Damanhur - Captando a Energia do Universo
2009-05-04 14:58Os habitantes da Federação Damanhur vêm fazendo mais do que procurar uma forma alternativa para se viver no planeta. Eles desenvolveram um sistema filosófico e científico que permite até mesmo viagens no tempo.
Gilberto Schoereder
Nos anos 60, vários grupos tentaram se organizar em coletividades independentes, afastando-se dos propósitos materialistas da sociedade. Embora variados, os motivos estavam freqüentemente ligados ao misticismo ou espiritualismo. Das comunidades hippies dos 60, poucas restaram ou agüentaram o tranco violento do materialismo dos anos 80, dando lugar aos yuppies, que tinham objetivos de vida totalmente opostos.
No entanto, muitas outras comunidades surgiram, inclusive no Brasil, procurando utilizar-se de energias, métodos de cura e alimentação alternativas, muitas vinculadas à idéia de que extraterrestres virão à Terra resgatar algumas pessoas quando chegar o momento –– acreditam eles –– de uma destruição em massa do planeta.
Apesar de muitas dessas comunidades terem prosperado, parece que poucas tiveram o mesmo grau de comprometimento com suas propostas e os mesmos resultados positivos que a Federação Damanhur. A comunidade começou a tomar forma na Itália, em 1977, quando o filósofo Oberto Airaudi reuniu um grupo de filósofos no vale de Valchiusella, na região dos Alpes, ao norte da Itália. Inicialmente, eram apenas algumas dezenas de pessoas que faziam de tudo. Hoje, o número de moradores fixos já se aproxima de mil, e os trabalhos não param.
O nome Damanhur vem de uma antiga cidade do Egito e significa ‘cidade de luz’. A federação reúne comunidades autônomas, tem sua própria estrutura social e política, uma constituição e até mesmo sua própria moeda, além de ter desenvolvido cerca de 40 negócios e serviços próprios organizados em base de cooperativa e que, eventualmente, podem ser negociados com o ‘mundo exterior’. Mais do que isso, os moradores de Damanhur desenvolveram um sistema de pensamento próprio que inclui incríveis teorias sobre a possibilidade de viajar no tempo, e afirmam que até mesmo já realizaram algumas viagens.
Vida Comunitária
Os moradores são médicos, advogados, professores, enfermeiras, consultores de várias áreas, empregados. Enfim, pessoas de todos os tipos que não necessariamente trabalham em Damanhur. Eles pagam os impostos ao governo italiano, como o resto da população, mas também dão sua contribuição ao desenvolvimento dos trabalhos e das obras que continuam sendo elaboradas na Federação. O dinheiro arrecadado é investido em obras de interesse da comunidade, como escolas, aquisição de mais terrenos para expansão e a pesquisa de energias alternativas.
A primeira modificação significativa na estrutura da comunidade ocorreu em 1983, época em que a população cresceu de 40 para 150 residentes e uma nova constituição foi estabelecida, baseando-se na divisão de espaços e recursos. Hoje, Damanhur tem — além da constituição, que teve sua última alteração em 1999 —, um governo federal, com seus componentes eleitos através de voto, vários conselhos, um sistema de justiça e até seu próprio calendário.
O sistema de trabalho em Damanhur aproxima-se muito do ideal anarquista. Os turistas e visitantes ocasionais contribuem para a economia da Federação e algumas das atividades da comunidade dão emprego a moradores das cidades próximas. Alguns dos cidadãos damanhurianos ainda estão envolvidos na vida política da região. A Federação tem marcenarias, fazendas, casas particulares, laboratórios e unidade semi-industriais. O interessante é que os cidadãos podem escolher que tipos de trabalho irão realizar para colaborar com a economia local e, para trabalhos voluntários, cada um é encorajado a oferecer algumas horas mensais de trabalho para cuidar dos espaços comunitários como jardins, o teatro e a construção dos templos.
Crescimento Espiritual
Os habitantes de Damanhur consideram-se membros de uma comunidade democrática, e não de um culto, como ocorre com tantas outras comunidades no planeta. Eles acreditam que a evolução espiritual individual só pode ocorrer entre pessoas que dividem o mesmo tipo de pensamento e o mesmo comprometimento, tanto para a melhora individual quanto para a melhoria da humanidade e do planeta como um todo.
