O Segredo da Rosa

2009-04-17 19:45

Há séculos a Ordem Rosa Cruz vem se mantendo como uma das irmandades de maior atuação no planeta. Não mais secreta como foi na Idade Média, ainda mantém uma aura de mistério e promessas de um grande desenvolvimento psíquico para seus membros.

    A rosa é um dos símbolos esotéricos mais antigos da humanidade e foi sob ele que se desenvolveu a Ordem Rosa Cruz — segundo alguns pesquisadores a irmandade de caráter secreto mais antiga da humanidade. É verdade que os historiadores situam seu desenvolvimento no século XIV ou XVII, mas os atuais rosacruzes apresentam uma versão bem diferente. Segundo eles, o início de sua história recua até o ano 1353 a.C., no Egito, época em que o faraó Akhenaton, também conhecido como Amenófis IV, estabeleceu uma religião monoteísta, sendo considerado o Grande Mestre tradicional da Antiga Fraternidade.
    A Rosa Cruz existe na forma como está organizada hoje desde 1915, quando foi estabelecida nos Estados Unidos pelo Dr. H. Spencer Lewis com o nome de AMORC — Antiga e Mística Ordem Rosae Crucis. Diz-se que ele reativou a organização e construiu o Parque Rosa Cruz em San Jose,   California, que inclui o Museu Egípcio Rosa Cruz, considerado uma das maiores coleções de antigüidades egípcias, babilônicas e assírias dos EUA, inclusive múmias. A partir desse centro, a AMORC espalhou-se pelo mundo todo, instalando-se em diversos países, inclusive o Brasil.
    Nesse reinício da Rosa Cruz no século XX, Spencer Lewis estabeleceu os objetivos básicos da ordem, entendendo que todos os esforços deveriam ser dedicados à ‘reconstrução da espécie humana e ao avanço da civilização'. Para levar a cabo essa tarefa a Ordem define-se como uma instituição de natureza mística, de caráter educacional, cultural e fraternal. Um dos pontos principais que sempre são ressaltados é seu aspecto apolítico e não religioso, pois ela recebe em seu meio pessoas de qualquer credo, uma vez que o objetivo é despertar as faculdades interiores da pessoa e possibilitar uma vida mais harmonizada.
    Outras ordens Rosacruz surgiram, especialmente nos EUA, como a Rosacrucian Fellowship e a Fraternidade Rosacruz de Clymer, mas a AMORC continua sendo a maior e mais ativa.

Ordem Não Religiosa
    Os rosacruzes insistem no aspecto não religioso da organização, ainda que empreguem a palavra Deus para designar o Ser Supremo ou Ser Cósmico. No site da AMORC, a criação é vista como "a manifestação dos atributos de Deus e não algo criado por Ele fora de si mesmo. A evolução do ser humano consiste justamente em que ele se desenvolva de modo a manifestar cada vez mais plena e poderosamente, num sentido positivo e construtivo, os atributos divinos latentes no âmago do seu ser".
    Uma vez que a ordem não impõe dogmas, os estudantes, ou neófitos, são livres para aceitar a concepção de Deus ou escolher outras de sua preferência. Da mesma forma, os rituais da AMORC não são considerados cultos de adoração, mas uma técnica de trabalho baseada no conhecimento psicológico das faculdades mentais humanas, com elementos de tradição. O misticismo é um dos pontos centrais da filosofia rosacruz ensinada pela AMORC, e deve ser entendido como a busca de conhecimento direto através de processos psíquicos que ultrapassam as funções intelectuais. Dessa forma, é visto como o caminho prático de evolução, realização pessoal e felicidade.
    Essa evolução obtida inclui o conhecimento, entendimento e uso de poderes mentais como a intuição ou o sexto sentido, a ampliação da capacidade de concentração e relaxamento. As técnicas ensinadas também ajudam, segundo os rosacruzes, a resolver problemas de saúde. A continuação dos estudos propicia a realização de projeções psíquicas, mais conhecidas como viagens astrais, que é a capacidade da pessoa deixar o corpo de forma consciente e ir a lugares distantes — uma técnica somente aprendida no sétimo dos nove graus de aprendizado devido à sua dificuldade. Da mesma forma, o neófito pode chegar a recordar vidas passadas, ainda que tal feito só possa ser realizado com o devido preparo.
    Essas capacidades mentais ou psíquicas extremamente desenvolvidas têm sido, ao longo dos anos, um dos principais atrativos da Rosa Cruz e está de acordo com as histórias misteriosas que já circulavam sobre a ordem desde o século XVII.

