Música do Mundo

2009-05-05 18:42

Dando seqüência a uma carreira internacional muito bem sucedida, a cantora e compositora Fortuna lança mais um CD, Caelestia, com os monges beneditinos do Mosteiro de São Bento. Em entrevista exclusiva à Sexto Sentido, Fortuna fala sobre seu novo trabalho e sobre as culturas judaica e cristã.

Gilberto Schoereder

Ficamos sabendo que o cineasta espanhol Carlos Saura vai utilizar uma música do CD Mazal em sua próxima produção. Como ocorreu essa aproximação?
    O Carlos Saura descobriu meu trabalho na Espanha — onde meus álbuns são distribuídos com muito sucesso — e gostou muito de uma canção do CD Mazal que, em hebraico, significa ‘destino’. A música é Yo M’enamori, um tema tradicional com arranjo de Iacov Hillel e Fernando De La Rua. Nas poucas interpretações dessa música a gente sempre ouve uma forte condução rítmica espanhola, era o que erroneamente eu iria reproduzir. O Iacov Hillel, nosso diretor, que tem uma percepção maravilhosa, nos levou em outra direção, ou seja, uma interpretação intimista com voz e guitarra flamenca tocada por Fernando De La Rua. No começo foi dificílimo para mim, mas logo entrei nessa nova atmosfera. A música foi inserida em vários trechos do próximo filme de Saura, Buñuel y la Mesa del Rey Salomon.

Como você desenvolveu o estudo sobre as canções judaicas? Que tipo de pesquisas realizou e o que a levou a se interessar por elas?
    O que me levou a me interessar pelo cancioneiro ladino, dos judeus da Espanha, foi uma necessidade enorme de encontrar uma nova sonoridade, e também minhas raízes. Uma questão de missão.
    Eu morei um ano em Paris, em 1991, e lá tive muito contato com músicas étnicas de todas as partes do mundo. Eu achava muito comovente ouvir o grupo O Mistério das Vozes Búlgaras, grupos celtas e outros. Esses sons ressoavam direto na alma transportando para outras dimensões muito próximas de mim, dimensões de um mundo sutil, harmônico, apaziguante e apaziguador. Ao mesmo tempo, eu necessitava me reaproximar de minhas raízes. Sonhava com mouros, melodias orientais, ciganos, sem saber o que era aquilo, até entrar no Museu da Diáspora, em Tel Aviv, e ouvir uma canção de ninar num dialeto ‘familiar’. Era o ladino, falado pelos judeus da Espanha. A partir de então minha vida mudou. Comecei a pesquisa em torno desse cancioneiro tão místico e exótico.
    A pesquisa se estendeu às indumentárias e vestimentas da época em que sefarditas — judeus originários da Espanha — mouros e cristãos viviam em harmonia, uma época medieval conhecida como Idade de Ouro. Iacov Hillel, meu diretor e parceiro desde 1992, traduziu essa atmosfera para o palco com os figurinos e a colocação cênica. No início dos espetáculos referentes aos CDs La Prima Vez, Cantigas e Mediterrâneo, exploramos muito o sagrado, o profano e nações medievais sefarditas satíricas.
    Já o CD Mazal é composto de canções litúrgicas e canções de amor. Mazal se impregnou da atmosfera monástica do local onde foi gravado ao vivo, em meio à natureza, no Mosteiro de São Geraldo, em Itapecerica da Serra.
    Logo que terminamos as gravações, senti um vazio enorme, em função da falta de vozes dos monges. Foi a partir de então que essa absoluta necessidade se transformou em realidade, com a participação do coro dos monges beneditinos do Mosteiro de São Bento, de São Paulo. Eles participaram do lançamento do CD e logo senti a urgência de registrar essa parceria. Escolhemos um repertório de músicas sagradas de ambas as tradições. Finalmente, o CD Caelistia é composto de canções unicamente litúrgicas.


Você disse que a música é um instrumento bastante adequado para realizar uma espécie de ponte entre as diversas culturas. De que forma você entende que essa aproximação ocorre?
    A música tem a capacidade de estabelecer a harmonia e o diálogo. É um canal com Deus, além de ser universal. O que ocorre em Caelestia é uma parceria entre os monges e meu próprio trabalho. Eu canto cantos gregorianos e eles também interpretam as canções judaicas, sefarditas. Também foram criadas canções de tema universal, haleluyas e canções vocalizadas. Todo o repertório de Caelestia é um louvor a Deus, em todos os sentidos.
Algo muito inusitado aconteceu comigo no início dos ensaios. Quando os monges me perguntaram que canto gregoriano eu desejava interpretar, cantarolei um trecho que nunca tinha ouvido. Era o Rorate Caeli, que é um trecho de Isaías que fala do Redentor, Jerusalém e Sion. Uma experiência muito forte e carregada de sentido místico e sagrado para mim.

