Entre o Bem e o Mal

2009-05-04 17:20

Gilberto Schoereder

O novo livro de Paulo Coelho abre a possibilidade de uma série de discussões interessantes sobre nossa natureza, e a ação do Bem e do Mal no planeta em que vivemos.

    No início de outubro, o escritor Paulo Coelho voltou a ser matéria de capa nas principais publicações do Brasil com o lançamento de seu nono romance, O Demônio e a Srta. Prym. Como já se tornou comum, as incontáveis matérias e comentários sobre o escritor vieram acompanhados de cifras incríveis sobre a venda de suas obras em todo o mundo, levantando discussões em torno do tema central — no caso, a existência do Bem e do Mal dentro das pessoas e no mundo. Apesar de ter se recusado a conceder entrevista à Sexto Sentido — segundo sua assessoria, por estar demasiadamente ocupado divulgando o livro —, nós não podíamos deixar de falar sobre o mago e seu novo fenômeno de vendas nesta época do ano, quando o espírito natalino evoca o Bem na maioria das pessoas, e o Mal é rechaçado como um verdadeiro cão sarnento.
    Aliás, o tema que o autor escolheu encaixa-se como uma luva também neste período de transformações globais que estamos atravessando, quando Bem e Mal surgem tão misturados que muitas vezes fica difícil saber qual é qual.
    O conflito entre Luz e Trevas — tanto no interior do ser humano como no mundo — é uma das questões centrais nas considerações sobre a Nova Era, Novo Milênio, Apocalipse ou qualquer nome que se queira dar às modificações que poderão ocorrer na Terra nos próximos anos.     Na verdade, é impossível falar sobre essas transformações sem discutir o que nós somos, como agimos e o que estamos fazendo ao planeta, e tal discussão também aborda a possibilidade — tão discutida ao longo dos milênios — de que forças reais benignas e malignas estejam agindo em nosso ambiente, levando-nos para uma ou outra direção.
    O Demônio e a Srta. Prym foi lançado com uma sessão de autógrafos na Academia Brasileira de Letras e bateu outro recorde no mercado de livros: uma tiragem de mais de 200 mil exemplares. Coincidentemente, o autor revelou em entrevistas recentes que faz parte de seus planos candidatar-se a uma cadeira na Academia.
    A história se passa no vilarejo de Viscos, com 281 habitantes, localizado nos Pirineus franceses — um lugar que de fato existe e onde Paulo Coelho esteve. Nada de diferente ocorre na cidadezinha que vive dia após dia a mesma rotina. Os mais velhos lembram-se com saudades do tempo em que os jovens ainda moravam ali. A senhorita Chantal Prym, uma órfã que trabalha no bar do único hotel local, sonha com o dia em que poderá, enfim, deixar Viscos, conhecer alguém interessante e sair pelo mundo antes que sua própria juventude acabe.
    Mas, é claro que ninguém faz coisa alguma para modificar a situação, até o dia em que a mulher mais velha do povoado vê um estrangeiro chegar, acompanhado de um demônio. Esse é o homem que irá modificar as pessoas, oferecendo-lhes algo que, segundo o autor, é irrecusável. O desejo da senhorita Prym em modificar seu destino coloca-a no caminho do estrangeiro, e ela é incumbida de levar a proposta tentadora para o restante da aldeia: o demônio está disposto a entregar uma quantidade de barras de ouro suficiente para alterar a vida de todos os habitantes caso eles se disponham a infringir o mandamento bíblico Não Matarás.
    A simples possibilidade de abandonar o marasmo de uma vida sem quaisquer perspectivas e ‘entrar no mundo’ experimentando as delícias da civilização faz com que todos, até o padre da vila, resolva cometer um crime, escolhendo como vítima a pessoa mais idosa do local — justamente a que detectou a presença do Mal na cidade.

Divisão Antiga
    Na nota do autor, que antecede o conto propriamente dito, Paulo Coelho diz que “A primeira história sobre a Divisão nasce na antiga Pérsia”, com o deus do tempo, o criador do universo, que resolve obter uma companhia para desfrutar a harmonia que criou. Essa conhecida lenda sobre o nascimento de Ormuz (o Bem) e Arimã (o Mal) na verdade não é a primeira. Ela é antecedida em milhares de anos pela visão sobre a Luz e as Trevas desenvolvida na Suméria, e se levarmos em conta os relatos hindus, podemos recuar no tempo alguns milhões de anos, quando civilizações das quais pouco ou nada sabemos já se referiam à luta entre essas duas forças opostas.
    Coelho não desenvolveu seu livro de forma maniqueísta, como deixou bem claro nas entrevistas, acreditando que esse conflito é inerente à alma do homem e não tem solução. Na introdução ao livro, ele também se refere à passagem bíblica sobre a queda de Adão e Eva depois que ambos provaram da árvore do conhecimento do Bem e do Mal. No livro de Gênese (3:22), Deus afirma, “Eis que o homem se tornou como um de nós, conhecedor do Bem e do Mal”. Em outras palavras, quando o ser humano se torna conhecedor de tudo e é capaz de tomar suas próprias decisões, ele se torna também um criador e as duas forças antagônicas passam a habitá-lo, como nos personagens do livro — que têm cada qual seu anjo e demônio internos equilibrando suas ações.
    Quase todas as religiões e seitas ao longo dos tempos têm se manifestado sobre essa questão, muitas aceitando a divisão interna do homem, mas sem refutar que o Bem e o Mal possam, de fato, estar travando uma batalha externa pela posse ou controle do planeta. Resta saber se os demônios interiores têm mais importância em nosso curso de ação do que os exteriores.
    O escritor também deixa essa dúvida no ar em vários momentos do livro, como quando o Mal se apresenta ao personagem na forma de ‘o príncipe deste mundo’ — o que tanto pode ser encarado de modo simbólico, representando a perversidade do homem, como o Mal que domina o planeta.

