Os Clones Têm Alma?

2009-03-26 23:59

Depois que o cientista escocês Dr. lan Wilmut apresentou o resultado de suas experiências - a ovelha Dolly - as discussões sobre clonagem tomaram conta da mídia em todo o planeta. E, entre as muitas perguntas, fica uma em especial: Os Clones têm Alma?

Gilberto Schoereder

    A clonagem, ou duplicação de seres humanos, irá acontecer! Ao contrário do que muitos podem imaginar, isso é apenas uma questão de tempo. E não são unicamente os escritores de ficção científica que pensam dessa maneira. Segundo o dr. Michio Kaku, professor de física teórica em Nova York, EUA, "Para se clonar pessoas, só é necessário ter 10 mil dólares e um diploma de engenharia genética". Caso essa afirmação venha a se confirmar, as implicações serão incalculáveis.
    O próprio dr. Kaku adverte que existe um perigo potencial muito grande de as coisas fugirem ao controle, especialmente porque ainda não existe qualquer tipo de código de ética ou lei para impedir a clonagem de seres humanos. O mesmo Dr. lan Wilmut obteve, recentemente, uma autorização do governo britânico e da comissão de clonagem para pesquisar e produzir técnicas envolvendo seres humanos. Em outras palavras: se for possível, será feito.
    O pesquisador Jeremy Rifkin, autor do livro The Biotech Century, também referiu-se aos tempos atuais como sendo "...o limiar de uma nova era, na qual poderemos ser os arquitetos de nosso próprio destino biológico. Quais serão as implicações ambientais, e as filosóficas, éticas e morais - e quais serão as conseqüências sociais e culturais de se brincar de Deus com o código genético da vida no planeta?". Talvez "brincar de Deus" seja a expressão-chave, o ponto central das discussões, principalmente religiosas, sobre a duplicação de seres humanos.

Definindo a Alma
    Ninguém tem dúvida de que as questões técnicas envolvendo a clonagem serão resolvidas em laboratórios, empresas e gabinetes políticos, de acordo com os interesses do momento. As questões filosóficas e religiosas, porém, são mais complexas, e uma delas deve originar inúmeros debates acirrados num futuro próximo. Estamos falando sobre a alma dos clones.
    Quando se fala de alma, é inevitável que a discussão envolva os mais diversos conceitos filosóficos e religiosos, mas existem basicamente duas linhas principais de pensamento: a científica e a esotérica ou espiritual. Sob o ponto de vista científico, a alma pode ser entendida como a soma de todas as sensações e memórias de um indivíduo. Essa teoria tem grande aceitação no meio acadêmico e vários pesquisadores se identificam com ela.     Seguindo esse pressuposto, a alma se formaria juntamente com o corpo físico e seria tão mortal quanto ele, deixando de existir no momento da morte.
    As religiões já vêem a alma de modo bem distinto. Mesmo utilizando termos diferentes, em linhas gerais ela é entendida como uma partícula individualizada do Criador, portanto eterna, que anima o corpo e o utiliza para experimentar o universo sensorial. Os hindus e outras correntes religiosas que acreditam na reencarnação, dizem que, antes de assumir uma forma física, a alma escolhe a família e as situações que melhor lhe darão condições de aprender o que ela precisa, vinculando-se ao corpo no exato instante da concepção. Após a morte, essa mesma alma retorna ao plano astral, onde fica aguardando outro corpo para dar início a um novo ciclo de vida. Isso se repete indefinidamente, até sua evolução espiritual retirá-la do ciclo de nascimentos e mortes para reintegrá-la ao Criador.
    A atual religião católica não aceita a reencarnação. Segundo os dogmas romanos, cada alma emana diretamente de Deus e se une ao corpo no momento da concepção - mas, com a morte do corpo físico, ela é enviada ao Paraíso, Purgatório ou Inferno, dependendo de suas ações em vida, sem qualquer possibilidade de reabilitação. No entanto, nos primórdios do catolicismo, a idéia da reencarnação era aceita por todos os praticantes, tendo sido abolida em 553, durante o Quinto Concílio Ecumênico ou Concílio de Constantinopla.
    Os muçulmanos também rejeitam a transmigração da alma, mas acreditam que esta permaneça presa ao corpo mesmo depois da morte, e só ressurgirá no Juízo Final, quando seu destino será decidido pelas ações que realizou em vida. A Kaballah judaica já explica que a alma na verdade se compõe de três forças distintas: Nephesch (corpo físico), Ruach (sede da vontade e personalidade) e Neschamah (espírito, a natureza divina do homem) –  princípios que emanam diretamente do Criador e cada ser os adquire durante a concepção.

