir o tal colapso alterando os acontecimentos a seu favor. Suas naves estariam ocultas no décimo planeta. Como a grande missão dos aliens do Bem seria promover o crescimento espiritual da humanidade, os seres do Mal estariam concentrados em tentar impedi-los.
Conspirações
Naves no décimo planeta, bases e prospecção de minérios na Lua, colonização de Marte. Se os extraterrestres estão envolvidos nisso, por que não os humanos? Uma teoria que chegou a fazer sucesso diz respeito ao livro Alternative 3.
Segundo afirmam alguns, a história começou em 1977, com um documentário da série Science Report (Informe Científico) para a televisão inglesa, e teve seqüência com o texto do Alternative 3, publicado em 1978. Segundo o documentário e o livro, em 1957 foi realizado um encontro de vários cientistas no Alabama, EUA, conhecido como Conferência de Huntsville, onde se consideraram alternativas para o futuro da humanidade, levando em conta problemas como a destruição da natureza, poluição e escassez de alimentos. Como resolução dessas questões foram propostas três alternativas, e é justamente a terceira que nos interessa no momento.
A chamada Alternativa 3 envolveria a colonização de Marte a partir de um programa conjunto dos EUA e da então URSS. Só que o projeto demandaria certa dose de violência, uma vez que várias pessoas seriam levadas da Terra sob o efeito de drogas poderosas e, na colônia espacial, trabalhariam como zumbis, sofrendo operações que tirariam seu poder de reação. Os escolhidos teriam grande sua inteligência, capacidade física e artística, e dariam origem a uma raça superior. Passariam por um estágio inicial na Lua, na Base Arquimedes, que foi destruída quando três pessoas tentaram salvar alguns dos escravos.
O programa de televisão apresentava entrevistas com cientistas e ainda tentava desvendar uma onda de desaparecimentos de pesquisadores, geralmente contratados para trabalhar em grandes projetos. No entanto, os próprios autores do livro já admitiram que tudo não passou de uma farsa, uma espécie de brincadeira, e que até o programa de TV foi ao ar no dia 1º de abril, como uma grande piada. Só que a coisa cresceu tanto que nem os desmentidos impediram a história de continuar circulando como verdadeira.
E, por falar em desaparecimento de cientistas, o que dizer dos 22 ingleses envolvidos com o Projeto Guerra nas Estrelas, mortos em acidentes ou por suicídio na década de 80? Para o governo britânico, tudo não passou de coincidência. Outros entendem que os cientistas estavam estressados devido a uma investigação de fraude que estava em andamento, relativa a problemas na negociação da empresa contratada. O National Forum Foundation, instituto de pesquisa de Washington, EUA, acreditava que as mortes foram obras de terroristas de esquerda. Uma teoria alucinada sugeria que os russos haviam desenvolvido um ‘raio da morte’ eletromagnético com o qual levavam os cientistas ao suicídio. Até onde se sabe, o caso não foi devidamente solucionado, fomentando mais ainda as teorias conspiratórias.
Paranóias
Alguns pesquisadores entendem que as paranóias e teorias conspiratórias têm ligação com o imenso poder dos governos e a incapacidade do cidadão comum de se manifestar ou realmente mudar as coisas no planeta. Apesar dos discursos democráticos de que o voto de um é importante e decisivo, o fato percebido pelos cidadãos, mesmo que de modo inconsciente, seria a sua passividade com relação aos eventos mundiais de maior destaque. Daí para achar que tudo é resolvido por baixo dos panos seria um passo.
Assim teriam surgido os rumores de que o governo poderia ter colocado LSD no suprimento de água de toda uma cidade como experimento de controle de massas. Ou que as drogas teriam sido introduzidas nos EUA como parte de um plano habilmente concebido para minar as bases da sociedade cristã, seja lá qual tenha sido o grupo que imaginou esse plano.
A paranóia é ampliada pelos fatos reais, como a Guerra Fria dos anos 50, quando o mundo realmente esteve à beira da destruição inúmeras vezes. Mas, será mesmo? Algumas pessoas afirmam que tudo o que EUA e URSS fizeram foi combinado, como parte de um plano de domínio mundial. Alguns escritores transformaram isso em histórias de ficção, afirmando que a balança do poder no planeta já estava definida ao término da II Guerra Mundial.
Mais recentemente, a paranóia e conspiração refere-se à AIDS, que teria sido desenvolvida em laboratórios e escapado para o mundo contra a vontade de seus criadores. Não são poucos os pesquisadores sérios que entendem haver algum fundo de verdade na hipótese, e cientistas envolvidos no suposto desenvolvimento do vírus teriam desaparecido, como os que participaram do Guerra nas Estrelas, quando tentaram falar a verdade ao mundo.
A Internet tem funcionado nos dois sentidos: informando sobre questões cabeludas que, até então, eram segredo de estado e mantidas longe das vistas da população; e desinformando, criando conspirações onde elas não existem, muitas vezes com objetivos nitidamente comerciais. Como separar o joio do trigo? É difícil. Um dos procedimentos fundamentais é sempre ter em mente que, se algo foi publicado, isso não quer dizer que seja verdade. Por outro lado, essa premissa implica em manter uma postura de dúvida com relação a toda informação obtida, o que nos leva à paranóia. Em meio a todo esse caleirão de incertezas, uma coisa é certa: não ser paranóico não significa que alguém, em algum lugr, não esteja atrás de você.
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