Ao longo dos anos, os moradores construíram uma série de templos, cada qual com sua finalidade específica, sendo que o principal é o chamado Templo da Humanidade, um complexo subterrâneo em vários níveis, com sete câmaras que se estendem para o interior de uma das montanhas próximas. As escavações para a construção desse templo começaram em 1978 e, desde então, ele tem sido construído e decorado à mão pelos moradores, com resultados fantásticos.
Na verdade, a elaboração dos templos é um dos pontos principais das atividades dos damanhurianos, que procuram transformá-los em trabalhos artísticos semelhantes aos monumentos da Antigüidade. Assim, cada câmara do templo foi dedicada a uma função mágica especial e cada elemento de sua arquitetura e decoração também carrega significados específicos, originários das culturas ancestrais da humanidade, da mesma forma que alguns pesquisadores dizem acontecer com as pirâmides e com algumas catedrais góticas.
A escolha do local para o estabelecimento da Federação não foi aleatória. Segundo Airaudi, o lugar possui propriedades geológicas e espirituais especiais, proporcionadas pelo encontro de três linhas sincrônicas principais, que podem ser entendidas como rios de energia que percorrem o planeta e estabelecem uma ligação com o Universo. As câmaras e passagens do Templo da Humanidade, por exemplo, foram construídas de forma a seguir os cursos dessas linhas. Não é exatamente uma idéia nova, uma vez que a noção existe desde a Antigüidade, mas o esforço dos cidadãos em reproduzir obras antigas com tamanha exatidão é um trabalho notável.
Captando Energias
Uma das formas encontradas pelos damanhurianos para captar essas energias que percorrem a Terra e o Universo foi a construção de pequenos aparelhos que eles chamaram de selfica, ou esferoself e encontram–se em vários pontos de suas construções subterrâneas e também são essenciais para o funcionamento da cabine que lhes permite viajar no tempo e no espaço. Os aparelhos são construídos com espirais de cobre, esferas alquímicas e alguns circuitos. Com isso, garantem os pesquisadores de Damanhur, eles podem reunir energias sutis, assim como inteligência psíquica e espiritual. As selficas foram inseridas no interior das paredes e no chão do Templo da Humanidade — segundo consta, cerca de trezentas toneladas —, além de serem utilizadas em cima de mesas ou como adereços pessoais. Dessa forma, a energia das quatro linhas sincrônicas que se encontram no templo são reunidas de tal maneira que a construção passa a funcionar não apenas como uma gigantesca bateria, mas também como uma inteligência viva.
A selfica também é utilizada como um aparelho de cura. Os pesquisadores damanhurianos afirmam que inúmeras doenças já foram tratadas e curadas dessa forma, inclusive a AIDS. Existem informações de que o Instituto de Genética Humana, da Universidade de Turim, realizou alguns testes com o aparelho, confirmando que ele tem o efeito de suspender o desenvolvimento de células cancerígenas, além de diminuir a reprodução de bactérias.
As viagens no tempo — que segundo Airaudi foram comprovadas por meio de várias experiências bem-sucedidas realizadas em 1994 —, estão sem dúvida entre as realizações mais surpreendentes dos damanhurianos, tomando–se como certa a veracidade de suas narrativas.
A Natureza do Tempo
Os filósofos de Damnhur chamam o mundo da matéria de ‘mundo das formas’ e, segundo seu ponto de vista, fora desse mundo, pode-se imaginar que o tempo não existe. A partir da compreensão da natureza do tempo, os damanhurianos desenvolveram uma teoria de viagem no tempo e aplicaram-na de forma prática. Para tal, consideraram o tempo de duas maneiras básicas: como uma seqüência linear de eventos e como um mar temporal de eterno presente.
