Dalai Lama - Em Busca da Felicidade
2009-05-08 17:27Uma das figuras mais importantes do mundo espiritual da atualidade, Sua Santidade, o Dalai Lama, destaca-se por mensagens simples e que atingem diretamente os pontos centrais dos problemas que as sociedades modernas vêm enfrentando.
Gilberto Schoereder
Não há dúvida de que Sua Santidade, o Dalai Lama, é uma personalidade muito querida internacionalmente, especialmente por sua postura de não-violência, ainda que defendendo fortemente a liberdade do povo tibetano. No entanto, nos últimos anos, sua popularidade parece ter aumentado de uma forma fora do normal. No Brasil, onde sua postura e seus ensinamentos eram pouco comentados, uma série de livros sobre ele ou escritos por ele foram publicados, tornando-se best-sellers da noite para o dia.
O mais incrível é que, apesar de conseguir o apoio de inúmeras entidades não-governamentais em sua luta pela autonomia do Tibete – invadido e dominado pela China, para cujo governo a religião é um atraso de vida e deve ser suprimida, mesmo pela violência –, os governos mais poderosos do planeta não lhe dão ouvidos. Ou melhor, escutam, mas não fazem coisa alguma, especialmente depois que se estreitaram as relações comerciais entre os EUA e a China. Um mercado de bilhões de consumidores potenciais não pode ser desprezado por questões “menores”, como a democracia, por exemplo. O Dalai Lama, em pronunciamento recente, disse estar considerando inclusive a possibilidade de que o Tibete não seja totalmente separado da China, mas que pelo menos ganhe alguma autonomia. Um sinal de que a situação não está muito boa, e que o governo da China está cada vez mais firme e forte em sua postura.
Seja como for, nos últimos anos de atividade em prol de sua causa, o Dalai Lama conseguiu despertar o interesse de muitas pessoas, não apenas no Tibete mas principalmente nos ensinamentos budistas e na postura de não-violência, que algumas pessoas julgavam extinta desde a década de 60, com o movimento hippie.
Felicidade
Sempre sorrindo e aparentando uma felicidade que independe do que aconteça no mundo exterior, o Dalai Lama, também conhecido como Kundun, consegue manter a mesma postura até mesmo quando o assunto é os invasores chineses, a quem diz não odiar – ainda que às vezes fique um pouco irritado com eles.
Essa postura fica muito clara quando conhecemos sua forma de pensar e viver, como se vê, por exemplo, no livro A Arte da Felicidade – Um Manual para a Vida. “Para mim”, ele diz, “o próprio objetivo da vida é perseguir a felicidade. Se acreditamos em religião, ou não; se acreditamos nesta religião ou naquela; o fato é que todos estamos procurando algo melhor na vida. Por isso, para mim, o próprio movimento da nossa vida é no sentido da felicidade...”
Essa felicidade, explica, pode ser atingida através do treinamento da mente; embora, ao se referir à “mente”, ele esteja usando o termo no sentido da palavra sem, em tibetano, que tem um significado mais amplo que inclui o intelecto e o sentimento. “Por meio de uma certa disciplina interior”, ele explica, “podemos sofrer uma transformação da nossa atitude, de todo o nosso modo de encarar e abordar a vida. Quando falamos dessa disciplina interior, é claro que ela pode envolver muitos aspectos, muitos métodos. Mas em geral começa-se identificando aqueles fatores que levam à felicidade e aqueles que levam ao sofrimento. Depois desse estágio, passa-se gradativamente a eliminar os que levam ao sofrimento e a cultivar os que conduzem à felicidade. É esse o caminho”.
Algo que parece bastante óbvio, mas que raramente é tentado ou buscado, especialmente na sociedade ocidental. Howard C. Cutler – o psiquiatra que escreveu o livro a partir das conversas que teve com Sua Santidade – afirmou que estava sobrecarregado com idéias como as de Freud: ele tinha a propensão a acreditar que não faria parte da Criação a intenção de que o Homem fosse feliz – uma postura que marcou fortemente toda uma geração de psiquiatras. Ainda assim, a busca da felicidade como postura fundamental de vida não é uma idéia alheia ao pensamento ocidental, uma vez que já foi postulada por Aristóteles, entre outros filósofos. Apenas parecia um tanto esquecida.
A Busca
Como um dos pontos centrais de seu pensamento, a felicidade também surge como tema de outros livros, como é o caso de Uma Ética para o Novo Milênio. Num dos capítulos, o Dalai Lama afirma estar cada vez mais convencido – ainda mais depois de tantos anos recebendo e conversando com pessoas dos mais diferentes lugares do mundo, das mais diferentes crenças e religiões – de que toda a nossa vida, cada uma de nossas ações podem ser vistas como resposta à grande pergunta: como podemos ser felizes?
Essa busca é sustentada, ele diz, pela esperança. Mesmo sabendo que não existe garantia de uma vida melhor e mais feliz do que a que estamos vivendo hoje, mesmo não se tendo a certeza do amanhã, sempre temos a esperança de, através de determinadas ações, conseguir obter mais felicidade. É algo que faz parte de nossa natureza, e é encontrado tanto em países ricos quanto pobres. No entanto – ele sustenta – parece que as pessoas que vivem em países de grande desenvolvimento material são, de certa forma, menos satisfeitas e menos felizes. O resultado é uma situação de angústia, incerteza e sofrimentos mentais e emocionais. Pode ser que a alta incidência da depressão e estresse nos países mais desenvolvidos esteja conectada a esse fator.
