O Profeta Adormecido

2009-04-17 18:24

Cinqüenta e quatro anos após sua morte, Edgar Cayce parece estar mais vivo do que nunca. As profecias do ‘maior místico da América’ continuam chamando a atenção de milhões de pessoas em todo o mundo.

    Ele foi barman, guarda-costas de um senador, lavador de cavalos numa fazenda, trabalhador agrícola, vendedor, fotógrafo -- mas o que marcou sua vida foi, definitivamente, uma capacidade psíquica fora do normal. Mesmo quem não consegue aceitar com facilidade a existência de fenômenos parapsicológicos acaba concordando que o norte-americano Edgar Cayce, nascido no Kentucky em 18 de março de 1877, não era uma pessoa comum. Durante anos ele realizou suas leituras, oferecendo informações precisas e importantes para a saúde de incontáveis indivíduos, além de uma série de visões do futuro e passado, especialmente com relação à Atlântida. Quando se encontrava em estado alterado de consciência, ou hipnose induzida, o chamado profeta adormecido era capaz de responder a qualquer pergunta apresentada.
    As capacidades psíquicas de Cayce começaram a se manifestar quando ele ainda era bem jovem. Único filho homem em uma família de cinco crianças, Edgar era do tipo solitário, mas gostava muito de conversar com primos e outros parentes – já falecidos. Sim, ele se relacionava com os mortos como se ainda estivessem bem vivos. Sua vida escolar também foi imensamente favorecida por outra de suas capacidades paranormais: um dia, ao ler um livro, Cayce adormeceu e, quando acordou, percebeu que tinha absorvido todo o conteúdo do volume. Apesar do sucesso na escola com essa habilidade, ele resolveu abandonar os estudos e trabalhar para ganhar a vida.

Mudança de Rumo
    Aos 21 anos, a trajetória de Edgar Cayce começou a tomar um novo rumo. Na época, em 1898, ele trabalhava como representante de uma fábrica de papel de carta quando foi acometido de um sério problema na garganta, uma afonia causada pela paralisia dos músculos da laringe. Temendo perder totalmente a voz, o jovem procurou alguns médicos, que julgaram seu caso incurável. Não aceitando esse fato, Cayce obteve ajuda de um amigo que, nas horas vagas, praticava hipnotismo. Colocado em estado hipnótico, ele conseguiu prescrever um tratamento para seu problema –provocar o aumento da circulação sangüínea nessa parte da garganta. Em outras palavras: fazer uma massagem.
    O resultado desse tratamento simples foi uma total recuperação das cordas vocais, para surpresa sua e de seus parentes. Em pouco tempo a notícia extrapolou o círculo familiar e vários doentes começaram a procurá-lo. Cayce fazia de tudo para rechaçar a posição de ‘milagreiro’ que lhe imputavam, sabendo que não tinha nenhum conhecimento de medicina. Essa situação só mudou quando os médicos da região de Hopkinsville, sua cidade, resolveram fazer uma espécie de prova, enviando-lhe vários pacientes para tratamento. Cayce aceitou o desafio e, sob hipnose, receitou tratamentos absolutamente adequados para todos. E foi justamente nesse período que ele descobriu um fato surpreendente: não era preciso estar diante do paciente para diagnosticar uma enfermidade. O paranormal só precisava saber o nome e endereço da pessoa, bem como o local em que ela se encontrava no momento da ‘sessão’.