O primeiro conceito é o mais simples pois corresponde à experiência direta de cada pessoa. Eles usam como exemplo o fato de que, quando vamos dormir à noite, podemos pensar a respeito de toda a seqüência de eventos que nos aconteceram ao longo do dia. Da mesma forma, pode-se imaginar que todos os eventos ocorrendo no Universo seguem uma linha, orientada convencionalmente do passado em direção ao futuro. Assim, eles imaginaram que todos os eventos que se seguem ao longo da linha do tempo são reunidos em contêineres especiais, que chamam ‘pacotes de tempo’. Cada pacote dura entre 60 e 70 anos, contendo todos os eventos desse período e, como existem períodos históricos mais ricos do que outros, também existem pacotes que são mais cheios que do outros. Imaginaram, então, que o tempo e os eventos podem ser representados como um espaço e, como existem objetos pequenos e grandes, os eventos também teriam dimensões diferentes. Para a filosofia damanhuriana, esses tamanhos diferentes são definidos como ‘complexidade’.
Essa complexidade não deve ser entendida como complicação, mas sim como uma habilidade cada vez maior em organizar dados, eventos e elementos, da mesma forma que um antigo computador ocupava muito mais espaço, com menos informação, do que os computadores atuais. Por convenção, os filósofos estabeleceram que essa complexidade tem a direção do passado para o futuro, de modo que os eventos que se encontram em pacotes mais antigos são menos complexos e, assim, maiores que aqueles mais próximos ao nosso próprio tempo.
Conseqüentemente, um pacote de tempo no passado estará provavelmente menos saturado de eventos do que os pacotes que o seguem, da mesma forma que os eventos contidos nesse pacote serão mais ‘largos’, ocuparão mais espaço e, portanto, existirão menos eventos. No entanto, entre esse eventos, sobrará espaço livre que pode ser preenchido por eventos menores do que aqueles que o período histórico em questão pode preencher.
Presente Eterno
O segundo conceito é bastante diferente, imaginando que o tempo não flui, mas que passado, presente e futuro existem simultaneamente. Um exemplo dessa idéia é a do globo terrestre. Podemos ver que todos os lugares, continentes, rios e tudo o mais estão sempre presentes na superfície do planeta, mas, se viajarmos, poderemos ver apenas um lugar de cada vez, numa seqüência com uma direção precisa. Da mesma forma, a física esotérica — a filosofia ou ciência estudada e desenvolvida em Damanhur — levanta a teoria do ‘mar temporal’, na qual todos os eventos se apresentam da mesma forma, e mesmo em nossa existência vivemos um evento após o outro naquilo que é, para nós, uma única direção, do passado para o futuro.
Como qualquer oceano, esse mar do tempo nem sempre é calmo, estando sujeito a tempestades e todo tipo de turbulências e anomalias. Imagine-se que um vento forte sopre constantemente nesse mar, e todos os eventos movam-se na mesma direção, ou circular. Então, é só imaginar que as direções em que esse vento sopra são o passado e o futuro e pode-se ter uma idéia da estrutura do tempo segundo os filósofos damanhurianos. Esse conceito une-se àquele da complexidade pois, assim como a complexidade cresce do passado em direção ao futuro, as tempestades e anomalias podem desenvolver períodos de grande complexidade, mesmo que estejam em pontos do tempo que, para nós, são passado. Assim, é possível que no passado existam civilizações mais evoluídas do que a nossa, momentos em que a humanidade atingiu picos mais elevados, tanto nas artes e espiritualidade, quanto na ciência e tecnologia.
A teoria é bem mais complexa do que isso e, para entendê-la na íntegra, seria necessário ter um conhecimento científico razoável.
Cientistas famosos como Stephen Hawking já se manifestaram a respeito das viagens no tempo, entendendo que não é algo assim tão simples. A construção de uma máquina do tempo envolveria a questão de onde obter a energia necessária e, apesar de não ser considerado um projeto caro, teria de estar associado a uma abertura da mente que pudesse considerar possibilidades até então consideradas fantásticas.
Arte e Energia
Esse não parece ser o problema em Damanhur. Um dos primeiros cidadãos a realizar a viagem no tempo, Gattopardo Tek, disse numa entrevista à revista Kindred Spirit, que eles estudam as energias por meio das quais podem interagir com o Universo e isso significa como interagir com o que se encontra além do mundo material, ou seja, o divino, planos mais evoluídos. Dessa forma, é fundamental ter um profundo conhecimento da física contemporânea, assim como de coisas que a física ainda não conhece e, para isso, é preciso integrar o conhecimento da física com o das tradições esotéricas.
