O Arauto da Nova Era

2009-04-29 15:05

Alex Alprim

Conhecido mundialmente por suas pinturas mediúnicas, quando recebe a influência dos mais famosos artistas de todos os tempos, o psicólogo Luiz Antonio Gasparetto vem se tornando, ao longo dos anos, um dos mais importantes exponentes do espiritualismo moderno.

    Hoje, o nome de Luiz Antonio Gasparetto é conhecido no país inteiro como sinônimo de alguém que busca, com toda sua força e capacidade, melhores caminhos para a condição humana na Terra. Mais do que um médium excepcional, ele é um ser humano repleto de idéias inovadoras, às vezes polêmicas, que faz questão de compartilhar com todos os que procuram um contato maior consigo mesmos.
    Em entrevista exclusiva à Sexto Sentido, Gasparetto expôs suas visões renovadoras da vida, sobre as quais fala com a franqueza e simplicidade de quem não deve satisfação a ninguém, só a si mesmo.

Com que idade ocorreu o primeiro fenômeno mediúnico em sua vida, e como isso aconteceu?
    Eu estava com 13 anos de idade. Foi durante uma sessão de estudos kardecistas com meus pais: eu entrei em transe e fiquei paralisado. Foi o primeiro fenômeno mais intenso. Em seguida, contei para minha mãe e ela me levou a uma sessão, quando tudo começou a surgir. Anteriormente, vários fenômenos já haviam acontecido, mas eu não tinha consciência de que eram fenômenos. Não tinha referencial de sensações, de visões, sonhos ou percepções. Pensava que aquilo era natural. Justamente nessa época eu comecei a ter consciência de que certas coisas eram paranormais. Mas eu sempre tive essas experiências, a vida toda.

Dos fenômenos que você vivenciou, qual realmente marcou você e lhe trouxe um sentimento mais forte?
    Acho que a coisa mais bonita que já me aconteceu foi a viagem astral. Você sai do corpo, cem por cento lúcido, sem a menor diferença de estar aqui. E com consciência, com a lucidez do que está fazendo. É uma coisa inexplicável, uma sensação extraordinária. A visão que passamos a ter de nós mesmos, de todas as coisas, da vida, é mágica. Nós vemos o corpo ali, mexemos no próprio corpo. É uma coisa muito forte.
    Essa experiência tem vários aspectos. Você não está acostumado a ver seu próprio corpo. Quer dizer, você vê no espelho, que é uma imagem deformada. E, de repente, você vê seu corpo ali, na sua frente. É uma coisa impressionante. Mexe com o que a gente pensa, com o que a gente sente por nós mesmos e pela vida. A certeza da eternidade é uma coisa extraordinária, muda completamente a pessoa. Essas experiências foram as mais fortes. Nunca mais tive nada tão importante.

Com relação aos fenômenos paranormais, no início as coisas aconteciam alheias à sua vontade ou você desejava que eles acontecessem?
    A mediunidade é sempre assim, espontânea, quando se refere aos espíritos. Não tem essa coisa de desejo. Achar que existe uma influência do desejo é mentira. Aliás, tudo que é espontâneo é contra o desejo. Tudo que você quer controlar jamais funciona. O mundo da mediunidade é um mundo espontâneo. Mas, como o potencial chamado mediúnico é um conjunto muito grande de fenômenos completamente diferentes, de naturezas diferentes, então espontâneo se torna uma palavra meio perigosa. Existem fenômenos que estão sob a sua vontade, você pode usar quando quer.     Por exemplo, eu faço leitura corporal, a situação psico-emocional da pessoa, só de botar o olho nela, quando quero. Tem certas coisas que estão sob o controle da vontade e outras que só ocorrem dentro de certas variáveis. Até a umidade do ar pode interferir.
    A pessoa pode ter sensibilidade, mas nem sempre controla o fenômeno. Como é que eu vou controlar a presença do Picasso e fazer ele ficar aqui e pintar? Não tem como controlar, é um outro arbítrio. A não ser que haja uma combinação entre nós, assim como acontece com qualquer outro companheiro de trabalho.
    A vontade não interfere. Quanta gente não quer ter, mas tem? Foge dos fenômenos como o diabo da cruz; mas não adianta: eles estão lá. Pessoas que têm medo ou preconceito, profundamente traumatizadas desde a infância porque têm vidência.
    Qualquer tipo de sensibilidade desequilibra a pessoa. Pense em quem tem uma sensibilidade musical ou poética muito grande. Ela já é diferente e, se não tem uma personalidade capaz de sustentá-la, essa sensibilidade se torna uma coisa perigosa. Com a percepção extra-sensorial é o mesmo: ela perturba a pessoa. Primeiro, porque existe uma falha muito grande no mundo, que é achar que isso só acontece com pessoas especiais, o que é uma mentira. Todo mundo tem o sexto sentido. Todo o mundo já experimentou a sensação de estar no quarto,  sentir uma presença e, quando olha, não vê ninguém. Porque lá tem uma entidade, lógico. E é a mesma sensação que se tem quando existe uma pessoa mesmo.
    Nós temos uma maneira de perceber presenças, que se chama sexto sentido. É a capacidade de sentir a energia bio-humana, e são fenômenos normais, cotidianos. Só que nós não temos uma moldura para isso. Nossa cultura ficou nos cinco sentidos e tendeu a negar o sexto, só que ele também faz parte de nós. Com a simpatia é a mesma coisa. É uma comunicação energética.
Meu trabalho é fazer com que essa realidade escondida apareça e a pessoa comece a ver que tem um dom de perceber situações energéticas, que isso faz parte dela, e influi em suas respostas e na maneira de se relacionar com os outros. Que somos influenciados pela energia dos outros.     Existem alguns que têm um sexto sentido mais aguçado e costumam dizer que são médiuns, mas é só hipersensibilidade. Todos temos, mesmo porque nosso sistema não foi feito para viver aqui, na Terra, mas no mundo energético, no mundo astral. Tanto que você não agüenta ficar muito tempo aqui: você precisa dormir toda noite.
    Ver o ser humano como energia nos faz compreender muitas coisas que pareciam milagrosas. Um passo importante é perceber que esses assuntos não são religiosos.

