Harmonizando o Espírito através das Flores

2009-04-29 16:41

O Ikebana, arte inicialmente associada às oferendas a Buda, com o tempo transformou-se em uma requintada prática espiritual com um número de adeptos cada vez maior em todo o mundo.

    Preparar arranjos florais segundo a arte do ikebana não consiste simplesmente em dispor os elementos de modo casual, ou seguindo critérios aleatórios. Claro que a sensibilidade do artista é fundamental, mas isso não é tudo. Essa primorosa técnica de origem japonesa vem se desenvolvendo ao longo de muitos séculos e tem, entre seus principais objetivos, estabelecer uma relação harmoniosa entre o homem e a natureza.
    A palavra ikebana é composta por Ike e Hana. Ike origina-se de três verbos: ikeru (colocar ou arrumar flores); ikiru (viver, tornar vivo ou atingir a
essência de algo); e ikassu (ajudar a encontrar a verdadeira essência, tornar a vida mais pura). Hana (ou bana) significa, literalmente, flor, mas a palavra também pode ser entendida como planta ou parte de uma planta. Desta maneira, Ikebana é a arte de arranjar flores, ramos e todo tipo de plantas numa composição harmoniosa com o intuito de ressaltar sua beleza. Mais que isso, significa dar vida à flor uma vez que, após o arranjo ter sido feito, ela continua viva e chega inclusive a brotar.
    Alguns historiadores entendem que a origem do ikebana remonta à Antigüidade japonesa, quando árvores como o sakaki eram consideradas a morada de Deus. Também em algumas religiões primitivas, árvores e flores eram dedicadas aos mortos para confortar suas almas. Após a introdução do budismo no Japão, por volta do ano 680 d.C., o costume de modificar plantas começou a se desenvolver, tornando-se mais comum na era Heian (794 -1185).
    As atividades culturais no Japão foram incrementadas na era Muromachi (1338-1573) pela atuação de uma série de Shoguns. O desenvolvimento de um novo estilo de arquitetura, o shoinzukuri, deu origem do atual estilo de casas japonesas, o que também propiciou o desenvolvimento da arte de arranjos florais, como o Tatebana.

Sanguetsu
    Na era Azuchi-Momoyama (1573-1600), o Tatebana desenvolveu-se e surgiu o estilo Nageire, mais simples e popular que o complexo Tatebana. Um estilo intermediário surgiu na era Edo (1603-1867), atualmente chamado de Ikebana, tornando-se o mais popular e dando origem a uma série de diferentes escolas.
    O Ikebana tornou-se, com o tempo, uma das artes mais conhecidas e praticadas no Japão. Em sua forma tradicional, segue um padrão fixo utilizando um triângulo cujas pontas representam o Paraíso, o Homem e a Terra. As variações e evoluções do Ikebana ao longo dos anos são, na verdade, diferentes formas de apreciar o Belo e levar o praticante à harmonia, ou propiciar a harmonia a um ambiente. Hoje em dia é praticamente impossível determinar a quantidade de estilos de Ikebana existentes, mas devem passar de dois mil.
    No Brasil, atualmente, um dos estilos mais conhecidos e populares é o Kado Sanguetsu, desenvolvido pelo filósofo espiritualista Mokiti Okada, fundador da Igreja Messiânica Mundial. O nome Sanguetsu originou-se numa casa de chá construída por Seibee Kimura, no protótipo do Paraíso Terrestre de Mokiti Okada, em Hakone. A casa chamou-se Sanguetsu-an, literalmente Casa de Chá Montanha e Lua, uma construção que transmite enorme tranqüilidade. Sanguetsu passou então a representar o conceito ideal de uma vida voltada para a Berdade, o Bem e o Belo, que fazem parte da filosofia de Mokiti Okada.
    Já a palavra kado é formada pelos ideogramas ka (flor) e do (caminho), ou seja, caminho da flor. Segundo Mokiti Okada, “caminho é o meio pelo qual todas as coisas se ligam. Os meios de transporte, as ondas elétricas, os raios luminosos, o deslocamento das pessoas de um lugar a outro, tudo depende do caminho. Até o Sol, a Lua e as estrelas possuem uma órbita definida, isto é, um caminho. Sendo assim, o caminho é a base de todas as coisas e, conseqüentemente, podemos concluir como é errado desviar-se dele”.
    Assim, o Ikebana do estilo Sanguetsu tem como objetivo elevar o sentimento humano e proporcionar alegria. Se todos aprenderem a Verdade, praticarem o Bem e se expressarem por meio da beleza, do Belo, em todos os aspectos da vida, o Mal é afastado e o ambiente torna-se mais sereno, agradável e a vida mais feliz.

