O Romance Divino

2009-04-17 15:10

 

Em abril desde ano, Brother Anilananda, há muitos anos discípulo de Paramahansa Yogananda – uma das figuras espirituais mais proeminentes de nossa época – esteve no Brasil  para uma série de conferências públicas sobre ioga e meditação. Em entrevista exclusiva à Sexto Sentido, Anilananda falou sobre vida espiritual, união com Deus e os principais ensinamentos de seu Mestre.

Por Helcio Carvalho

 

Qual é o objetivo de sua visita ao Brasil?
Divulgar os ensinamentos de Paramahansa Yogananda.  É isso o que fazem os monges residentes na Sede Central da Self-Realization Fellowship, em Los Angeles. Yogananda ensinou a filosofia da ioga e técnicas específicas. Existem muitos tipos de ioga. Yogananda ensinou raja ioga, que é basicamente o Caminho das Oito Etapas divulgado pelo sábio Patanjali. Esse Caminho compreende, entre outras coisas, técnicas de meditação para entrar em comunhão profunda com o Criador. Essas técnicas nos conduzem ao nosso Ser interno, nos permitem entrar em contato com a alma. Quando isso acontece, percebemos a relação da alma com Deus – que, na verdade, é a nossa alma. Que tipo de trabalho a Self-Realization Fellowship está realizando no Brasil? Qual a estrutura da organização em nosso país?
A Self-Realization divulga as técnicas e a filosofia da raja ioga, bem como a ciência da meditação. Podemos dizer que a organização funciona em três níveis: pequenos grupos de meditação, depois centros de meditação e, por fim, a Sede Central. Tanto os pequenos grupos como os centros de meditação estão ligados diretamente à sede em Los Angeles, e todas as instruções vêm de lá. Desta maneira, a mensagem transmitida pelo fundador, Yogananda, é preservada em sua forma mais pura, sem distorções.

O que acha do interesse das pessoas pela ioga hoje em dia? O interesse aumentou? A qualidade do conhecimento geral sobre a ioga aumentou?
Sem dúvida o interesse pelas disciplinas da ioga tem aumentado bastante. Só que muitos ainda associam a ioga com hatha ioga – as posturas físicas. Hatha ioga é apenas a terceira etapa no Caminho de Patanjali. Há muito mais do que isso. Uma das principais razões por esse aumento de interesse é, sem dúvida, o estresse, a pressão na vida das pessoas, a falta de paz. O mundo anda cada vez mais rápido, a quantidade de problemas cresce – a alma dentro das pessoas começa a gritar, “Meu Deus, deve existir alguma coisa melhor. Preciso de paz, de um pouco de felicidade.” E elas começam a procurar exatamente aquilo que se encontra dentro de si mesmas.

O senhor conheceu Yogananda pessoalmente? Como era o grande Mestre? 
Não, eu não conheci Yogananda pessoalmente. Mas os que o tiveram essa felicidade dizem que ele transbordava vitalidade e amor. Mesmo quem o encontrava pela primeira vez sentia como se o Mestre já o conhecesse há muito tempo. E uma das principais sensações que ficava nas pessoas era: “Aí está alguém que realmente conhece Deus.” Na sede central há vários discípulos que o encontraram em vida e moraram junto com ele. Às vezes nós conhecemos pessoas fora da ordem monástica que dizem, “Eu era jornaleiro e costumava entregar jornal para ele. Yogananda era tão carinhoso...”. 

O que o senhor pensa sobre aqueles que, depois de adquirirem algum conhecimento superficial ou poderes através de disciplinas como a ioga, passam a ensinar como se fossem verdadeiros mestres?
Essa é uma grande armadilha, porque muitas pessoas chegam até um mestre à procura de Deus. Se esse mestre aceita a relação do discípulo com a sua pessoa física ele acaba desenvolvendo orgulho. É bastante delicado ser um Mestre porque, na verdade, Deus é o Guru. É Deus que envia um Mestre para ajudar as almas a regressarem a Ele. Um verdadeiro Mestre tem a capacidade de assumir para si parte do carma dos devotos. O Guru verdadeiro tem uma responsabilidade muito grande. 

Como Yogananda e a Self-Realization definem Deus?
A definição mais direta de Deus é “sempre existente, sempre consciente e sempre renovada alegria”. Mas, por outro lado, Yogananda costumava dizer que Deus não pode ser definido. Deus pode ser sentido na medida em que a mente é direcionada para dentro. O Mestre comentava que a primeira prova da existência de Deus é paz. Depois vêm o amor, entendimento, compaixão. Yogananda também dizia que Deus é “o mais próximo dos próximos, o mais querido dos queridos”. 

