Os Caminhos do Sei-ki

2009-04-17 19:01

Psicoterapeuta com grande experiência em reiki, sei-ki e outras terapias alternativas, o dr. Roberto Casini esteve no Brasil em outubro e conversou com a Sexto Sentido sobre a origem do reiki e a abordagem holística do ser humano.

    Quando o reiki foi apresentado ao Ocidente décadas atrás, ele foi visto apenas como mais uma terapia oriental. Com o passar dos anos, porém, essa forma de transferir energia usando as mãos foi ganhando um grande destaque, e hoje é ensinada em milhares de cursos espalhados pelo planeta — alguns confiáveis, outros nem tanto.
    O dr. Roberto Casini, coordenador do Instituto di Terapie Naturali, na Itália, entende que é muito importante conhecer as origens dessa terapia, que já figura entre as mais populares no ocidente. Como também é importante perceber a diferença entre o reiki (ou rei-ki) e o sei-ki. Segundo o terapeuta, sei-ki é o nome original da disciplina, redescoberta no Japão em meados do século XIX. O termo reiki foi adotado no ocidente, mas essa palavra não existe no Japão. "A diferença fundamental em termos práticos", explica Casini, "é que o reiki virou um negócio, uma atividade comercial, enquanto o sei-ki continua fiel às suas origens. Ele era praticado pelos xamãs japoneses e usado para tratamento das pessoas mais pobres. Foi Mikao Usui que redescobriu essa antiga arte e a sistematizou. Preservado em sua forma original, o sei-ki não utiliza a ritualística criada pelo reiki por razões de marketing, para vender o produto".
    Casini diz que, como parte da divulgação do reiki, Usui foi apresentado como um monge, o que não é verdade. "Ele era um comerciante que faliu, situação que o motivou a iniciar uma busca espiritual. Nesse processo Usui teve contato com a atividade xamânica, uma prática natural, não pasteurizada por rituais de caráter místico. Não há nada de místico no sei-ki, coisa que o reiki pretende ser".
    Os que preservaram o sei-ki eram discípulos diretos de Usui, enquanto que Chujiro Hayashi, bastante conhecido no ocidente, foi aluno de Usui, mas não discípulo, o que é uma diferença muito importante no oriente: aluno é aquele que apenas recebe instruções em um curso com duração de alguns meses. Já o discípulo vive com seu professor, trabalha como assistente e aprende ao longo de muitos anos. “A confusão continuou”, explica Roberto Casini, “quando esse aluno de Usui teve uma seguidora, uma mulher chamada Hawayo Takata, que por sua vez adotou o título de Grande Mestre — algo que o próprio Usui não tinha feito. Takata deixou 21 mestres formados, entre eles sua sobrinha Phillis Lei Furomoto, que também adotou o título de Grande Mestre, sendo hoje considerada uma espécie de papa do reiki”.

Simplicidade
    Casini diz que, no reiki, para chegar aos níveis superiores de aprendizado só é preciso pagar. No sei-ki só se paga o primeiro nível, pois trata-se de um curso como qualquer outro. O aluno que deseja passar para o segundo nível precisa ser aceito pelo professor. Para alcançar o terceiro, o aspirante deve apresentar crescimento interno, tornar-se vegetariano, mostrar desprendimento material e uma capacidade de conduzir grupos, uma vez que ele terá a responsabilidade de formar outras pessoas. "O instrutor precisa estar pronto para isso", diz Casini, "não só tecnicamente, mas em sua opção de vida. É a comunidade que irá decidir se a pessoa está pronta para ser mestre".
    O sei-ki também é considerado mais simples que todas as demais técnicas de terapia natural. "Para transmitir a energia de cura não é muito importante a técnica que a pessoa vai usar", explica Roberto, "mas o quanto ela se trabalhou e purificou. O aplicador de sei-ki só faz uma coisa: o trâmite da energia. Mais nada. Ele não tem qualquer dom especial, pois a energia não lhe pertence, vem de algum lugar. Ele é um canal, faz a passagem, sem modificar a energia. Quem vai modificá-la é a pessoa que está recebendo a aplicação".
    O terapeuta afirma que a força transmitida possui capacidade de equilibrar um paciente usando os potenciais da própria pessoa para levá-la à harmonia interna. O sei-ki também tem relação com o jorei da Igreja Messiânica, com a diferença de que “para praticar jorei você precisa pertencer à religião”, explica Casini, “e não são todas as pessoas que querem isso. Se é católico, budista, etc. não pode praticar jorei. Como o sei-ki é uma tradição taoísta, pertence a todo mundo. Não é submetido a qualquer dogma e, em conseqüência, é uma expressão de liberdade”.
    Casini explica que, em termos de eficácia e resultados práticos, ambos são iguais. Apesar de ser messiânico e poder praticar o jorei, ele prefere o sei-ki pelo seu componente xamânico e por não ter nenhuma seqüência preestabelecida de movimentos. As mãos do aplicador vão sendo conduzidas pelo próprio intercâmbio de energia entre ele e o paciente.

