Homeopatia
2009-05-04 17:08Guiando-se pela máxima de que os semelhantes se curam pelos semelhantes, a homeopatia é uma terapêutica holística que há 204 anos propõe a valorização do ser humano e busca seu bem estar físico, psíquico e espiritual.
Dra. Maria Luiza Rezende
A homeopatia é o método terapêutico baseado no ‘princípio dos semelhantes’, segundo o qual todo medicamento capaz de produzir determinados sintomas em um indivíduo é também capaz de curar sintomas semelhantes apresentados pelas enfermidades naturais.
O termo homeopatia foi criado pelo médico alemão Samuel Hahnemann (1775–1843) e aparece pela primeira vez em seu Organon da Arte de Curar (1810), derivado do grego homoios (semelhante) e phatos (dor, sofrimento). Anteriormente, Hipócrates (460–350 a.C.) já falara sobre o princípio da semelhança e, mais adiante, Paracelso também se referiu a esse princípio. Porém, foi Hahnemann quem retomou esse conhecimento antigo e codificou-o numa ciência médica sistemática.
A homeopatia tem outros princípios básicos, além da Lei dos Semelhantes:
Experimentação no homem são – o próprio Hahnemann experimentou diversas substâncias, descreveu e compilou as manifestações apresentadas nos aspectos físico, mental e emocional, com impressionante riqueza de detalhes. Em 1789, Hahnemann traduziu um livro de William Cullen, importante médico da época, e teve sua atenção despertada pelo que o autor dizia sobre a quina peruana (cinchona) e sua utilidade no tratamento da malária, atribuindo sua eficácia às qualidades amargas e adstringentes. Hahnemann decidiu então ele mesmo tomar a substância e observou o surgimento de febre, calafrios e tremores intermitentes em episódios que duravam 2 ou 3 horas e que só reapareciam se ele repetisse a dose. Ao interromper a dosagem, voltou ao seu estado normal de boa saúde. Hahnemann propôs então que a quina curava a malária por ser capaz de produzir sintomas semelhantes à moléstia num indivíduo não-enfermo. Posteriormente, experimentou outras substâncias, comprovando este princípio e enunciou a Lei dos Semelhantes.
Doses mínimas – Hahnemann percebeu que, ao fazer diluições sucessivas da substância e agitá-las, obtinha resultados melhores. Com esse método, o efeito tóxico ou agressivo de determinadas substâncias é atenuado e, por outro lado, o potencial curativo aumenta, inclusive o de substâncias inertes em seu estado natural. Exemplos disso são a naja trip (veneno da serpente naja) e natrum muriaticum (sal de cozinha).
Medicamento único – no tratamento homeopático, busca-se individualizar ao máximo o paciente em suas características e sintomas, para encontrar aquela substância que seja a mais semelhante a ele na sua forma de expressão dos sintomas.
Direto da Natureza
Os medicamentos homeopáticos se originam basicamente dos três reinos da natureza: vegetal, animal e mineral. Por meio do processo chamado dinamização (do grego dynamis = energia, força), é despertada a ação energética específica inerente a cada substância.
Portanto, quando se administra um medicamento homeopático a um indivíduo, ocorre uma interação física (energética) entre o padrão de energia inerente ao medicamento e o padrão de energia vital desequilibrada do paciente, no sentido de ajudar este organismo a restabelecer seus próprios mecanismos de reequilíbrio e cura (retorno ao padrão de energia vital equilibrado).
Essa sabedoria do corpo é conhecida desde os tempos da escola de medicina hipocrática como Vis Medicatrix Naturae. Na atualidade, os conceitos da nova física apresentam confirmações adicionais dessa noção de que os sistemas vivos e não-vivos têm capacidade inerentes auto-reguladoras, auto-organizadoras e auto-curativas (Ilya Prigogine em Order out of Chaos, Fritjof Capra em The Turning Point, para citar alguns). Assim sendo, os medicamentos homeopáticos são selecionados pela capacidade de combinar e imitar os sintomas do doente, caminhando no mesmo sentido, e não contra os esforços do organismo para se curar. Assim, pode-se perceber os sintomas como sinais que indicam a maneira peculiar de cada organismo reagir diante das agressões numa tentativa de buscar o reequilíbrio.
Esse processo inerente, subjacente e autocurativo do organismo seria o que os homeopatas denonimam força vital. É uma força bioenergética semelhante ao que a medicina chinesa denomina chi, os iogues denominam prana, os kahunas denonimam mana. Na teoria homeopática, esse processo bioenergético dos seres vivos é sensível aos medicamentos homeopáticos dinamizados e ocorre uma ressonância entre os padrões de vibração energética da microdose e da força vital do organismo.
Essa força vital — que mantém o organismo na condição energética dinâmica de suas reações físicas, químicas e biológicas — pode sofrer a interferência de impactos (noxas) de variadas origens:
Física – calor, frio, umidade, traumatismos, radiações, etc.
Psíquica – frustrações, sustos, decepções amorosas, conflitos em casa, no ambiente de trabalho, perda de emprego, más notícias, etc. (Envolve níveis emocional e mental)
Química – medicamentos, alimentos, substâncias tóxicas, conservantes dos alimentos, poluentes do ar, da água, etc.
Biológica – vírus, parasitas, bactérias, etc.
Miasmáticas – passam através da linhagem familiar sem serem explicadas pelo contágio microbiano. Por exemplo: um neto de um avô que teve tuberculose pode expressar esse padrão apresentando resfriados constantes, emagrecimento a despeito de comer muito, maior suscetibilidade a epitaxes e manifestações do trato respiratório, com secreções sanguinolentas.