O que vem a ser Kriya Ioga? No que essa modalidade difere da Raja Ioga ou demais modalidades de ioga?
Na verdade, Kriya é uma parte da raja ioga. Existem várias modalidades de ioga, e raja é uma delas. No caminho de Patanjali há uma etapa chamada pranayama [controle da respiração], e é aí que entra a Kriya. Yogananda ensinou quatro técnicas básicas: exercícios de energização, que geralmente levam 15 minutos para serem realizados; a técnica Hong-Sau de concentração; a técnica do OM, para ouvir o som interior; e  Kriya, ou ativação das correntes internas. Todas são aspectos do pranayama porque trabalham com a energia vital. E, mesmo uma breve experiência disso que existe dentro de nós já é suficiente para fazer todos os nossos esforços terem valido a pena, para nos fazer dizer, “Meu Deus, eu não sou o corpo – eu sou uma criatura espiritual, sou a alma!”.

Como se originou a Kriya Ioga? Como ela chegou até o ocidente? Qual é seu objetivo?
Mahavatar Babaji – um dos santos mencionados no livro Autobiografia de um Iogue – em 1861 reviveu a ciência da Kriya, perdida na Idade das Trevas. Ele a ensinou a seu discípulo Lahiri Mahasaia, que a transmitiu a seu discípulo Sri Yuikteswar que, por sua vez, passou-a para Yogananda. Sri Yukteswar pediu a Yogananda que viajasse até o Ocidente e divulgasse a Kriya para todas as nações. O objetivo é ajudar as pessoas a se interiorizar e experimentar Deus.

Hoje em dia os preceitos de Yogananda continuam sendo transmitidos sem qualquer mudança ou foram adaptados de alguma forma?
Eles são transmitidos em sua forma original, sem nenhuma adaptação. Esse tem sido o principal objetivo da atual presidente da Self, Sri Daya Mata, há mais de 50 anos.

Yogananda e a maior parte das disciplinas orientais falam de estados de superconsciência chamados samadhi. Poderia nos falar um pouco sobre eles?
Existem dois estados de samadhi. No primeiro, a pessoa se encontra tão interiorizada que perde a consciência do corpo físico. No estágio seguinte, o mais elevado, a pessoa tem completa consciência de Deus e, ao mesmo tempo, está ciente de seu corpo. Acredite: caminhar, trabalhar, interagir com os outros totalmente unido ao Criador não é nada fácil.

Quando se funde ao Deus Supremo, o praticante perde sua existência como pessoa? A experiência de samadhi se dá de maneira igual para todos?
Yogananda dizia que a pessoa retém sua individualidade quando se funde com o Espírito Supremo. Na verdade, o que ela tem é uma expansão total de sua consciência. O estado de samadhi, de certa maneira, é igual para todos. Todos que descem de avião em São Paulo vêem as mesmas paisagens mas sua interpretação interna é diferente. Por essa mesma razão, como somos indivíduos, o romance entre Deus e cada um de nós é único.

Como a Self-Realization Fellowship vê o Brasil para o próximo milênio?
Nós vemos almas tão bonitas aqui. Almas tão boas encarnaram neste país. Elas estão por toda parte! A Self continuará ajudando as pessoas a se aproximarem de Deus, não só no Brasil mas no mundo inteiro. Aqueles que têm suas próprias religiões, ótimo. Nós incentivamos as pessoas a serem melhores católicos, melhores protestantes, melhores em qualquer coisa. Aquelas que ainda não definiram seu caminho, essas podem se informar para ver se as técnicas de Yogananda satisfazem seus anseios internos. Existem muitos membros da Self que continuam a freqüentar suas igrejas, porque a ioga é uma ciência universal.

Como a Ioga encara as mensagens referentes à passagem do milênio, especificamente as que falam sobre o fim do mundo e a ocorrência de catástrofes?
O Mestre costumava dizer que o ciclo de vida do universo é muito longo, e o fim está bem distante. Ao mesmo tempo, nós não somos adivinhadores do futuro. É como o carma pessoal: as pessoas dizem, “Coisas ruins acontecem comigo por causa do meu carma negativo...”  Mas o carma é apenas o resultado de uma causa e um efeito. Esse é um princípio maravilhoso! Significa que nós podemos mudar o futuro! O mundo não é uma sucessão de acidentes atrás de acidentes – um caos total. Não. Nós podemos controlar o futuro. Mudando minhas atitudes hoje eu posso fazer meu futuro melhor. O futuro está em nossas mãos.