Vivificar a Flor
    De acordo com a filosofia messiânica, vivificar a flor significa dar-lhe movimento e fazer com que ela recupere sua vida, pois quando é retirada da Terra a planta sofre uma espécie de morte. Mokiti Okada dizia que a flor tem sentimento e definiu alguns princípios importantes para serem observados na sua vivificação: preservar a vitalidade da flor; conservar seu aspecto natural; usar pouco material; vivificar com alegria, como se estivéssemos pintando um quadro.
    Existem cinco pontos importantes a serem considerados nesse processo. O primeiro é vivificar com naturalidade, realçando a característica das flores, sem alterá-las. O ideal é utilizar flores da época. O segundo é vivificar rapidamente — é preciso determinar com precisão o local do corte dos caules, galhos e flores. Assim que forem cortados, o processo deve ser executado. Em terceiro lugar, Mokiti Okada referiu-se à vivificação como se fosse a pintura de um quadro: para executar essa tarefa da melhor maneira possível é imprescindível cultivar o senso estético, e não há nada melhor para isso do que apreciar constantemente as obras de arte.
    O quarto ponto a ser considerado relaciona-se à harmonia do conjunto. Antes de realizar a vivificação é preciso também levar em conta o local onde o arranjo será colocado. Os móveis existentes no ambiente, a cor das paredes e tudo o mais que existir no recinto, inclusive obras de arte, deve ser levado em consideração para que a harmonia do local seja mantida. Desta maneira, a vivificação funciona como parte de um todo artístico.
    O quinto princípio levantado por Mokiti Okada refere-se a vivificar com alegria —  um elemento essencial. O Ikebana deve ser preparado com o sentimento de que ele irá alegrar outras pessoas da mesma forma que está alegrando quem o prepara. Desta maneira expande-se tanto a natureza divina de quem executa o arranjo como daqueles que o apreciam.
    E é exatamente por harmonizar e expandir o sentimento de harmonia que a centenária arte japonesa tem se propagado cada vez mais, conquistando um crescente número de adeptos no mundo inteiro. Segundo o fundador do movimento messiânico, a busca do Belo tem como resultado final tornar belos nossos sentimentos e dar um sentido de vida a todas as nossas coisas.

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Academia de Ikebana Sanguetsu
    Mokiti Okada resolveu adotar o Ikebana, valorizando sua proposta mais antiga e adotando uma abordagem própria dessa arte. Ele ressaltou a missão da flor no sentido de purificar os ambientes e os sentimentos das pessoas. Segundo seu pensamento, O aspecto filosófico da arte tem como conseqüência a ampliação da consciência humana e a elevação dos sentimentos. Por meio do Ikebana é possível interiorizar o conceito de harmonia, tão necessário à vida. Sua prática diária provoca o exercício de valorizar o respeito às diferenças, ensina o senso de organização, planejamento, senso estético, disciplina, sensibilidade, criatividade e soluções alternativas, além de respeito ao meio-ambiente e à natureza. Tais conceitos são fundamentais não só na filosofia Messiânica, mas em todo o pensamento moderno da Nova Era e nas posturas políticas mais profundas, que professam a defesa do planeta e da vida em primeiro lugar.
    A Academia de Ikebana Sanguetsu foi fundada em 1974 e, desde então, tem ensinado a arte da flor a milhares de pessoas. Uma das idéias centrais é colocar uma flor onde quer que haja uma pessoa. Hoje, a escola conta com 762 professores, possui 14 mil alunos em todo o Brasil e espalhar seus arranjos florais em vários locais públicos e privados.
    Um dos projeots desenvolvidos pela Academia é o Vivência com a Arte da Flor — uma aula de sensibilização que leva às pessoas a um contato inicial com a arte da vivificação. A vivência com as flores desenvolve a força que gera felicidade.

Para Saber Mais:
Academia Sanguetsu
Rua Morgado de Matheus, 77 - São Paulo - SP
Fone: (11) 5087-5010

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