Matriz x Cópia
    Mesmo diferindo em aspectos básicos, ciência e religião concordam que a alma de um ser humano é única e, portanto, jamais poderá ser copiada. A Dra. Nancy J. Duff, Ph.D., professora de Ética Teológica nos EUA, entende que a questão é relativamente simples e que a controvérsia só existe por uma interpretação errónea. "Acho que as pessoas não estão compreendendo o que é a clonagem", ela explica. "Um clone jamais se tornará uma exata cópia mental ou espiritual de sua matriz porque não terá a mesma alma. Nem sequer fisicamente, porque não terá o mesmo cérebro, os mesmos padrões cerebrais ou as mesmas experiências".
    Mesmo sendo um consenso que a alma do clone sempre será diferente do indivíduo-matriz, ainda fica uma pergunta no ar: quando a cópia ganhará sua alma? Como determinar o momento de sua concepção ou nascimento? De certa forma, isso entra no mesmo terreno de discussões sobre o aborto. A partir de que momento um feto humano já possui alma? Para a ciência, desde que ele sai do ventre da mãe e desenvolve seus padrões de comportamento. Para a religião, desde que um óvulo é fecundado.
    O processo de clonar homens pode criar aberrações? Sem dúvida. Muitos clones serão usados como reservatório de órgãos? Talvez. Caberá única e exclusivamente ao próprio homem, já chamado de 'a coroa da criação', definir seus limites para não acabar se tornando 'o pesadelo da criação'.                            

A Questão Moral
    O bioquímico Paul Berg ganhou um Prémio Nobel por suas pesquisas em engenharia genética. Assim que divulgou seu trabalho, ele publicou um manifesto onde implorava aos colegas que abandonassem esse ramo da ciência. A aparente contradição é apenas um indício das acirradas discussões que deverão surgir nos próximos anos.
    Na base das controvérsias está a questão moral e ética envolvendo uma possível transformação da humanidade. Em outras palavras, que direito nós temos de provocar alterações no desenvolvimento natural do ser humano? Em 1992, o biólogo Jacques Testart também manifestou sua preocupação com o que chamou de 'diagnóstico genético pré-implantatórío' - uma técnica que permite identificar características do embrião humano e selecionar, para sobrevivência, somente aqueles que são considerados 'desejáveis'. Em outras palavras, as técnicas de engenharia genética - entre elas, a clonagem - permitiriam o aprimoramento artificial da raça humana, trazendo de volta modos de pensar próprios da sociedade nazista.
    Desde os anos 70, quando a genética começou a ser pesquisada com mais afinco, realizam-se conferências para regularizar e limitar as experiências em laboratório. No entanto, muitos entendem que é impossível determinar regras muito rígidas, e que, no fundo, as pesquisas de cada cientista só poderão ser norteadas por sua própria consciência.

O que é um Clone?
    Pela definição mais popularizada nos últimos anos - especialmente devido à ficção cientifica - criar um clone é elaborar a cópia idêntica de um ser vivo original usando uma de suas células. Nesse caso, a cópia seria uma criatura com todas as características físicas e psicológicas da original, inclusive suas lembranças, sem apresentar as experiências da matriz. No entanto, para a ciência, clone é a exata cópia física de um ser vivo, mas não de sua personalidade, memória ou idade. Não haveria como copiar esses aspectos do original. Dessa maneira, o clone deverá ser encarado como um novo indivíduo, ainda que carregando uma série de características genéticas idênticas às de sua matriz.
    Também é importante notar que sempre haverá uma diferença de idade entre o original e o clone, o que fará com que ambos cresçam de maneira diferente. Como não pode ter as mesmas experiências do original, o clone irá desenvolver as suas próprias, o que acarretará numa personalidade distinta. Usando o exemplo de um atleta duplicado, para que a cópia atingisse o mesmo nível técnico, ela precisaria ter, ao longo da vida, as mesmas experiências do original, o que seria praticamente impossível.
    Alguns estudiosos especulam sobre a possibilidade de duplicar igualmente as memórias da pessoa e acelerar o processo de crescimento do clone. Com isso, seria possível obter uma cópia já adulta, exatamente igual ao clonado, com todas as suas lembranças - mas isso é uma outra história que, por enquanto, restringe-se aos livros e filmes de ficção.

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