Os Construtores da Maçonaria
2009-05-05 19:37Uma das ordens iniciáticas mais antigas e conhecidas do planeta, a maçonaria continua um mistério para a maioria das pessoas. Buscando explicar melhor os fundamentos dessa sociedade secreta, a Sexto Sentido entrevistou o compositor e escritor Zé Rodrix, maçom há muitos anos e autor do livro Diário de um Construtor do Templo.
Alex Alprim
Muitos historiadores afirmam que a maçonaria é um braço, ou mesmo uma dissidência da Rosacruz. Isso é verdade? Qual é a verdadeira origem da maçonaria?
A Rosacruz nasceu na época do Iluminismo e foi o esforço individual de uma pessoa, que escreveu As Bodas Místicas de Christian Rosencreutz. Foi em torno desse livro se formou a Rosacruz. A maçonaria já tem seus primórdios nas guildas de construtores da Idade Média, vários séculos antes do Iluminismo. Esses construtores eram depositários de um conhecimento prático que vinha do tempo dos caldeus e babilônicos, e que se repetiu na maneira como foram construídas as catedrais da Idade Média. Em determinado momento, eles resolveram estudar a razão do conhecimento ser dessa maneira e passaram a aceitar, em seu seio, maçons operativos – que eram homens dispostos a investigar os motivos, investigar a verdade por trás daqueles rituais de construção.
A maçonaria passa a ter maçons operativos – aqueles que pegam no pesado – e maçons especulativos, que estudam e investigam a verdade. Estes últimos acabam sendo toda a maçonaria a partir de um determinado momento, quando a ordem passa a ser mais uma investigadora livre da verdade do que uma corporação de pedreiros.
Eu pessoalmente acredito que os primórdios da maçonaria estejam no passado distante, naquele conhecimento prático, simbólico e esotérico da arte das construções e dos preceitos para se levantar um templo, porque esses preceitos são sempre os mesmos, seja com os caldeus, seja na Idade Média.
Qual seria o objetivo desses templos?
O objetivo de um templo é permitir ao homem conhecer a si próprio, sempre. Fornecer um lugar onde ele, pela comparação com o mundo exterior, possa reconhecer seu templo interior. A maçonaria possibilita a cada um dos maçons construir esse templo dentro de si, porque ela vem guardando esse conhecimento desde tempos imemoriais, preservando-o, passando de um membro para outro.
Esses templos são construídos dessa maneira porque são determinados aspectos palpáveis e materiais que organizam a estrutura do conhecimento, organizam o funcionamento da mente e do espírito para a consecução desse objetivo. Acho que basicamente é isso. O templo exterior é simplesmente um símbolo palpável do templo interno, que a maçonaria pretende que os homens criem no momento em que comecem a se conhecer.
A construção do templo externo seria um reflexo desse templo interior.
Sempre. Eu acho que os dois caminham juntos. A experiência de erguer o templo exterior está muito ligada à experiência de erguer o templo interno. Por isso a simbologia da maçonaria de pedras e instrumentos de canteiro está ligada a esse exercício de aprimoramento pessoal. Quer dizer, ao mesmo tempo em que trabalha uma pedra no mundo exterior, o homem também trabalha a si próprio, porque ele, em si, é uma pedra bruta.
Como se estivesse desbastando a pedra bruta.
Exato. Desbastando a pedra bruta para criar uma pedra polida e, depois, uma pedra cúbica perfeita. Você tem de saber que, quanto mais trabalha uma pedra cúbica, mais perfeita ela pode ficar. Não há fim para o trabalho numa pedra cúbica. Ela sempre pode ficar mais perfeita.
E o objetivo prático da maçonaria com relação ao ser humano?
O objetivo prático da maçonaria com relação ao ser humano é permitir que o homem se conheça. A maçonaria é uma sociedade iniciática, uma ordem iniciática que pretende, como todas as ordens iniciáticas, que o homem velho morra para renascer um novo, que possa ser aquele ‘homem original’ – um ser mais próximo possível da imagem e semelhança de Deus. É um homem que está em absoluto contato com Deus dentro de si, e em absoluto contato com a lei natural que mora dentro de todos os homens e para a qual nós fomos ficando surdos gradativamente. Para isso, a ordem une homens livres e de bons costumes, no verdadeiro sentido da palavra. Homens que não sejam escravos de qualquer estrutura seja física, mental, ideológica ou religiosa. Assim, a partir da livre investigação da verdade, o ser humano pode conhecer a si próprio e ter uma visão melhor do mundo, através da qual ele possa utilizar todo o conhecimento que vem sendo preservado pela maçonaria.