Quando você pinta os quadros e nos fenômenos que envolvem outros espíritos, ocorre o que se chama de ‘incorporação’ ou um processo de canalização de energias?

    Todo fenômeno, sendo energético, é um processo de transmissão. Existem várias transmissões. Um campo transfere sua vibração a outro campo. É assim que se processa dentro do mundo energético. Você está do meu lado e, vamos supor que esteja angustiado e eu estou receptivo. De repente, minha aura começa a reproduzir sua angústia e eu passo a me sentir angustiado também. Campo com campo copia, xeroca. Se seu campo é mais intenso que o meu, o meu copia. Se o meu estiver mais intenso, ele não copia. Depende da freqüência, da intensidade, da vitalidade com que ele está. Então, se existe uma sensibilidade, um campo amplo, aberto e muito plástico, e de repente se aproximar uma pessoa, que no caso pode ser um desencarnado, que está ali pensando em alguma coisa, sentindo alguma coisa, imediatamente meu campo passa a reproduzir.
    Incorporar não existe. O único modo de entrar dentro do sistema da pessoa só ocorre nas mulheres e por um segundo, quando o organismo se abre para que outro ser entre, que é na hora do reencarne. E nunca mais. A experiência que acontece na gravidez é das mais incríveis, pois o espírito realmente fica dentro. Mas, mesmo assim, é uma experiência violenta. Por isso a mulher muda completamente, porque a influência da personalidade ali é forte.
    Não existe obsessão, não tem nada que ‘tome’ alguém. Tomar alguém é tomar a vontade de alguém. E, falando de obsessão, existem mais pessoas aqui na Terra obsediando outras do que existe de desencarnado.

    Uma das perguntas freqüentes de quem assiste a sessões mediúnicas se refere ao sotaque das entidades. Muitas vezes, o médium fala com o sotaque do idioma natal de determinado espírito, outras não. Às vezes, fazem uma pergunta no próprio seu idioma do espírito e ele não compreende.
    Acredito que isso seja uma maneira de, primeiro, diferenciar o espírito do médium, de criar uma personalidade, porque eles estão lidando com a não-imagem, a não-voz. Não tem nada que possa se apresentar — é tudo através de alguém que já é alguém, que já tem voz, já tem cara e personalidade. Muitos deles preferem caracterizar-se para ter um fácil reconhecimento, identificação, criar uma relação. Isso para mim é interessante, porque eu sou Gasparetto, tenho esta personalidade, esta voz, este jeito. Quando vem o Calunga, ele tem uma voz diferente, um jeito diferente de falar, um modo diferente de pensar. Para a pessoa que está ali fica mais fácil se relacionar ou perceber a hora exata em que eu saio e ele entra. Se fosse o Gasparetto, com a minha voz, é uma coisa que às vezes demora tempo para perceber. Mas às vezes acontece de eu estar dando aula e, de repente, vem alguma coisa e eu permito, pois sei que são coisas interessantes, e as pessoas pensam que sou eu. Só as pessoas mais acostumadas a freqüentar as aulas é que percebem que já não sou mais eu.

