Escada Para o Infinito
2009-03-27 00:03A ioga e a meditação têm conquistado cada vez mais os seguidores ao redor do mundo. Praticamente há milhares de anos, essas duas disciplinas, intimamente ligadas, têm como principal meta levar o homem à comunhão com Deus.
Helcio de Carvalho
A história da ioga é quase tão antiga quanto o próprio homem. De acordo com estudiosos contemporâneos, como Mircea Eliade, traços de uma forma primitiva de ioga foram descobertos milhares de anos antes da Era Cristã, em meio a ruínas de uma civilização que teria existido no vale do Indo - ruínas estas encontradas por acaso em escavações na década de 20. Não apenas isso, os antiqüíssimos textos hindus conhecidos como Vedas e Upanishads trazem citações sobre o desenvolvimento de grandes escolas de pensamento na índia, baseadas na ioga e formadoras das atuais linhas filosóficas que hoje conhecemos. Contudo, os primórdios dessa 'ciência do espírito', como é chamada por muitos, estão envoltos em uma aura de lendas e mistérios.
A palavra ioga deriva da raiz sânscrita yuj – que significa unir, ligar, harmonizar – e tradicionalmente possui duas interpretações: "a união do ser com o Princípio Supremo" e "o domínio dos sentimentos inquietantes do homem em favor de sua evolução". Em ordem de importância, a segunda definição prevalece sobre a primeira, pois, sem dominar o Eu mundano, é impossível unificar-se ao Divino.
Embora a literatura védica faça alusões a filosofias iogues, foi Patanjali, um profundo conhecedor do hinduísmo - que viveu entre os séculos II a.C. e IV d. C., quem compôs uma sistematização da ioga conhecida como Ioga Sutra. A obra é extremamente concisa, composta por 200 aforismos divididos em 4 capítulos. Redigido em uma linguagem complexa, o trabalho de Patanjali classificou e registrou todas as modalidades de ioga existentes na sua época. Os textos exploram a mente humana e estabelecem regras para seu controle e desenvolvimento, constituindo-se leitura obrigatória para todos os praticantes.
As Principais Escolas de Ioga
Em seus primórdios, o ensinamento iogue era transmitido de forma oral, o que gerou diferentes interpretações e um desenvolvimento heterogêneo da disciplina. Sob o ponto de vista histórico da Ioga, existem sete escolas básicas:
- Hatha Ioga: trabalha com o domínio do corpo, fazendo extenso uso de asanas, ou posturas físicas. Por meio desta prática, o estudante busca sua integração psico-orgânica.
- Raja Ioga: a união da mente com o espírito por meio de disciplinas físicas e meditação.
- Karma Ioga: nesta prática, a atenção se volta aos princípios éticos e morais na vida diária, realizando ações correias sem esperar reconhecimento por elas.
- Bhakti Ioga: é a Ioga da devoção, do amor altruísta, de servir o próximo sem esperar nada em troca. Assemelha-se ao princípio caritas cristão.
- Jnana Ioga: uma escola de Ioga voltada ao emprego do raciocínio abstrato e ao estudo da realidade, unindo as capacidades intelectuais para atingir a iluminação.
- Mantra Ioga: usa a repetição de determinados sons ou palavras para concentrar a mente, elevar a consciências e integrá-la ao Princípio.
- Tantra Ioga: este ramo da Ioga é mal entendido no Ocidente. Muitos crêem que ele seja unicamente voltado a práticas sexuais, mas essa é só uma de suas abordagens. O principal objetivo da tantra é dominar as energias sutis e despertar a Kundalini.
A Meditação na Ioga
A prática da meditação é parte de uma das ramificações da ioga conhecida como raja - ou, de acordo com Patanjali, O Caminho das Oito Etapas -, que se divide em: yama (restrição ou abstenção de tudo que se opõe à iluminação); nyama (deveres e observâncias), asanas (posturas físicas); pranayama (controle da respiração); pratyahara (concentração ou introspecção dos sentidos); dhyana (meditação pura); samadhi (união com o Ser Supremo ou Deus). O objetivo principal do Caminho é levar o praticante a preparar-se física e mentalmente (yama, nyama, asanas e pranayama) para obter a concentração (prathyahara) necessária à meditação (dhyana) e, com isso, atingir samadhi. Usando a mente como elo entre corpo e espírito, a meditação pode liberar o homem do sofrimento inerente ao mundo das ilusões (maya) para que sua alma se reconheça como parte do Criador.
Ao contrário do que alguns acreditam, meditar, para o iogue, não significa pensar sobre algum assunto. Muito pelo contrário: quando medita, ele busca a ausência de pensamentos para penetrar no oceano tranqüilo de seu próprio Ser. Mas, como atingir esse estado de ananda ou suprema bem-aventurança? William Zorn, no livro Ioga para a Mente, aponta a respiração como uma ferramenta da maior importância. Apesar de ser um ato natural e involuntário, Zorn explica que a respiração serve como canal para induzir nossa mente a níveis de consciência elevados. E não apenas isso: utilizando técnicas de pranayama, ou controle voluntário da respiração, o iogue mais desenvolvido consegue até mesmo controlar seus órgãos internos e suspender temporariamente suas funções, como relata Pramahansa Yogananda, um dos maiores mestres indianos que já pisaram no Ocidente. Yogandanda dizia que, em comunhão total com o Criador, a respiração e os batimentos cardíacos de uma pessoa simplesmente cessam. Helena P. Blavatsky, no livro A Doutrina Secreta, cita um caso ocorrido no interior da Índia, na cidade de Allahabad. Lá havia um iogue que passou 53 anos sentado, imóvel e em êxtase, sobre uma pedra. No decorrer deste tempo, seus discípulos o levavam ao rio todas as noites para banhá-lo e, logo em seguida, recolocá-lo na pedra.
