Eles já Chegaram
2009-05-08 17:38O cinema tem inúmeros exemplos de histórias sobre extraterrestres que chegaram ao planeta há milhares ou milhões de anos e que, de uma forma ou de outra, influenciaram nossa civilização.
Gilberto Schoereder
A maioria das pessoas já deve saber que os extraterrestres do cinema estão visitando nosso planeta há tempos e, muitas vezes, com péssimas intenções. Mas o cinema do gênero também fez algumas referências à noção de que esses alienígenas tenham visitado a Terra há milhares ou milhões de anos, às vezes se estabelecendo por aqui, outras somente observando nosso desenvolvimento, ou mesmo influenciando e alterando o rumo de nossa história.
Nos filmes mais antigos essas referências são vagas, e dizem respeito mais às civilizações desaparecidas como a da Atlântida ou da Lemúria, sem citar diretamente os ETs, embora a história do ocultismo cite essas culturas como tendo sido formadas por seres vindos de outros planetas. São os casos, por exemplo, de O Império Fantasma (The Phantom Empire, 1935) e Império Submarino (Undersea Kingdom, 1936), dois seriados do cinema com heróis clássicos: Gene Autry e Ray “Crash” Corrigan. O primeiro situa-se no reino subterrâneo de Murânia (Mu?); o segundo, na Atlântida, ainda existente no fundo do mar e enfrentando uma guerra civil. Essas civilizações perdidas surgem também numa série de filmes dos anos 30 e 40, baseados no livro L’Atlantide, de Pierre Benoit, e se estendem aos anos 60 com Atlântida, O Continente Esquecido (Atlantis, The Lost Continent, 1960).
Mais tarde, em Cocoon (1985) e na seqüência Cocoon – O Regresso (1988), a citação seria bem mais direta, apresentando seres do planeta Antarea que retornam à Terra para recuperar casulos deixados aqui há dez mil anos, quando construíram sua base na Atlântida. O continente perdido também surge no péssimo Uma Estranha em Los Angeles (Alien From L.A., 1988), no qual os atlantes, que ainda vivem no subterrâneo, são apresentados como descendentes de alienígenas.
Também se falou da existência de civilizações bastante evoluídas em Marte ou Vênus, e mesmo não havendo citações diretas à sua influência no desenvolvimento das civilizações da Terra, as semelhanças entre as culturas apresentadas podem indicar algo nesse sentido, ou tão-somente falta de imaginação dos criadores das histórias. É assim com Da Terra à Lua (Rocketship X-M, 1950), com uma expedição à Lua desviando-se do seu curso e indo parar em Marte, onde encontram o que sobrou de uma civilização superior destruída por um holocausto, provavelmente nuclear; ou com Voando Para Marte (Flight to Mars, 1951), em que terrestres encontram uma civilização subterrânea no planeta vermelho, não só iguais aos terrestres, mas falando inglês, o que é mais estranho.
Dos Livros ao Cinema
A noção de que fomos visitados por ETs no passado longínquo já vinha sendo abertamente considerada pelo menos desde a segunda metade do século XIX, quando Helena Blavatsky fundou a Sociedade Teosófica, e as referências a essa presença já eram conhecidas por estudiosos dos antigos textos hindus.
Deve-se considerar que o cinema sente uma atração especial pelos temas quando eles se tornam mais populares, mais universalmente conhecidos, o que nesse caso nos remete ao livro de Erich von Däniken, Eram os Deuses Astronautas, publicado em 1968. Claro que o assunto já tinha sido explorado por Charles Fort com seu O Livro dos Danados, em 1919, e o pesquisador chega a ser considerado o “pai” das modernas investigações a respeito da presença de ETs em nosso planeta.
Já em 1962 era publicado Flying Saucers Through the Ages (Os Discos Voadores Através dos Tempos), assinado com o pseudônimo Paul Thomas; e, no ano seguinte, História Desconhecida dos Homens, de Robert Charroux, um dos mais importantes nessa área de pesquisa. Entretanto, por alguma razão de mercado ou de momento oportuno, foi o livro de Däniken que disparou as discussões e pesquisas sobre o tema.