E quando ocorre do médium estar falando com sotaque e, de repente, ele volta a falar normal, embora a entidade continue se manifestando?
    Aí está acontecendo algum problema de descontato. O que acontece é que o fluxo do transe não é constante. É como na televisão: se não tivesse mecanismos estabilizadores a imagem ficaria piscando. Há campos que têm problemas de sintonia. Na mediunidade, têm dias em que está melhor e outros em que está pior. Não é uma coisa regular. É por isso que, quando o espírito se manifesta, ele treina muito com a gente e vamos nos afinando para tentar fazer com que a coisa fique mais regular. Quanto mais você convive com ele, melhor fica. Mas é instável. A estabilidade da freqüência do transe vai depender também dos estados emocionais. Quando o indivíduo está inibido ou quando, por vaidade, está com medo do que os outros vão pensar, já começa a interferir imediatamente na sintonia. O melhor estado é quando você está confiante, relaxado, cuca fresca. Preocupado, o transe começa a se tornar inseguro, falho. E existe o material do subconsciente que interfere. Todo médium tem uma quantidade de material que ele mistura. Então, nunca é uma pintura pura ou o Calunga puro. Não que eu queira fazer isso, mas esse material sai, o material que eu acumulo, aquilo que eu penso, que eu vivo, que eu acredito. É o inconsciente, o subconsciente. O trabalho de uma manifestação é sempre uma mistura. Em alguns momentos nós estamos com a vida psicológica mais relaxada, o que favorece um transe mais puro. Em outros, esse nível de pureza tende a cair e haver maior interferência. É completamente inconstante, como eu posso ser inconstante em minha personalidade. A sensibilidade flui como a personalidade. Não é independente.

Existem provas técnicas de que as pinturas mediúnicas realmente foram feitas por quem as assina?
    Existem estudos. Eu não posso chamar de provas, inclusive porque essa palavra é muito perigosa, no sentido do quê se pode considerar uma prova. É prova para quem? Nenhum de nós aqui tem capacidade de entender quais eram as provas que Einstein tinha para explicar a teoria da relatividade, já que nenhum de nós é físico o suficiente para entender essas provas. A prova depende da capacidade do indivíduo em entender algo como prova. Então, em assuntos delicados, novos, difíceis, depende. Existem estudos que levam a evidências. Existem estudos da assinatura feitos por grafólogos brasileiros e franceses. Existem os próprios estilos, comparados aos estilos dos mestres. Existe até a própria evolução da assinatura, ou seja, a forma como a assinatura estava evoluindo e se modificando em vida, e que continua se modificando após a morte.

Você já teve contato com extraterrestres? Já presenciou ou vivenciou algum tipo de canalização?
    Graças a Deus isso não é muito freqüente. Não é uma coisa que eu goste. Não tenho medo, não. Eu acho que o contato com extraterrestres desequilibra muito as pessoas. Talvez porque esses seres tenham uma dinâmica diferente, uma energética diferente e, em vez de fazer bem, fazem mal. Muito mal. Não porque são maus, não é isso. É o contato. O que eu tenho sentido é que as pessoas reagem muito mal às coisas diferentes. Com pessoas, seres humanos ou lugares um pouco diferentes, as pessoas já implicam. Até mesmo com algum tique de amigos a gente já se incomoda, se perturba. E, se é um pouquinho mais exótico ainda, as pessoas perseguem. O ser humano é bestial com a diferença. Esse tipo de situação, quando se está na presença de uma criatura muito diferente de nós, ou que seja, na energia de uma pessoa muito diferente, isso desequilibra totalmente o indivíduo. É por isso que eles têm problema de se mostrar e se aproximar. Eles têm de fazer isso com muita reserva, senão causam mais mal do que bem. Eu tive algumas experiências fora do corpo, tive alguns avistamentos. Cara a cara, nunca, mas estive fora do corpo, vi e conversei. Eu sei que existe, embora o ser com o qual eu entrei em contato não tivesse nada de diferente do ser humano. Em todo caso, eu sei que existe todo tipo de coisa porque já li sobre o assunto e li outras pesquisas. De qualquer maneira, contato com eles, eu não recomendo.

