O Futuro ao Homem Pertence
2009-05-04 18:53Alex Alprim
Os oráculos, milenares em suas origens, nasceram pela necessidade humana de penetrar no futuro e obter uma melhor compreensão sobre os mistérios da vida.
O homem primitivo vivia em um meio hostil, forçado a lutar diariamente pela própria sobrevivência. A busca por comida era sempre difícil e não admitia perdedores: estes eram simplesmente eram mortos. Vivendo em condições absolutamente precárias, a partir da Idade da Pedra o homem deu início a uma busca por melhores condições de existência. Ele passou a melhorar o resultado de suas caçadas e colheitas por meio de rituais, realizados pelos feiticeiros da tribo. Esses seres de grande poder, posteriormente conhecidos como xamãs, utilizavam drogas alucinógenas, música e orações para induzir estados de transe e, com isso, tentar adivinhar o que as forças dominantes do universo queriam em troca de uma vida menos difícil. Foi quando surgiram os oráculos.
As pinturas rupestres do período paleolítico e de alguns grupos nativos, como os índios das Américas, são exemplos nítidos dessas tentativas de comunicação com o insondável. Ao pintá-las, o xamã procurava introduzir um elemento mágico que permitisse mudar o futuro e trazer a seus protegidos a possibilidade de sobreviver, não apenas aquele dia, mas durante um período bem mais longo.
Esse fenômeno ganhou força principalmente quando as tribos abandonaram o modo de vida nômade e passaram a se estabelecer em pequenos povoados. Embora tenham obtido uma série de vantagens com relação à vida anterior, os riscos também aumentaram, uma vez que viver em um lugar fixo os deixava sujeitos às alterações climáticas. A fome podia assolá-los a qualquer momento — bastava que houvesse excesso ou falta de chuva e tudo estaria perdido. Mais do que nunca, os homens precisavam prever com antecedência os fatos que determinariam seu futuro e sobrevivência.
Alguns estudiosos entendem que os povos antigos tinham tempo suficiente para profundas especulações metafísicas, mas essa é uma visão utópica e errônea, uma vez que eles também precisavam pensar em comer e lutar pela vida — o que não torna distante a conclusão de que os oráculos eram utilizados principalmente como ferramenta de sobrevivência. Nesse período de transição, em que o ser humano começa a abandonar sua vida totalmente selvagem para civilizar-se, também ocorre uma modificação nas atividades oraculares, com a utilização de pedras coloridas, madeiras e ossos para facilitar e esclarecer o contato com as forças espirituais. Cria-se uma espécie de código na relação entre homem e Deus, o que leva ao surgimento de jogos, como búzios e runas, entre outros.
Quando as energias utilizadas nos oráculos passam a contar com o apoio físico dos objetos, os transes psíquicos deixam as florestas e passam a ganhar contornos religiosos, surgindo os primeiros templos e tendo início um movimento que levará ao crescimento e sofisticação do homem em relação às forças do destino. Conhecer o futuro torna-se então uma ferramenta para alcanças as divindades e delas obter os prognósticos capazes de levar ao crescimento da civilização. Desta maneira, ao contribuir para o bem-estar físico desses povos, os oráculos também abrem caminho para o crescimento espiritual.
O Mundo Físico
Com o desenvolvimento das civilizações, os oráculos passam a ser usados para descobrir os desígnios dos reinos e da própria vida, ganhando dimensões que até então não possuíam. Essa situação leva a uma sofisticação, transferindo os oráculos da esfera do desconhecido e imponderável, com suas tradições alucinógenas e empíricas, para o mundo real, muitas vezes combinando a racionalidade com uma grande dose de intuição.
Surgem então a astrologia, numerologia e um sem-número de artes-ciências, que enxergavam o mundo físico como reflexo do espiritual. Analisando os planetas ou números era possível traçar correlações com eventos futuros, o que facilitava as decisões sobre a melhor maneira de se preparar para o que fatalmente iria ocorrer. Como os oráculos não eram imediatos e precisos, certas sociedades acreditavam que o próprio corpo humano, na condição de microcosmo, também poderia fornecer respostas sobre o que estaria por vir. Nasceram, assim, práticas como a quiromancia e o estudo das partes do corpo para prever o futuro, só que algumas seitas chegaram a extremos, realizando sacrifícios humanos para ler o destino nas entranhas das vítimas.
Para acompanhar a evolução dos tempos, os oráculos começaram a trilhar novas direções. O conhecimento religioso das sociedades antigas foi assimilado, e as características culturais e sociais dos povos locais passaram a ser refletidas nas leituras e no desenvolvimento dos métodos oraculares. A busca muda de foco e passa a ser o entendimento da própria vida. A atividade de prever é transferida aos estudiosos que, para esse fim, desenvolvem elaboradas filosofias sobre o mundo e suas leis naturais. E os oráculos se transformam numa espécie de linha direta para contatar Deus e Sua sabedoria.
Os componentes xamânicos ou fantásticos não deixam de existir, mas viram uma espécie de atividade degenerada e inferior, ligada às classes mais baixas da sociedade. A exceção fica por conta da Grécia e Roma, onde as sibilas tinham postos de destaque e suas predições eram consideradas como leis vindas direto dos deuses. Os templos de Diana e de Apolo ficaram famosos e mantiveram suas estruturas intactas durante muitos séculos, tornando-se locais de peregrinação bastante procurados. Embora esses oráculos estivessem conectados às religiões oficiais dos respectivos impérios, sua natureza continuava essencialmente xamânica.
Quando passam a ser utilizados pelas classes mais cultas, os oráculos evoluem para jogos de adivinhação, cujo objetivo era guardar o conhecimento espiritual. Assim, além de ser simplesmente um meio de contato com os deuses e o destino, tornam-se portas para o saber humano, algo impensável no início de seu desenvolvimento.
A Sabedoria das Esferas
Durante os últimos 6 mil anos, tanto no Oriente Médio como Extremo Oriente as artes místicas criaram formas oraculares, que seguiam a idéia de sistemas retentores e divulgadores do saber espiritual. É o caso do Tarot, que muitos acreditam ser fruto dos esforços do mago Hermes Trimegistos e sacerdotes egípcios, e que serviria para preservar conhecimentos milenares; e também do I Ching, que conteria em si os códigos de um conhecimento capaz de explicar até a genética humana.
Com a análise dos oráculos, esotéricos e místicos passaram a sugerir que, ao longo de nossa história, os instrumentos de adivinhação teriam servido como repositório de sabedoria. Alguns foram ainda mais longe, afirmando que os oráculos são, em sua forma mais elaborada, filtros especiais para ajudar o homem a acessar o inconsciente coletivo e as esferas superiores. Utilizando um baralho, por exemplo, a pessoa pediria uma informação, e seu desejo manipularia as cartas de maneira que o resultado final lhe fornecesse o que ela precisa saber.
Não há nada de fantástico nisso. Segundo afirmam os estudiosos, a informação já estaria presente, em nível vibratório, na própria psique da pessoa, mas inacessível em sua forma pura, sendo necessário um filtro — no caso, o baralho. O contato direto com as esferas superiores só seria permitido aos mestres espirituais que, com seu treinamento e nível evolucionário, poderiam mergulhar na energia universal e dela fazer pleno uso.
De qualquer maneira, apesar de todas as mudanças que os oráculos sofreram através dos tempos, a maioria das pessoas continua a utiliza-los com o mesmo objetivo de sempre: prever acontecimentos para buscar uma vida melhor.
Para Saber Mais:
História da Magia – Kurt Seligmann (Edições 70, Portugal)
———
Voltar