Sua Santidade diz que, quando viaja para o exterior e chega a um país desenvolvido, começa a perceber quais são os verdadeiros problemas das pessoas, apesar das aparências. “Apesar de nunca ter achado que a riqueza material por si só pudesse jamais eliminar o sofrimento”, ele escreveu, “ao olhar para o mundo desenvolvido quando estava no Tibete, um país sempre muito pobre materialmente, devo admitir ter pensado que a riqueza poderia fazer mais do que realmente faz para diminuir o sofrimento. Imaginava que, com menos provações de ordem física, como é o caso para a maioria das pessoas que vivem em países desenvolvidos industrialmente, a felicidade seria muito mais fácil de alcançar do que para as que viviam em condições mais duras. Em vez disso, os extraordinários avanços da ciência e da tecnologia parecem ter trazido pouca coisa além de melhorias numéricas. Em muitos casos, o progresso não significou muito mais do que um maior número de casas opulentas em mais cidades com mais carros circulando entre elas. Decerto alguns tipos de sofrimento diminuíram, principalmente com relação a determinadas doenças. Mas tenho a impressão de que não houve nenhuma melhoria significativa geral”.
Mente Preparada
Esse pensamento é compartilhado com muitas pessoas, atualmente, que se preocupam com o crescimento do materialismo e consumismo puro. O Dalai Lama já manifestou anteriormente que não era necessariamente contra o desejo de obter coisas: disse que ele próprio adorava ir ao supermercado e ver tantas coisas bonitas – não há nada de errado com isso, ou com desejar ter um carro, numa sociedade em que esse veículo vai ajudá-lo. A questão parece estar em saber quando parar, até onde estender esse desejo, e até onde ele é realmente necessário. Ele disse que já aconteceu de querer alguma coisa e, de repente, repensar sobre o assunto e ver se realmente estava precisando daquilo.
Ele diz o mesmo com relação às pessoas mais ricas. A questão é: deixar de viver, deixar de ser feliz, para viver em função do poder ou da riqueza? As necessidades básicas devem ser alcançadas, é claro, para eliminar o sofrimento, mas ao identificar o estado mental como o caminho para a felicidade, o fator primordial para se atingir a felicidade, seria existir um limite para o que se pode obter materialmente.
Portanto, é fundamental treinar a mente para que obtenha a felicidade. O Dalai Lama diz que temos de aprender como as emoções e comportamentos negativos nos são prejudiciais, e como as emoções positivas são benéficas. Pode parecer algo óbvio, mas na prática as pessoas não seguem esse tipo de postura. Quando percebemos os aspectos benéficos das emoções e comportamentos positivos, começamos a valorizá-los e a desenvolvê-los cada vez mais, mesmo quando isso é difícil de se conseguir.
“No budismo”, diz Kundun, “o princípio da causalidade é aceito como uma lei natural. Ao lidar com a realidade, é preciso levar essa lei em consideração. Por exemplo, no caso de experiências do dia-a-dia, se houver certos tipos de acontecimentos que a pessoa não deseje, o melhor método de garantir que tais acontecimentos não ocorram consiste em certificar-se de que não mais se dêem as condições causais que normalmente propiciam aquele acontecimento. De modo análogo, caso se deseje que ocorra um acontecimento ou experiência específica, a atitude lógica a tomar consiste em procurar e acumular as causas e condições que dêem ensejo a ele”.
O mesmo tipo de pensamento e ação vale para experiências e estados mentais; ou seja, quem deseja a felicidade deve procurar causas que a propiciem. Então, é preciso identificar com clareza diferentes estados mentais e fazer distinção entre eles, classificando-os de acordo com sua capacidade de levar à felicidade ou não. Por exemplo, o ódio, o ciúme, a raiva e outros estados mentais semelhantes são negativos, uma vez que destroem a felicidade mental. Pelo princípio da causalidade, com esses estados mentais as outras pessoas também nos parecerão hostis, resultando em mais medo, inibição e insegurança. “Essas sensações se desdobram”, ele explica, “e, com elas, a solidão em meio a um mundo visto como hostil”.
Assim, uma pessoa saudável é uma pessoa bondosa, cheia de compaixão. “Se mantemos um sentimento de compaixão, de generosidade amorosa, algo automaticamente abre nossa porta interior. Através dela, podemos nos comunicar com os outros com uma facilidade muito maior. E essa sensação de calor humano gera uma espécie de abertura. Concluímos que todos os seres humanos são exatamente como nós e, assim, podemos nos relacionar com eles com maior facilidade”.
Sem dúvida, esta é uma das lições mais importantes do Dalai Lama, numa época em que as pessoas parecem estar seguindo no caminho oposto, fechando-se em suas convicções e em grupos específicos e com verdades próprias. Sem rejeitar a ciência e a tecnologia como caminhos válidos para a humanidade – pelo contrário, manifestando um interesse imenso pelo conhecimento científico, desde que não radical em sua postura –, Sua Santidade fala e vive de uma forma que muitos entendem ser a resposta ideal para as dificuldades pelas quais o mundo vem passando ultimamente.
Para saber mais
A Arte da Felicidade (Editora Martins Fontes)
Uma Ética para o Novo Milênio (Ed. Sextante)
O Caminho para a Liberdade (Ed. Nova Era)
Amor, Verdade, Felicidade (Ed. Nova Era)
O Caminho da Tranqülidade (Ed. Sextante)
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