Inteligência Artificial e Consciência

2009-05-05 16:14

Cada vez mais os cientistas falam sobre a construção de máquinas inteligentes, robôs e computadores capazes de ter pontos de vista próprios sobre a vida, sobre si mesmos e sobre a humanidade.

Alex Alprim e Gilberto Schoereder

    Quem está acostumado a ler ficção científica sabe que um dos temas mais absorventes do gênero é o que envolve a construção de robôs. Quando se fala sobre o assunto, surgem algumas perguntas inevitáveis: será que um dia vamos construir máquinas que pensem como seres humanos? Até que ponto um robô ou computador pode ser considerado apenas uma máquina, e quando ele deixa de ser máquina e se transforma em algo próximo ao humano? Se a consciência é a marca da humanidade, é possível que um ser construído pelo homem tenha consciência?
    Esse tipo de pergunta vem mexendo com a imaginação humana há mais tempo do que se imagina. As histórias de ficção científica podem ser consideradas recentes quando comparadas a outros mitos, como as lendas de magos que criavam os homunculi a partir do nada, gerando vida e comandando-a; ou a lenda judaica do golem, um ser criado pelas artes místicas da cabala e que também servia ao seu criador. Mas tais seres eram máquinas biológicas, sem consciência de si mesmos e incapazes de desenvolver um sentido de raciocínio, de reflexão e interagir com a sociedade.
    Para alguns estudiosos, tanto os mitos quanto as lendas modernas representadas pelos contos de ficção refletem uma preocupação humana que se perde no passado mais remoto: a busca da alma, da consciência ou, mais exatamente, o desejo de saber exatamente onde reside a nossa humanidade. Em que momento deixamos de ser apenas uma maravilhosa máquina biológica adaptada para sobreviver e interagir com o meio-ambiente e passamos a ser entidades que vão além dessa simples condição de ‘máquina’?
    Já se discutiu muito sobre o assunto, tanto na filosofia quanto na religião e ciência, cada qual defendendo pontos de vista válidos mas de forma mais ou menos radical. No entanto, tudo indica que no século XXI tais discussões irão se acirrar e atingir o âmbito da vida real, uma vez que nos aproximamos de um ponto no desenvolvimento científico humano em que os mitos podem se tornar realidade. Não estamos muito longe de conseguir recriar a vida através de processos de clonagem, duplicando seres humanos, ou criando seres absolutamente novos por meio da engenharia genética. Teoricamente, tudo pode ser feito, e sabe-se que, quando alguma coisa pode ser feita, será, independente das regras ou leis estipuladas para controlar o processo.
    Mais do que clonar seres humanos, o meio científico tem falado seriamente no desenvolvimento de máquinas pensantes, computadores sofisticados ou robôs com aparência humanóide capazes de desenvolver padrões de pensamentos próprios. Trata-se da criação da chamada inteligência artificial, a máquina inteligente capaz de tomar decisões e realizar cálculos que, até então, só se admitia que o homem fosse capaz.

Definindo Inteligência
    Nas mitologias antiga e moderna, a criação de uma nova inteligência quase sempre evoca a idéia de certo perigo, de um medo quase irracional sobre o que significará a nova consciência criada. Filósofos já disseram que isso pode significar o medo de um novo modelo de inteligência, capaz de julgar nossas atitudes — inclusive a própria decisão de criar vida — sob pontos de vista que hoje sequer conseguimos imaginar. Também já foi dito que esse medo pode ter raízes na idéia de sermos suplantados: uma nova raça de seres inteligentes decidindo que somos supérfluos e desnecessários para a continuação da vida no planeta.
    Seja como for, o fator predominante em todas as discussões parece girar em torno da definição de inteligência. Mesmo a ciência mais avançada ainda não tem respostas para essa questão. Um exemplo claro da situação chegou a se tornar uma piada alguns anos atrás. A mais moderna tecnologia foi utilizada para a construção da sonda espacial Galileu, que tinha como missão estudar Júpiter. Pode-se dizer que o que há de mais avançado em tecnologia de computadores e inteligência humana foi aplicado ao projeto, inclusive uma programação visando detectar a existência e possibilidade de vida inteligente no planeta. Quando a sonda passou pela Terra, o programa foi iniciado, e os instrumentos enviaram sua conclusão: 30% de chance de haver de vida na Terra e 0% de chance dessa vida ser inteligente. Por mais que os cínicos possam concordar com a estimativa para vida inteligente, ela é uma demonstração clara de que ainda não conseguimos encontrar definições apropriadas para o que seja inteligência, ou até mesmo para o que seja vida.
    Já se tentou definir inteligência como a capacidade de se adaptar às modificações do ambiente, de se desenvolver e progredir. No entanto, sabe-se que hoje em dia existem muitos programas de computador que conseguem se adaptar e até mesmo criar cópias melhoradas de si mesmos. Mas isso não implica que tenham autoconsciência. Alguns filósofos disseram que somos inteligentes porque temos a capacidade de criar idéias, desenvolver raciocínios abstratos e trazê-los para o mundo real. Outros afirmam que somos o que somos por sermos os únicos com consciência de nós mesmos, mas essa também é uma proposição que vem sendo derrubada pelos estudos de outros animais terrestres.
Cientistas pensaram que um ser artificial poderia ser considerado inteligente se fosse capaz de interagir conosco sem percebermos que estávamos lidando com um ser humano ou não. Chegou-se a realizar um teste para verificar essa proposta, no qual humanos e computadores responderam a perguntas cujas respostas eram interpretadas por entrevistadores. O resultado: um humano foi classificado como computador por fornecer respostas lacônicas demais.
    Essa é mais uma prova de que o processo de análise da mente humana é bem mais complexo e, ainda que na última década muitos avanços tenham sido feitos sobre a morfologia da mente e os processos de percepção, ainda não se sabe o que torna os humanos inteligentes. O que parece mais ou menos definido pelos cientistas é o fato de sermos resultado de um complexo sistema químico, e a suposta inteligência artificial a ser criada no futuro poderá ter componentes biológicos, desde que se consiga determinar a forma como os componentes do sistema reagem.

