Ciganos - O Povo do Vento

2009-05-06 16:43

Considerados místicos, vindos de lugar algum e com uma vida profundamente mágica, os ciganos trazem os mistérios no sangue e vivem levando a alegria por onde passam.

Alex Alprim

    O povo cigano sempre esteve ligado ao mundo mágico, seja pelos mistérios que cercam sua origem, seja pelas lendas que crescem ao seu redor e que os acompanham por onde passam. Suas carroças e barracas, suas roupas alegres e a música contagiante já estão no imaginário popular, ainda que algumas pessoas os considerem apenas como vadios errantes e ladrões sem pátria.
    Apesar da origem do povo cigano estar incerta e até hoje mergulhada em controvérsias, ela vem sendo analisada por vários estudiosos que buscam, por meio das tradições e lendas, localizá-los geograficamente. Tais estudos indicam uma origem na Índia antiga.
As diversas tradições ciganas e sua língua (o romani ou romanish) possuem paralelo com os Vedas e com o sânscrito (a raiz das línguas indo-européias), ainda que esse idioma cigano, como toda língua viva, tenha se alterado ao longo do tempo com o acréscimo de termos dos países por onde os ciganos passaram, dando origem a alguns dialetos.
    Um exemplo dessa ligação com idiomas antigos é um encantamento de amor praticado pelas tribos ciganas ao sul da atual Hungria. Nesse encantamento a pessoa deve pegar um pedaço de grama, colocá-la na boca virando-se de leste a oeste, e recitar:
“Kay o Kám, avriável,
Kya mánge lele beshel!
Káy o kám tel'ável,
Kya lelákri me beshav.”
    Dito isso, a pessoa pega um pedaço de grama, pica e coloca na comida da pessoa amada. De acordo com as lendas, o praticante será procurado em breve pela pessoa amada. Nesse ponto devemos observar que essa mesma magia está de acordo com diversas tradições hindus que apresentam o mesmo método, mas para curar inimizades e ódios entre as pessoas. Temos também a palavra gadji (ou gadjô) que, nas línguas indo-asiáticas, significa ‘estrangeiro’, mostrando aí uma conexão maior do que imaginamos.
    Acredita-se que os ciganos sejam uma tribo que, por algum motivo, teria sido deslocada na complexa estrutura política indiana e, a partir de então, tenha iniciado uma vida nômade, construindo assim uma identidade supranacional. Dessa forma, levou suas tradições e ideais além das fronteiras da Índia, chegando até o Ocidente numa longa viagem através da Ásia e do Egito. E foi na Ilha de Creta, no século XIV, que foi realizado o primeiro registro sobre o povo do vento, assim chamado devido às suas constantes deslocações: viajando com o vento...
    Os ciganos estão divididos em várias tribos e clãs que se diferenciam por tradições e costumes e, embora alguns desses tenham abandonado o costume nômade, mantêm em comum a língua e alguns hábitos. Em vários locais onde se estabelecem essas particularidades, formam-se guetos, assim como ocorreu com o povo judeu. Pesquisadores chegam a catalogar dezenas de clãs e tribos diferentes, no entanto existe uma mescla de nomes e pronúncias diferentes. Os principais clãs são:
    Romanishi – conforme alguns estudiosos, uma das tribos mais antigas do mundo cigano e tem ligações com grupos de artistas que surgiram na Romênia do séc. XV.
    Calão – um dos grupos que ainda se mantêm apegado ao antigo estilo de vida cigano, sendo nômade e praticando a leitura de sorte nas ruas.
    Calderashi – os "metalúrgicos da estrada", da Idade Média, fazendo consertos em panelas e utensílios. Mesmo sendo nômades como os calões, mantêm-se firmes a várias tradições ciganas, sendo um grupo fechado.
    Mitchiuawa – músicos, trazem a alegria das letras ciganas e as tradições e lendas na forma de canções.
    Além do idioma que hoje continua sendo falado por todos os ciganos do mundo, há um outro fator que atrai e liga suas tradições ao mundo dos mistérios: sua magia.
 
