O Continente Perdido
2009-04-17 16:05Gilberto Schoereder
O que teve início como um provável relato de natureza filosófica, elaborado pelo grego Platão, transformou-se numa lenda de proporções jamais vistas no planeta, dando início a uma procura incessante pela verdadeira localização do continente da Atlântida, que teria desaparecido no meio do oceano.
Era uma vez, numa terra distante, um povo que vivia em paz com a natureza e consigo mesmo, equilibrando seus conhecimentos científicos com objetivos humanitários. Esse povo construiu uma civilização sem igual e espalhou sua influência por vários continentes, não com a intenção de conquistar, mas simplesmente para compartilhar os avanços que tinha obtido.
Até que os dias negros chegaram. Alguns sábios resolveram utilizar seu imenso saber para ganhos pessoais e dominar o povo. O resultado foi uma conflagração tão violenta que determinou o fim da civilização, a destruição de suas cidades e o desaparecimento de todo o continente no fundo do oceano.
Isso tudo poderia ser o resumo de diversas lendas das mais variadas culturas. Mas há algo nessa história que assusta, e muito: existem grandes semelhanças entre ela e o que vem acontecendo em nosso mundo atualmente: um desenvolvimento sem freios da ciência e da tecnologia, sua aplicação impensada, a possibilidade de uma guerra nuclear, o final dos tempos. Na verdade, para alguns pesquisadores, o receio do final dos tempos, que há muito incomoda a humanidade, tem relação direta com a Atlântida: é fruto do que as vítimas da catástrofe projetaram enquanto o continente submergia. Essas imagens teriam sido gravadas no inconsciente coletivo e, de tempos em tempos, sob a influência de determinados estímulos, voltariam a aflorar.
Seja como for, costuma-se dizer que a primeira referência conhecida sobre a existência da Atlântida teria surgido nas obras de Platão Timeu e Crítias –, ambas escritas por volta de 380 a.C – e, de fato, é de sua obra que foi emprestado o nome do continente. Platão fez um relato pormenorizado da cultura atlante, situando-a 9 mil anos antes de sua época. Mas outro grego, Hesíodo, já se referia a uma ‘raça de ouro’ por volta do século VIII a.C., um povo que teria existido antes da chegada dos deuses. Esta última noção, na verdade, está mais próxima do conceito sobre o Éden cristão: um local onde não existiam doenças e preocupações, onde a natureza fornecia o que era necessário para a vida e não havia necessidade de governo ou lutas pelo poder.
Mas bem antes disso, na Índia, já se falava sobre a existência de uma ‘Era de Ouro’, a krita yuga, que teria ocorrido milênios atrás, quando todos os seres eram sábios e viviam em paz. A Babilônia também conhecia histórias sobre um período no qual as pessoas viviam milhares de anos. E no Novo Mundo, desde os tupis da América do Sul até os hopi da América do Norte, a maioria dos indígenas conhece lendas sobre uma terra maravilhosa, de onde seus ancestrais teriam fugido para escapar de uma catástrofe sem precedentes.
À Procura do Mito
Assim como o Grande Dilúvio, a lenda de um paraíso perdido parece ser universal, e foi justamente esse fator que levou uma série de pesquisadores autônomos a entender que, mais do que representar um local mitológico ou estado ideal das coisas, a Atlântida existiu de fato. Nesse caso, como localizá-la? Para isso, as melhores informações vieram de Platão.
O lugar mais aceito como provável localização da Atlântida é um ponto entre a América do Norte e a Europa, a nordeste da América do Sul e noroeste da África. Alguns estudiosos, porém, entendem que o continente teria existido mais ao sul, entre a América do Sul e a África, e que ele era maior do que se imaginava, estendendo-se do hemisfério norte ao hemisfério sul. Já se falou que as ilhas Canárias seriam um resquício do continente, assim como as ilhas Bimini, nas Bahamas, próximas à costa da Flórida, onde pesquisas arqueológicas descobriram ruínas submersas.
