O Longo Caminho do Tao
2009-05-04 15:02O taoísmo é, provavelmente, uma das mais antigas e conhecidas vertentes do pensamento filosófico e místico chinês. Entendendo o mundo como conseqüência do Tao, busca unir a essência pessoal a uma conduta que esteja de acordo com as leis do caminho da evolução espiritual.
Alex Alprim
O taoísmo é, na verdade, o resultado de uma busca pela salvação, que nasce de uma crise de fé nas antigas religiões chinesas. Devido a diversos fatores, ao longo da história da China, floresceram inúmeras crenças e escolas filosóficas com características muito particulares, algumas delas semelhantes às estruturas religiosas que viriam a surgir séculos depois no Ocidente.
A religiosidade chinesa ancestral tinha uma idéia de Universo no qual havia um deus único e do qual os homens dependiam. Um deus que punia os maus e recompensava os bons. Além disso, havia uma grande quantidade de santos e seres subordinados a essa força maior, seus auxiliares em diversas tarefas. Toda a vida diária e os estados feudais eram regidos por essa estrutura monoteísta, que se manteve inalterada por séculos.
Com o tempo, essa visão ruiu. A idéia de um mundo perfeitamente ordenado em torno das idéias de bem e mal, do certo e errado, foi colocada em xeque. A visão das coisas do mundo real não condizia com tal intervenção divina. A população pobre sofria com a opressão dos tiranos e sentia o desespero tomar conta de suas vidas. Como resultado, apelavam para as forças de outros deuses, realizando sacrifícios que incluíam até mesmo animais. Nesse período, anterior a 600 a.C., o temor às forças ocultas ganha espaço e leva a China a atravessar um período de trevas e medo, em muitos aspectos semelhante à Idade Média no Ocidente.
É nesse panorama que ganha força um novo pensamento, o taoísmo, que vai contra a visão monoteísta e as religiões supersticiosas. Para o pensamento taoísta, tudo o que tais religiões pregavam não passavam de vícios que afastavam o homem da verdade. Assim, o taoísmo buscava as respostas para os problemas diários das pessoas e da nação, não em um conjunto de deuses e deidades, mas, sim, no Tao, a via original de onde tudo o mais teria surgido.
A estrutura metafísica que se tornaria a espinha dorsal do taoísmo, como o conhecemos hoje, surgiria do trabalho de três sábios: Lao-Tsé (570 a.C.), Yang-Chu (440 - 366 a.C.) e Chuang- Tsé (369 - 286 a.C.). É por meio das obras desses filósofos que se desenvolve uma visão que vai muito além daquela que a religião popular atingia. Segundo eles, o mundo vivia em constante transformação (a Lei da Mutação), e nele cada ser humano era livre das opressões sociais, políticas e dos sacrifícios, desde que mantivesse a harmonia com as energias do Tao.
Duas Vertentes
O desenvolvimento do taoísmo levou ao surgimento de duas vertentes: o taoísmo metafísico e filosófico (tao kia), e um taoísmo de natureza mística, que revela resquícios da antiga religião xamânica chinesa (tao kiao). As estruturas religiosas que se formaram depois levaram à criação de templos e de monastérios por toda a China, e sua influência foi sentida no país, sob o ponto de vista cultural e político, por muitos séculos.
A literatura taoísta, que se iniciou com pouquíssimos textos, cresceu com o tempo e hoje é composta, em sua versão reduzida, por mais de 1.120 volumes. Contudo, podemos começar a compreender a filosofia taoísta e suas implicações por meio da exposição que Lao-Tsé fez em seu único texto, o Tao Te Ching, e pela leitura de Ensinamentos Essenciais, de autoria de Chuang-Tsé. Em ambos, ficam claros os dogmas e princípios da natureza espiritual e reveladora de sua filosofia, permeada por uma sabedoria simples e direta, segundo a qual a realização espiritual e pessoal permite uma ligação com as forças do Tao.
A busca taoísta, entretanto, não segue apenas na direção da elevação espiritual, mas se estende por outros campos. Como o homem faz parte do Tao — e, por conseqüência, do Todo —,todo o conhecimento sobre o funcionamento das leis da natureza e da vida deve ser compreendido para que possamos seguir corretamente a energia do Caminho.