Rosa-Cruz na Europa
    A maioria dos historiadores não concorda com a antigüidade proposta para a Rosa Cruz. Para Kurt Seligmann, por exemplo, a influência das idéias de Paracelso (1493–1541) na constituição da ordem é mais do que evidente e seu relacionamento com a alquimia, inequívoco. De certa forma, a o centro de estudos que nasceu como sociedade secreta revigorava os ideais alquímicos originais. Hermann e Georg Schreiber também têm pensamento semelhante quando afirmam que os rosacruzes representam uma evolução posterior das irmandades alquimistas. Segundo eles, no final da Idade Média, a alquimia ou tinha emperrado na especulação ou descambado para o charlatanismo. Foram os rosacruzes que reviveram os elementos positivos da alquimia, como a investigação da natureza e a qualidade de se aprofundar nos segredos da existência e das transformações.
    Os historiadores parecem concordar que a Rosa Cruz não pode ser definida como religião ou seita, ainda que alguns vejam seu surgimento relacionado à Reforma de Martinho Lutero, a partir de 1517. Algumas fontes da época chegaram a citar a semelhança entre os símbolos rosacruzes e o selo de Lutero, que também traz uma rosa e uma cruz, mas a ordem teria ideais mais elevados do que apenas combater o Papa.
    A história da ordem mística na Europa começa, segundo fontes históricas, em 1614, com a publicação em alemão do livro Reforma Geral do Mundo, de autoria do italiano Trajano Boccalini. O livro trazia como suplemento um manifesto chamado Fama Fraternitatis ou Uma Descoberta da Louvável   Ordem da Rosa Cruz. Esse manifesto referia-se a Christian Rosencreutz, apresentado como o mais venerável antepassado da confraria que, nascido em 1378, aos 16 anos de idade já havia viajado à Terra Santa, Turquia e Arábia, onde teria aprendido ciências sagradas e conhecimentos secretos, inclusive o prolongamento da vida, traduzidos para o latim e publicados no livro M. Paracelso teria sido um dos que leram o livro M, sendo bastante influenciado pela obra.
    Christian Rosencreutz retirou-se para sua casa na Alemanha por não encontrar sábios interessados na ciência secreta que redescobriu, dedicando-se aos estudos e aceitando apenas três discípulos, que foram responsáveis por transmitir os conhecimentos aos que vieram depois. Rosencreutz teria morrido em 1484, com 106 anos de idade, e foi sepultado em segredo.

Mistérios Ocultos
    Segundo alguns, quando os rosacruzes eram em número de oito, concordaram em seguir uma linha de ação que incluía não se dedicar a nada além de curar os doentes, sem recompensa; não utilizar qualquer hábito ou identificação; reunir-se todos os anos na Casa do Espírito Santificado; escolher seus sucessores; usar como selo e referência unicamente as letras r.c.; manter a ordem secreta por 100 anos.
    Mas a ordem cresceu, e muito. DE acordo com Seligmann, um dos motivos foi a descoberta da câmara fúnebre secreta de Christian Rosencreutz, onde estariam gravadas as palavras "Aparecerei após cento e vinte anos". Isso foi entendido como uma profecia do Mestre, indicando que novos membros deveriam ser aceitos e o silêncio quebrado.
    Em 1615 surgiu o segundo manifesto, Confissão ou Depoimento da Louvável Irmandade da Venerável Cruz das Rosas aos Sábios da Europa. Bem mais radical, afirmava que o Oriente e o Ocidente haviam sido condenados por suas blasfêmias, atacava o Papa, a filosofia, que 'exalava seus últimos suspiros', e dizia que os homens sábios podiam compreender a criação se soubessem ler os caracteres que Deus inscreveu no mecanismo do mundo. Com esse manifesto estava estabelecido um ambiente propício para que a ordem crescesse, fornecendo as idéias necessárias, prometendo conhecimentos fantásticos e, ao mesmo tempo, oferecendo a proteção do anonimato para aqueles que temiam ser perseguidos pela Igreja.