A Magia Cigana
“Ki shan I romani,
Adoi san´I chov'hani.”
(“Aonde os ciganos vão,
Eu sei que as bruxas estão", Raymond Buckland, em Magia e Feitiçaria dos Ciganos).
    Muita gente já ouviu falar e, certamente, já sentiu uma ponta de curiosidade a respeito da magia que os ciganos trazem na cultura e no sangue. Suas tradições, o folclore e os antigos ensinamentos fascinam e, ao mesmo tempo, provocam um misto de cuidado e atenção.
    Diversos pesquisadores, entre eles Charles G. Leland e Raymond Buckland, já estudaram as magias e encantamentos utilizados por esse povo. Eles têm uma grande conexão com antigos rituais em que entram em estado de transe, utilizando esse procedimento para atingir seus objetivos. E o fazem sem deixar de lado sua devoção ao catolicismo, exaltado por vários ciganos e que muitas tribos do leste europeu usaram como pretexto para suas peregrinações durante os séculos XVI e XVII.
    Em várias magias ocorre a invocação das forças naturais como os elementais (ar, água, fogo, terra) e, em outras, as fadas (embora com outros nomes), usadas para os mais diversos fins. Isso é mostrado por Leland em vários encantamentos nos quais não só as forças dos elementos, mas dos rios e paragens, são utilizados pelos ciganos para curar queimaduras de criança ou para achar coisas perdidas e roubadas. Além, é claro, das simpatias e amuletos ciganos, comentado, nos livros de Buckland e Pierre Derlon.
    Para o "povo da estrada", a própria Terra é um lugar sagrado e mágico, contudo distante das visões do teo-matriarcalismo wiccano. Há muito tempo que os ciganos vêem e usam as energias místicas naturais para atingir seus objetivos, mas sem cair no estabelecimento de uma religião sexista, pois os ciganos são, antes de tudo, unidos por sua sabedoria e tradição.
    Observando o mundo à sua volta e unindo a sabedoria dos seus anciãos, eles aprenderam a ler a sorte e conhecer o futuro nas mãos e no rosto das pessoas, e ganharam notoriedade fazendo isso, principalmente pelos acertos que obtêm. Para eles, esse é um dom natural que remete às antigas artes védicas da quiromancia e fisiognomonia.
    Todo cigano que se preze sabe um pouco da magia de seu povo, e entre os ciganos obviamente existem aqueles que nascem com determinados dons, revelados por meio de marcas no corpo e por meio de certas coincidências na vida dessa pessoa. Quando isso ocorre, ela é preparada para assumir as responsabilidades que fazem parte do seu destino.
    A magia é algo que não é para ser aprendido pelo cigano, mas faz parte do seu dia-a-dia. Desde o ar que respira à sua comida, da água que sacia a sede aos animais que o acompanham em sua jornada pelas várias estradas em que segue a sua eterna peregrinação, tudo é magia. E algumas vezes determinados eventos levam ao surgimento de pessoas que se sobressaem: as bruxas e feiticeiros ciganos. As mulheres são conhecidas em alguns grupos como sh'uvanis, e os homens como kakus. São pessoas especiais que têm, entre os vários dons que possuem, a capacidade de prever o futuro e de curar doenças para as quais a medicina não encontra respostas. É a eles que os ciganos recorrem quando precisam de aconselhamento, uma vez que, segundo suas crenças, essas pessoas especiais estão em contato direto com “A Fonte”.
Apesar da profunda crença nas forças mágicas e nas leis espirituais, o povo cigano é um profundo conhecedor e devoto dos santos católicos, aos quais dedicam uma atenção especial. Mas nada é tão especial e mágico para um cigano como o culto a Santa Sara Cali.
 
Santa Sara Cali
    Santa Sara Cali está presente em toda tenda cigana, com sua tradicional veste azul-céu e o rosto negro. A lenda nos conta que os inimigos do Nazareno, que naquela época não eram poucos, condenaram por diversas artimanhas as três Marias – Maria Madalena, Maria Jacobé (mãe de Tiago menor) e Maria Salomé(mãe de São João). Elas deveriam ser jogadas ao mar, numa barca sem remos ou provisões, acompanhadas tão somente de uma das escravas de José de Arimatéia, Sara, a Cali (cali, em romanishi, quer dizer ‘negra’). Esse barco teria miraculosamente aportado numa praia próxima à foz do rio Petit-Rhône, onde hoje se encontra a igreja de Saintes-Marie-de-La-Mer (‘Santas Marias Vindas do Mar’), um lugar de peregrinação e de culto não só para os ciganos, mas para os franceses também. Esse culto não é para as três Marias, e sim para Sara Cali, que foi quem converteu os ciganos ao cristianismo.
    Quando aportaram na foz, vindas de longe, obviamente se encontravam em um estado de grande aflição, sem comida e água. Das Marias, a história não guarda vestígios ou mesmo seus destinos, mas quanto a Sara, dizem que ela foi cuidada pelo povo cigano e o ajudou a tornar-se unido e a desenvolver-se como povo e como cultura. Ensinou-lhes o respeito ao próximo e à família, a união entre os irmãos, as maneiras como as mulheres e os varões deveriam se comportar. Também auxiliou na estruturação das tribos e etnias ciganas, além de dar-lhes as boas vindas do Messias, o Cristo.
    Há outras versões sobre o culto a Santa Sara. Algumas procuram estabelecer conexões mais profundas entre esse culto e o das "santas negras"; outras versões atribuem uma semelhança com o culto de Kali, a deusa hindu da morte, apresentando o povo cigano como uma tribo que teria sido expulsa da antiga Índia devido às suas ligações com a mitologia dessa deusa.
Se perguntado a respeito, qualquer cigano contará a lenda acima, que é ensinada de geração a geração através da tradição oral. Qualquer coisa além disso é mistério e especulação; pois, para saber tudo a respeito do povo cigano, é preciso nascer cigano, e eles não contam aos gadjis todos os seus conhecimentos, segredos e tradições que sua família e seu povo lhe confiaram e legaram.
 