Na literatura de ficção científica, o assunto também foi tratado bem antes do que no cinema, a começar pelos contos de Arthur C. Clarke. Em Grupo de Salvamento (1946, publicado no livro Encontro com o Futuro), o autor refere-se a uma civilização superdesenvolvida que visita a Terra há 400 mil anos, programando nova visita para dali a 600 mil anos, quando imaginam que já haverá vida inteligente, e ficam surpresos quando percebem que nesse curto período a vida não somente surgiu mas que o desenvolvimento tecnológico terrestre suplanta o dos próprios alienígenas. Clarke voltaria a temas semelhantes com os contos A Sentinela (1951) – que seria a base para o filme 2001 – Uma Odisséia no Espaço –, e Encontro ao Amanhecer (1953), no qual se refere à presença dos ETs no desenvolvimento da Babilônia.
Eles nos Observam
Apesar de ser antigo, o tema começou a ganhar corpo no cinema do gênero aos poucos. Em 1951, por exemplo, pode-se perceber um pequeno toque sobre o tema no clássico O Dia em que a Terra Parou (The Day the Earth Stood Still), quando o extraterrestre Klaatu diz aos cientistas terrestres que as raças do espaço vêm observando nosso planeta há muito. No mesmo ano, no filme O Monstro do Ártico (The Thing), cientistas encontram uma nave espacial alienígena enterrada no gelo, sabe-se lá há quanto tempo. Entretanto, em nenhum dos filmes é levantada a suposição de que os ETs tenham interferido em nosso passado.
Mais específico nesse sentido é o quase desconhecido filme Estrela Silenciosa (Der Schweingende Stern, 1959), produção polonesa e alemã baseada na história Austronauci (1951), do espetacular escritor polonês Stanislaw Lem. A história começa na Terra, quando uma pesquisa arqueológica encontra objetos que indicam a possibilidade de que seres vindos de Vênus tenham estado em nosso planeta. Uma expedição àquele planeta encontra as ruínas de uma civilização, destruída por uma guerra nuclear. Não é um tema fácil de ser tratado, mesmo por autores de ficção científica, e conecta-se, ainda que involuntariamente, às informações da Sociedade Teosófica de que seres de Vênus vieram ao nosso planeta num passado longínquo, e influenciaram diretamente nosso desenvolvimento.
História interessante, infelizmente em filme ruim, é a de Mulheres do Planeta Pré-Histórico (Women of the Prehistoric Planet, 1966), que apresenta alienígenas que ficam presos na Terra e dão origem à raça humana, como Adão e Eva.
Construindo a Humanidade
Foram dois filmes do final dos anos 60 que mudaram definitivamente essa abordagem, indo mais fundo na questão da transformação dos humanos naquilo que eles são hoje. O primeiro deles foi o sensacional e pouco comentado Uma Sepultura na Eternidade (Quatermass and the Pit, 1967), pouco reprisado na televisão e jamais lançado em vídeo no Brasil.
A história começa com escavações no metrô de Londres, durante as quais são encontrados uma nave espacial e corpos alienígenas semelhantes a gafanhotos gigantescos. Mais tarde, os cientistas descobrem que a nave veio de Marte há milhares de anos, e que os marcianos gafanhotos utilizaram seu imenso conhecimento de engenharia genética para construir seres que os ajudariam nos trabalhos mais pesados, verdadeiros escravos. Esses seres construídos nada mais são do que os humanos, que mantiveram em sua memória coletiva a imagem dos marcianos como verdadeiros demônios, daí todo o desenvolvimento da figura do diabo como um ser com chifres e cauda. Essa noção seria aproveitada após alguns anos, de forma um pouco diferente, na boa produção para a televisão, Os Demônios dos Seis Séculos (Gargoyles, 1972), que apresenta uma raça de seres que chegaram à Terra muito antes dos humanos se desenvolverem, e que tiveram de se esconder quando os terrestres se espalharam pelo planeta. A aparência desses seres é que originou as lendas a respeito de demônios – embora eles não sejam nada disso.