Temos o Corpo
    Cayce chamou essas sessões de leituras porque era exatamente isso que ele dizia fazer. “Não tenho qualquer mérito”, afirmou certa vez. “Em meu sono, não faço mais do que ler em voz alta aquilo que vejo escrito em preto no branco.” As sessões seguiam sempre o mesmo ritual: Cayce fixava o nome e endereço do paciente, relaxava num sofá e adormecia sob efeito hipnótico. Sua esposa Gertrude tinha a função de fazer as perguntas ou orientar a narrativa, enquanto a secretária Gladys Davis anotava as respostas fornecidas.
Inicialmente ele começava a se agitar e pronunciava frases incoerentes ou palavras incompreensíveis, até surgir a frase que determinava o início das leituras: “Sim, temos o corpo”. Quando algum trecho de sua fala necessitava de explicação adicional, Gertrude fazia mais perguntas, tentando esmiuçar a explanação do vidente. Terminada a sessão, Cayce voltava à consciência e não se recordava de nada do que dissera.
    Ao longo de 43 anos de consultas psíquicas, o profeta adormecido atendeu cerca de 8 mil pessoas e deixou mais de 14 mil transcrições de suas leituras, a maioria referente às consultas propriamente ditas. Cerca de duas mil e quinhentas, realizadas entre 1924 e 1944, falam sobre a Atlântida, e outras tantas são previsões de inúmeras catástrofes, o que inclui terremotos na Califórnia e as duas guerras mundiais.
    Um novo direcionamento das leituras começaria em 1923, quando o empresário Arthur Lanmers, de Dayton, Ohio, procurou Cayce, não para resolver problemas de saúde, mas com um tipo diferente de questionamento. Ele queria saber qual é o significado da vida, as origens do homem, os mistérios do nascimento e da morte. Cayce, que jamais havia considerado a possibilidade de utilizar seu dom para algo que não fossem os diagnósticos, aceitou o convite de Lanmers, visitou-o em Dayton e deu início ao que passou a ser chamado de leituras de vida.

Catástrofes
    As profecias d o vidente sobre destruições violentas foram, como era de se esperar, as que mais chamaram atenção. Seu filho, Edgar Evans – um engenheiro elétrico aposentado que vive em Virginia Beach, a cidade onde seu pai morreu –, disse que das 14 mil leituras realizadas, cerca de 200 não corresponderam à realidade. Uma delas foi relativa à Esfinge, a gigantesca construção em Gizé, no Egito. A profecia de Cayce dizia que o monumento fora erguido em 10500 a.C. e que os sobreviventes da Atlântida haviam construído uma câmara embaixo dele, onde estaria contida toda a sabedoria de sua civilização e a verdadeira história da raça humana. Essa câmara seria encontrada e aberta entre 1996 e 1998, e o evento estaria relacionado à segunda vinda de Cristo. Segundo o historiador Arnold Toynbee e a maioria dos arqueólogos, a Esfinge foi construída pelo faraó     Quéfren, cujo reinado se deu aproximadamente entre 2558 e 2434 a.C.. Até 1999, nada foi descoberto sob ela, apesar de muitos pesquisadores entenderem que a relação da antiga sociedade do Egito com a Atlântida é mais do que mera especulação, e que algumas datas precisariam ser revistas.
    Uma atenção especial foi dirigida ao período que estamos atravessando agora, já que as mudanças globais previstas por ele deveriam ocorrer ao redor de 1998. Muitas dessas transformações são geográficas, com terremotos devastando os Estados Unidos e, em particular, a Califórnia. Edgar Evans – que publicou o livro Mysteries of Atlantis Revisited, onde compilou informações e estudos sobre as profecias do pai – diz que, em 1987, a     American Association of Engineering Society fez um estudo sobre as regiões passíveis de sofrerem abalos violentos nos EUA e constatou que são exatamente as que Cayce havia se referido nas leituras 60 anos antes. E mais: os cientistas responsáveis pelo estudo disseram que as possibilidades de um terremoto gigantesco no oeste do país nos próximos 25 anos – ou seja, até 2012 – são de 100 por cento.
    Nova York também surgiu nas leituras e seria destruída. Ninguém perguntou como isso iria acontecer, de modo que Cayce jamais falou se a catástrofe seria ou não provocada por um terremoto. Outras regiões dos EUA também foram citadas como vítimas de mudanças radicais em sua geografia devido a abalos sísmicos. Com relação ao restante do mundo, o profeta previu que uma grande parte do Japão seria inundada pelo mar e alguns trechos da Europa sofreriam grandes alterações – até que, em meio a tantos cataclismos modificando a face do planeta, uma grande massa de terra se reergueria no Oceano Atlântico: o continente submerso da Atlântida.
    Segundo Cayce, por volta de 1968 ressurgiriam as primeiras partes da lendária civilização, possivelmente na região das Bahamas. Essa é, com certeza, uma das previsões que mais chamaram a atenção dos pesquisadores. Em 1968, uma descoberta na região das Bahamas, mais exatamente nas Ilhas Bimini, revelou as ruínas submersas de uma civilização desconhecida. Aparentemente as ruínas não têm nenhuma relação com a civilização maia, o que levou muitos à suposição de que realmente se tratava da lendária Atlântida. Até hoje essa teoria é considerada, uma vez que ninguém conseguiu definir a qual cultura associar a polêmica descoberta.

