Halloween e o Culto aos Antepassados

2009-05-06 15:06

Mais do que uma simples festa que a cada ano se torna mais popular no mundo inteiro, o Halloween representa um momento importante de aproximação entre o mundo material e o espiritual.

Marília de Abreu e Antônia Maria de Lima

    Para muitos, os antepassados não passam de assombrações, fantasmas, almas do outro mundo – um assunto sobre o qual é melhor nem falar. O culto aos antepassados possui uma força que não se rompe, pois cada um de nós tem uma linhagem que vem do Grande Espírito, uma verdadeira árvore genealógica espiritual. Acontece que para tudo existe um princípio. Nós não estamos soltos, sozinhos ou à toa no universo. Ao reverenciar nossos ancestrais, mantemos com eles uma troca de experiências e de energias, pois mesmo sem ouvir, ver ou senti-los, sua sabedoria está presente. Nós é que somos limitados a ponto de ignorar algo tão sagrado, que foi o começo de nossa existência, onde estão as raízes de nossos propósitos. Quando conseguimos nos encontrar com essa força primordial, sentimos uma saudade, um amor, um acalanto, como se em algum lugar alguém estivesse olhando por nós. Nossa alma se acalma e ficamos em paz, com a sensação de que o passado está presente, e quase podemos tocar Deus com o estado de espírito elevado, com uma profunda sensação de leveza e purificação.
    Contudo, nos dias de hoje, tudo isso parece distante. Esta é a época em que a razão cobra uma posição mais lógica, acreditando que tudo passa. Só que no plano dos espíritos nada passa e os ancestrais esperam a época do Halloween, quando o véu entre os mundos se abre através do rito, para estabelecer um contato conosco, capaz de amenizar a saudade de ambos os lados. Esse rito é celebrado com danças, fogos e oferendas para aproximar os mundos, que existem paralelamente: um deles composto por energias mais densas (matéria); o outro, por energias menos densas (espiritual). Assim, torcer o nariz para os que já deixaram o mundo que herdamos chega a ser um pecado de ingratidão.
    O culto aos antepassados é uma das celebrações mais valorizadas na bruxaria, e é apenas a Wicca (religião das bruxas) que realiza essa comemoração – ela ocorre em várias crenças primordiais e apresentam as mesmas características, inclusive em culturas que, até onde se sabe, não tiveram contato entre si.

Verdades Universais

    Nós chamamos de religiões naturais aquelas cujas manifestações religiosas e cultos vêm de um contato direto com o plano que transmite os ritos e dogmas. Esses contatos normalmente se davam em sonhos ou em estados alterados de consciência. Diferente das religiões ditadas pelos grandes mestres, desenvolvidas em meio aos valores de suas culturas, as seitas naturais acabaram apresentando uma uniformidade em culturas muito diversas e se expandiram sem catequese, conversão, Inquisição ou guerras religiosas. Assim, representam uma busca sincera pela verdade, sem os limites preconceituosos de uma cultura e sem a necessidade de líderes carismáticos e de mártires.
    Entre os aspectos mais representativos dessas religiões estava o culto aos ancestrais, tendo o seguinte princípio por trás desse culto: todos sabem que as religiões ajudam a congregar pessoas para o bem comum, movidas pelos mesmos ideais e valores. Porém, se uma religião começa a se tornar dogmática, teórica e com valores que, embora louváveis, sejam inatingíveis, esses valores começam a ser tratados de modo hipócrita. Quando se chega ao ponto de poder definir a atuação religiosa com a frase “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”, estaremos diante de uma mera formalidade cultural, uma religião praticada com um toque de descrença, com seus mártires como ideais tão inatingíveis que não chegam a ser exemplo.
    Nas culturas de cunho xamânico, naturais, como no caso da celta, o vínculo com os antepassados era uma coluna-mestra da religião. Eles eram o símbolo do esforço humano em se aproximar do ideal divino, e o resultado era um grande cuidado com o tipo de vida que se levava, para que a pessoa pudesse ser lembrada após a morte.
    Entre os celtas, o funeral era acompanhado por um druida que, em versos, declamava os feitos do falecido, lamentando sua ausência – ritual que era repetido a cada ano. Desta forma, as pessoas, em vez de ter como principal preocupação o legado de um patrimônio material aos seus filhos ou à comunidade, se preocupavam em viver uma vida digna e sábia, em realizar grandes feitos e ter uma atitude heróica diante da vida. Sua maior preocupação não era a morte, já que acreditavam na imortalidade da alma, mas temiam, sim, a segunda morte: o esquecimento.
    Eles também acreditavam que, tendo uma alma imortal, poderiam continuar auxiliando os vivos a partir do plano em que estivessem. E, quanto mais viva permanecesse a memória deles em meio às pessoas, mais próximas e fortes suas influências no plano físico. Para tanto, eram realizadas oferendas de alimentos, dos quais os espíritos retiravam energias para produzir efeitos físicos – energia que dependendo da cultura recebia um nome: aka, ki, prana, etc