O resultado final dessa integração foi a construção de estruturas que utilizam uma tecnologia que pode ser considerada magia. É claro que realizar uma viagem no tempo implica alterar, mesmo que por alguns instantes, as leis do Universo, o que requer a utilização da quantidade imensa de energia à qual Hawking se referiu.
Damanhur afirma ter resolvido essa questão justamente por meio do Templo da Humanidade que, como já dissemos, é visto como uma imensa bateria construída de acordo com a sélfica, segundo os damanhurianos uma ciência derivada da forma básica do Universo, a espiral, e conhecida dos antigos egípcios, celtas e árabes. Para a construção dos aparelhos, são utilizados, além do cobre, o ouro e a prata, que são melhores condutores, e a energia armazenada no templo pode ser extraída através da escavação das rochas nas quais o templo está incrustado e obtida das obras de arte, que são o resultado da aplicação da Vontade, Criatividade e Significado para criar Beleza. Os moradores dizem que existe uma relação precisa entre a quantidade e a qualidade de rocha escavada e o total de energia extraída, assim como entre a extensão das superfícies decoradas e o total de energia gerada. Por exemplo, o vidro é muito utilizado, uma vez que duplica a extensão das superfícies decoradas, já que tem dois lados. Não é preciso explicar porque a arte e o trabalho interminável de ampliação e embelezamento dos templos é tão importante.
Alguns pesquisadores afirmam que o tipo de energia ao qual os damanhurianos se referem realmente não é algo novo na história do planeta e, mais recentemente, encontra eco no trabalho de Wilhelm Reich, que se referia ao orgônio como uma energia que poderia ser captada do ar, tendo até mesmo construído máquinas capazes de realizar essa tarefa e ajudar na cura de inúmeras doenças.
As teorias discutidas pelos damanhurianos e em especial por seu fundador, Oberto Airaudi, não são ficção científica, mas parte essencial da ciência moderna, especialmente da física quântica. Quanto à realidade das viagens no tempo e espaço, resta o livre-arbítrio, acreditar ou não nos relatos dos viajantes, que afirmam terem atingido mais de 60 mil anos no passado e até mesmo outros planetas.
Seja como for, Damanhur parece ser uma comunidade fora do normal, mesmo numa época em que milhões de pessoas em todo o planeta estão buscando explicações e modos de vida alternativos para o planeta. Tudo indica que ainda vamos ouvir falar muito sobre eles.
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Viagens no Tempo
Segundo os damanhurianos, suas viagens no tempo podem ser realizadas de duas formas distintas. Uma envolve a transmissão do corpo sutil da pessoa, que pode ser entendido como a essência ou o espírito do viajante. A outra está ainda mais próxima da ficção científica, pois implica na desmaterialização e rematerialização completa da pessoa em outro local, o que inclui tanto o corpo sutil quanto o físico.
As chamadas ‘minas do tempo’, como é o caso do Templo da Humanidade, permitem que eles construam essas estações de energia extremamente complexas que, além das viagens no tempo, permitem a troca de dimensões, de personalidade e a construção de laboratórios alquímicos a partir dos quais são elaborados programas de reencarnação.
Numa das primeiras viagens, contam os damanhurianos, eles desejavam descobrir quantos eventos podiam estimular por meio de uma ação, que no caso era o comércio entre duas vilas. Para isso, viajaram para uma época situada cerca de 6 mil anos atrás, onde existia um pequeno barco construído com uma nova tecnologia, conhecida apenas de uma vila. Assim, roubaram o barco e levaram-no até a outra vila, onde as pessoas tomaram conhecimento da existência daquela tecnologia e trataram de copiá-la, enquanto o dono original do barco teve de construir outro.
Nas chamadas viagens com o corpo sutil, o viajante tem de ‘possuir’ um corpo já existente e, de certa forma, ter controle sobre ele para poder agir. Essa é uma ação muito difícil, dizem, e é complicado aprender a se orientar no corpo de outra pessoa, de modo que os viajantes têm uma preparação especial para esse momento. Um canal de comunicação também é mantido aberto, de maneira que eles podem se comunicar com Damanhur e receber orientações.
Para Saber Mais:
www.damanhur.org
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