Atlântida
    As cerca de duas mil e quinhentas leituras de Edgar Cayce sobre o continente submerso, além de impressionantes pela riqueza de detalhes, foram responsáveis por centenas de estudos e pelo desenvolvimento de um verdadeiro culto ao tema. Especialmente por ele ter dito que os atlantes estavam reencarnando na América e ter-se referido à existência e utilização de cristais como fonte energética na antiga cidade. A Atlântida retratada por Cayce tinha um desenvolvimento científico fora do normal, possuindo aparelhos voadores, autômatos, instrumentos antigravidade e, provavelmente, armas nucleares, se acreditarmos na interpretação de alguns estudiosos das leituras – a linguagem em que as descrições foram obtidas é, muitas vezes, obscura, dando margem a diferentes interpretações.
    As narrativas obtidas em hipnose também falam que a Atlântida existia por volta de 200 mil a.C., com sua destruição ocorrendo em três etapas: por volta de 50 mil a.C., 28 mil e a derradeira em 10 mil a.C.. Antes de cada um desses períodos, os sinais do fim levaram parte da população a abandonar o continente, emigrando para a Europa, África e Américas, originando um série de civilizações desenvolvidas. Cayce também falou sobre a existência de gigantes e anões atlantes, e de uma convivência harmônica entre tecnologia e espiritualidade. A queda da sociedade teria começado quando os Filhos de Belial passaram a fazer mal uso dos inventos desenvolvidos.
    Ainda que não exista razão para se duvidar das leituras de Cayce, muitos estudiosos acreditam que sua visão da Atlântida e sobre o passado do mundo coincide em muitos pontos com outras versões, já conhecidas e discutidas na época em que ele viveu. Nada disso invalida a priori as suas visões ou coloca suas boas intenções em dúvida. A parapsicologia levanta uma série de teorias sobre como ocorrem as visões do futuro ou do passado (vide box), sem necessariamente taxá-las de fraude deliberada.
    A última profecia de Edgar Cayce surgiu em uma leitura pessoal realizada em dezembro de 1944. Acamado devido a uma embolia, ele disse que iria falecer no dia 3 de janeiro de 1945. Nessa data específica, o profeta adormeceu para sempre.

[Box]
Precognição
    Na parapsicologia, as visões do futuro são chamadas de precognição – o conhecimento prévio de um evento que irá acontecer, sem fazer uso de deduções racionais baseadas no conhecimento do presente. Talvez seja o fenômeno mais inexplicável, uma vez que se refere à natureza do tempo. Centenas de teorias já foram elaboradas na tentativa de entende-lo, mas são impossíveis de serem comprovadas.
    As informações sobre o futuro costumam surgir das mais variadas formas – em sonhos, visões, estados de transe ou hipnóticos, intuições súbitas ou, segundo algumas religiões, pelo contato com espíritos. A existência do fato já foi comprovada pelos estudos científicos do dr. J.B. Rhine, na Universidade de Duke, EUA, através de experiências com as chamadas Cartas Zener.
    Alguns cientistas rejeitam a possibilidade da precognição, afirmando que seria uma inversão do princípio de causalidade – ou seja, é impossível que um efeito surja antes de sua causa. Para Rhine, uma vez que o fenômeno foi cientificamente comprovado, por mais logicamente improvável que pareça, não pode ser deixado de lado pela cinência.
    Para explicar os possíveis erros em algumas previsões surge a simples idéia de que informações sobre o futuro não podem ser absolutas – muitos fatores podem influir no rumo dos acontecimentos, sem contar que as previsões ainda podem sofrer interpretações erradas de quem as recebe.
    Alguns estudiosos levantaram outra possibilidade: assim como um evento presente tem repercussões no futuro, ele também pode ter um efeito no passado, espalhando-se como uma onda de informação, captada por certas pessoas. Quanto mais distante do epicentro do fato, maior a possibilidade de perder informação e, com isso, errar a previsão.

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