Os Gigantes de Tiahuanaco

2009-05-06 15:29

Dizem que a cidade de Tiahuanaco foi construída pelo próprio deus Viracocha. Segundo alguns pesquisadores, é a mais antiga construção da Terra, podendo ter sido a própria Atlântida.

Gilberto Schoereder

    Sempre que se fala sobre culturas antigas como a maia, a cultura do Indo e tantas outras espalhadas pelo planeta, ocorre um choque inevitável entre as datas propostas pela chamada arqueologia oficial e os pesquisadores autônomos – entre os quais também se incluem vários arqueólogos. Mas é provável que a distância entre esses dois posicionamentos nunca tenha sido tão evidente quanto em Tiahuanaco. Para se ter uma idéia, a história diz oficialmente que a cidade foi construída entre os anos 500 e 1000 d.C., com a civilização responsável por sua elaboração desaparecendo por volta de 1400 d.C. – época em que o império inca já se estendia pelos Andes. Por outro lado, as mais modestas propostas alternativas de datação para Tiahuanaco falam de uma idade superior a 10 mil anos, e ultimamente, indícios que apontam 30 ou 40 mil anos de idade têm sido bastante comuns.
    As ruínas situam-se às margens do lago Titicaca, Bolívia, a quatro mil metros de altitude, e mesmo para os povos mais antigos da região sua origem só pode ser detectada através de lendas. Diz-se que os incas pouco ou nada sabiam do povo que a construiu, e os aimarás – talvez os últimos ocupantes de Tiahuanaco – afirmavam que a cidade tinha sido erigida pelo próprio deus Viracocha num tempo em que o Sol e as estrelas ainda não existiam.
    Lenda ou realidade, as histórias sobre as construções persistem até os tempos atuais. O pesquisador Denis Saurat, por exemplo, disse que Tiahuanaco atingiu seu auge por volta de 300 mil a.C., enquanto outras linhas afirmam que, quando os Senhores da Chama de Vênus chegaram ao planeta – há 18 milhões de anos, segundo a Teosofia – eles se dirigiram para aquela região e fundaram a cidade. Por essa razão muitos pesquisadores entendem que Tiahuanaco nada mais é do que a lendária Atlântida, berço de civilizações como a maia e a egípcia.
    Existem poucas construções inteiras em Tiahuanaco, mas as ruínas indicam que o local deveria ser uma cidade de tamanho considerável. Ali podem ser encontradas bases de pirâmides e outras edificações, além de monumentos gigantescos, como a famosa Porta do Sol, o elemento marcante de Tiahuanaco.

Terra de Deuses
    A Portal do Sol foi construída em um único monólito com 3 metros de altura por 3,75 de largura, pesando 10 toneladas, com um portal retangular cortado no centro. O friso superior traz uma série de figuras ou inscrições que ainda não foram decifradas, apesar de alguns pesquisadores afirmarem o contrário. Acredita-se que uma das figuras desenhadas no friso seja a do deus Viracocha, um dos muitos civilizadores citados em mitologias do planeta e que, para vários estudiosos, nada mais é do que a representação de uma raça extraterrestre, que teria chegado ao local em épocas muito recuadas, trazendo conhecimentos e dando início à civilização.
    O Grande Ídolo – outra escultura famosa, com mais de 7 metros de altura e pesando 20 toneladas – também apresenta inscrições que, segundo algumas pesquisas, têm caráter astronômico e se referem à esfericidade da Terra. Há muito se fala também que parte da cidade estaria submersa nas águas do lago Titicaca, e investigações recentes revelaram a existência de construções no local, o que poderia comprovar essa suposição.
As construções imensas de Tiahuanaco também sugerem a existência de seres humanos gigantes no passado longínquo da Terra. Na teoria radical de Hans Horbiger, por exemplo, os gigantes teriam vivido no Período Terciário, há 15 milhões de anos, desaparecendo devido a modificações extremas no clima e, principalmente, nas condições de gravidade do planeta. Denis Saurat – que, em parte, apoia a teoria de Horbiger – disse que nessa época o oceano atingia a altitude de 3 ou 4 mil metros, o que faria de Tiahuanaco uma cidade litorânea. A idéia é difícil de se sustentar, uma vez que a ciência afirma que os Andes só se formaram por volta de 30 mil anos atrás. No entanto, uma extensa linha de depósitos marinhos pode ser encontrada ao longo dos Andes, o que é comprovado pelos estudos geológicos.
    Segundo Horbiger, o satélite da Terra na época estava muito mais próximo do planeta, exercendo uma atração de tal forma que o mar chegava até a cidade. Com o desaparecimento dessa lua, as águas recuaram e Tiahuanaco passou a existir a 4 mil metros de altitude. Essa noção, defendida por alguns pesquisadores, pressupõe que tenham existido duas Atlântidas: a mais antiga, a própria Tiahuanaco, e outra mais recente, destruída por volta de 12 mil a.C., quando uma nova lua foi capturada pela Terra, provocando novas catástrofes mundiais.

