O Canto do Catolicismo

2009-04-17 18:37

Nos últimos dois anos Padre Marcelo Rossi tornou-se o nome mais conhecido do catolicismo brasileiro. E português. Ligado à Renovação Carismática, ele se utiliza da música e da alegria para atrair os fiéis, retomando o que muitos acreditam ser uma evocação aos primórdios do Cristianismo.

    Depois de um período em que a igreja católica no Brasil foi pega de surpresa pelo crescimento impressionante dos chamados evangélicos, uma volta por cima parece estar em grande parte nas mãos, ou na voz, do padre Marcelo Rossi. Ligado à Renovação Carismática, há mais de um ano o sacerdote tornou-se uma das personalidades mais comentadas do país, lançando o CD Canções Para Louvar ao Senhor e ocupando um espaço na mídia que há muito o catolicismo não conseguia.
    O CD foi um sucesso estrondoso, quase inacreditável para um país como o Brasil: 3,2 milhões de cópias vendidas. E já tem outro a caminho – Um Presente para Jesus –, com direito a clip gravado em Portugal com a música O Vira do Senhor. No início de 1999, os direitos autorais do primeiro CD já haviam rendido quase 3 milhões de reais, dinheiro que foi para a diocese de Santo Amaro, em São Paulo, e que chegou em boa hora – em março de 1999, o Santuário do Terço Bizantino, no bairro de Santo Amaro, onde o padre celebra suas missas, chegou a ser interditado por razões de segurança e precisava de uma reforma geral. A Igreja também pensa em utilizar o dinheiro para a aquisição em definitivo do local.
    O sucesso do padre Marcelo vem ajudando muito na recuperação do espaço que a igreja católica vinha perdendo para as demais, como a Igreja Universal do Reino de Deus, dona da Rede Record, Rede Mulher e da maior cadeia de rádios evangélicas no Brasil, com 40 emissora de AM e 83 de FM. O padre Mário Mancini, diretor da América AM, vice-líder de audiência em São Paulo, está compondo uma rede que já possui 3 emissoras próprias e 7 afiliadas, e tem planos de chegar a 60 até o final do ano. Parte desse sucesso da América deveu-se ao programa do padre Marcelo.
    A Rede Vida, também da Igreja Católica, já é a quinta maior emissora de televisão do Brasil, atingindo 1200 municípios, enquanto a Rede Globo, a número um, atinge 5 mil. E, mais uma vez, um dos sucessos absolutos da Rede Vida é o padre Marcelo Rossi, com dois programas diários e a transmissão de missas direto do Santuário do Terço Bizantino.
    Segundo alguns estudiosos de questões religiosas, o crescimento da Renovação Carismática deve-se em grande parte a um fortalecimento dos movimentos moderados e conservadores da Igreja. Ao contrário dos progressistas – que dão muita atenção às questões sociais e políticas --, os conservadores priorizam o lado espiritual, como é o caso da Renovação Carismática que, por sua vez, encontra grande apoio no arcebispo de São Paulo, D. Cláudio Hummes, já simpatizante do movimento quando era arcebispo de Fortaleza, de 1996 a 1998.

Tecnologia e Mídia
    Usando de todos os meios de comunicação disponível, Rossi está cumprindo seu papel de evangelizador, renovando a maneira de falar com os católicos e batendo de frente com as religiões que usam a  música como forma de chegar mais perto do povo. Segundo o padre, antes do Movimento Carismático, apenas 4% dos fiéis iam à Igreja, número que já subiu para consideráveis 13%. Para alguns críticos, esse tipo de pregação não representa problema, uma vez que a Igreja Católica sempre usou a música para divulgar seus conceitos básicos e atrair fiéis. O próprio padre Marcelo diz que, se Jesus vivesse nos tempos atuais, também se utilizaria de recursos modernos para divulgar suas idéias.
    No entanto, parece que a chamada ala progressista da Igreja Católica tem algumas dúvidas quanto à atuação e métodos da Renovação Carismática.     Na CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – que se reuniu em abril de 1999, D. Jayme Chemello foi reeleito presidente, reforçando o aspecto progressista da Igreja. Essas dúvidas ficaram evidenciadas em declaração fornecida no mês de abril para o jornal Folha de S. Paulo. Chemello viu ‘elementos positivos' na atuação de Marcelo Rossi e outros membros da Igreja que seguem por caminhos semelhantes, entendendo que estão, de fato, atraindo pessoas e isso pode representar a descoberta de um novo caminho para a doutrina. O problema, segundo ele, é saber se as pessoas estão sendo atraídas pelo que a Igreja realmente representa ou apenas por um momento específico de descontração.
    Mesmo fora dos meios eclesiásticos a atuação de padre Marcelo desperta certas indagações, e não são poucos os críticos que o vêem apenas como mais um sucesso pop, com muita atenção à imagem e quase nenhuma ao conteúdo, seja no aspecto social ou espiritual. Claro que Rossi não concorda com essas críticas, reafirmando que o trabalho de evangelização continua sendo a meta principal. O que muda é a forma de conduzir a mensagem até as pessoas. E o trabalho social também não foi esquecido, uma vez que todo o dinheiro arrecadado com a venda do CD tem sido aplicado em obras assistenciais e de caridade na zona sul de São Paulo.