O Demônio na Mente
    A dúvida é reforçada quando Coelho se refere ao local em que o demônio habita no estrangeiro, mais especificamente, no hemisfério esquerdo do cérebro, responsável pela lógica e raciocínio. Essa passagem (vide box) pode ser encarada de duas maneiras: que a lógica, o raciocínio e a reflexão representam a origem de todo Mal, ou que o raciocínio é prejudicado nos seres humanos justamente pela ação do demônio.
    É uma situação difícil de ser solucionada. Por muito tempo, as religiões e outras posturas espiritualistas professaram a necessidade que as pessoas têm de sentir, de decidir com o coração, de ter fé em seus sentimentos para encontrar a verdade ou Deus. Essa posição simplesmente jogava para escanteio a chance de resolver racionalmente questões profundas, como a existência de Deus ou a validade de ensinamentos espirituais e, por tabela, desconsiderava a possibilidade de obter esse conhecimento espiritual por meios, digamos, mais científicos de pensamento.
    No entanto, nos últimos tempos vem crescendo uma postura oposta, ou seja, de que não basta ter fé, uma vez que a fé pode levar ao dogmatismo e a posturas extremistas, radicais, muitas vezes até violentas, que nada têm a ver com a procura pela verdade ou por Deus. Ao contrário da fé, postula-se uma atitude de reflexão totalmente oposta à crença cega, uma vez que faz parte dessa atitude considerar todas as possibilidades de interpretação que apareçam à nossa frente, não necessariamente duvidando, mas discutindo os diferentes pontos de vista.
    No filme Dogma, tão criticado pela Igreja Católica — justamente uma das mais dogmáticas do mundo — o alucinado anjo que desce à Terra diz que fé é uma besteira, e que o importante mesmo é ‘ter uma boa idéia’ de como as coisas podem ser.
    Deus e o demônio podem ser muitas coisas, e importa menos acreditar plenamente numa única verdade — que, em última análise, será elaborada na Terra, por pessoas de interesses terrenos — do que pensar numa série de possibilidades elaboradas a partir da reflexão e do raciocínio. No caso do personagem demoníaco de Paulo Coelho, só podemos acreditar que sua função seja exatamente impedir qualquer pensamento lógico, uma vez que, se o personagem agisse com a razão, jamais cometeria as besteiras que cometeu. Coelho parece estar correto ao afirmar que uma pessoa pode fazer toda a diferença, já que só ela é capaz de combater seu demônio interior — e a maneira de fazer isso é através da razão, não da fé.

Punição
    Num espectro mais amplo da polêmica surge a presença de Lúcifer em nosso planeta — afinal, ele fez bem ou mal ao trazer-nos a luz, o conhecimento que é automaticamente associado à razão e reflexão? Esse personagem é realmente o Mal ou apenas um dissidente das falanges celestiais? Ao levantar essa questão, espiritualistas ao longo de milhares de anos têm abordado o fato de que, na maioria das religiões,     Deus é apresentado como um ser implacável, que destrói com a mesma facilidade com que cria, caso Sua vontade não seja obedecida. Mesmo considerando que a visão terrestre de Deus possa ser um exagero, ela induz à conclusão de que o conflito entre Bem e Mal no nosso planeta não se restringe a apenas uma luta interna dos seres humanos, mas trata-se de um verdadeiro choque entre duas forças físicas.
    Poucas são as seitas que consideram Deus uma entidade impassível. Na ficção científica, essa questão foi apresentada no livro O Deus Impassível, de Clifford D. Simak, no qual uma civilização terrestre formada por robôs constrói uma máquina para entrar em contato com o Criador, que vivia no centro da galáxia e possuía um tipo de inteligência tão diferente e distante da nossa, tão impassível diante de qualquer atitude humana que se tornou aterrador. Quem sabe o medo ensinado pelas religiões mais ortodoxas não seja um reflexo da possibilidade de jamais sermos capazes de compreender os desígnios de uma entidade superior e distante?  A idéia de um Deus punitivo parece surgir como um dos temas centrais no livro de Paulo Coelho, embora a questão não seja bem resolvida. A impressão que se têm é que os problemas apresentados pela presença do estrangeiro acabam resolvidos, não devido ao Bem que existe no ser humano, mas pelo medo de uma punição. Nesse caso, o anjo interno de cada pessoa funcionaria apenas como um tipo de lembrança para manter a possibilidade do castigo clara na mente das pessoas, reforçando o ‘bom comportamento’ por meio de ameaças.
    A história não é clara nesse ponto, como em muitos outros, mas funciona bem no aspecto que parece ser o mais importante: discute uma questão fundamental em nossa existência e transmite boas idéias a respeito.


[Box]
A Morada do Mal
(Trecho do livro O Demônio e a Srta. Prym. Editora Objetiva, página 95).
    “O homem abriu a janela do seu quarto, e torceu para que o frio calasse por alguns momentos a voz do seu demônio.
Não funcionou, como previra, já que o demônio estava mais agitado que nunca, por causa do que a moça acabara de dizer. Pela primeira vez em muitos anos o via enfraquecido, e houve momentos em que notou que se afastava — para voltar logo em seguida, nem mais forte, nem mais fraco, apenas com o seu jeito familiar. Habitava o lado esquerdo do seu cérebro, justamente a parte que governa a lógica e o raciocínio, mas jamais deixara-se ver fisicamente, de modo que era obrigado a imaginá-lo como devia ser”.

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