As pesquisas mais recente são de um grupo de cientistas russos que, em 1998, enviou uma equipe de 20 pessoas, liderada por Viatcheslav Koudriavtsev, em busca de vestígios da Atlântida cem milhas a oeste da costa inglesa. No local existe um grande declive submarino onde as pesquisas da equipe indicam a existência do que poderia ter sido uma ilha, encoberta pelo oceano. Como tantas interpretações de textos antigos, os russos basearam-se na lenda de Lyonesse, que seria uma terra de imensa riqueza, também conhecida como ‘cidade dos leões’, com 140 templos e que afundou no mar. Até agora não se tem notícia do que os pesquisadores encontraram.
Antes disso, o arqueólogo Henry Schliemann – um dos mais famosos da história e descobridor de Tróia – interessou-se pela Atlântida. Paul Schliemann, neto do arqueólogo, declarou em 1912 que teve acesso a vários trabalhos de seu avô. Segundo ele, Schliemann encontrou um dos papiros mais antigos do mundo, no qual é dito que o faraó Sent enviou uma expedição à procura da Atlântida, de onde seus ancestrais teriam vindo. Mais que isso, Schliemann também encontrou peças com inscrições fenícias sobre a lendária civilização, e estabeleceu uma relação entre elas e os objetos e fragmentos encontrados em Tiahuanaco, na América do Sul.
Houve muita confusão em torno das declarações de Paul Schliemann e, como costuma acontecer nesses casos, arqueólogos ortodoxos acusaram-no de fraude. Seu avô teria encontrado o papiro no Museu de São Petersburgo, juntamente com um papiro de autoria do historiador egípcio Maneton, que situava o reino da Atlântida em cerca de 16 mil anos a.C.
Colonização
A busca pelo passado, glorioso ou não, da civilização atlante não se limitou a tentar descobrir sua localização ou ruínas. Hoje em dia, muitos acreditam que a Atlântida tenha sido um centro colonizador e, mesmo antes da catástrofe que a teria destruído, espalhou sua cultura por vários pontos do planeta. Os sinais dessa colonização ainda seriam visíveis, especialmente no Egito e Américas.
A noção de que as Américas foram colonizadas por atlantes teve início em 1882, quando o americano Ignatius Donnelly publicou o livro Atlântida: O Mundo Antediluviano. Ali ele estudava uma série de semelhanças entre as culturas pré-colombianas e a do antigo Egito, propondo uma origem comum. O escritor e pesquisador Charles Berlitz, no entanto, entende que essa idéia é mais antiga do que isso, uma vez que o cientista e filósofo Francis Bacon acreditava, no século XVII, que a América seria o próprio continente perdido da Atlântida. A narrativa de Platão também serviu como referência para o desenvolvimento dessa idéia, uma vez que ele não falava exatamente de uma ilha ou continente no meio do mar, mas de um ‘continente oposto’, que poderia muito bem ser a América.
As investigações posteriores, que se estendem até hoje, mostraram inúmeras semelhanças entre as duas culturas, desde a construção de pirâmides até sinais muito parecidos para representar fonemas nos dois idiomas. Em alguns casos, os sinais gráficos de palavras maias e egípcias são exatamente iguais, significando a mesma coisa. Muitos pesquisadores entendem que essa proximidade cultural não pode ser explicada apenas pela coincidência, mas implica em algum tipo de relacionamento entre as duas civilizações.
Talvez o mais difícil talvez seja determinar em que época e de que forma ocorreu esse contato entre as raças do Egito e Oriente Médio e da América. Arqueólogos e filólogos que se dedicaram a estudar os sinais gravados em pedras no continente americano, inclusive no Brasil, insistem que o continente já era conhecido há muito, tendo sido visitado e, possivelmente, colonizado por egípcios, fenícios e sumérios em épocas diferentes.
Se tal afirmativa for comprovada fica bem claro que o conhecimento dos antigos sobre o nosso planeta não era tão limitado quanto se imagina.