Estar dentro da maçonaria significa ser partidário e acreditar no livre-arbítrio, significa estar pronto para respeitar, de maneira absoluta, a crença e a autoridade de cada pessoa do mundo. Ser maçom é exercer a tolerância total. Para ser tolerante com o outro você precisa ser tolerante consigo mesmo. E, efetivamente, os homens que entram na maçonaria vão se tornando pessoas melhores, porque vão tendo uma compreensão mais acentuada do mundo.
Eu acho que a humanidade vai se perdendo à medida que determinados homens pretendem ter poder de representação. Quando alguém diz, “Eu sou o sacerdote do deus tal e, se você não falar comigo, nunca vai saber o que esse deus quer. Só eu falo com deus, e só eu posso dizer o que o deus quer que você faça” – quando um homem aceita isso ele passa a não aceitar que existe um Deus dentro de si. E quando ele aceita que não existe um Deus dentro de si, ele não tem mais fundamentação essencial. Portanto, ele passa a ter de criar alternativas externas como leis, religiões, colocar todo o conhecimento fora de si mesmo para não ter de encarar o vazio que ficou em seu interior.
Por que só homens podem participar das atividades maçônicas?
Por vários motivos. O primeiro é que a maçonaria surgiu numa época em que só homens participavam dessas coisas. Não precisa ir muito longe. No interior da Bahia, nas décadas de 30 e 40, o meu avô foi maçom sem que a esposa dele soubesse. Quando eu entrei na maçonaria, sabia que a ordem só aceitava homens. Era a regra e eu concordei. Mas o que eu acho, pessoalmente, é que as mulheres não têm de se preocupar em fazer parte da maçonaria. A ordem é iniciática masculina, lida com energias masculinas. A mulher têm à sua disposição toda a energia feminina do universo, uma série de rituais que lidam com essa energia feminina, e não precisa tentar imitar o homem. Uma mulher sozinha tem muito mais poder do que dez homens juntos, porque ela efetivamente é a depositária da criação e pode fazer uso disso. Existem rituais disponíveis que já eram realizados antes de haver a, digamos assim, guerra entre o deus e a deusa.
Qual a relação entre as escolas maçônicas e as esotéricas? Algumas pessoas afirmam que essas escolas esotéricas derivariam, de certo modo, das escolas maçônicas.
Não. Todas derivam desse conhecimento comum, o conhecimento dos antigos. Uns dizem que tudo foi queimado na Biblioteca de Alexandria, outros dizem que aquilo não valia nada, que era um monte de superstições, que o que vale é a ciência mecanicista, o cientificismo. Hoje em dia começa a se descobrir que grande ou a maior parte desse conhecimento era real. A ciência começa a descobrir valores reais nesse conhecimento, e ele vem sendo preservado pela maçonaria e várias outras ordens iniciáticas, passando para seus membros, que se encarregam de transmitir para os próximos. É o mesmo conhecimento. Grande parte está na maçonaria, grande parte na Rosacruz, há coisas que estão só num ou só em outro, mas todas as escolas esotéricas dispõem desse conhecimento. A maneira como ele é usado é a grande questão. Essas escolas que se colocam como depositárias do conhecimento tradicional da Antigüidade, que se colocam inclusive como defensoras do livre-arbítrio – que acreditam que só o livre-arbítrio nos diferencia do resto da criação e que só através dele podemos compreender esse conhecimento – são as que vêm mantendo-o vivo à revelia de outras estruturas, como as grandes estruturas científicas da humanidade ou a própria religião católica, que não tinha qualquer interesse em que esse conhecimento fosse preservado.
E a conexão da maçonaria com a cabala?
Essa é real. A maçonaria se estabelece mais ou menos na mesma época em que surge – fruto da união do judaísmo, catolicismo e muçulmanismo – algo chamado cabala cristã, que é talvez o momento mais lindo da história da humanidade, em que as três religiões majoritárias trabalham juntas na busca desse conhecimento, querendo estabelecer padrões para o conhecimento dos antigos que estava se perdendo. A cabala é profundamente importante na estrutura da maçonaria, na estrutura esotérica da maçonaria. O judaísmo é importante na estrutura prática da maçonaria. Até no fato de só admitir homens. Você entra na maçonaria e, se tiver poder de observação, vai descobrir que a estrutura física é uma mistura de sinagoga com parlamento inglês. Ao mesmo tempo, a ordem tem uma estrutura simbólica que remonta ao Templo de Salomão, que já remontava ao tempo dos caldeus e babilônicos. Então, a ligação do judaísmo com a maçonaria é essencial, é muito importante, e eu acho isso ótimo, porque é talvez a única religião que propunha o tempo todo a livre investigação da verdade, uma religião sem dogmas.