Para que melhor conhecessem essas leis da natureza e da vida, monges e mestres taoístas passaram a estudar os mais diversos ramos do conhecimento chinês, como a alquimia, a astrologia, a medicina e a magia antiga, inclusive resgatando alguns conhecimentos do chamado Período de Ouro, quando teriam vivido o lendário Imperador Fu-Hsi (a versão chinesa do civilizador Hermes Trimegistos) e do Imperador Amarelo (Rei Wen). Alguns taoístas também começaram a buscar a imortalidade, utilizando-se desses conhecimentos para assim atingir o Tao.
Com os estudos taoístas, foi possível preservar diversos escritos como o I Ching, os conhecimentos do Feng-Shui, entre outros. Isso levou o taoísmo em outras direções, que tinham mais a ver com a evolução das suas instituições do que com os ensinamentos dos antigos mestres. Ao longo dos anos, os templos e mestres taoístas passaram a participar das principais festas populares chinesas, inclusive comandando muitas delas. Esse processo permitiu uma maior popularização da filosofia, o que por sua vez levou ao surgimento de uma religião organizada, que mais tarde se uniu às diversas fases de crescimento do império chinês.
O Tao
O termo taoísmo somente começou a ser usado após o século I a.C., e originalmente remete ao livro de Lao-Tsé, Tao Te Ching (o livro que conduz ao poder inerente do Tao). A idéia básica presente em todo o livro reflete o que em chinês chama-se wu-wei, que seria no Ocidente o equivalente à idéia de não-ação, muito embora a idéia de ficar simplesmente parado e passivo não expresse o wu-wei corretamente. A compreensão real desse conceito vai além e resulta numa forma de viver e agir que está de tal forma ligada às leis do Universo (do Tao) que qualquer atitude passaria despercebida, pois estaria em perfeita harmonia com o Cosmo, passando, assim, a fazer parte da própria criação.
O taoísmo enxerga as forças do Céu e da Terra como desprovidos de intenção, tanto para o bem quanto para o mal, ao contrário da noção que prevalecia anteriormente, na qual eles personificavam divindades. As forças que prejudicam o homem se originam de sua conduta errada em relação ao curso do Tao — para os chineses, o Tao é como um caminho, um fluxo de energias —, e não do desejo dos deuses. Se seguisse o Caminho (Tao) corretamente, a pessoa viveria uma vida de bem-aventurança e de realização espiritual.
Outro fator importante, e ao mesmo tempo revolucionário, foi a visão que os antigos mestres taoístas tinham sobre a verdade e o Tao. Em todas as religiões gasta-se imenso tempo e discussões para explicar as atitudes divinas e o que viria a ser a verdade revelada. No taoísmo, não existe essa necessidade. Lao-Tsé já afirmava nos versos do Tao Te Ching: “O tao que se pode falar nunca será o Tao”. Sendo assim, embora os taoístas não abdicassem da busca pela união com o Tao (o Caminho), eles buscavam fazê-lo de maneira direta, sem intermediários nem definições filosóficas. Essa atitude deixou a classe religiosa de então em polvorosa, pois ela perdia o monopólio da verdade e, conseqüentemente, seu poder temporal. Embora posteriormente tenham surgido templos e monges taoístas em grande quantidade, essa verdade dita há mais de 2.000 anos continua viva até hoje.
A força do taoísmo se reflete na atualidade dos seus textos, que permitem ao leitor de hoje sentir o fluir das energias da vida em seu redor, compreendendo que a verdade final nada tem a ver com o desejo ou os sentimentos egoístas dos homens, mas com o constante fluir das forças do Tao e com nossa harmonia com esse Caminho.
Os Ensinamentos Eternos
Os textos do Tao Te Ching exemplificam melhor do que qualquer dissertação a filosofia do Tao. Ao longo dos 26 versos do Tao Te Ching, Lao-Tsé expõe os princípios básicos de seu pensamento e, como todo sábio verdadeiro, para aqueles que têm ouvidos para ouvir, ele abarca o todo em poucas palavras. Contudo, para outros, o que ele diz não significa absolutamente nada. Se Lao-Tsé estivesse vivo, talvez dissesse para esses que era realmente essa a sua intenção. Abaixo seguem algumas partes do Tao Te Ching e os comentários.
- O Tao
“O Tao que pode ser falado,
não é o Tao.