Como estabeleceu o diálogo entre as músicas de duas culturas — no caso a judaica e a cristã — que durante tantos anos sofreram com uma cisão entre ambas?

    As culturas judaica e cristã têm origens monoteístas muito próximas. No mosteiro, encontramos várias referências às matriarcas e patriarcas do judaísmo: Sarah, Rebeca, Rachel, Miryam, Abrão, Isaac, Jacó. O próprio canto sinagogal tem pontes com o canto gregoriano. Os beneditinos sempre foram abertos ao diálogo inter-religioso e, afinal, é tempo de mantermos cada um sua própria tradição. Porém, devemos dialogar e superar cisões do passado em função de uma nova era, de uma evolução e de um novo mundo. A música não conhece fronteiras, é uma linguagem universal.
    Acho que está claro que o mundo está em mutação. Basta ver os esforços de nosso atual Papa Paulo II em prol do diálogo inter-religioso, que assume uma postura extremamente evoluída e iluminada.
    Os beneditinos são reconhecidos por sua profundidade e estudo altamente evoluídos, e é esse conhecimento que faz com que eles se abram sempre ao diáologo inter-religioso. O próprio Dalai Lama optou pelo Mosteiro de São Bento para se hospedar durante sua estadia em São Paulo.     Assim acontece com vários outros líderes religiosos.

Como a comunidade judaica tem visto o seu trabalho? Existe uma aceitação ampla ou algumas resistências?
    A comunidade apoia muito esse diálogo. A Casa de Cultura de Israel é nossa parceira em vários eventos ligados ao coro dos monges. Um deles acontecerá no próprio Mosteiro de São Bento, no dia 3 de setembro, onde faremos um recital litúrgico. Existiu uma aceitação e empatia imediata com relação ao diálogo, de ambas as partes. O público e a imprensa foram muito efusivos com relação a essa proposta inusitada.

Como foi produzir o CD com os monges? Soubemos que é a primeira vez que você produz um disco que não seja seu.
    Produzir Cantus Selecti é um marco em minha vida, em meu processo artístico. Eu já tinha produzido meus quatro CDs, mas gravar cantos gregorianos é completamente diferente, pois se trata de vozes à capella, em estado de absoluta pureza, sem qualquer acompanhamento musical. É tudo diferente, desde a captação e colocação dos microfones. É uma alquimia totalmente diferente e eu aprendi muito com o Getúlio, o engenheiro de som do Estúdio Bebop, que conhece profundamente a arte de gravar o gregoriano.

Quais são seus planos para o futuro próximo? Além das apresentações no Brasil, já existe alguma marcada para o exterior? Você tem outros projetos envolvendo música ou outras atividades?
    Sou diretora artística de Todos os Cantos do Mundo, um festival realizado pelo SESC, e de 15 a 25/11 acontece a quarta edição desse evento que reúne no mesmo palco artistas brasileiros e internacionais. Já se apresentaram João Bosco com o africano Sam Mangwana, Baden Powel e o trio vocal indígena Ulali, o grupo Uakti e as africanas do grupo Map Marimbas, Hermeto Pascoal e a cantora xamã da Sibéria Sainkho. O festival tem duas semanas de duração e os grupos fazem uma parte conjunta. É genial ver o que pode rolar de música entre grupos de etnias tão distantes e que, no entanto, se aproximam, criando um som familiar.

Como tem sido a aceitação de suas músicas pelas rádios no Brasil? É bastante comum as rádios brasileiras não tocarem muito aquilo que não faz parte do chamado mainstream — músicas que são divulgadas maciçamente pelos meios de comunicação. Você tem encontrado dificuldades nesse sentido?
    Na verdade, eu nunca me iludi com relação às rádios. Sou muito grata por ter minhas músicas tocadas em rádios que são excelentes e têm público bem legal, como a Rádio Cultura e Eldorado. Existe um mainstream hoje em dia que é alternativo, um nicho ao qual pertenço, e que gosta de ouvir algo que não seja essa massificação que nos assola, deixando tudo com cara de um único concreto.
Esse nicho é grande e internacional, e cresce no mundo inteiro. É um público ávido por um som de sensibilidade e resgate de harmonia e espiritualidade. Um público que deseja entrar em sintonia com algo mais humano e acalentador.

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