A Sorte e os Ciganos
    Um povo que vive na estrada não se pode dar ao luxo de estar ao sabor da sorte, principalmente quando há bastantes pessoas envolvidas, que dependem tanto de você quanto você delas. Portanto, é natural que se busquem formas para entender e perscrutar o futuro, e foi assim que os ciganos desenvolveram suas percepções extra-sensoriais, aliando-as a um grande conhecimento das artes divinatórias. Eles possuem um poder que está entre a psicologia comportamental e a magia. Desde crianças, são ensinados a lerem os movimentos e marcas do corpo, interpretando seus significados. Com a união desses conhecimentos podem predizer, por meio da intuição e do raciocínio, os melhores caminhos e direções a seguir. Dessa forma aprenderam a atrair a boa sorte e a passá-la adiante, ajudando a tribo como um todo.
    Pelas regras dos ciganos, somente as mulheres lêem a sorte. Os homens fixam-se em outras atividades como a música, o comércio e as negociações entre os ciganos e os gadjis. A mulher faz da arte de prever o futuro uma fonte alternativa de dinheiro, com suas consultas, ajudando o homem a garantir o sustento da casa e alertando-o para os perigos que podem ocorrer.
    A cultura cigana faz uso de uma infinidade de oráculos, como o tarô. Há inúmeros “tarôs ciganos”, e, embora a origem do tarô não seja cigana, ele é lido com grande presteza. É comum associar o jogo de cartas aos ciganos, afinal foram eles que divulgaram os baralhos de jogo na Europa medieval (séc. XVI e XVIII), tornando-se mestres nessa arte. Posteriormente, esse mesmo jogo de cartas foi usado como método de adivinhação, com seus 4 naipes e 56 cartas.
    Além do baralho comum e do tarô, os ciganos também fazem uso de um "baralho cigano" que contém 32 cartas, com símbolos tirados da cultura cigana em que – quando lidos da forma correta e por alguém que tenha aprendido diretamente da tradição cigana – se revela um oráculo dos mais exatos que existem. Para os ciganos, ele está ligado às "linhas do destino", e suas respostas são aquilo que está "escrito".
Mas o que notabilizou o povo do vento nas lendas e histórias populares foi a leitura de mãos(quiromancia), uma ciência-arte passada de uma geração a outra. Desde cedo, as meninas ciganas são ensinadas a reconhecer os mais diversos traços e tipos de mãos e, assim, poderem ler a sorte. Esse estudo chega a ser tão criterioso que capacita as ciganas de lerem o corpo todo, como se ele fosse um livro aberto para elas.
    Esses mistérios – que os ciganos fazem questão de comentar e, às vezes, aumentar – fascinam muitas pessoas. Entretanto, essa mesma aura causou-lhes diversos problemas, de modo que em vários locais eles são malvistos e malquistos, tendo a fama de arruaceiros e larápios. Em determinados países do leste europeu ainda existem leis restringindo as liberdades daqueles que trazem o sangue cigano, ainda que esse povo tenha prestado muitas contribuições à música e às artes em toda a Europa.

A Herança Cigana
    A característica nômade do povo cigano, que chegou ao Brasil no início do séc. XVII, também fez com que suas características culturais acabassem tendo influência nas culturas locais. O exemplo mais notório é a influência dos ritmos ciganos no flamenco espanhol: a batida forte, as canções cantadas na forma de lamentos, o uso do violão, a forma rápida e apaixonada de tocar a música: tudo isso tem origem nos ciganos, que viveram na Espanha por séculos, entretendo os reis e nobres nos festins da Corte. A presença cigana é tão marcante na Europa que os pesquisadores afirmam não existir um caso sequer de ciganos condenados por bruxaria, durante a Inquisição, apesar de seu nome estar sempre associado à magia.
    Sua influência pode ser percebida não apenas na península ibérica, mas em muitas outras nações e povos, já que os ciganos literalmente se espalharam pelo mundo. Mesmo hoje, encontram-se sem pátria, não pelo fato de desprezarem as nações, mas por serem cidadãos do mundo, cosmopolitas viajando em paz e vivendo de forma harmoniosa entre eles e com as populações à sua volta.
    Como ocorria antigamente, o povo cigano ainda tem muito a nos ensinar, não apenas porque guardam em suas tradições respostas a várias de nossas dúvidas diárias, mas também pela sua maneira de viver, com a união entre os familiares, o respeito pelo ser humano e por todas as formas de vida – elementos que têm faltado à grande parte da humanidade nesse novo milênio.

Para Saber Mais:
Tradições Ocultas dos Ciganos - Pierre Derlon (Editora Difel)
Magia e Feitiçaria dos Ciganos - Raymond Buckland (Editora Bertrand Brasil)

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