Desenhos de Animais
    Alguns pesquisadores afirmam encontrar evidências da antigüidade da cidade nas próprias esculturas de Tiahuanaco. Ali teria sido representado um animal conhecido como toxodonte, cujos ossos fossilizados foram de fato encontrados em escavações na região das ruínas, assim como fósseis de animais que viveram numa época antediluviana. Segundo os cientistas, as criaturas viveram no Período Terciário e foram extintas no Quaternário, vivendo até meados do Pleistoceno. Acredita-se que os primeiros hominídeos podem ter convivido com animais como o toxodonte, o megatério (uma espécie de preguiça gigante) ou o gliptodonte.
    Junte-se a isso o fato de que o chamado homem de Neandertal deve ter vivido até cerca de 70 mil a.C., com os primeiros indícios do surgimento do homo sapiens, o homem moderno, remontando há 40 mil anos. Segundo os historiadores, o surgimento da civilização com a elaboração de comunidades e estruturas sociais, políticas e religiosas mais complexas ocorreu há cerca de 20 mil anos. Portanto, estaríamos falando da representação de animais numa época em que os seres humanos modernos ainda não existiam. Seria fora de questão que os homens das cavernas realizassem a obra gigantesca de arquitetura que se vê em Tiahuanaco.
    Alguns cientistas chegaram a afirmar que o animal representado não seria o toxodonte, mas uma abstração ou algum outro animal da região. Quando pesquisadores querem simplesmente ignorar o fato, costumam dizer que, como não era possível os habitantes de Tiahuanaco conhecerem o toxodonte, obviamente trata-se da representação de outro animal ou ser mitológico – procedimento também conhecido como tapar o sol com a peneira. Só que, nesse caso de Tiahuanaco, a informação sobre o toxodonte foi confirmada por fontes científicas das mais respeitáveis. Os desenhos são parte de um panorama bem mais amplo e que inclui as gravações nas pedras de Ica, e as figuras e estátuas encontradas em Acambara ou em Morona-Santiago, que também apresentam gravações de animais pré-históricos, inclusive dinossauros, que não conviveram com os humanos.
Considerando verdadeira a informação sobre o toxodonte, resta saber como os habitantes de Tiahuanaco poderiam tê-lo representado. Para muitos que investigam a questão, a resposta só pode seguir por dois caminhos: ou a civilização viveu no mesmo período do animal – um longo espaço de tempo que vai de 1,5 milhão de anos até cerca de 70 mil a.C. –, ou essa civilização possuía um conhecimento científico de arqueologia semelhante ao que temos atualmente, o que implicaria na existência de uma série de conhecimentos científicos paralelos colocando a civilização num nível muito acima do anunciado pela história oficial.
    Outra questão freqüentemente abordada diz respeito ao final de Tiahuanaco. Os estudos históricos afirmam que a cidade teria se extinguido por volta de 1300 ou 1400 d.C., uma data muito próxima do auge do império inca. Como se explicaria, então, o fato dos incas não conhecerem coisa alguma sobre Tiahuanaco, a não ser por meio de lendas que remontavam ao início dos tempos? Alguns investigadores prendem-se a esse ponto, afirmando que os historiadores e arqueólogos precisam rever seus posicionamentos.

Mais Gigantes

    Pesquisando a região do lago Titicaca, a arqueóloga Simone Waisbard afirma ter encontrado ossos gigantescos, além de um homem natural da região medindo mais de dois metros de altura, algo incomum nos Andes.
    Alguns dos chamados cronistas da conquista – historiadores espanhóis que registraram parte da história e cultura andina – também se referem a uma raça de gigantes, os karis, sobre os quais os habitantes falavam. Alguns deles teriam chegado ao império inca ainda durante o reinado de Tupac Yupanqui (entre 1448 e 1482), e o próprio Pizarro teria visto um deles. O cronista Pedro Gutierrez de Santa Clara disse ter exumado alguns corpos e encontrado cabeças de gigantes. O grande problema com as descrições é que elas os apresentam como bárbaros, portanto incapazes de construir uma das obras de arquitetura mais impressionantes do mundo, além das datas não estarem de acordo.
    Ainda assim, a idéia resiste e indica que deveria haver mais estudos nesse sentido. Em 1970, por exemplo, foi descoberto um esqueleto humano ao norte de Santiago, Chile, medindo 2,38m. Escavando numa profundidade de dois metros, também foram encontradas ossadas de animais pré-históricos e cerâmicas atribuídas aos gigantes, com desenhos que não se enquadram nas culturas conhecidas sa região.
    As histórias narradas pelos cronistas são muito criticadas por historiadores, uma vez que, segundo estes, elas contêm muita lenda e poucos fatos – os cronistas acreditavam em tudo o que os nativos diziam e, ainda por cima, tinham problemas com as traduções. Entre as crônicas mais criticadas estão as de Garcilaso de la Vega, autor de Historia General del Peru. Pesquisadores autônomos, no entanto, afirmam que tudo que se mostra em desacordo com a versão oficial da História é sumariamente desconsiderado, sem quaisquer considerações científicas.