Uma pessoa que viajou com você a Macchu Picchu, alguns anos atrás, relatou um acontecimento fora do normal. Todo o grupo presenciou você canalizar uma entidade inca, que deu origem a uma experiência espantosa. Você poderia nos falar sobre essa experiência?
    Existe um deva. Devas são seres de uma raça paralela à nossa, que conhecemos como fadas e seres elementais, muito ligados ao clima e a um determinado local. O grupo foi passar a noite em Macchu Picchu e a entidade disse que iria fornecer provas de que existia. Falou que o céu, que estava nublado, iria se abrir, e realmente abriu, formando um círculo. Disse que um pássaro iria cantar no silêncio e ouvimos um som estranhíssimo de um pássaro, com voz extraordinária. O terceiro sinal era de uma bruma que iria cobrir tudo e, não deu dois minutos, uma neblina desceu e nos cobriu por completo.
    Já que estávamos lá para ter contato com alguma coisa mais, em busca de uma resposta, acho que foi uma maneira das entidades nos mostrarem que na natureza existem forças que nós desconhecemos e que temos de estar abertos. Acho que a melhor coisa que pode acontecer a um ser humano é ele se abrir. Temos uma cultura religiosa profundamente limitante e uma ciência ainda mais, pior do que a religião. A religião fez muito estrago e a ciência está fazendo ainda mais, porque são dogmáticos como eram os antigos religiosos, e isso não é a verdadeira ciência.
    Existe um dogmatismo científico que não é o verdadeiro pensamento científico. Fechado, com uma visão tacanha, materialista, conservadora, num mundo em que estamos precisando cada vez mais de abertura. Pé no chão, sim; senso, sim; pesquisa e estudo, sim; mas muita coragem para acreditar ou não acreditar. Eles estão atrás de explicações, estão preocupados com o que vão dizer e isso é errado na ciência, que deve estar atrás de compreender e não explicar. Explicar não serve para nada. Compreender é fazer parte, é onde nasce o verdadeiro entendimento do ser humano.
    A fundamentação da base científica está se modernizando, se alterando. Mas há o politicamente correto de achar que a ciência é um ponto de segurança para a humanidade. Então, todo mundo se segura na ciência como se segura em Jesus Cristo, como crente se segura na cruz. Esse medo de mexer no estabelecido está atrasando muito. A medicina está completamente acabada. Ela jamais curou alguma doença ou explicou por que ficamos doentes e se dão ares de donos da bola. Insistem em não incorporar as outras áreas humanas que são a mente, a emoção, a vida emocional da pessoa. Querem ignorar, como se nosso corpo ficasse doente por acaso. Isso está estabelecido e a humanidade colabora, ela fecha os olhos. Vou levar meu corpo para ser curado como levo um carro para trocar o pneu. Não quer dizer que a medicina é inútil; ela tem a sua utilidade. Mas que existe um contexto explicativo enganoso, existe.
    Quero saber os porquês. Por que acontece de um jeito e não de outro, por que um câncer no fígado e não na orelha ou no pé? Por que o sistema imunológico não responde, ou responde a algumas coisas, mas não a outras? Essas perguntas logo vão induzir você ao emocional, ao mental, a outros dados e termos cuja existência eles querem ignorar. Claro, a resposta deve estar em outros níveis do ser humano. Qualquer pessoa mais experiente já sabe, qualquer médico um pouquinho mais aberto já sabe. Porque isso vai levar à destruição de todo o conceito humano, de sociedade, de educação, de vida, e isso só vai acontecer a partir de uma revolução.
    E essa revolução está acontecendo. Cada dia se crê menos na medicina tradicional, no sistema, na política, no exército, na religião, nas instituições como elas se apresentam. Estamos vivendo uma revolução profunda de visão da vida e de nós mesmos, e ninguém vai escapar.

Gostaria que você deixasse uma frase ou uma idéia para os leitores da revista em relação ao que pode ser esse novo milênio, ou qual o lema para o novo milênio.
    Só tem uma saída, um caminho. Tudo é exatamente individual. Enquanto o homem não pensar assim, não haverá condição. No universo, tudo se organiza na individualidade, não no coletivo. Eu não moro na mesma São Paulo. Você tem uma São Paulo, eu tenho outra, porque a sua vida corre de um jeito e a minha de outro. Cada um tem um mundo. Tudo gira em torno da individualidade, mas ninguém pensa assim, nem a sociedade, nem a lei, nem a justiça. O homem tem que começar a pensar pondo a individualidade no centro. Eu sou eu, sou uma coisa. Como é essa coisa 'eu'? Não é comparável com nada: não tem modelo, não tem normal, não tem certo, não tem errado. É mentira dizer que a fraternidade só existe se formos iguais. A fraternidade consiste em aceitarmos as diferenças.
    O processo político não é do socialismo, é do individualismo. Da iniciativa privada, da iniciativa particular. Nós temos que tirar o poder do governo e colocar nas pessoas. Mas as pessoas querem um paizinho. Existe um centro coordenador, administrador, claro, isso precisa. Ele tem apenas de coordenar as forças sociais para haver um certo equilíbrio. O resto é a iniciativa privada que deve fazer. Até a polícia. O brasileiro precisa, acima de tudo, redefinir qual é a função do governo e assumir mais responsabilidade pela própria vida. E parar de pagar a conta de quem não quer trabalhar, não quer estudar, não quer fazer nada. Aqui, se a gente tem um pouco mais, querem nos fazer sentir culpados e responsáveis pelos desgraçados. Isso não está certo.

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