A Boa Notícia
    O processo de adaptar-se aos tempos e especialmente à cultura de cada região não é algo desconhecido na evolução do cristianismo. É verdade que, historicamente, não se tem conhecimento de todos os meios utilizados pelos primeiros evangelizadores para conquistar adeptos para a palavra de Jesus, mas sabe-se que, em inúmeros casos, a Igreja usou formas de expressão cultural locais para divulgar sua mensagem. Na maioria das vezes, a cultura de determinada região acabava se adaptando ao cristianismo, ou o cristianismo se adaptava a ela, aceitando e incorporando-a.
    Foi da Antioquia, cidade que existiu onde hoje localiza-se a Síria, que o cristianismo começou a espalhar suas raízes pelo mundo, especialmente com as viagens e pregações do apóstolo Paulo. Os primórdios do cristianismo foram marcados por uma certa dificuldade em se definir o que era exatamente a Boa Notícia ou Evangelho que os apóstolos anunciavam e que fazia referência à ressurreição de Jesus. Como judeus, os seguidores do     Cristo falavam principalmente aos seus conterrâneos, em colônias estabelecidas em vários pontos do mundo. Quando a mensagem começou a atingir também os não-judeus, as pessoas convertidas não sabiam se deveriam ou não observar a lei judaica. Na verdade, a maioria dos historiadores não pensa duas vezes ao afirmar que o cristianismo começou como uma entre várias seitas do judaísmo, e nenhum deles consegue afirmar com certeza se o próprio Jesus achava que os gentios também deveriam ser convertidos. E foi justamente Paulo que resolveu o impasse, separando definitivamente o cristianismo. A maneira encontrada foi espalhar sua fé pelo mundo, inclusive fora das comunidades judaicas, desobrigando os fiéis de observar a lei judaica.
    Segundo o historiador Arnold Toynbee, no cristianismo paulino Jesus tornou-se Deus Encarnado, uma vez que, em vida, ele não poderia ter aceito essa condição, como judeu que era. Segundo Toynbee, nas próprias escrituras cristãs, pelo menos por duas vezes Jesus repudiou a sugestão de que ele fosse divino. O Messias era um rabino judeu e, como os demais da época, pode ter se denominado Filho de Javé, o que não deveria ser interpretado ao pé da letra mas em sentido figurado. Ao contrário de alguns colegas, o historiador foi bastante enfático ao afirmar que, quando Jesus enviou seus discípulos em expedição missionária, instruiu-os a falar apenas para os judeus, uma vez que ele era um judeu ortodoxo.

Expansão
    A expansão da Igreja Cristã foi rápida e extremamente eficiente, em grande parte devido à sua organização – o que outras religiões não possuíam. O cristianismo possuía congregações locais bem parecidas com as cidades-estado do Império Romano, que subordinava suas células a uma hierarquia eclesiástica. Outras religiões não possuíam organização centralizada e as congregações eram administrativamente independentes. Toda a estrutura da Igreja baseou-se, em sua maior parte, na estrutura do Império Romano da Era Diocleciana.
    A nova religião continuou crescendo apesar da violenta perseguição aos seus seguidores, que durou até o início do século IV. Um dos anos mais marcantes em toda a história da fé cristã foi, sem dúvida, o de 313 d.C.: reconhecido oficialmente pelo Imperador Constantino, o cristianismo tornou-se a religião oficial do Império, principalmente na nova capital, Constantinopla. Por volta de 340 os godos já estavam sendo convertidos e, a partir de 376, os germânicos. Com o crescimento e dispersão das igrejas surgiu a necessidade de se manter coesa a estrutura do cristianismo, o que demandou maior disciplina e pureza doutrinária em seus dogmas. A Bíblia tornou-se então a palavra máxima, assim como a adoração dos sacramentos (vide Box) –, que deviam ser supervisionados pelos bispos.
    A assimilação cultural de seitas anteriores, os chamados cultos pagãos, foi muito importante para o crescimento da religião. Foi assim que teve origem o Natal como o conhecemos hoje –, anteriormente uma festa romana conhecida como do 'Sol renascente', tornou-se a comemoração do nascimento de Jesus. Enquanto era disseminado em meio a uma nova civilização, para facilitar seu entendimento e aceitação, o cristianismo absorvia manifestações populares e eruditas sempre que possível, eliminando vestígios das adorações politeístas e adaptando-as aos seus princípios.
    Observando movimentos católicos recentes, como a Renovação Carismática, podemos ver que um dos grandes objetivos atuais da igreja é reocupar um espaço que levou 2 mil anos para ser conquistado, e usando o mesmo tipo de ação que marcou o início do cristianismo: a evangelização, levando-se em conta os elementos culturais motivadores da sociedade em questão – ou seja, a nossa. Neste final de século, isso implica no uso expressivo da tecnologia para alcançar os fiéis da maneira mais adequada, direta e eficiente possível.
    Se a mensagem nas músicas do padre Marcelo são profundas ou apenas canções pop sem conteúdo, como já disseram alguns críticos, cabe à própria Igreja Católica julgar. O fato indiscutível é que, desde os anos 80, as congregações evangélicas ampliaram muito seu espaço, enquanto a doutrina apostólica romana via seu número de fiéis definhar. Hoje, quer queiram, quer não, essa tendência está sendo fortemente revertida, e um dos grandes responsáveis é justamente Marcelo Rossi.