Sobre a Atlântida e a Colonização dos Continentes
Amenti
O Livro dos Mortos do Egito refere-se a um local conhecido como Amenti. Osíris cita-o como sendo um país situado a oeste. Alguns entendem que isso é uma referência a certa região no além; outros, que é um lugar real, na Terra. Amenti tinha duas regiões: Sekht-Hotep (os campos da paz divina) e Sekht-Ianru (os campos de junco). A capital era Sekhem, destruída numa noite de tempestades e inundações. Diz-se que as instruções para se chegar a esse país são bem claras – é só seguir a constelação da Ursa Maior – e que, em outros textos egípcios, também se fala sobre as regiões administrativas de Amenti.
Aztlan
Local mítico do povo asteca que foi relacionado à existência da Atlântida. A tradução para aztlan seria ‘o país da cor branca’, de onde os astecas teriam se originado (o nome ‘asteca’ é então traduzido como ‘gente de Aztlan’). Trata-se de uma grande ilha no meio do Oceano Atlântico, local que tiveram de abandonar rapidamente devido a alguma catástrofe.
Tupi
Além de designar um povo, na mitologia Tupi é um herói colonizador, que veio de além-mar, juntamente com seu irmão Guarani. Simão de Vasconcelos foi o primeiro pesquisador a registrar essa lenda, que muitos entendem ter relação com a teoria da colonização da América por grupos do Egito, Oriente Médio ou da Atlântida. Sabe-se que, quando os portugueses chegaram ao Brasil, as tribos tupi e guarani encontravam-se em fase de migração, indo para o litoral, rumo ao nordeste. Segundo suas lendas, eles retornavam para o local mítico de onde vieram, mais além do oceano Atlântico.
Guayakis
Indígenas das regiões paraguaias de San Estanislao, San Joaquín, Unión e Caaguazú que, segundo se diz, têm pele branca e cabelos louros. Geralmente são apontados como prova de que a América foi colonizada por povos vindos da Atlântida e do Oriente Médio, em época anterior ao descobrimento.
Be-ra-zil
O filólogo Peregrino Vidal – um dos principais pesquisadores das inscrições em pedras enontradas no Brasil – entende que Be-ra-zil é a real origem do nome Brasil, significando ‘o domínio dos cantores escuros’. Segundo ele, isso comprovaria que houve uma colonização suméria na região, exatamente na segunda onda de imigração das tribos hamitas lideradas pelos heróis Xaba e Dedan.
Bimini
Arquipélago das Bahamas, a 150 quilômetros da Flórida, onde foi encontrado um sitio arqueológico submarino em 1968. Segundo algumas fontes, o descobridor foi engenheiro e fotógrafo Dimitri Rebikoff; outras creditam a descoberta ao dr. Manson Valentine, paleontólogo, geólogo e arqueólogo submarino, em 1958.
As estruturas submersas, encontradas em vários pontos, foram construídas com blocos de pedra que chegam a pesar 5 toneladas, formando o que parece ser um porto sustentado por pilastras e outras estruturas em forma de pentágono. Acredita-se que as construções tenham entre 8 e 10 mil anos de idade, o que contraria a história conhecida da região. Elas também não têm relação com as culturas maia, asteca ou tolteca, o que levou a especulações sobre terem finalmente encontrado os restos da Atlântida.
Pirâmides
As construções piramidais são tidas como uma das principais evidências de origem comum a vários povos do planeta, especialmente egípcios, maias e astecas. Mas as pirâmides surgem também na América do Sul, entre os incas e outros povos de origem desconhecida, como os antigos habitantes de Tiahuanaco.
Os pesquisadores já levantaram a coincidência, por exemplo, das pirâmides de Gisé e a de Teotihuacán encontrarem-se na mesma região do globo, na altura do trópico de Câncer. Atentam também para o fato de que as pirâmides mais antigas do Egito foram construídas com a técnica ‘americana’ dos degraus.
Pirâmides do Amazonas
As construções em formas piramidais eram atribuídas exclusivamente aos maias, astecas e egípcios até 1975, quando o satélite Landsat II fotografou formações piramidais na selva amazônica, a sudeste do Peru. Uma equipe foi enviada para o local de helicóptero e conseguiu algumas fotos das estruturas, quase totalmente cobertas pela vegetação. Apesar de não ter ocorrido uma identificação absoluta, aquilo foi suficiente para que se pensasse mudasse os pensamentos sobre as antigas civilizações da América do Sul.
