O Astronauta Esquecido

2009-05-05 15:35

A conquista espacial ainda tem muitas histórias para serem contadas, especialmente as que foram mantidas em segredo pela antiga União Soviética. Uma delas é a do cosmonauta Vladimir Ilyushin, o primeiro homem a realizar um vôo no espaço e retornar vivo à Terra.

Ubiratan Schulz

    Serghei Vladimir Ilyushin Jr. é filho de um dos maiores designers da aviação soviética, Serghei Ilyushin. Durante os anos 60, Ilyushin foi, além de construtor e projetista dos melhores aviões soviéticos, um político influente e poderoso deputado do Soviete Supremo, amigo de Kruschev, chegando a ganhar três medalhas como Herói da União Soviética. Seu filho, Vladimir, é até hoje um dos mais populares e experientes pilotos de teste soviético, com dezenas de recordes de velocidade e altitudes.
    Ilyushin foi o equivalente russo ao americano Chuck Yeager (primeiro piloto da Força Aérea americana a romper a barreira do som, em 14 de outubro de 1947, com o avião Bell XS-1, alcançando a velocidade de Mach 1.07 ou 670 mph). Em 1959, ele bateu o recorde mundial de altitude, chegando à marca de 30 mil metros no seu Sukhoi SU-9 (avião a jato projetado em 1944 que fez seu primeiro vôo em 18 de agosto de 1946. O Sukhoi Su-9 é cópia do avião alemão ME-262 Sturmvogel – Pássaro do Trovão, o primeiro jato a entrar em combate operacional). Esse recorde só foi quebrado em 10 de dezembro de 1963 pelo piloto americano Chuck Yeager voando com o avião Lockheed NF-104, chegando à altura de 104 mil pés, ou seja, mais ou menos 21 milhas de altura. Em 1960 recebeu a medalha Herói da União Soviética como seu pai, concedida pelo seus vôos de teste de velocidade, bem como seu recorde de altitude.
    Vladimir, no começo da história da conquista do espaço, não fazia parte do seleto grupo de cosmonautas soviéticos escolhidos para subir ao espaço,  inclusive não fazendo parte do time que, em 1959, apareceu em uma foto publicada na revista popular Ogonyok, pois estava concentrando no momento todos os seus esforços na tentativa de bater o recorde mundial de altitude. Hoje comparamos o seu recorde mundial a chegar a altitude de uma orbita terrestre. Após esse episódio, seu influente pai o colocou no restrito grupo de cosmonautas soviéticos, anos após esse grupo ter sido formado.
    É reportado, a partir daí, que ele se torna o mais talentoso cosmonauta do grupo. No começo de 1961, muitas fotografias são publicadas na União Soviética, já incluindo Vladimir no treinamento dos cosmonautas. Então, um de seus colegas foi mandado ao espaço em segredo, no dia 02 de fevereiro de 1961. Não sabemos com certeza o que aconteceu, mas na primeira parte do vôo, o cosmonauta russo ficou inconsciente. Recobrou os sentidos no começo da segunda órbita e, após contato pelo rádio, foi forçado a permanecer no espaço até a 17ª órbita. No entanto, na reentrada o cosmonauta pereceu no espaço, possivelmente pelo calor no momento da reentrada em ângulo errado.

O Primeiro no Espaço
    Vladimir Ilyushin ficou revoltado pelo fracasso do primeiro vôo tripulado. Então, com o defeito aparentemente consertado, e escolhendo agora o mais experiente e experimentado piloto para voar, a cápsula de Vladimir, chamada Rossiya, foi lançada na manhã de 7 de abril de 1961, dias antes do vôo de Gagarin. Nada foi reportado a imprensa. Esperava-se o sucesso da missão para que a notícia viesse a público. Mas a história vazou.
    Então, outro imprevisto aconteceu. Após completar a primeira órbita, o cosmonauta deixou de responder aos chamados de rádio do controle da missão. Vladimir tinha perdido a consciência e, de novo, se repetia a tragédia da missão fracassada de fevereiro. Desejando salvar o piloto, foi decidido abortar a missão durante a terceira órbita. Já sem contato com os engenheiros de vôo em terra, supõe-se que, por um problema no pára-quedas, o cosmonauta não pode se ejetar da cápsula, ou tinha perdido a consciência de novo. Ele teve um pouso violento.
    O procedimento normal de reentrada prevê que o piloto ejete da cápsula a uma altura de 20 mil pés, e ele deve descer a Terra com seu próprio pára-quedas. Estando Ilyushin desmaiado ou por outro problema técnico, o piloto se precipitou ao solo a bordo de sua nave, resultando em graves danos físicos. Ilyushin sobreviveu, mas ficou muito ferido, além de ter pousado na fronteira da China com a União Soviética. Na época, isso era um problema grave pois, mesmo sendo a China um país comunista, existiam diversas divergências entre os dois países, tanto políticas quanto militares.
    Assim, Ilyushin se tornou o primeiro homem a voltar vivo do espaço. A União Soviética não veiculou notícias sobre o vôo, mas repórteres do Ocidente relatavam tanto o vôo como a queda e as condições de Ilyushin para o resto do mundo. Os dirigentes soviéticos não viam o que tinha acontecido com o piloto como uma boa propaganda para o programa espacial soviético, e não responderam aos repórteres nem desmentiram os fatos. O que disseram foi que o piloto estava internado em um hospital de Moscou devido a um acidente de carro. Depois, disseram que o piloto tinha sido transferido para a China para ser tratado em um moderno hospital de reabilitação pelo período de um ano. As autoridades chinesas o trataram bem, e ele foi considerado hóspede por um ano, ou seja, ele era um ‘Hóspede de Quarentena’, uma doença reservada aos agentes do serviço secreto feitos prisioneiros.
    Assim, após essa missão fracassada os russos tiveram pressa em lançar outra missão ao espaço, principalmente antes que a notícia viesse a público. Cinco dias após o vôo de Ilyushin, Yuri Gagarin, um piloto de reserva foi lançado ao espaço, mas somente após o seu retorno é que os soviéticos liberaram um filme sobre o evento com o nome de Com Gagarin para as Estrelas. A noticia surpreendeu até o dirigente soviético Kruschev, no momento em férias no Mar Negro.
    Enquanto Ilyushin estava se restabelecendo em um hospital na China, o governo soviético espalhava para os quatro cantos do mundo que Gagarin era o primeiro homem a ir ao espaço. Recentemente, uma série de documentos dos arquivos secretos do Kremlin foram liberados e, assim, tivemos acesso a essas verdades que revelam aspectos negros da conquista espacial. Outra coincidência foi que o ultimo país a dar parabéns aos soviéticos pelo vôo de Gagarin foi a China, provavelmente por conhecer a história verdadeira. Sabemos também que Kruschev ficou muito bravo por ter de admitir que seu maior piloto, Vladimir Ilyushin, estava na China, em tratamento hospitalar. Os hospitais chineses eram melhores que os russos? Que problema. Vladimir Ilyushin retornou a União Soviética em 1962, com certeza após alguma troca de prisioneiros ou coisa parecida. Hoje, aos 73 anos, ele vive em Moscou, em um modesto apartamento com sua esposa, como General da Reserva da Força Aérea Russa.

