Especialista em Gente
2009-04-30 20:07Com oito livros publicados e mais de 4,5 milhões de exemplares vendidos, o psiquiatra Roberto Shinyashiki firma-se como um dos maiores consultores organizacionais do país, e será o preparador psicológico dos atletas brasileiros nas olimpíadas de Sydney. Em entrevista exclusiva, ele fala sobre sua vida, sua visão do ser humano e a aplicação das leis espirituais em nosso dia-a-dia.
Os números que definem o sucesso editorial de Roberto Shinyashiki são surpreendentes. Seu primeiro livro, A Carícia Essencial, lançado em 1985, já está na 139a edição. No momento, sua oitava obra impressa chega às livrarias, e mais duas estão no forno. Ele é procurado para dar palestras e seminários nas maiores empresas atuando no país, o que inclui nomes como Xerox, Microsoft, Nestlé, Sony e muitas outras. Presidente da premiada Editora Gente e do Instituto Gente, o consultor ainda encontra tempo para a família. O segredo, que ele não cansa de dizer, é o trabalho em equipe, é ter uma equipe campeã.
A idéia para seu primeiro livro teve início, segundo explica, quando era médico residente num hospital de doentes terminais. Nessa época ele percebeu que muitas pessoas chegavam ao fim da vida carregando uma imensa frustração por não ter conseguido realizar seus sonhos, não ter vivido como realmente desejavam. Não apenas isso, ele notou que as frustrações dos pacientes estavam relacionadas a aspectos muito distantes da obtenção de poder, sucesso nos negócios, fama ou riqueza. Shinyashiki chegou à conclusão de que muitos profissionais apresentam uma baixa qualidade de vida, principalmente por não darem atenção aos aspectos que fazem a vida valer a pena.
Preocupado com essa situação, o psiquiatra entendeu que já estava na hora de acontecer aquilo que chamou de a revolução da felicidade — o tema central de sua obra mais comentada, O Sucesso é Ser Feliz. Shinyashiki centrou-se na felicidade, na capacidade de tocar as pessoas, motivá-las a transformar os mais diversos aspectos de suas vidas e fazê-las acreditar que o aproveitamento de potenciais inatos e o aprendizado ininterrupto da arte de viver são o caminho para a realização. “Felicidade é como dieta”, ele explica. “Todo mundo sabe o que tem de fazer para conseguir seu objetivo, mas a maioria não põe em prática esse conhecimento”. O autor acha que a maioria dos terapeutas se engana quando afirma que as pessoas não costumam mergulhar dentro de si mesmas porque têm medo de encontrar um mundo de sombras, inveja e ressentimentos. Sua opinião é radicalmente oposta, entendendo que o homem têm medo de olhar para dentro de si e encontrar beleza, luz e força. “A vida das pessoas é a história de príncipes vivendo como mendigos”.
Sua atenção voltou-se para a área do trabalho e das organizações empresariais, que ele considera, em última análise, um ajuntamento de gente. Parte de sua atuação está centrada no Instituto Gente, que Shinyashiki define como um “centro de estudos voltado para a realização de palestras e seminários com o propósito de criar um Brasil mais forte, através de empresas campeãs”.
Você viajou muitas vezes para o Oriente e manteve contato com diferentes mestres espirituais. Como isso influenciou o trabalho com seus pacientes?
Eu não só viajei, como viajo, e acredito que faço alguma coisa diferente da maior parte das pessoas que fazem essas viagens espirituais. O que percebo é que as pessoas entram num ciclo, numa roda-viva superpesada. A pessoa se destrói durante um ano, e depois fica 15 dias num monastério, num mosteiro ou num retiro espiritual católico. Na minha vida, eu procuro sempre parar. Por isso, três ou quatro vezes por ano eu paro uma semana e vou a algum lugar fazer um trabalho de auto-avaliação, o que considero fundamental, porque o maior instrumento do meu trabalho sou eu mesmo. É engraçado isso. Por exemplo, eu fui pela AOTS fazer um curso da administração japonesa de empresas. Eu passava de segunda à sexta visitando grandes companhias, tendo aulas sobre grandes sistemas de administração e, depois, no sábado e domingo, ia para um mosteiro zen em Kitakamakura, um dos mais antigos do Japão, e ficava meditando. Assim, na mesma viagem em que estava estudando administração de empresas, finanças e marketing, eu estava fazendo meditação.