Saúde e Doença
Desde o momento de seu nascimento, o ser humano (e os seres vivos) vive num meio ambiente dinâmico que afeta seu organismo durante toda a vida e de maneiras diversas, e o organismo procura manter um equilíbrio dinâmico. Dependendo de variantes como a suscetibilidade daquele organismo e da intensidade e duração desse impacto (noxa), a força vital poderá se reequilibrar ou então surgirão alterações que geralmente ocorrem num certo grau de hierarquia.
As primeiras alterações surgem na mudança de disposição, humor, ânimo, capacidade de concentração. A seguir, surgem as manifestações de alteração do funcionamento dos órgãos (alterações funcionais) e, finalmente, as alterações lesionais dos tecidos e órgãos, que poderão ser reversíveis ou irreversíveis.
Ou seja, a manifestação física lesional em um órgão, por exemplo em uma úlcera duodenal, é de fato a última etapa de adoecer, e não a primeira. A primeira manifestação desse processo de distanciar-se da saúde acontece no nível da alteração da energia vital.
Por meio da abordagem terapêutica homeopática, é possível detectar o “processo de adoecer” nos seus estágios iniciais e restaurar o bem-estar antes de chegar às conseqüências lesionais, o que nos leva a considerar: o que é saúde, afinal, e o que é doença?
De acordo com Hahnemann, saúde é o estado de harmonia físico-espiritual-mental, que permite à nossa parte divina atuar e se expressar através do corpo para a realização do nosso propósito de vida. Portanto, a doença poderia ser considerada o indicador de desequilíbrio, o sinal de que algo está nos afastando da possibilidade de expressão de nossa essência, da possibilidade de exercermos nosso papel na vida. Nessa altura, os leitores podem se perguntar: estamos falando de medicina, filosofia ou religião? Houve uma época em que medicina, filosofia e religião (re-ligare) andavam juntas.
Para o homeopata, saúde não é o silêncio dos órgãos. A homeopatia vê o ser humano como uma unidade vital indissolúvel: ninguém pode adoecer de corpo sem também adoecer da mente (pensamentos e emoções) e vice-versa. E, se corpo e mente estão em desequilíbrio, como pode a alma se conectar? Cada parte é um aspecto de uma mesma realidade e são interdependentes. Mesmo se considerarmos apenas o corpo físico, as células e os órgãos que elas compõem são sistemas interligados e interdependentes. Um problema em um órgão tem reflexos no organismo como um todo.
Abordagem Holística
Há 204 anos, Samuel Hahnemann já falava dessa abordagem holística sistêmica do ser humano e da medicina. Em sua terapêutica, praticava o princípio de que cada parte contém o todo e de que todas as partes são interligadas. Trata-se da busca de um medicamento que combine com a essência da totalidade da expressão sintomática de um paciente, o mais semelhante à pessoa e que, ao ser ministrado a um indivíduo, aliviará não apenas sua queixa principal, mas irá tratá-lo como um todo, fazendo com que se sinta melhor sob vários aspectos: físico, social, emocional, etc. Por isso, fala-se comumente que a homeopatia trata o doente, e não a doença. Afinal, você é muito maior do que a sua doença. Cada pessoa reage às agressões (lembram-se das noxas?) de uma forma peculiar.
Assim, durante a consulta homeopática são feitas inúmeras perguntas para se chegar à individualização. Maria e Joana sofrem de cefaléia. Porém, a cefaléia de Maria só aparece antes da menstruação, melhora se ela se deita sobre o lado da dor e piora se ela se expõe ao sol. Quanto a Joana, sua cefaléia aparece sempre que ela sofre por antecipação — às vésperas de um exame escolar, por exemplo —, melhora se ela coloca compressas frias e piora se ela sente cheiro de café. Maria morre de calor e só dorme com os pés descobertos, também tem ataques de ciúme do namorado e precisa ter tudo meticulosamente em ordem. Por sua vez, Joana é muito sensível. Se alguém fala um pouco mais alto com ela, já chora. Também é calorenta e precisa de ar livre, sentindo-se mal em locais fechados. Após essa individualização, será possível escolher o medicamento mais semelhante para cada uma dessas pessoas que sofrem de cefaléia.
Na abordagem homeopática, a auto-observação é muito importante, pois médico e paciente interagem construindo juntos esse quadro individual (quando se trata de um bebê, criança ou alguém não-capacitado a essa auto-observação, um adulto responsável pela pessoa cuidará de observar cuidadosamente essas características e informá-las ao médico).
Temos aqui mais uma mudança de paradigma: o médico sai da posição de ser aquele que tudo sabe e que vai resolver seu problema, e o paciente sai da posição de ignorância e passividade em relação ao seu processo de adoecer e recuperar a saúde.
Ocorre um processo interativo em que o paciente é agente de sua própria saúde e o médico é o orientador que vai ajudar no reencontro do caminho do equilíbrio. A homeopatia tem também uma abordagem preventiva, na medida em que um organismo equilibrado na sua força vital fica menos suscetível às agressões e, quando ocorre um desequilíbrio, ele é capaz de retornar mais rapidamente ao estado de harmonia e bem-estar. A homeopatia, além de suas propriedades, ~e também um caminho para o autoconhecimento.
Para Saber Mais:
Homeopatia, Ciência e Cura – George Vithoulkas (Ed. Círculo do Livro)
Homeopatia, Medicina para o Século XXI – Dana Ullman (Ed. Cultrix)
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