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Cristianismo e Catolicismo
    Os discípulos de Jesus foram chamados de cristãos pela primeira vez na Antioquia, quatro anos após a morte do mestre. Nessa cidade, Barnabé e Saulo pregaram durante um ano, propagando a notícia de que Deus havia ressuscitado Jesus e o declarado como sendo o Cristo, nome que significa ungido ou messias. Com isso, cristianismo passou a ser tudo o que dissesse respeito às mensagens e ensinamentos de Jesus, bem como a aceitação de suas mensagens e incorporação delas ao modo de vida.
    Já a palavra catolicismo tem origem no termo grego katholikós, que significa universal, tendo sido empregada pela primeira vez no ano 110 por Inácio de Antioquia. Nos primeiros séculos d.C. a palavra foi empregada para diferenciar a Igreja de seitas heréticas, mas depois passou a significar também a expansão geográfica do cristianismo, que se espalhava por todo o mundo conhecido.
    No ano de 1054 ocorreu o rompimento entre as Igrejas do Oriente e do Ocidente. O termo Igreja Católica ficou pertencendo à Igreja com sede em Roma, enquanto a Oriental, com sede em Constantinopla, tornou-se conhecida como Igreja Ortodoxa.
    Nos séculos posteriores a cristandade sofreu outras divisões, originando diferentes doutrinas com visões próprias sobre o sentido da mensagem evangélica. Uma das divisões historicamente mais importantes ocorreu dentro da própria Igreja Católica, com a Reforma do século XVI – um movimento criador de outras doutrinas que também reivindicavam serem católicas.
    Alguns historiadores entendem que o termo católico – ‘universal’ – perdeu muito de seu sentido original, pois designa apenas uma igreja em particular.

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Rituais e Sacramentos
    A palavra sacramento foi traduzida pelos cristãos do grego mysterion, empregada na Bíblia para indicar a natureza redentora de Deus sobre a humanidade. Assim, Cristo é o ‘sacramento do encontro de Deus’, a Igreja é o ‘sacramento da íntima união com Deus e da unidade de todo o gênero humano’.
    O apóstolo Paulo empregou o termo no singular para distingui-lo dos ‘mistérios’ das religiões pagãs, e só era usado no plural para designar os mistérios da vida de Jesus e da fé cristã. Quando foi feita a tradução para o latim, passou-se a usar misterium com o mesmo sentido do singular grego, e sacramentum para referir-se a atos especiais como o batismo e a eucaristia. Os sacramentos instituídos por Cristo representam a integração do espiritual e do humano na Igreja. Ele próprio santifica os cristãos através dos ritos e celebrações.
Existem sete sacramentos no ritual religioso: batismo, crisma (ou confirmação), eucaristia, penitência (ou confissão, a partir do século VIII), unção dos enfermos, ordem e matrimônio. Foram consolidados nos concílios de Lião (1274) e Florença (1439), e reafirmados na Contra-Reforma do Concílio de Trento, em 1547.
    No catolicismo, os sacramentos significam e produzem a Graça Divina, e entende-se que, como na Igreja existem elementos originários de tradições humanas, eles podem ser transformados ou suprimidos, com exceção daqueles instituídos por Cristo –, como o sacramento da ordem e o primado do papa. Alguns historiadores dizem que, no Novo Testamento, as palavras de Jesus não se referem aos sacramentos em termos rituais, e apenas três são instituídos: batismo, penitência e ordem. O primado do papa, na verdade, representou e ainda representa um grande foco de controvérsia e divergências entre a Igreja Católica e as demais.

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