O Misterioso Cálice de Cristo
2009-05-04 18:32Uma das lendas ou relatos que mais tem movimentado a imaginação da humanidade nos últimos séculos é a do Santo Graal, alvo de uma busca incessante e de muitas controvérsias.
Ubiratan S. Schulz
A existência de um antigo cálice escondido em algum lugar de nosso vasto mundo, como o imaginário Shangri-Lá, parece demasiadamente fantástica para ser aceita pelo espírito racional do leitor. Todavia, um exame das provas históricas vindas de países e locais muito distantes uns dos outros demonstram a estreita semelhança das narrativas e crônicas sobre esse famoso cálice, que há séculos se apresenta como um dos grandes enigmas da história humana.
As lendas sobre o Graal são muito antigas. Todas as suas ressonâncias cristãs são apenas coincidências que surgem da conjunção de certos símbolos, imagens ou estruturas profundas da mente (os arquétipos, segundo os define C. Jung, baseiam-se em conceitos pré-cristãos, originados nos primeiros séculos d.C.). Se nos restringirmos aos fatos, todos os textos que chegaram a nós referem-se a um período notavelmente breve da Idade Média — alguns foram produzidos entre 1175 e 1220, outros, entre 1220 e 1230. Contudo, em todos eles se nota o caráter pré-cristão das lendas antigas. Nenhum escritor anterior à Idade Média menciona qualquer dos elementos fundamentais nas lendas do Graal, e o nome de José de Arimatéia aparece como se tivesse sido colocado ao acaso.
A partir de então, nada mais foi escrito sobre o assunto devido ao início da repressão da igreja contra as heresias que pareciam florescer como trigo. Porém, como no século XIV a Igreja já vencera as Ordens Templárias (Ordem dos Cavaleiros Hospitalários, de São João; os Cavaleiros Teutônicos, etc), ocorreu um pequeno ressurgimento das novelas e cantos épicos, nos quais as velhas lendas já apareciam devidamente cristianizadas. Assim, o Graal e os Cavaleiros foram reduzidos à condição de elementos ‘românticos’, e a lenda se converteu em novela. Procuremos, então, a informação no grupo das lendas, onde sobreviveram os símbolos e pistas que nos permitirão ir mais fundo nos misteriosos símbolos dos Guerreiros Sagrados, em particular no mais misterioso de todos: o Graal.
Em Busca da Lenda
O primeiro livro a esboçar uma visão grandiosa sobre o Rei Artur e seus Cavaleiros da Távola Redonda foi a Historia Regum Britanniae (História dos Reis da Bretanha), considerado por alguns como um dos principais manuscritos da Idade Média. Concluído em 1136, foi escrito por Geoffrey de Monmouth, clérigo e professor de Oxford. Monmouth afirmava ter utilizado como fonte de pesquisa um antigo volume escrito em idioma britânico, embora não haja vestígios dessa obra misteriosa. Nesse momento é introduzido Merlin (Myrddin, cujo nome mudou com os séculos para Merlin) que, sem discussão, é o mais famoso mago de todos os tempos.
Em um relato, Merlin faz os megalitos de Stonehenge voarem da Irlanda até a planície de Salisbury, na Inglaterra. Geoffrey também descreve a maneira como o feiticeiro fez os arranjos para que Uther Pendragon — na antiga Bretanha um Pendragon impunha-se aos diversos reis — chegasse até Igraine, a linda duquesa da Cornualha, disfarçado como seu marido. Após esse encontro, a duquesa engravidou, tendo concebido Artur.
Uma outra lenda afirma que Lúcifer, quando foi expulso dos céus, trazia uma pedra colada na testa — uma esmeralda funcionando como um terceiro olho. Quando o anjo rebelde foi lançado à Terra, a esmeralda partiu-se e a sua visão ficou prejudicada. Um pedaço permaneceu na testa dele, dando-lhe uma visão distorcida de sua situação como anjo caído, e o outro fragmento foi guardado pelos anjos celestes. Mais tarde, o Graal teria sido esculpido desse segundo pedaço.