Sem Passado
    Embora para as pessoas cultas de nossa civilização essas idéias pareçam crendices, em suas origens elas tiveram uma repercussão positiva, que não se pode ser negada ou subestimada. Com o sentimento de eternidade presente no culto aos antepassados, o indivíduo adquiria uma sensação de importância e relevância de sua existência perante o grupo, trazendo a sensação de que a pessoa seria lembrada e de que o esforço dela para sua evolução serviria de exemplo às gerações vindouras.
    Cada indivíduo, sentindo-se valorizado, também sabia valorizar o que era importante em sua cultura. Dessa forma, a árvore plantada pelo ancestral era preservada e reverenciada como totem, uma fonte onde ocorreu uma cura, um local onde foi vencida uma batalha, e assim por diante.
Hoje os povos que carregam os ossos de seus antepassados são chamados de atrasados. Mas, no momento em que olhamos para o ‘umbigo’ de nossa cultura e vemos o que fizemos, passamos a refletir imparcialmente sobre nossos valores. Muito do que hoje reclamamos estar ausente em nossa cultura decorre da falta de exemplo, de honra, de dignidade, de um constante sentimento de que tudo é efêmero. Nos noticiários, as morte são números; nos relacionamentos, as uniões são efêmeras; parece que ninguém faz falta, que tudo é descartável, inclusive as pessoas.
    A repercussão disso num nível pessoal é aniquiladora. Por que fazer qualquer esforço para realizar algo relevante, se no fim dá na mesma? É melhor cada qual garantir o seu, aproveitar o que for possível, tirar vantagem e ser esperto. Não existe um incentivo para que se realizem grandes obras. O incentivo é para que se enriqueça, para que se tenha coisas e algum prestígio em vida.
    No aspecto social as conseqüências são ainda mais drásticas. As culturas que mantinham culto aos mortos legaram obras e monumentos imortais; nossas construções são realizadas com materiais pobres, sem planejamento urbanístico, para que, findo o tempo de notoriedade de um político, outro venha, derrube e construa algo diferente em seu nome. Até o culto aos mortos, nascido na cultura celta – origem dos povos europeus –, hoje é usado como pretexto de festa à fantasia. O Halloween é um dos momentos mais sagrados da religião Wicca, onde ocorre um contato com nossos entes queridos. Acreditamos que um povo sem passado não pode ter um presente sólido.

Resgate
    E qual a importância, hoje, de um culto aos antepassados? Resgatar a dignidade, as manifestações tradicionais de cultura e religião, refletir sobre nossa história, valorizar as grandes obras, que são exemplos para a posteridade. E qual é o valor dos ancestrais em nossas vidas? É um pouco complicado falar em ancestrais numa cultura em que o novo é supervalorizado, em que a moda suplanta as tradições e os valores são flexíveis demais. Também é certo que o apego à tradição e a valores rígidos demais podem prejudicar a evolução, mas ultimamente estamos passando para um perigoso extremo oposto, ou seja, um descaso total com as tradições.
    Ainda temos dificuldade em pensar num culto ancestral quando, ao lembrar de nossos ancestrais mais diretos e de suas vidas, não encontramos qualquer coisa de meritória, relevante ou digna, pois há muito que o ser humano não vem se preocupando em deixar marcas positivas de sua passagem pela vida.
    Assim, quando falamos em culto ancestral, fica mais fácil situá-lo de uma forma genérica. Por exemplo, não podemos esquecer que, antes de nós, pessoas desenvolveram a escrita, a ciência, os conceitos filosóficos, a tecnologia, a estrutura política e social em que vivemos. E temos de lembrar que, bem ou mal, povos inteiros estiveram envolvidos nessas tentativas e erros, para que hoje tenhamos certa organização e facilidades na vida.   Assim, ao cultuar antepassados, estamos expressando nossa gratidão por todas as facilidades que temos, inclusive nossas vidas.
    Mesmo relembrando os erros podemos reverenciar os que nos precederam. A humanidade teria evoluído muito se tivesse, tanto em nível pessoal quanto coletivo, o hábito de refletir sobre os erros. E essa reflexão deve ser seguida por uma tomada de posição, de responsabilidade, para dar prosseguimento à senda evolutiva, pois não há melhor forma de reverenciar os antepassados do que melhorar suas obras e corrigir seus erros, de modo que as conseqüências não recaiam sobre as próximas gerações.
    Desta forma, quando comemoramos o Halloween, temos uma oportunidade excepcional de resgatar esse elo e pensar sobre tudo aquilo que deixaremos para os nossos filhos.

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