Nos Caminhos da Deusa

2009-05-08 16:58

Claudiney Prieto tem desenvolvido, entre os praticantes de bruxaria, o papel de divulgador da Wicca, uma ramificação que busca resgatar a antiga religião matriarcal que existia na Europa pré- cristã.

Alex Alprim

    A bruxaria tem adquirido cada vez mais espaço na mídia e, dessa forma, um número maior de pessoas está buscando caminhos alternativos e mágicos para reencontrar a sua espiritualidade. Em pleno século XXI, a Wicca renasce com uma visão focada na bipolaridade sexual de uma deusa e um deus.
    Claudiney Prieto foi iniciado nesse caminho e hoje desenvolve um trabalho de divulgação e de iniciação para todos aqueles que buscam uma outra via para a espiritualidade, num trabalho de resgate mágico que teve início na década de 50 com Gerald Gardner e que agora encontra solo fértil em terras brasileiras.

Como você começou o estudo da magia e como foi sua trajetória nesse universo?
    Nasci na umbanda. Minha mãe era praticante. Por volta de oito anos, eu me voltei para o candomblé por influência da minha tia, e fiquei lá até os dezesseis. Foi então que eu conheci a Wicca, a bruxaria. Eu era uma mistura. Estava no candomblé, mas gostava de esoterismo, jogava tarô, acreditava em anjos. Foi quando conheci a Wicca, através do John, que me iniciou na arte. Eu até achava que era mentira dele, que essa coisa de bruxo não existia, mas isso aguçou minha curiosidade. Continuei nesse caminho e acredito que é uma via da qual não vou sair. A religião me dá essa conexão com o sagrado, que eu sempre quis. Na realidade, eu digo que não fui eu quem encontrou a Wicca, mas ela que me encontrou. Eu nem sabia de sua existência, ou que bruxaria fosse uma religião. Eu tinha na minha cabeça aquele misto de fantasia e realidade que todas as pessoas têm: as bruxinhas das histórias em quadrinhos...
    Quando se fala em bruxaria, já se associa com algo maligno, ruim. Era o que eu tinha na cabeça na época. Quando fui apresentado ao John, ele me explicou que Wicca era o que se chamaria no Brasil, mais ou menos, de “bruxaria”, e me contou de um movimento bastante abrangente nos EUA e Europa. Aquilo ficou martelando na minha cabeça: o sagrado feminino, a conexão com a deusa... e, depois de um tempo, fui conhecer mais um pouquinho. Mas acredito que realmente me voltei a essas práticas por causa da identificação, no sentido de que eu não estava satisfeito com o candomblé, e encontrei na Wicca uma religião libertária, uma forma de extravasar minha religiosidade da forma como eu a sentia. Acho que é isso que faz com que certas pessoas se voltem às práticas de bruxaria: o senso de liberdade, de não depender de ninguém pra sua conexão com os deuses. É uma conexão direta, sem intermediários.

Como você foi iniciado na religião Wicca?
    Foi um processo normal, passando por um período de dedicação, de treinamento mágico no qual se conhecem as coisas mais elementares da religião, os fundamentos básicos que são imprescindíveis pra ver se o indivíduo tem certeza se aquele é ou não seu caminho. Após o prazo de um ano e um dia – no caso foi um ano e alguns dias –, o indivíduo se inicia na religião. O próprio nome já diz: um ritual de iniciação. O indivíduo está iniciando o seu caminho e, aí sim, passa a conhecer os mistérios da tradição, as coisas mais profundas da religiosidade.
    É um período de autoconhecimento, de auto-análise, de contatar a energia da natureza, de ter uma conexão com os quatro elementos da natureza – terra, ar, fogo, água – que são a base de toda a energia da Wicca. É o momento em que se aprende a lidar com nossos medos e incertezas, tanto que o período de dedicação é chamado “período das sombras”, quando a pessoa entra em contato direto com sua sombra, porque isso é imprescindível ao seu próprio crescimento, em que se conhece tudo de muito bom que existe dentro de nós, mas também tudo de muito ruim. A busca de um bruxo é sempre pelo equilíbrio. É claro que nunca se consegue ser uma pessoa equilibrada se não conhecer o que temos de pior dentro de nós. O processo de dedicação é um processo de conexão com as divindades, com os deuses – conexão essa que foi perdida através dos séculos, e que nós, bruxos, procuramos resgatar.

Que tradições e linhas existem dentro da Wicca?
    A Wicca é uma religião que não tem muita coesão, já que passou por um processo de tradição oral, e muitas coisas foram perdidas na época em que a bruxaria era considerada crime. Com a Inquisição, praticamente tudo se perdeu. Hoje, o que nós fazemos nessas práticas vem de estudos não apenas daqueles que praticaram, mas de historiadores, antropólogos, sociólogos. Nós chamamos essa nova fase da religião de “bruxaria moderna”.  A Wicca é uma reconstrução da antiga religiosidade dos europeus.
    Há diferentes formas de se praticar a bruxaria, que é o que nós chamamos de “tradições”: conjuntos específicos de prática de liturgia, rituais, que são passados de pessoa a pessoa. Seria impossível citarmos quantas tradições existem, pois são inúmeras. Tem a nigeriana, a alexandrina, a tradição diânica – da qual faço parte – a caledoni, a estregueria, a fairy-wicca. Existem até o que nós chamados de tradições hereditárias, quando os bruxos recebem o conhecimento de sua própria família.
    Cada tradição tem suas particularidades, suas peculiaridades e suas formas específicas de entrar em conexão com a divindade. Enquanto diversas tradições trazem em sua base aquilo que foi exposto por Gardner em 1951 – que é o uso do athamé, instrumentos mágicos, a roda dos anos com seus equinócios e as datas fixas dos sabás –, outras não utilizam instrumentos mágicos: usam mais o corpo e a mente pra se conectar com os deuses, como o caso da fairy-wicca, que não utiliza nada que tenha aço ou ferro, porque vem da tradição de que as fadas têm medo de ferro e aço e se afastam desses lugares.
 