Eu acredito nesses dois pensamentos. Primeiro, a meditação tem que fazer parte de sua vida. Para mim é muito engraçado quando encontro amigos, especialmente europeus, que vão para a Índia meditar e dizem que aprenderam uma técnica que eu deveria fazer. Meu pai era filho de japoneses, e eu me lembro, por exemplo, de que quando falávamos de meditação, nós não parávamos para fazer meditação. Você tem de viver meditativamente. Tem de viver inteiramente o que você está vivendo. A maior meditação que existe é você viver, estar presente no que faz. Assim, eu diria que o maior desafio é levar a si mesmo para a meditação, e levar a meditação para a sua vida. Não é você sair da vida para meditar. Só que em alguns momentos nós estamos intoxicados. Intoxicados pelo ego, pelo reconhecimento da sociedade, pelos problemas da sociedade, e acabamos ficando pessimistas, o que é uma intoxicação pior do que cocaína. Então, precisamos dar uma saída. Mas eu vejo de uma maneira muito crítica pessoas que vivem de segunda à sexta de maneira muito autodestrutiva e depois, no domingo, vão à missa.
O escritor argentino José Luis Borges tem uma crônica em que diz que a igreja católica trouxe um distúrbio de percepção para os fiéis porque, como nós temos a confissão e com ela o perdão dos pecados, a maior parte dos fiéis pensa assim: eu peco tudo o que tiver de pecar de segunda à sexta; depois, no sábado, eu me confesso, e no domingo comungo, para segunda começar tudo de novo. E a gente não aprimora o estilo de vida. Na verdade, a confissão é um recurso que tem de ser usado em último caso — ou seja, você precisa de administrar sua vida para não pecar. Agora, pecou, você tem que reconhecer.
Eu fui guitarrista de rock durante muitos anos em minha vida, e quando a gente falava com músicos dizia que existem três tipos de músicos. Tem artista que nunca escuta sequer o que está tocando. Ele está tocando e nem percebe o que está saindo do instrumento. O músico bom é aquele que escuta o que toca. O especial é o que escuta o som de seu instrumento antes de tocar. O meditante, o ser especial, é aquele que tem a percepção das conseqüências do seu ato antes de fazer o ato. Ou seja, isso é o máximo da meditação: você estar totalmente presente. Porque, na verdade, só quando está presente você define a natureza do seu ato. Não é o ato em si que define a sua natureza. Por exemplo: dar uma ambulância para uma cidade pobre é um ato que, aparentemente, pode ser positivo; mas a gente vai ver muito político repugnante dando ambulâncias agora. Ou seja, a natureza desse ato está totalmente comprometida.
A única maneira de estar presente é quando você está meditativo. Você não faz algo porque tem medo ou porque quer outro algo. Você simplesmente faz. Essa é a grande distorção das relações. Quando a mãe chega para o filho e fala, “Eu, que dediquei minha vida toda a você”; quando um amante fala para o outro, “Eu fiz isso e você não fez aquilo”. Por que se chega a esse grau de mendigo nas relações humanas? Porque as pessoas não fizeram as coisas por amor. Quando você faz algo por alguém, quando dá um beijo numa mulher, você tem que falar, “Obrigado por facilitar a revelação do amor que existe em mim”. Mas, quando tem raiva de alguém, você também precisa falar, “Obrigado por revelar a incompreensão que existe em mim”. Só o ser consciente consegue isso. Na verdade, esses trabalhos, esses períodos que eu tomo para poder parar e tirar as contaminações, as intoxicações da vida, é para que tudo isso que a gente observa durante uma prática meditativa ou uma conversa com um mestre, façam parte de minha vida, para que eu possa ser o mais coerente possível com minhas idéias.