Muitas pessoas tentam passar uma idéia de que ser maçom é ser cristão.
Não, é impossível. Minha opinião pessoal: ser cristão é uma coisa, ser maçom é outra. Não é possível unir as duas idéias, porque a maçonaria luta exatamente pelos valores morais, éticos, esotéricos e místicos anteriores ao cristianismo. Todos os valores da maçonaria são os valores do verdadeiro paganismo, os valores dos grandes pensadores da humanidade, dos grandes mestres, dos homens que efetivamente pensaram a humanidade com correção, pré-socráticos – Sócrates, Platão, Aristóteles, todos os homens anteriores ao cristianismo. O cristianismo se apossa desses padrões morais e éticos dizendo que são criações suas e que o paganismo nada tinha disso. A grande diferença entre a igreja católica e a maçonaria é que a maçonaria propugna que o homem só pode ser o ponto máximo da criação porque tem o livre-arbítrio, que lhe foi dado por Deus.
Acho que às vezes o livre arbítrio se confunde com a presença de Deus. Só a presença de Deus dentro de nós nos possibilita ter livre arbítrio, essa mistura maravilhosa entre raciocínio e intuição, o momento em que as duas metades do cérebro trabalham juntas. A igreja católica sempre luta para que não haja livre arbítrio, para que o homem não acredite que tem Deus dentro de si, para que a pessoa se entregue na mão do sacerdote, que lhe dirá como Deus quer que ele se comporte. Misturar maçonaria com igreja católica, tentar fazer uma maçonaria cristã como eu vejo acontecendo muito, é sem sentido. Mesmo porque a maçonaria não é uma religião. Não adianta tentar transformá-la em religião, coisa que tentam fazer. É uma escola de pensamento que preserva uma série de conhecimentos que são muito melhor utilizados exatamente porque estão fora do processo de religião.
Qual a origem da maçonaria brasileira?
A maçonaria brasileira é filha da maçonaria européia por meio das maçonarias inglesa e francesa que, apesar de serem rivais na época, são molas mestras na criação da maçonaria portuguesa, que gerou a brasileira. É profundamente libertária e iluminista, uma maçonaria responsável pelas grandes revoluções libertárias no mundo, como a Revolução Americana, a Francesa e a própria Conjuração Mineira, que representa os primórdios da independência brasileira. Mas a partir de um determinado momento, basicamente no século XX – quando o Brasil começa a se voltar para os Estados Unidos como parâmetro de comportamento em sua sociedade – isso acontece com a maçonaria também. A maçonaria brasileira passa a se espelhar na americana, que é extremamente poderosa, rica e ativa, mas profundamente vazia: ela não tem qualquer espiritualidade, é pragmática – uma maçonaria por objetivos, gerencial. Acho que isso prejudicou muito a maçonaria no Brasil. Inclusive data dessa época a relativa perda de importância da ordem no cenário brasileiro. Mas agora que a maçonaria volta a se ligar com a maçonaria européia, acho que vamos poder equilibrar esse jogo.
Muitos dizem que, hoje em dia, a maçonaria no Brasil se encontra um tanto fragilizada.
Muito. Ela está fragilizada exatamente devido a essa decisão de seguir uma linha que lhe tira toda a força. Ela fica simplesmente material, e uma maçonaria duramente material fica sendo puramente vaidosa. As pessoas vão para a ordem para ter cargos, para usar aventais maravilhosos, ganhar medalhas, condecorações, mas fica algo vazio. Qual é a fundamentação real disso? Nenhuma. O que eu propugno é uma maçonaria com fundamento essencial, com fundamento esotérico, místico, cultural, tradicional da maçonaria. Temos de resgatar isso, porque é aí que está a verdadeira essência da maçonaria.
Existe uma relação entre a maçonaria e a política, não só no Brasil, mas em outros locais do mundo. Ocorreu até um caso na Itália, em que uma loja maçônica se viu em meio a uma trama política.