Outras Inteligências
    Entender o que é a inteligência, portanto, torna-se um ponto central na criação da IA (inteligência artificial), assim como é um ponto central nas discussões sobre possíveis contatos com raças extraterrestres. Vários cientistas já se manifestaram a esse respeito, inclusive Carl Sagan, e a pergunta sempre foi: como reconhecer a inteligência?
    Apenas recentemente as pesquisas vêm comprovando que os animais podem ter inteligência e até mesmo consciência em níveis muito superiores ao que imaginamos. A estrutura social dos golfinhos e baleias, assim como seu elaborado sistema de comunicação, é apenas um dos exemplos. Macacos há muito vêm sendo estudados, assim como os papagaios. Em matéria recente publicada nos EUA o jornalista Robert S. Boyd cita uma série de livros e pesquisas publicadas nos últimos tempos referentes à capacidade de entendimento dos animais, que vai desde a elaboração de cálculos aritméticos simples até mapas mentais de seu meio-ambiente, inclusive a troca de mensagens complexas com outros de sua espécie ou com humanos, a elaboração de relações sociais intrincadas, e a criação de ferramentas e o ensino de seu uso a outros da mesma espécie. Algumas experiências revelaram que certos animais são capazes até mesmo de lidar com conceitos abstratos, o que até então era tido como uma capacidade unicamente humana. Isso liquida uma série de conceitos sobre o que é a inteligência.
    O neurocientista Marc Hauser, da universidade de Harvard, chegou a afirmar que nós dividimos o planeta com animais que possuem a capacidade de pensar. A bióloga Irene Pepperberg, da University of Arizona, trabalha há anos com um papagaio capaz de compreender conceitos abstratos, como similaridade e diferença, cor e quantidade. A questão primordial é definida pelo zoólogo Donald Griffin, de Harvard, pioneiro no estudo do cérebro animal. Segundo ele, deu-se uma mudança no ponto de vista de alguns cientistas, que passaram a perceber que o pensamento dos animais é muito diferente do nosso, mas existe.

O Futuro
    Como se pode perceber, estamos longe de conseguir determinar o que é consciência e inteligência. Ainda nos surpreende ver na televisão uma manada de elefantes postada em círculo ao redor de um membro morto da família, como em atitude de reverência ou de dor, teoria que alguns cientistas defenderam e outros atacaram com ferocidade.
Podemos chegar a ponto de efetivamente construir uma máquina capaz de elaborar as mesmas operações e apresentar o mesmo tipo de questionamento de um ser humano e, ainda assim, sermos incapazes de afirmar com absoluta certeza de que se trata de um instrumento pensante, uma inteligência artificial.
    Uma linha de pesquisas considerada inovadora está tentando chegar à inteligência artificial baseando-se na teoria evolucionária, criando mini-robôs que apresentam muitas semelhança com os insetos. Essas máquinas são projetadas de tal forma que, em vez de possuírem um superprocessador central, com uma capacidade imensa de memória, trabalham com um sistema descentralizado e bem mais simples. Isso faz com que os robôs tenham maior agilidade e, além disso, consigam aprender, ultrapassando obstáculos e encontrando seu ‘alimento’ — no caso, a energia solar que os movimenta. Essas máquinas recebem apenas alguns dados básicos e aprende o restante de que necessitam para funcionar da melhor maneira possível. Os avanços nesse campo da robótica têm sido tão significativos que a NASA já pensa em aplicar a fórmula na pesquisa espacial.
    Mas é claro que isso é apenas mais um passo para a verdadeira inteligência artificial. Sabe-se que muitas instituições, governamentais e privadas, têm destinado muitos recursos para a pesquisa e desenvolvimento de máquinas capazes de pensar, mas ainda existem incertezas quanto ao futuro. Uma parte considerável dos cientistas continua acreditando que não será possível obter isso, não importa que avanços científicos se verifiquem nos próximos anos ou décadas. Imagina-se que, mesmo sendo possível determinar com precisão os processos químicos e morfológicos do cérebro humano, a física quântica continuaria a ser um problema.
    Segundo o Princípio da Incerteza Quântica, não podemos saber a posição e a velocidade de qualquer partícula, de modo que não se poderia construir um modelo confiável. O que a ciência nos diz é que, sem dúvida, nos próximos anos surgirão processadores mais eficientes e softwares que permitirão uma interface mais amigável com o usuário, até mesmo dando a impressão de inteligência. Mas é pouco provável que consigamos criar a inteligência artificial com os recursos e conhecimentos de que dispomos hoje em dia.
    Contudo, na ciência como na vida, nem sempre o que acontece é o mais esperado, ou mais óbvio. Com a ampliação das discussões sobre o que é inteligência e consciência, talvez a humanidade chegue a conclusões inusitadas, levando a perspectivas até então ignoradas.
Se isso acontecer de fato, não apenas teremos de aprender a lidar com uma forma de vida totalmente diferente, como também repensar nosso papel e relação com a vida no planeta Terra.

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