Uma situação mais complicada ocorreu também na amazônia brasileira quando, em 1979, algumas revistas e emissoras de televisão publicaram matérias sobre três estruturas piramidais fotografadas na região próxima à serra do Gupira, no alto Rio Negro. O acesso quase impossível inviabilizou qualquer tentativa de se aproximar do local e, posteriormente, o assunto sumiu dos meios de comunicação.
Tiahuanaco
Uma das mais impressionantes e discutidas ruínas do planeta, situa-se às margens do lago Titicaca, a 4 mil metros de altitude, entre o Peru e a Bolívia. Para alguns, era a mais antiga cidade do planeta e, quando os espanhóis chegaram à América, suas origens já se perdiam em lendas e mitos. Hoje, até mesmo os arqueólogos mais ortodoxos ousam falar em 10 mil anos de idade, enquanto os mais ousados falam em 20 ou 30 mil anos.
Já se imaginou que Tiahuanaco fosse um posto avançado da Atlântida, ou um dos primeiros locais colonizados pelos atlantes, ou mesmo a própria sede da civilização. Entre as ruínas foi encontrada uma estrutura piramidal, não tão grande quanto as do Egito ou México, mas nitidamente utilizando o mesmo esquema arquitetônico.
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A Atlântida Esotérica
Algumas pessoas entendem que a civilização atlante é mais antiga do que os 10 ou 20 mil anos que geralmente lhe são atribuídos. Fala-se até de um milhão de anos, quando o continente se estenderia da Islândia à América do Sul. Em cerca de 800 mil a.C., e depois em 200 mil a.C., cataclismos dividiram a Atlântida em duas: Ruta e Dayta. Após um terceiro abalo teria sobrado apenas uma parte de Ruta, chamada Poseidonis, ou Poseidônia.
Cristais
Uma das fontes do poder atlante seriam os cristais, capazes de prover energia, abrir portas dimensionais e relizar outros prodígios. Alguns acreditam que os restos da civilização se encontram submersos na região do mar das Antilhas, inclusive algumas pirâmides cujos cristais continuam ativos, originando os desaparecimentos no Triângulo das Bermudas.
Origem nas Estrelas
Helena Blavatsky, fundadora da Sociedade Teosófica, foi uma das primeiras pessoas a dizer que a Atlântida foi pelos Senhores da Chama de Vênus, que trouxeram seus conhecimentos à Terra cerca de 18 milhões de anos atrás. Várias teorias ocultistas afirmam que os atlantes praticavam o psiquismo e se aperfeiçoavam mentalmente, sendo capazes de, em alguns casos, prever o futuro. O fim da civilização se deu quando os magos brancos e negros entraram em choque.
Vendo o Passado
Edgar Cayce (1877-1945) foi um dos mais famosos médiuns de todos os tempos. Ele acertou várias previsões sobre o futuro, como as duas Grandes Guerras e a queda da Bolsa de Nova York. Também realizou o que chamava de ‘leituras de vida’ – uma série de relatos entre os quais se incluem narrativas sobre a Atlântida, contando detalhes de como era a vida e a sociedade naquela civilização. Ele também disse que muitas pessoas já viveram vidas na Atlântida antes de reencarnar na época atual.
William Scott-Elliot também escreveu sobre o continente perdido em A História da Atlântida (1896), baseando-se nas informações que obteve usando ‘clarividência astral’. Para ele, a principal raça sobrevivente dos atlantes foi a tolteca, que praticava magia e tinha poderes mentais, além de um impressionante desenvolvimento tecnológico.
Para saber mais:
Timeu e Crítias ou A Atlântida - Platão (Ed. Hemus)
As Portas da Atlântida - Guy Tarade (Ed. Hemus)
Atlântida, Civilização Desaparecida - Philippe Aziz (Otto Pierre Ed.)
A Atlântida de Cristóvão Colombo - Pierre Carnac (Difel)
Atlântida, O Oitavo Continente - Charles Berlitz (Ed. Nova Fronteira)
O Mistério da Atlântida - Charles Berlitz (Ed. Nova Fronteira)
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