O Superconsciente
Muitos dos conhecimentos atuais sobre a mente humana já haviam sido descobertos por mestres orientais há milhares de anos. A ioga explica que a mente se divide basicamente em três níveis: subconsciente, consciente e Superconsciente.
Isso está bem próximo das teorias formuladas pela psicologia moderna, que abordam o ego, o superego e o id. Na mente subconsciente estão nossos instintos inferiores, desejos egoístas e medos; no consciente situam-se a percepção do mundo racional e nossas capacidades intelectuais; no Superconsciente residem as emoções nobres, o amor altruísta e a centelha divina, nossa ligação com o Princípio Supremo. Ainda segundo a ioga, a ascensão da consciência humana se dá quando a energia vital interna – chamada kundalini – ascende desde a base da coluna cervical até o topo da cabeça. Nessa trajetória, o kundalini ativa os centros de força chamados chakras (ver box), localizados ao longo da espinha, até chegar ao chakra coronário ou sahasrara, no topo da cabeça.
Geralmente, o verdadeiro iogue parece ser uma pessoa como qualquer outra, mas internamente não é bem assim. Ele age por meio da humildade, não se encanta com o autocontrole adquirido com suas práticas, vive em estado de harmonia e suas ações espelham esta atitude. Ele vê os desafios da vida diária como lições, não permite que suas forças se detenham em trivialidades e nem responde às agressões do mundo com críticas ou violência. É claro que tal estado de ser não pode ser obtido sem muita disciplina, mas as recompensas valem todo o
esforço. Dono de paz interior inabalável e uma sensação de plenitude difícil de
ser descrita., o iogue vive de modo intenso, ciente de que a vida é um drama
divino e que cada segundo deve ser vivido como se fosse o único.
Os Rishis e a Ioga
As mais antigas escrituras indianas falam dos rishis, ou sábios, e seu papel no surgimento da meditação. Intuindo que a realidade percebida pelos sentidos não poderia ser a única, dada a sua transitoriedade, eles decidiram tentar descobrir se existia algo dentro de si mesmos. Isolando-se em cavernas, bloqueando a visão e audição e permanecendo imóveis para se desligar dos estímulos externos, eles se colocaram em estado de observação consciente. Aos poucos, percepções interiores começaram a aflorar, suas consciências se expandiram até, finalmente, atingir a bem-aventurança. A partir de então, passaram a divulgar suas experiências e a desenvolver técnicas para ajudar outros a alcançarem o mesmo objetivo.
Chakras - Os Centros de Energia e o Despertar da Kundalini
Chakras são centros de energia localizados no que hoje conhecemos como corpo sutil. Eles estão ligados a diversos órgãos internos e regulam seu funcionamento. São sete em número e distribuem-se ao longo da coluna cervical desde sua base até o alto da cabeça. Por meio dos chakras, o ser humano absorve energias físicas e sutis, que são distribuídas a todo o corpo por meio de canais conhecidos como nadis.
A kundalini, também conhecida como energia vital, localiza-se na base da espinha, no chakra muladhara. Segundo a mitologia hindu, essa força participa ativamente na formação do nosso corpo físico e, logo que nascemos, entra em estado de repouso, até ser novamente ativada pela prática da ioga. Quando isso acontece, ela ascende pelos nadis, ativa os demais chakras e desperta o estado de superconsciência no homem.
Os sete principais centros de energia são:
- Muladhara: Primeiro Chakra -Localização: base da coluna vertebral, onde se encontra a kundalini. Cuida do aparelho reprodutor, relaciona-se ao olfato e ao elemento terra.
- Svadhisthana: Segundo Chakra -Localização: logo abaixo da região do baço. Relaciona-se ao sistema imunológico, ao elemento água e ao sentido do paladar.
- Manlpura: Terceiro Chakra - Localização: altura do umbigo. Está ligado aos princípios da criação, ao elemento fogo e ao sentido da visão.
- Anahata: Quarto Chakra - Localização: região cardíaca. Relaciona-se aos estados emocionais, ao elemento ar e ao sentido do tato.
- Vishuda: Quinto Chakra - Localização: região da laringe. Está ligado à glândula tireóide, ao elemento éter e ao sentido da audição.
- Ajna: Sexto Chakra - Localização: entre as sobrancelhas. É o famoso terceiro olho, onde reside a sede da consciência. Ele se une a todos os elementos e ao sentido da intuição.
- Sahasrara: Sétimo Chakra - Localização: topo do crânio. Nele reside a abertura para conectar-se à Fonte Suprema. Quando o homem se ilumina, ele refulge em todas as cores do espectro.
Para saber mais:
Meditação e Visão Interior - Joseph Goldstein (Ed. Pensamento)
Ioga para a Mente - Iogue William Zorn (M.Pensamento)
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