Outro dia eu estava conversando com minha mulher, dizendo que meus melhores livros e minhas melhores palestras são aquelas em que falo para as pessoas sobre aspectos que eu preciso melhorar. Então, sou muito grato, ao terminar a palestra, a quem escutou algo que eu precisava escutar, porque isso me lembra que eu preciso continuar minha caminhada. Aí o livro fica poderoso, a palestra fica poderosa, porque você está falando algo que procura viver. Não é algo que você fala porque vai agradar o outro, ou porque vai causar impacto.
No final de muitos cursos você faz as pessoas caminharem sobre brasas. Qual é o significado disso? Já aconteceu alguma vez de um participante não conseguir, ou então se queimar?
Na minha visão, caminhar sobre brasas é uma metáfora da vida. A maior parte das pessoas vive a vida fugindo das brasas. Agora, o livro novo está fazendo sucesso e as pessoas começam a perguntar sobre ele, mas nos últimos três anos eu respondi perguntas sobre O Sucesso É Ser Feliz. Quando você escreve um livro sobre felicidade, automaticamente as pessoas fazem perguntas sobre a infelicidade, e o triste da vida não é ser infeliz; o triste da vida é ser medíocre. É nunca acontecer de alguém que você ama ou alguém em quem está interessado bater com o telefone na sua cara, ou dizer, “Não, não quero você”. E o triste é que a maior parte das pessoas vive para evitar os nãos. Então, das pessoas que estiverem lendo nossa entrevista, eu tenho certeza de que em cada dez, nove não estão compartilhando seu desejo amoroso por alguém. E por que não compartilham esse desejo amoroso? Porque têm medo de receber um não. Elas estão muito mais interessadas em proteger o ego do que conseguir sua felicidade.
Durante o seminário, nós procuramos trabalhar para a pessoa como é sua relação com os desafios da vida. Para mim, pelo menos nos meus grupos, só tem sentido alguém andar sobre brasas quando essa brasa tem uma conexão com a vida. Senão, fica sendo mais um estimulante do ego — ou seja, a pessoa volta para casa, encontra seu irmão e fala: você já andou sobre brasas? Não. Ah, eu andei. Isso estimula mais uma vez a comparação. Nosso participante tem que ter esse simbolismo. O que é a brasa para ele? O que é o sonho, o que tem do outro lado, qual é sua meta? Por exemplo, havia um casal que queria ter filhos e a mulher não engravidava. Essa é a metáfora: ter o filho. Quando a pessoa tem um sonho muito claro, muito forte, ela vai andar sobre brasas. Por isso, para nós, o importante não é a brasa, o pé, a sola do pé, embora a fantasia que eu tenho é de que ninguém queimou os pés fazendo o seminário comigo. Mas isso não é o mais importante. É a metáfora da sua vida. E o risco. O amor não é coisa para covardes. Quando você ama alguém, precisa arriscar queimar os pés por esse amor. Isso é importante. Se você falar pra mim, “Roberto, eu amei dez vezes e sofri dez vezes”, eu vou dizer: legal, você amou. Ninguém vai conseguir amar se não sofrer, porque isso está implícito, isso é intrínseco ao amor. E é nosso grande objetivo, nosso grande trabalho, fazer as pessoas perceberem que elas têm capacidade de superar as limitações internas que as afastam de seu sonho.
Eu vejo que as coisas importantes de nossa vida estão recheadas de não, e a maioria das pessoas fogem do não. A psicologia trabalha muito sobre a maneira como você diz não, mas a psicologia não trabalha como se escuta o não. E, certamente, escutar não é mais importante do que dizer não. Acho que aceitar não e dizer sim definem a vida de uma pessoa.
Muitos trabalhos que analisam a eficiência das organizações creditam o sucesso ou fracasso à capacidade do indivíduo, não da equipe. Como você encara isso?