A Cura de Si Mesmo
    Casini diz que, a princípio, o sei-ki pode ser utilizado em qualquer tipo de patologia, e até mesmo em uma emergência. “Na verdade”, ele explica, “nenhum operador tem a capacidade de curar. É a própria pessoa que se cura. O operador é apenas um facilitador, um potencializador das energias que a pessoa tem dentro de si”. A cura só ocorre se a pessoa está pronta para isso, e Casini tem um exemplo dessa situação em sua própria vida.     Ele já conseguiu curar uma série de doenças crônicas que o incomodavam, mas há uma dor de cabeça que, por enquanto, não teve jeito. Sua explicação é que se outras doenças mais complicadas desapareceram e a dor de cabeça não é porque ele ainda não aprendeu o que essa dor está querendo lhe ensinar.
    Esse é um dos conceitos básicos na medicina holística: a doença serve como aviso de um desequilíbrio. Roberto diz ter visto e realizado curas que podem ser consideradas verdadeiros milagres: após cinco ou dez minutos de aplicação a enfermidade desaparece — com comprovação posterior através de exames clínicos e laboratoriais. Segundo Casini, isso não ocorre porque o terapeuta é bom, mas porque a pessoa estava pronta para ser curada e só faltava o ‘pontapé inicial’. Esse raciocínio é válido para o sei-ki, o reiki e o jorei.
    A respiração também é um fator importante no sei-ki. “Sempre é bom lembrar”, explica Roberto, “que respiração é vida, e que o sei-ki, diferente de outras terapias, tem como base o uso das seis respirações taoístas fundamentais — respirações que se descobriu, ao longo dos séculos, servirem como mecanismos de cura. Essas respirações, mais a meditação ch’na — uma meditação feita em movimento, com exercícios muito semelhante à ioga e ao tai-ch’i — permitem que o sei-ki tenha uma atuação mais penetrante em termos de cura, porque a pessoa está usando dois elementos essenciais”.
    O sei-ki é uma prática que deve se adaptar à personalidade da pessoa — algumas de são melhor com a meditação em movimento, outras só obtém resultados com a meditação passiva. “A capacidade de perceber qual método se adapta melhor a determinadas necessidades e adequá-lo a uma das diversas formas de respiração”, explica o especialista italiano, “cria uma espécie de  personalização do sei-ki. Ele é algo feito sob medida para cada pessoa que vai praticar ou que receber. Essa também é uma diferença com relação ao reiki, que obedece a um ritual e, assim, torna-se igual para todos.”

Freqüência Energética
    Roberto Casini diz que no estado alterado de consciência que pode ocorrer durante o sei-ki não é possível estabelecer diferença entre o operador e o recebedor. O operador deve estar centrado, vazio por dentro, sem pensar no amanhã, no ontem ou na irritação que ele poderia estar sentindo minutos antes. “No momento em que ele se esvazia”, diz o terapeuta, “a energia flui e tanto o operador quanto o recebedor formam uma unidade. O estado alterado que o operador obtém automaticamente se estende ao paciente”.
    Casini vê outra diferença entre sei-ki e reiki no processo de ‘estar centrado’. “No reiki, para centrar-se, o operador coloca as mãos no coração e imediatamente as impõe, transmitindo a energia. Isso é um fato externo, um fato físico”, diz Casini. “O operador de sei-ki coloca as mãos no coração porque o coração é um transformador de energia. Mas essa energia é apenas o primeiro passo. Depois que colocou as mãos no coração e captou a energia, ele esquece isso e começa a praticar a forma correta de respiração — o que altera a freqüência energética da mão, que passa de 150 hertz, que é a média, para 450 hertz. E isso pode ser medido em laboratório. Com essa freqüência alta o operador se transforma no canal de uma energia muito sutil. Esse aumento do ciclo, da energia, é uma coisa que acontece no sei-ki, mas não no reiki.”
    Os pontos de vista de Roberto Casini podem não ser aceitos por todos os terapeutas da área, mas seguramente chamam a atenção. Assim como sua postura em relação à medicina holística e a medicina tradicional. “O médico tradicional”, ele diz, “tem a pretensão de ser alguém capaz de curar. O médico holístico, primeiro, não quer ser chamado de médico e, segundo, tem a consciência de que é apenas um canal pelo qual passa uma força que o paciente também possui, só que não sabe. Assim, o terapia holística é como um despertador, capaz de acordar a pessoa para suas potencialidades, para que cure a si mesma. E ela não exclui a medicina, um preconceito que existe no caminho inverso.”
    Para o italiano, cada pessoa deve procurar ser coerente com o fato de que ninguém é diferente de ninguém, ninguém é capaz de curar ninguém.     “Quando as pessoas começam seu caminho espiritual tendem a se achar muito imperfeitas, ou pecadoras, para usar a linguagem católica. Mas não é assim. É preciso ter consciência de que os grandes mestres, como Jesus, viveram no meio de pecadores, não porque pretendiam salvá-los, mas porque queriam demonstrar que todo mundo está aqui para aprender alguma coisa. Este planeta é uma escola na qual existem vários níveis. Cada vez que uma pessoa erra, ela deve ficar muito contente por ter errado. Isso significa que ela está tendo a oportunidade de aprender alguma coisa e passar para o próximo nível. Nada é mais divino do que errar.”

Para Saber Mais:
Reiki, Medicina Energética – Libby Barnett e Maggie Chambers (Ed. Nova Era)
Reiki na Vida Diária – Earlene F. Gleisner (Ed. Nova Era)

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