Cruz e Rosa
    Em 1616 surgiu O Casamento Alquímico de Christian Rosencreutz, de autoria do pastor luterano Johann Valentin Andreae (1586–1654), considerado um livro notável pelo conhecimento alquímico que continha. Para muitos, Andreae foi o verdadeiro fundador da Rosa Cruz e, mais uma vez, levanta-se a questão de que o brasão de sua família era igual ao foi utilizado pela ordem.
    Os historiadores dizem que o símbolo faz uma alusão ao sangue de Cristo na cruz e que a rosa tem significado esotérico, hermético, também surgindo em outras sociedades secretas. Ela seria utilizada desde a antigüidade e sua figura está relacionada à necessidade de se manter o silêncio sobre determinadas questões.
    O passo seguinte na divulgação da Rosa Cruz foi o surgimento de cartazes colados nas paredes de Paris anunciando a presença da irmandade. Um dos primeiros dizia: "Nós, delegados da mais alta instância dos rosacruzes, permanecemos nesta cidade, visíveis e invisíveis, pela graça do Altíssimo.     Ensinamos e mostramos, sem livros nem sinais, a fim de redimir a humanidade de um erro fatal". O historiador Serge Hutin diz que se atribuía aos rosacruzes a transmutação dos metais, o prolongamento da vida, o conhecimento do que acontece em locais distantes e a capacidade de descobrir objetos escondidos.
 

Artefatos Impossíveis
    O mistério em torno da irmandade aumentou depois que circulou a notícia de que o túmulo de Christian Rosencreutz tinha sido encontrado, contendo objetos desenvolvidos a partir de um conhecimento superior. Falavam-se de lâmpadas perenes, fornecedoras de luz fria que nunca se apagava, cuja origem foi atribuída aos construtores das pirâmides egípcias; de aparelhos capazes de registrar sons e imagens; de energia nuclear obtida através de reatores solares; de telégrafos telepáticos; antibióticos e sabe-se lá o que mais. Tecnologias inexistentes na época e, em alguns casos, desconhecidas até hoje.
    Algumas linhas de pensamento acham perfeitamente possível conhecimentos muito avançados terem permanecido em segredo até nossos dias. O saber de civilizações antiquíssimas poderia perfeitamente ter sido transmitido através do secretismo das ordens. Jacques Bergier e Louis Pauwels explicam que a tradição rosacruz é a mesma da ciência contemporânea, fundamentada não na iniciação misteriosa mas no estudo profundo do que se chama de Liber Mundi — o livro do universo e da natureza, com uma doutrina baseada no domínio do universo pela ciência, não pela mística. Para Bergier não é de se estranhar que homens com espírito e conhecimento mais elevados se reunissem para comunicar sua sabedoria uns aos outros, e a Rosa Cruz seria apenas uma extensão dessa sociedade secreta, cuja origem se perde em tempos ancestrais.
    A afirmativa de que a Ordem Rosa Cruz tem sua origem no antigo Egito ainda é bastante contestada, mas não causa espanto ou desconforto. Da mesma forma, a alquimia já teve seus primórdios atribuídos aos antigos egípcios e a conhecimentos trazidos até nosso planeta por seres extraterrestres, em épocas ainda mais reclusas.
    O fundamental mesmo parece ser a atuação que a irmandade vem tendo ao longo dos tempos, com o objetivo de engrandecer o ser humano em todos os aspectos, encorajando o conhecimento e a livre iniciativa.

Para Saber Mais:
Grande Loja da Jurisdição de Língua Portuguesa
Ordem Rosacruz, AMORC
História das Ciências Ocultas – Doucet (Ediouro)
O Despertar dos Mágicos – Louis Pauwels e Jacques Bergier (Difel)
História da Magia – Kurt Seligmann (Edições 70)

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