Um dos pontos fundamentais do meu novo livro é lembrar às pessoas que a era do individualismo acabou. Por exemplo, o self made man, o mito do sujeito que se faz sozinho, hoje é uma ilusão. As pessoas que se fazem precisam ter equipes. E equipes são importantes para duas coisas na vida: sucesso e felicidade. Muita gente me pergunta por que eu faço tantas coisas. Esse ano eu vou colocar dois ou três livros no mercado. É porque eu tenho uma equipe maravilhosa. São palestras, o comitê olímpico, tenho meu trabalho social. E eu faço questão de ter uma vida com meus filhos, com minha mulher. Como eu faço isso? Só tem um jeito: equipe. Para eu ter sucesso: equipe. Para eu poder descansar no final de semana, é preciso ter uma equipe. Nesse momento tem pelos menos 15 pessoas aqui, multiplicando o meu tempo, A gente tem que abandonar o individualismo. É importante respeitar a vocação pessoal, o nosso jeito de ser, mas o grande barato é trabalhar em equipe.
Qual a atitude que deve prevalecer quando nos encontramos frente a um desafio?
O grande barato na vida da gente é sempre arrumar desafios maiores. E o que é importante lembrar quando se tem desafios é pensar na meta, pensar no sonho, pensar na realização. Não se distraia com os problemas, que é a própria metáfora de andar sobre brasas. Se olha para as brasas, você queima os pés. Então, você não pode olhar para os problemas, para os obstáculos. Tem de olhar para o que você quer, para o que pretende.
Qual o papel das chamadas terapias holísticas nas novas posturas que devem ser adotadas para o homem cresçer e atingir sua maior eficiência e competência?
Eu tenho andado muito preocupado com as terapias holísticas, da mesma maneira que tenho me preocupado com o estilo de vida das pessoas. Acho que, por exemplo, é um absurdo o sujeito entrar numa empresa, trabalhar com o que ele não gosta, com uma equipe que não tem nada a ver com ele, numa rotina maçante e, quando ele está quase morrendo, ir fazer uma sessão de acupuntura, uma homeopatia ou sessão de terapia, que só dá mais fôlego para ele continuar se destruindo. Acho que a gente precisava parar. É um cúmulo que a acupuntura, o shiatsu, o do-in, a meditação estejam sendo usados como instrumentos do establishment para fazer os escravos agüentaram um pouco mais. Eu vejo que a postura não tem sido crítica.
O que eu penso que o acupunturista, o homeopata, o meditador precisam fazer é ver por que a pessoa está vivendo isso, e resgatar o sonho. Eu percebo que a síndrome do pânico é típica de pessoas que levam um estilo de vida auto-anulador. Por exemplo, a mulher não ama o marido, mas fica casada com ele, e vai reprimindo seus desejos. Chega um momento em que ela começa a manifestar medo de tudo. Na maioria das vezes, se você perguntar se ela está casada com o homem que ama, se o sujeito está casado com a mulher que ama, se está fazendo o que gosta profissionalmente, a pessoa vai te responder um monte de nãos. Então, bem feito, fica com a síndrome do pânico. Então, não adianta ficar fazendo terapia sexual para saber se você agüenta ficar com esse homem mais um ano ou dez. Precisa trocar. Não adianta ficar fazendo acupuntura todos os dias para ser um bancário se você odeia trabalhar num banco. E aí, essa metodologia de holismo tem sentido. Mas hoje eu vejo que 90 por cento dos terapeutas holísticos são mestres em dar analgésicos. Eles não são mestres em fazer a pessoa reavaliar sua vida.
São as perguntas básicas de sua vida. Você vive com quem ama? Você mora onde quer? Você trabalha com o que tem vocação?
Como é possível incorporar uma visão espiritualista numa empresa que busca aumentar sua competitividade e faturamento?
Eu acredito que a melhor maneira da gente aumentar a competitividade é através de uma visão espiritual do trabalho, da vida e do seu resultado final, do seu cliente. Por exemplo, se eu chegar para alguém e perguntar se ele me vende sua vida, tenho certeza de que não vai vender por nada neste mundo. Eu dou um milhão para ele me dar sua vida, e isso não vai acontecer. Mas eu tenho certeza de que, se essa pessoa presenciar um incêndio onde várias crianças correm o risco de morrer, ela vai estar disposta a dar a vida para salvá-las, por uma causa especial. Por dinheiro, as pessoas não dão suas vidas. Mas elas podem muito bem ir atrás daquilo que faz sentido em suas vida.
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