De acordo com A Batalha de Mag Tured, a tradição irlandesa menciona que os Tuatha (seres considerados como ‘o conjunto dos iguais’) se dirigiram à Ilha Maravilhosa, a Avalon, a Thule — a misteriosa ilha do mar do norte (veja matéria na Sexto Sentido 11) — levando quatro objetos: um cristal ou jóia chamada A Fatídica, capaz de explorar o futuro e adivinhar quem seria o legítimo Rei (será que estamos falando das pedras negras de Lilith?); uma lança com o poder de tornar invencível o guerreiro que a empunhasse (a lança que feriu Jesus, o Cristo, na cruz, e chegou às mãos de Adolf Hitler? Ver Sexto Sentido 11); uma espada, a inexorável Excalibur (Caliburn), cuja invencibilidade se relacionava à legitimidade da mão que a empunhasse; e finalmente, uma copa ou cálice, a copa de Dagdé, inesgotável como uma cornucópia, cujo conteúdo saciava a todos os guerreiros, repondo suas forças, curando suas feridas e elevando seus espíritos.
O Graal na Bretanha
Na Inglaterra existe um local chamado Glastonbury, impregnado de magias e lendas que remontam à era pagã. Segundo a tradição, ali seria o antigo sítio da etérea ilha de Avalon, aonde Artur teria sido levado para que seus ferimentos fossem curados pela fada Morgana. Hoje uma cidade pequena mas movimentada. há muitos séculos a comunidade de Glastonbury encerrava-se em uma ilha cercada de pântanos que, com o tempo, foram drenados. Seu antigo nome celta era Ynis Witrin, ou ilha de vidro. Segundo a lenda, o cristianismo chegou cedo ao local. José de Arimatéia teria sido o fundador da vila no primeiro século da era cristã. Com ele teriam vindo doze missionários e o Santo Graal.
Em sua obra Parsifal, Wolfram Von Eschenbach menciona que obteve informações nos trabalhos de um certo Kyot, o Provençal, que teria encontrado a lenda de Parsifal e o Graal nos textos pagãos por ele decifrados, graças a seu conhecimento sobre os ‘caracteres mágicos’ (letras rúnicas?). Kyot anuncia que “esta história... não se conta à gente que não pode compreendê-la”. E ainda acrescenta: “Somente se devem revelar seus segredos àqueles a quem Deus dotou de forças suficientes. A grande história do Graal jamais foi estudada pelos homens mortais”.
Agora vamos falar um pouco da Bretanha ou Britania, terra dos Brittons ou Bretões, de onde vem a história do pai do Rei Arthur, Uther Pendragon, e de seu irmão mais velho e pai de Merlin, Ambrosius Pendragon, que participava de rituais secretos de adoração à divindade Mitra (Sol). Mitra era um deus de guerreiros, de raízes indo-ários, que chegou à Bretanha junto com as legiões romanas. Isto traria alguma luz sobre certas coincidências inquietantes entre as sagas do Graal e outros grandes mitos do Oriente, dos povos ários do Irã e Índia, como também do povo semítico dos árabes.
O Poder do Cálice
O Rei Uther era descendente direto do Rei Pescador ou José de Arimatéia, o portador do Graal Sagrado — a copa ou cálice da Suprema Maravilha. De acordo com a maioria das tradições é um cálice de ouro, embora outros afirmem que está confeccionado com uma pedra de propriedades maravilhosas, ou com uma gema preciosa, possivelmente uma esmeralda. Em suma, o cálice é resplandecente, com um brilho ofuscante que emana do próprio objeto — não é reflexo de outra luz.
Uma de suas peculiaridades físicas é que ele pode, em determinadas circunstâncias, aumentar ou diminuir seu peso de acordo com as qualidades de quem dele bebe. Não só isso, ao beber do cálice a velhice demora para chegar: José de Arimatéia atingiu a idade aproximada de 500 anos. Esse José era um cidadão nobre e pagão que chegou à Palestina e obteve o favor do procurador romano Pôncio Pìlatos graças a valiosos serviços prestados.
Depois da crucificação, José de Arimatéia obtém de Pilatos a autorização para que lhe entreguem o corpo de Jesus; ele leva o corpo e recolhe o sangue que ainda brota dele numa lindíssima copa de ouro (Jesus, sangrando, estaria vivo?). Supostamente, esse bom cidadão pediu o corpo de Jesus para limpá-lo, ungi-lo e dar-lhe uma sepultura digna.
Mais tarde, José recebeu o batismo. O mesmo Jesus o ungiu com óleos, como aos reis, dando-lhe qualidade de primeiro bispo da cristandade. Com esses mesmo óleos, vindos diretamente das mãos do Mestre, foram consagrados os reis britânicos até Uther Pendragon, pai de Arthur. Talvez os óleos estejam guardados no Graal e constituam a substância maravilhosa. Uma das lendas menciona que só o cheiro do conteúdo do cálice, delicioso e cheio de energia, bastou para deixar satisfeitos e recuperados os cavaleiros presentes.