Extraterrestres
    Fica praticamente impossível para os leigos avaliar corretamente essas informações, mas ainda assim o pesquisador Robert Charroux disse que, ao final dos anos 50, ele entrou em contato com o biólogo Beltrán Garcia, descendente de Garcilaso de la Vega, e este teria informações detalhadas obtidas de documentos originais de seu antepassado. Segundo ele, as informações obtidas nas próprias ruínas de Tiahuanaco diziam que seres evoluídos de outro planeta se estabeleceram na região durante a época dos tapires gigantes, e ali teriam iniciado um processo de transformação genética e formação de seres adaptados à vida na Terra. A referência aos tapires também se enquadra no Período Terciário. No entanto, Simone Waisbard não concorda com essa visão, afirmando que Garcia era uma fraude, um fanático religioso que tentou estabelecer um culto em Paris: a Religião do Sol Inca.
    Mas a relação com a possível presença de extraterrestres no local continua sendo considerada, ainda mais quando os pesquisadores consideram a mitologia da deusa Orejona, que teria vindo de Vênus para dar origem à humanidade em Tiahuanaco. Assinm como na mitologia maia, na própria teosofia e várias mitologias hindus, Vênus surge como a origem da vida na Terra, ou pelo menos como a fonte do conhecimento ancestral. Claro que a versão oficial prefere ver Orejona como uma explicação lendária para o surgimento da nobreza inca, o que nos deixa na mesma, uma vez que as datas da cultura inca são muito mais recentes do que as de Tiahuanaco.
    Outras lendas sobre Viracocha dizem que os primeiros seres que ele criou – chamados wari runa (ou huari ruma) – seriam os próprios gigantes, que viviam na época conhecida como Naupa Pacha, o tempo dos ancestrais. Os indígenas locais afirmam que os naupas viveram muito antes dos incas, ensinando coisas aos homens e, quando foram embora, “subiram ao céu e nunca mais voltaram”.

Cidades Subterrâneas
    A controvérsia em torno de Tiahuanaco também se estende para a possível existência de uma gigantesca civilização subterrânea. Robert Charroux diz que essa informação se encontra no livro Los Dos Tiahuanaco (1909), de Manuel González de la Rosa. Originalmente, teria surgido em 1625 através de uma tradução dos quipós incas, que os historiadores afirmam que não representavam uma linguagem. A seção Conspirações e Paranóias diz que essa tradução se encontra na biblioteca do Vaticano.
    Os quipós eram cordões de cores e comprimentos variados, com nós, e a suposta tradução afirmaria que o nome original de Tiahuanaco era Chucara, cujo significado é casa do sol. O local onde hoje se encontram as ruínas seria apenas um local para cortar as pedras, com a verdadeira cidade sob o solo. Diz-se ainda que o naturalista francês Alcide d’Orbigny teria encontrado algumas das entradas para essa cidade subterrânea quando explorou a região entre 1827 e 1834. Existem relatos de outros viajantes, que teriam visto as galerias subterrâneas, escuras e malcheirosas. A tradução ainda diria que o rei de Tiahuanaco, Huyustus, teria reinado antes do Dilúvio e construiu a cidade de Wiñay-Marka sobre as ruínas da ancestral Chucara.
    O interessante é que as explorações arqueológicas mais recentes de Tiahuanaco dão conta da existência de pelo menos cinco níveis, com cidades sobrepostas, mas de difícil datação, uma vez que muitas pedras foram retiradas da região e da vizinha Puma-Punku para a construção de templos, igrejas e casas. Alguns cientistas entendem que é aí que se encontra o início da lenda sobre uma civilização subterrânea, uma vez que as cidades foram, de fato, construídas uma em cima da outra, como se verifica também em outros sítios arqueológicos do mundo.
    Por outro lado, os arqueólogos peruanos não se manifestam a respeito de longos túneis subterrâneos, enquanto muitas expedições já registraram sua existência. Por exemplo, é tido como verdadeiro e comprovado que, em 1923, uma equipe de espeleologistas explorou os túneis da região de Cuzco, que avançavam rumo ao litoral. Doze dias depois, apenas um homem retornou, dizendo ter encontrado um verdadeiro labirinto de túneis e obstáculos pelo caminho. E também, após o terremoto de 1972, surgiu um complexo de túneis sob a cidade de Lima. Como sistemas de túneis também são conhecidos no Equador, muitos entendem que essa pode ser a origem das lendas.
    Seja como for, parece que cada vez mais a idade oficial de Tiahuanaco vai aumentando, ainda que se fale pouco sobre isso. Para vários pesquisadores, essa dificuldade em datar corretamente a cidade ocorre porque não interessa a ninguém que a América seja considerada o berço da humanidade, ou pelo menos um dos centros mais antigos do mundo, anterior à própria civilização européia. O que é certo é que as pesquisas em Tiahuanaco estão, de forma inegável, mudando todos os conceitos sobre a origem do homem no planeta Terra.

Para Saber Mais:
Tiahuanaco - Simone Waisbard (Ed. Hemus)
A Atlântida e o Reino dos Gigantes - Denis Saurat (Artenova)

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