Existe. Naquele caso italiano, membros de uma loja chamada P2, que eram pessoas profundamente desconhecedoras do verdadeiro objetivo da maçonaria, se uniram a pessoas do Vaticano, que eram profundamente desconhecedoras dos objetivos da igreja católica, e com gente de um partido político italiano profundamente desconhecedor do que seria política, para fazer uma manobra escusa, que visava apenas lucro financeiro pessoal. Não se pode dizer que foi a maçonaria, que foi a Igreja ou a política italiana como um todo. Mas essas pessoas faziam parte disso, e agiram de maneira equivocada, para dizer o mínimo.
As ligações da maçonaria com a política no Brasil são extremamente enganadas, porque são invertidas. Em vez da maçonaria ter procurado dentro de suas lojas e encontrado os melhores maçons para transformá-los em políticos capazes de ter uma atuação na política brasileira, precisando ter alguma importância oficial, ela pegou os políticos que pôde para transformá-los em maçons. Normalmente, esses que ela pegou são uns bostas, são o que havia de pior, porque são os que se dispuseram. Pensaram que, sendo maçons, estariam acobertados. É quase como você multiplicar por dois a imunidade parlamentar. A maioria entrou assim. E imagine que nós temos quase 60% do Congresso Nacional, segundo as últimas informações, formada por pessoas iniciadas na maçonaria e, mesmo assim, não temos uma bancada maçônica. Ao contrário de uma bancada evangélica, que sempre vota junto, a maçonaria não sabe votar maçônicamente as questões, porque os membros não se reconhecem como irmãos. Eles não são irmãos, são simplesmente políticos transformados em maçons. Agora, são nossos irmãos porque foram iniciados. Mal ou bem, foram iniciados.
Dom Pedro I também era maçom?
Foi. D. Pedro I, imperador do Brasil, foi feito maçom. Só que ele estava no meio de uma disputa entre duas correntes políticas e maçônicas no Brasil, que eram competidoras, e cada uma queria fazer a independência do Brasil. Então, uma delas consegue iniciar D. Pedro I, a outra faz dele Companheiro, a outra faz Mestre e a outra faz dele Grão-Mestre da maçonaria, em três dias. Ele entrou na maçonaria e três dias depois era Grão-Mestre. E fica provado que o governo não gosta da maçonaria: na primeira oportunidade que D. Pedro I teve, ele fechou a maçonaria porque ela o estava atrapalhando. A maçonaria sempre atrapalha os poderosos, como sempre atrapalha os religiosos.
Se tiver um regime de exceção, a maçonaria é fechada.
Sempre é fechada, não importa a cor política desse regime. Hoje em dia eu acredito que, se houver um regime de exceção, como em 1964, a maçonaria brasileira não fecha, porque não fechou em 64. Na época, a maçonaria já estava absolutamente curvada aos interesses e foi franca partidária do golpe. Em 68, a maçonaria começou a ter alguma atividade, mas estava muito pouco afeita ao enfrentamento.
E o que um homem precisa para ser maçom?
Precisa ser livre, de bons costumes, precisa ter respeito absoluto pela autoridade e pela crença dos outros, precisa ter tolerância absoluta, tolerância total. Precisa crer em Deus, de uma determinada maneira, e como decorrência precisa crer numa vida futura, mas acho que isso já está incluso no fato da pessoa crer em Deus. Há ritos maçônicos que não exigem a crença em Deus, não exigem que a pessoa expresse a sua crença num Deus. Não são ritos ateus. Eles consideram que a liberdade é tão importante que não se pode exigir de um homem que ele professe ou não a crença em Deus. O chamado Rito Moderno não exige essa crença e, ainda assim, é um rito maçônico de beleza e profundidade tão fortes quanto qualquer outro que exige a crença em Deus, só não exigindo que a pessoa declare sua crença.
Eu acho que a maçonaria vai acabar exigindo desse homem um comportamento diferente. É exatamente nessa maneira diferente de estar com o mundo, de trabalhar no mundo e de viver a experiência de ser um homem no mundo de hoje que o maçom pode se destacar, pois aí você vai reconhecer quem é maçom e quem não é. Essa maneira de usar todo aquele conhecimento que está disponível para viver o mundo de hoje é o que vai diferenciar quem é de quem não é maçom.
Mas com certeza a maçonaria serve como parâmetro para se diferenciar maneiras de viver o mundo. A maçonaria é uma ordem iniciática que se preocupa com a essência das coisas e não com a aparência, e é exatamente nessa preocupação com a essência que ela se diferencia. Eu acho que a ordem se perde quando começa, como a maçonaria americana, a se preocupar mais com a aparência das coisas do que com a essência, mais com o lado material do que com o lado interno.
Para Saber Mais:
Diário de um Construtor do Templo - Zé Rodrix (Editora Record).
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