Cosmonautas Mortos
    Em 16 de abril de 1961, os familiares do tenente Bondarenko foi avisada que seu ilustre filho tinha recebido uma medalha especial póstuma, com todos os benefícios estendidos à família, como cosmonauta, pelo então Ministro da Defesa Soviético R. D. Malinovskiy, sendo que todas as informações sobre o caso foram classificadas como top secret (em um livro que tenho em meu poder, editado no ano de 1986, em uma lista de cosmonautas soviéticos não é mencionada a existência de qualquer pessoa de nome Valentin Bondarenko).
    Recebi há alguns meses fotografias agora já publicadas (por Arthur C. Clarke, o autor de 2001 – Uma Odisséia no Espaço) com o cosmonauta Aleksey Leonov, herói da União Soviética. Aleksey é um dos originais chamados de Sochi Six, o equivalente russo aos Sete Originais — os astronautas americanos do Projeto Mercury. Ele também faz parte da lista dos primeiros vinte pioneiros do espaço. A fotografia em questão foi tirada em uma base situada no Mar Negro, em 1961, semanas antes do vôo histórico de Yuri Gagarin. Chamamos essa foto de Fotografia de Sochi. A outra foto é uma cópia da mesma, sem a figura (foto já retocada) de um dos cosmonautas perdidos, e as duas versões foram publicadas depois da falência da União Soviética. Assim, depois do anunciado vôo do primeiro cosmonauta, em 1961, rumores chegaram ao Ocidente falando de graves segredos sobre a morte dos anônimos cosmonautas, mortos em missões secretas e desconhecidas.
    Moscou sempre desmentiu vigorosamente essas histórias e, para todos os efeitos, listas de cosmonautas mortos circulavam no Ocidente há muitos anos. Então, em 1986, Yaroslav Golovanov, jornalista russo, revelou na revista Irvestiya que foram três os cosmonautas mortos fatidicamente, e que toda a historia foi mantida em segredo para não manchar a honra e a glória da União Soviética. Esse artigo também incluía o nome de um dos cosmonautas mortos, Valentin Bondarenko, e a data de sua morte, 23 de março de 1961. Valentin era um dos mais jovens da turma (morreu com 24 anos de idade) e a foto foi tirada alguns dias antes da sua morte.
    Em 1982, um emigrante russo de nome S. Tiktin discursou sobre segredos soviéticos em uma revista publicada por anti-soviéticos emigrantes na então Alemanha Ocidental. Ele mencionou um incidente acontecido antes do vôo de Gagarin, sobre a perda do cosmonauta Boyko ou Boychenko, devido a um incêndio em sua nave (também se falou num acidente na câmara de pressão). Um exemplo irônico foi a historia publicada por Dennis Ogden, um correspondente britânico em Moscou, em 1961. Antes ainda do vôo de Gagarin, Ogden veio com a historia de um piloto de nome Vladimir Ilyushin, que fora lançado ao espaço ainda antes de Gagarin (uma semana). Sobre a missão de Ilyushin, Ogden disse que a ironia com que o assunto foi tratado causou muitos desgostos aos envolvidos, especialmente aos jornalistas que contaram essas histórias que foram proibidas, com a propaganda soviética dopando milhões de pessoas que acreditavam no país.
    Essa é somente uma historias entre inúmeras, de mortes, de homens perdidos fatidicamente no curso da conquista do espaço e paradoxalmente falando, devemos hoje tributo a homens corajosos, verdadeiros heróis a quem o reconhecimento chega com anos de atraso, pelo irracional e insensato segredo e orgulho do governo soviético. A trágica morte de Valentin Bondarenko e de outros foi reconhecida só anonimamente, com uma placa colocada na Lua pelos astronautas da Apollo 15, em 1971, em honra dos falecidos heróis do espaço, americanos e russos.

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