Yogananda disse que enquanto houver uma única alma precisando de ajuda ele voltará a este planeta, vez após outra. Existe alguma previsão de quando ele voltará a encarnar na Terra?
Sem dúvida o Mestre irá voltar, mas ainda não temos uma data e lugar específicos. Isso, pelo menos, eu posso dizer. Não sei será daqui a alguns séculos, se será na Índia, mas ele tinha muito amor pelas pessoas. Yogananda dizia, “Como posso desfrutar da união com Deus enquanto há pessoas sofrendo?”.

Qual é a mensagem principal que Paramahansa Yogananda deixou para o mundo?
Que o amor a Deus é vital. Ele disse, “Quando eu me for, só o amor poderá ocupar meu lugar”.  E foi isso que todas as grandes almas ressaltaram – Jesus, Buda, Krishna. Ontem alguém estava me dizendo que devem existir bilhões e bilhões de lugares iguais à Terra no universo. Uma pessoa poderia viajar a todos eles e ainda não encontrar o que procura. E o que estamos procurando? A alma em nosso interior. Ela anseia por uma satisfação que não pode ser encontrada no lado de fora. Quando finalmente aprendemos a colocar nossa atenção dentro, aí a alma percebe que, “Meu Deus – é isso! Isso é o que eu estava buscando!” A mensagem do Mestre, assim como de todos os grandes iluminados, é: “Ame a Deus e ao seu próximo”. E ele nós trouxe as técnicas, para nos ajudar a redirecionar nossa atenção.

Um Mestre Notável

Paramahansa Yogananda, autor do clássico espiritual Autobiografia de um Yogue e considerado uma das mais proeminentes figuras espirituais de nossa época, teve um papel muito importante na divulgação da sabedoria oriental no Ocidente.
Nascido ao norte da Índia, Yogananda chegou aos Estados Unidos ainda jovem, em 1920, convidado a participar do Congresso Internacional de Religiosos Liberais como representante da Índia. No mesmo ano, ele fundou a Self-Realization Fellowship com o propósito de disseminar seus ensinamentos sobre ioga e a milenar ciência da meditação.
Em 1925, fixou residência em Los Angeles, onde estabeleceu a sede internacional de sua organização. Na década seguinte, viajou intensamente e ministrou inúmeras conferências, falando para auditórios superlotados em várias cidades da América e Europa.
Paramahansa Yogananda nasceu com o nome de Mukunda Lal Ghosh, em 5 de janeiro de 1893, na cidade de Gorakhpur, Índia. Desde os primeiros anos ficou evidente que sua percepção e experiência do mundo espiritual eram incomuns. Na juventude, ele procurou muitos sábios e santos esperando encontrar o Mestre que o guiaria em sua busca interna. Finalmente em 1910, com 17 anos, conheceu o venerado sábio indiano Swami Sri Yukteswar, em cujo eremitério passou a maior parte dos dez anos que se seguiram. Em 1915, após diplomar-se pela Universidade de Calcutá, tornou-se monge da Ordem dos Swamis, ocasião em que recebeu o nome de Yogananda (que significa bem-aventurança, ananda, por meio da união divina, ioga).
Em 1917, Yogananda fundou uma escola onde modernos métodos educacionais eram combinados à ioga e a uma educação nos ideais espirituais. Paramahansa conheceu Mahatma Ghandi uma década mais tarde e, a pedido do próprio Ghandi, iniciou-o na ciência da Kriya Ioga. Em 1946, a história de sua vida foi publicada no livro Autobiografia de um Yogue. Reconhecido desde o início como um marco literário, a obra permanece até hoje como uma das mais importantes sobre o pensamento espiritual do Oriente.
Paramahansa Yogananda faleceu em 7 de março de 1952, em Los Angeles, durante um banquete em homenagem ao embaixador indiano nos Estados Unidos. Diante de dezenas de pessoas, assim que concluiu seu discurso com o poema Minha Índia, o grande Mestre deslizou para o chão.
Seu corpo ficou sendo velado em um retiro espiritual durante quase um mês, até a chegada de devotos indianos. Durante todo esse período ele permaneceu imutável, sem o menor sinal de decomposição, fato que causou grande admiração em toda a comunidade médica.

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