E assim, uma vez mais encontramos um aberto desafio herético à doutrina da Igreja: José não era cristão, contudo, recebeu do mesmo Jesus tanto o Graal quanto a unção. Roberto de Bron faz alusão a uns misteriosos antepassados de Arimatéia, seres solares do Oriente, que obviamente não eram cristãos.
O Local
Os Templários trouxeram de suas viagens muitas histórias sobre o Reino de Preste João. Preste é uma abreviação de presbítero, título ocasionalmente adotado por sacerdotes e anciões. O nome próprio pode ter vindo de João, o apóstolo que escreveu o quarto Evangelho. Se o império de Preste João foi tão magnífico quanto aparece descrito em alguns relatos e cartas, as glórias de Roma e Constantinopla são triviais em comparação. Dizem que ele é um descendente da linhagem dos Magos mencionada no Evangelho.
Geograficamente, essa região estende-se do Turquestão ao Tibete, e do Himalaia ao deserto de Gobi. O local apresenta estranhas analogias com o domínio dos Hierarcas (Mestres), descritos por Filóstrato na biografia de Apolônio de Tiana. Essa região distante estava cheia de maravilhas e o misterioso Imperador Indiano a regia com um Danda (cetro) de esmeralda pura. Vivia dentro de um palácio de cristal e seu leito era de safira. Seus trajes eram feitos com lã de salamandra e purificados na chama do fogo. Cavalgava dragões voadores e diante de seu palácio encontrava-se um espelho no qual o soberano podia observar todos os acontecimentos, não só nas províncias do seu reino mas também nos países vizinhos. E a maior atração era provavelmente a Fonte da Eterna Juventude. Quando se desejava rejuvenescer, bastava observar um tempo de jejum e depois beber três goles de água da fonte. A doença e a velhice desapareciam e o corpo voltava aos trinta anos. Diz-se que o próprio Preste João prolongou sua vida até a idade de 562 anos.
Podemos, então, estabelecer estranhas e interessantes coincidências. A Ordem do Templo foi fundada em 1118. Em 1184, o trovador e cavaleiro Wolfram Von Eschenbach escreveu Titural, no qual condensa todas as lendas sobre o Graal. Subentendia ele que existia uma relação entre o Graal e a Ásia, descrevendo-o como uma pedra (und dieser Stein ist Gral gennant - e esta pedra tem o nome de Graal).
Será que ele falava de Shamballa e da pedra Chintamini? De fato, Wolfran liga a lenda do Graal à de Preste João. O seu Parsifal levava a taça sagrada (ou a pedra) para a Ásia, onde até hoje está guardada em uma grande gruta sagrada, sob a proteção dos Irmãos Maiores ou, como também são chamados, Hierarquia Branca do Himalaia, Grande Irmandade Branca, G.O.M. ou Governo Oculto do Mundo, etc. (ver Sexto Sentido 13).
O Néctar Divino
Existe na Índia, desde tempos imemoriais, um festival chamado Kumbha Mela, o Festival dos Cântaros de Cerâmica. Segundo as escrituras, deuses e demônios trabalharam juntos no passado distante para extrair do oceano o néctar da vida eterna, chamado amrita, que era recolhido em um cântaro de nome Kumbha Dourado. Então, desde milhares de anos até os tempos atuais, o Graal é utilizado pelos indianos em rituais e práticas (pujas), nos quais esse vaso ou cálice é chamado pela “ciência mística experimental” de Kamandalu.
O material do qual ele é feito deve ser o mais puro e natural possível e, dependendo da tradição religiosa, vai do ouro, prata ou bronze até madeiras (como a tigela de Buda), pedra, coco e crânios humanos. O mais interessante é que os livros sagrados da Índia e os próprios santos (sadhus) afirmam que dentro do Kamandalu está o néctar divino, o Amrita, a bebida da imortalidade — ou, como os cristãos nomearam, A Água da Vida. Prestem bem atenção: eu disse Água, um liquido puro, sagrado, que contém vida, e não qualquer outro elemento.
Existe mais uma história, muito bem contada e com inúmeros detalhes, que nos fala da ida de Jesus para a Índia após a crucificação; mais especificamente para a Cachemira, culminando com o seu túmulo na cidade de Srinagar, no bairro ou subúrbio de Rauzibal Khanyar. O túmulo de Yuz Assaf!. O profeta que realizou diversos milagres, vinha de uma terra estrangeira e é também conhecido com Iésu, Issa e morreu já muito velho no ano de 109 d.C.
Mas isso é um outro assunto que fica para uma outra vez.
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