O que pode ser dito,
não é eterno
(...)
Dirigir-se para o “não-ser”,
Nos remete à maravilhosa Essência
Ir para o “Ser”
Leva a profunda contemplação da limitação.
Pela origem, ambos são uma coisa só,
Mudam como são chamados....
(...)
O mistério mais profundo
é o portal por onde se conhece o Tao”
Comentário: Nestes trechos, Lao-Tsé se refere à natureza da compreensão do Tao, que é intangível para a mente racional e analítica; transcendendo as limitações do pensamento puro, podemos adentrar no maior e mais profundo mistério, compreender como nascerão as 10.000 coisas, deixando a energia da vida correr em harmonia por dentro da nossa alma-coração. Outro ponto apresentado por Lao-Tsé nesse verso é a forma de atingir o Tao, que nada tem a ver com sacrifícios ou outros atos de fé, mas simplesmente pela contemplação pura e simples.
- As ilusões e o Tao
“Se todos reconhecem a beleza,
nasce a feiúra.
Se todos sabem o que é o bem,
Nasce o mal.
(...)
O ‘ser’ gera o ‘não-ser’
e o ciclo se repete...
(...)
O fácil e o difícil se complementam.
O longo e o curto se definem.
(...)
Assim é o Sábio,
Age sem agir
Ensina sem palavras
A quem o procura ele nega
(...)
Comentário: Nesse ponto, Lao-Tsé explica a visão do Yin-Yang, dos opostos complementares que é a base da idéia taoísta da criação do mundo das aparências, o mundo material. Por meio da análise do que existe e pela libertação das aparências, enxergando que tudo está interligado por meio do Tao, podemos chegar a ver a natureza real da vida e atingir a sabedoria.
- No fim...
“O Tao é um eterno ‘não-fazer’
mesmo assim tudo fica feito
Se os reis souberem como preservar
tudo se fará por si mesmo.
(...)
Sem desejos cria-se a serenidade
e o mundo fica perfeito por si mesmo”
Comentário: Lao-Tsé reafirma o princípio do Tao em seus versos finais, acreditando que, se os governantes dos homens e da própria consciência seguirem pelo caminho do Tao, chegarão à plena evolução espiritual, atingindo a perfeita harmonia em todos os níveis, seja no espírito, na mente ou no corpo, que nesse caso se tornaria imperecível, nascendo daí a idéia da imortalidade taoísta.
Em Direção ao... Nada!
Como pode uma religião ou pensamento que prega uma visão como a taoísta manter-se viva durante tantos séculos e, inclusive, influenciar o pensamento de várias outras linhas religiosas, como estudiosos da Ciência da Religião levantaram em alguns estudos?
Na verdade, a resposta a esta questão é muito simples. Há mais de 25.000 anos, antes de existir o chamado pensamento new age — ou quaisquer das filosofias e estudos modernos que afirmam que a iluminação, na verdade, encontra-se dentro de nós mesmos —, os taoístas já falavam isso, já viam o mundo como sendo um organismo composto por ‘coisas’ inter-relacionadas, o que é a mesma ótica hoje conhecida como holismo. Podemos dizer que Lao-Tsé e seus discípulos anteviram a Era de Aquário milhares de anos antes de ela acontecer. Ou melhor, nós agora estamos apenas redescobrindo uma verdade que sempre esteve ao nosso alcance, mas que não enxergávamos porque o véu da ilusão nos cegava.
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As Traduções
Os textos chineses antigos que chegaram até o Ocidente sempre sofreram com o processo de tradução. Em vários casos, os problemas ocorrem devido a conceitos particulares da escrita chinesa antiga, que não encontram paralelo nas línguas ocidentais. Disso, resultam muitas vezes pequenas alterações que, se por um lado não alteram a essência dos textos, por outro podem revelar algumas incongruências, especialmente para os estudiosos atentos.
Contudo, é fascinante o fato de que, mesmo assim, tais textos mantenham a aura de sabedoria que possuem no original em chinês, enriquecendo a filosofia e a cultura ocidentais.
Para Saber Mais:
Chuang Tzu – Ensinamentos Essenciais - Sam Hamill e J.P. Seaton (Ed. Cultrix)
Iniciação ao Orientalismo – Antônio Henriques (Ed. Nova Era)
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