No que consiste a linha diânica?
    O termo “diânico” foi criado quando Margareth MacFarland disse que os antigos cultos da Europa se referiam à Diana. Assim, muitas bruxas da época começaram a chamar a sua forma de praticar bruxaria de “diânica”. É uma forma especificamente centrada na deusa, em que a deusa exerce a supremacia. Dentro da tradição diânica existem outras subdivisões, como a Witch Dianic, a Old Dianic – que é a minha –, cada uma com suas particularidades, mas todas focadas na deusa que exerce a preponderância e é vista como incriada e criadora de todas as coisas.

O papel do deus, então, é praticamente inexistente na estrutura diânica?
    Depende da facção do dianismo, no entanto é um papel secundário. Por exemplo, as feministas não reconhecem o deus: ele não existe. Na minha própria tradição, a Old Dianic, o deus é reconhecido como consorte da deusa, porém, apenas na fase mãe da deusa. A mulher exerce um papel preponderante nessas tradições exatamente pelo fato dessas tradições estarem focadas no sagrado feminino, nos mistérios das mulheres. Existem facções, como a das germânicas feministas, que não aceitam homens. A minha tradição já aceita, e o papel do deus é secundário: ele é visto como fertilizador.

Existe um conjunto de predisposições para uma pessoa fazer parte da Wicca?
    Nós costumamos dizer que a Wicca é uma religião para todos, uma religião aberta que surge num momento de mudanças sociais e filosóficas. Não podemos fechar a religião para o público, até porque ninguém pode fechar o que é legado por Deus a todos aqueles que estejam com o coração aberto. Só que a Wicca é uma religião que demanda muita auto-exploração, autoconhecimento. Traz uma mudança nos pensamentos e na postura de vida. Quando eu falo de mudança de pensamento, é em todos os sentidos. Significa que você vai ter que parar de jogar latinha de refrigerante no meio da rua, porque a terra é o corpo da deusa. Significa que você vai ter de reconhecer que todas as formas de amor são celebradas dentro dessa religião, já que a deusa é a totalidade, completa e perfeita. Automaticamente, nossa religião é desprovida de preconceitos, sejam eles quais forem; pois, se uma pessoa é preconceituosa, ela está sendo unilateral e negando a perfeição da deusa. Nem todos aqueles que cresceram na sociedade machista, centrada no homem, acabam conseguindo passar por esse processo de transformação.

Alguns filósofos modernos, como Ken Wilber, têm alertado que o hiperfeminismo pode e tem levado a algo tão preconceituoso e prejudicial quanto o machismo. O que você pensa sobre isso?
    Eu acho que choques são importantes na medida em que trazem mudanças sociais e filosóficas. Muitos perguntam se a supervalorização da mulher dentro da religião, ou o feminismo dentro da religião, é algo negativo. Eu acho que não, porque convivemos com uma sociedade machista há milênios. Acho que a supervalorização da mulher na religião não é negativa. Os mistérios das mulheres, o que acontece com o corpo das mulheres, com sua espiritualidade, são totalmente diferentes dos que acontecem na visão masculina.
    A Wicca é uma religião feminina e feminista na sua maioria, entretanto não tira o direito dos homens praticarem, o que não acontece com outras religiões. Ela não exclui os homens, mas eles precisam encontrar uma outra forma alternativa de extravasar a sua religiosidade dentro dessa filosofia. A mulher é totalmente excluída da classe sacerdotal de outras religiões: é vista como um ser inferior e, muitas vezes, como um ser negativo. Para nós, a mulher é sagrada, devido ao seu dom de gerar, de dar a vida. Acreditamos que viver em harmonia com o cosmo, em ressonância com o universo, somente pode ser conseguido mediante uma filosofia matrifocal, o que não significa que seja matrilinear, mas que dá um papel preponderante à mulher.

Qual a origem histórica da Wicca e a estrutura histórica do matriarcalismo?
    Os homens começaram a acreditar que a entidade criadora do universo seria feminina no neolítico, no paleolítico inferior, uma vez que só as mulheres têm o dom de gerar a vida. A sociedade ainda não tinha associado o ato sexual à gravidez, e acreditavam que as mulheres engravidavam deitadas ao luar, por meio do poder da deusa manifestada. As mulheres seriam as descendentes diretas da deusa porque, como ela, tinham o dom de gerar e dar vida. Foram sempre consideradas entre as culturas como seres mágicos. Na idade primeva, se um caçador fosse atingido por um animal, sem os recursos modernos, ele iria sangrar até morrer, o que não acontecia com a mulher, que uma vez por mês sangrava e continuava tão forte como sempre. Portanto, ela era reverenciada porque conhecia os segredos da vida e da morte, e daí surgiram as grandes sacerdotisas. Foram elas as iniciadoras das agriculturas, percebendo que, se comiam e jogavam a semente em frente à caverna, a árvore começava a crescer e dava frutos. Foram elas que começaram o processo de comunicação por meio da fala e da escrita, pois precisavam se comunicar com seus filhos, transmitir sua cultura. Até a chegada da Igreja Católica, na Idade Média da Europa, elas sempre foram as continuadoras da religião, as grandes sacerdotisas. Na realidade, até a era de Áries, o que dá em torno de 2000 a.C., não existiam cultos aos deuses: só às deusas. Os cultos às divindades masculinas começaram a ser praticados quando as tribos se tornaram conquistadoras e guerreiras.

Para saber mais
Wicca, A Religião da Deusa - Claudiney Prieto (Editora Gaia)

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