O outro filme, é claro, foi 2001 – Uma Odisséia no Espaço (2001 – A Space Odyssey, 1968), baseado no conto de 1951 de Arthur C. Clarke e dirigido por Stanley Kubrick. Falou-se muito das metáforas existentes no filme; no entanto, o tema básico é óbvio: uma raça extraterrestre, que jamais é mostrada, esteve em nosso planeta no alvorecer da humanidade, e deixou sua marca entre nós, o monólito negro, um dos objetos mais famosos na história do cinema. A história não esclarece se o objeto influenciou de alguma forma o desenvolvimento da humanidade; todavia, entende-se que sua simples presença causou uma mudança na forma de pensar dos antigos humanos, de alguma forma elevando-os a um novo nível. O que fica claro é que os ETs desejavam um contato, deixando um monólito na Lua, emitindo sinais em direção a outro objeto monstruoso na órbita de Júpiter.
Deuses e Demônios
Essa visão dos ETs como parte de antigas lendas e de religiões terrestres também aparece várias vezes nos filmes. Entre os menos conhecidos está, por exemplo, Possuída Pelo Diabo (Demon, Demon, 1975). Como o título indica, é apresentada como filme de terror, mas se refere a seres que chegaram à Terra há vinte mil anos, com problemas em sua nave. Quando passaram a ser perseguidos e associados ao mal, refugiaram-se numa dimensão paralela e continuaram tentando consertar sua espaçonave para prosseguir sua viagem.
Já o italiano Herdeiros da Morte (Il Visitatore, 1978) apresenta seres representantes do bem e do mal entrando em choque na Terra, refazendo a eterna luta entre Deus e o Diabo, só que na verdade se trata de seres alienígenas. É uma pena que o filme tenha sido tão mal desenvolvido, o que já não é o caso do excepcional Príncipe das Sombras (Prince of Darkness, 1987). A trama gira em torno do grupo católico chamado Irmandade do Sono, que tem como missão milenar a proteção de um objeto cilíndrico, dentro do qual está aprisionado o “príncipe das sombras”, uma entidade alienígena que se encontra presa por sete milhões de anos e que inicia seus movimentos para se libertar. Sua missão é libertar seu pai de um antiuniverso e iniciar a conquista do cosmos. Cristo é apresentado como um enviado, filho de um ET, com a mensagem de que os terrestres deveriam manter o cilindro e seu prisioneiro bem guardados. É certamente o melhor filme do gênero.
Um deus alienígena também é o centro de Stargate (1994), que apresenta o antigo deus egípcio Ra como um extraterrestre que se desloca pelo universo através de portais, e utiliza humanos como fonte de sua eterna juventude. Mais do que responsável pela cultura fantástica do antigo Egito, Ra chega a ser apontado como o próprio criador dos seres humanos, para que servisse como seus escravos.
Uma das últimas abordagens do tema no cinema foi com o interessante e bonito Missão Marte (Mission to Mars, 2000), que apresenta o famoso “rosto de Marte” como uma espécie de recado para os terrestres. Em seu interior, os astronautas da Terra encontram a história do povo marciano, do cataclismo que os obrigou a abandonar o planeta e se dirigir para o outro extremo da galáxia, e de como eles deixaram sua semente, seu DNA, para prosperar em nosso planeta e originar nossa raça.
O filme foi injustamente criticado por seu tom “espiritualista”, mas é certamente uma das melhores visões do tema apresentadas em anos. Ele ousou tocar num assunto que, direta ou indiretamente, envolve conceitos religiosos, coisa que o cinema de Hollywood evita fazer com muita profundidade ou muito constantemente.
Seja como for, de maneira geral, o cinema apresenta uma boa amostra do tema, ainda que não tenha chegado às telas o melhor da literatura de ficção científica e das pesquisas alternativas. Enquanto isso, dá para se divertir com o que existe.
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Em Vídeo
Alguns dos filmes listados abaixo não foram comentados na matéria; contudo, trazem histórias relacionadas ao tema. Talvez não seja tão fácil encontrar nas videolocadoras os que foram lançados há mais tempo.
2001 – Uma Odisséia no Espaço
2010 – O Ano em que Faremos Contato
Herdeiros da Morte
Time Walker
A Próxima Dimensão
Cocoon
Cocoon – O Regresso
A Lenda da Pérola Dourada
Príncipe das Sombras
Uma Estranha em Los Angeles
Monolith – A Energia Destruidora
Necronomicon: O Livro Proibido dos Mortos
Stargate
Arquivo X – O Filme
Missão Marte
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