Mapinguari - Fato ou Mito?
2010-05-06 16:05O mapinguari já faz parte do folclore da Amazônia, mas o animal pode ser bem mais do que apenas fruto da imaginação.
Paulo Aníbal G. Mesquita
Desde que estivemos a primeira vez no interior da região amazônica, tomamos conhecimento do mito do mapinguari e passamos a investigá-lo; não como uma das lendas mais difundidas pelos indígenas, e sim, como a possibilidade de que esse “animal” ainda exista. Na verdade, ele seria um mamífero “pré-histórico”, remanescente dos antigos bichos-preguiça gigantes do final do Pleistoceno (há mais de 12 mil anos). Talvez seja o último representante da megafauna sul-americana da Amazônia brasileira.
Investigamos casos relacionados com o mapi em alguns pontos remotos da mata amazônica, nos estados do Amazonas, Rondônia, Pará e Mato Grosso. Neste último, em alguns locais, a fera é chamada de pé-de-garrafa. Nessa jornada, coletamos muitos relatos de índios, garimpeiros e de outros moradores da região sobre avistamentos dessa “fera” durante a noite.
Os relatos se assemelham. Testemunhas afirmam que, ao se depararem com o provável mapinguari, o animal assume uma postura bípede ameaçadora, exibindo suas robustas garras. Alguns índios se referem a um odor extremamente fétido que dizem sair da "barriga". Ele possui uma longa pelagem de cor acastanhada escura, e alguns dizem que sua pele é semelhante à do jacaré. Tem um focinho, e aproximadamente dois metros de altura quando fica em pé, já que normalmente anda sobre as quatro patas.
Temos informações de que, durante a noite, esse animal atacou com violência um posseiro numa vila isolada no extremo norte do Mato Grosso, e a pessoa foi dada como desaparecida.
O biólogo e pesquisador norte-americano David Oren realizou algumas expedições à procura do mapinguari, uma delas em companhia de uma equipe de televisão dos EUA, numa área indígena próxima à Bolívia. Lá, encontraram indícios de pegadas, coletaram inúmeros relatos indígenas e até excrementos que, numa análise posterior, verificou-se ser de tamanduá. Oren desistiu da procura há mais de dois anos, por nunca ter conseguido provar sua existência. Quase todas as vezes em que estive na Amazônia com o objetivo de procurar o mapinguari, deparava-me comumente com relatos de um estranho animal parecido com um macaco, mais alto que um homem, de pêlo escuro, com grande focinho que lembra o de um cachorro, com garras expressivas pontiagudas nas patas e que exalava um forte cheiro de “coisa podre”; na minha concepção, isso pode ser uma forma de defesa química ou até marcação de território. Podemos observar esse tipo de comportamento em diversos mamíferos e insetos, mas também não consegui qualquer prova concreta e inquestionável relacionada ao mapinguari.
Em janeiro deste ano fui a um local nas proximidades do rio Negro, no estado do Amazonas, e segui por uma trilha na floresta até um local indicado por um ex-garimpeiro; ele disse ter visto o mapi a distância, raspando uma árvore com as garras das patas dianteiras. O homem saiu correndo apavorado quando o animal percebeu sua presença. No local, encontrei duas árvores cujos caules tinham marcas que realmente se assemelhavam à ação de três garras.
Talvez seja uma evidência direta de seu comportamento, mas qualquer conclusão é prematura. Ainda devemos analisar todas as possibilidades, desde que as marcas tenham sido feitas por algum animal conhecido, como o bicho-preguiça, um tamanduá ou outros, e até a possibilidade de fraude.
Já que defendo a idéia de que o mapinguari é um tipo de bicho-preguiça do passado, do grupo edentada, uma forma que encontrei para a pesquisa foi estudar o comportamento dos atuais bichos-preguiça, como a espécie bradydus tridactylus, bem menor do que seus "parentes" antepassados. Como seus antecessores, é totalmente vegetariano, conforme é comprovado pelos fósseis das arcadas dentárias de molares encontrados. A fêmea dá à luz apenas um filhote, e suas patas possuem três dedos com grandes garras, semelhantes, guardadas as devidas proporções, às das gigantescas preguiças do passado. Estas eram terrícolas, ao contrário das atuais, que são arborícolas e dificilmente descem ao solo.
Estudando também evidências fósseis dos ossos da mandíbula robusta dos antigos bichos-preguiça, em especial o eremotherium – uma grande espécie que existia em grande número em nosso território até por volta de 10.000 anos atrás – verificamos a presença de grandes dentes molares, demonstrando serem herbívoros por excelência. Achados fósseis das patas, com fortes e pontudas garras, mostram como eram importantes na captura de vegetais para sua alimentação; fósseis dos largos ossos da bacia, somados aos ossos das patas posteriores, provam que tinham capacidade de ficar em posição ereta e, assim, alcançar folhas e galhos muito acima do solo, na copa das árvores; podia se apoiar no caule, mas não subia nas árvores. Alguns centros de pesquisas brasileiros nos quais estive pesquisando possuem ótimos exemplares fósseis, como o Museu Nacional, no Rio de Janeiro, o Museu Emílio Goelth, no Pará, e o Museu da Fundação do Homem Americano, no Piauí.
O eremotherium, que chegava a mais de quatro metros de altura, foi citado devido ao estudo de seus fósseis. Mas foram achados fósseis de espécies bem menores, compatíveis com altura atribuída ao mapinguari, como o nothrotheriops shastensis, medindo 1,5 metro, considerada a menor das preguiças extintas. Também existe a espécie glossoterium harlani, com cerca 1,8 metro e com uma característica que chama a nossa atenção. Ela possui um revestimento interno na pele, como um tipo de “placa” dérmica, formando uma espécie de carapaça que servia de proteção contra predadores. Esse detalhe é importante devido ao fato de algumas pessoas afirmarem que o tal mapi tinha, sob os pêlos castanhos, um “couro” parecido com o de um jacaré. Será que o mapinguari é um fóssil vivo? Um descendente direto do glossoterium?
Em toda a América do Sul, foram encontrados inúmeros fósseis desses mamíferos vegetarianos do grupo endedata-pilosa (preguiças gigantes). Em termos geológicos, alguns deles se extinguiram há muito pouco tempo (6.000 anos), principalmente na região ocidental da Amazônia, no Nordeste brasileiro, norte da Argentina, e também em inúmeras grutas, em várias regiões do país; alguns estão submersos, e tive a oportunidade de ver um exemplar sob as águas no interior da gruta do Lago Azul, na Chapada Diamantina, na Bahia.
Segundo pesquisas, na época da megafauna, a Amazônia não era uma floresta exuberante, mas uma região de savanas e cerrados, com as florestas se concentrando apenas ao longo dos principais rios; talvez a grande mudança climática tenha sido um dos fatores que contribuíram para a extinção das grandes preguiças. Como essa extinção foi muito recente, por que não poderia existir algum remanescente, atualmente? Não poderia ser o mapinguari?
Comparando-se os dados biológicos das atuais preguiças com os achados fósseis citados, e somando-se isso aos testemunhos e indícios coletados, podemos ter uma idéia do perfil biológico do suposto mapinguari. Mas os indícios até agora obtidos e analisados não provam a existência do mito.
———
Voltar