Caçadores da Arca

2009-04-17 19:02

Entre os mistérios ainda não decifrados da Bíblia, a Arca da Aliança é um dos mais pesquisados, originando um sem-número de teorias e uma busca interminável.

    A história registrada na Bíblia diz que, depois de ter recebido de Deus as tábuas da Lei — os Dez Mandamentos — no Monte Sinai, Moisés obteve instruções bastante precisas para construir uma arca de madeira, que concluiria a aliança do Criador com o povo de Israel. Em Êxodo 25:10 está escrito que a arca deveria ser feita de madeira de acácia, com 2 côvados e meio de comprimento, largura e altura de 1 côvado e meio, recoberta de ouro por dentro e com uma bordadura de ouro em toda a sua volta. Também existem especificações para as argolas que a sustentariam, através das quais deveriam passar dois varais de madeira revestidos com ouro. A tampa deveria ser de ouro maciço, com 2 côvados e meio de comprimento e 1 e meio de largura, tendo um querubim em cada extremidade, com as asas estendidas para o alto e o rosto voltado para baixo.
    O propósito da Arca da Aliança era guardar as Tábuas da Lei — hoje em dia, dizem que ela também continha o cajado de Arão e uma quantidade de maná. Ninguém poderia tocá-la e seu transporte só deveria acontecer pelos varais. Quem encostasse em sua estrutura corria sério perigo. Certo dia, quando Davi foi levar a arca para seu palácio tirando-a da casa de Abinadab, o filho deste, Oza, encostou nela e caiu fulminado.
    Relatos mais antigos afirmam que a arca possuía poderes simplesmente fantásticos. A força contida em sua estrutura seria capaz de nivelar montanhas, espalhar doenças e exterminar exércitos inteiros. Quando Josué atacou Jericó, levou-a consigo, e ela permaneceu com os hebreus até ser guardada no templo construído pelo rei Salomão, que reinou aproximadamente entre 970 e 931 a.C..

Descargas Elétricas
    A Arca da Aliança é um objeto de inestimável valor histórico, fundamental para a religião hebraica e para a cristandade ocidental — tanto que sua simples descoberta poderia ser considerada o acontecimento arqueológico do século. Contudo, alguns pesquisadores da chamada linha alternativa acrescentam ainda mais mistérios a essa misteriosa relíquia. Para eles, o enredo do filme Os Caçadores da Arca Perdida, de Steven Spielberg, por mais fantástico que pareça, não está tão longe da realidade.
A arca estaria entre uma série de objetos teoricamente impossíveis de existir em sua época, como as pilhas de Bagdá (Sexto Sentido número 2). O francês Robert Charroux, por exemplo, não descartou a possibilidade de que Moisés possuísse conhecimentos superiores, talvez obtidos dos próprios egípcios, e que teria construído a arca de maneira que ela produzisse descargas elétricas de 500 a 700 volts, contendo em seu interior pilhas semelhantes às descobertas em Badgá. Alguns especialistas no assunto garantem que um objeto feito com as especificações da arca poderia apresentar o mesmo princípio de funcionamento dos condensadores elétricos, gerando um campo magnético em seu interior seco.
    Mais que uma arma, essa poderia ser a forma de afastar os ladrões, embora alguns pesquisadores entendam que o verdadeiro objetivo era impedir a descoberta de sua verdadeira natureza, ainda mais fabulosa.
    A teoria desenvolvida pelo jornalista e escritor Erich Von Däniken no livro Eram os Deuses Astronautas? seguiu nessa linha, mostrando que a arca poderia ser uma espécie de intercomunicador. Däniken sempre sustentou que seres de outros planetas estiveram em contato com o homem em vários períodos da Antigüidade, e um dos escolhidos teria sido Moisés. Especulando em torno do que consta na Bíblia — quando Deus diz que seria do meio dos querubins na tampa da relíquia que ele daria suas ordens — o pesquisador imaginou um condensador formado pelas asas de ouro de um querubim, contendo cargas positiva e negativa, enquanto o outro querubim funcionaria como um magneto, compondo assim um alto-falante através dos quais os extraterrestres passariam informações a Moisés.

Fonte de Alimento
    Existem propostas ainda mais fantásticas para explicar o funcionamento e objetivo da arca. O Livro Sohar, ou Zohar, escrito pelo rabino cabalista Simon Bar Yochai, fornece uma descrição da arca a partir da qual dois especialistas procuraram reconstruí-la, chegando à conclusão de que ela seria apenas o invólucro de outro objeto bem mais sofisticado cuja função era produzir alimentos. A arca teria sido a fonte do maná que alimentou o povo israelita.
    Essa idéia certamente está ligada à intervenção de uma cultura extraterrestre em nosso planeta, mas as explicações oficiais para o maná são mais simples. Em algumas traduções da Bíblia é explicado que a palavra maná deriva da expressão man-hu, que significa o que é isto? — algo que os israelitas teriam dito ao ver o alimento pela primeira vez (Êxodo 16:15), cobrindo a superfície do deserto como como o orvalho da manhã. Para os cientistas a explicação do maná é absolutamente natural e já em 1483, Breitenbach, decano de Mogúncia, referia-se a ele durante uma expedição ao Sinai. O botânico alemão G. Ehrenberg escreveu sobre o assunto em 1823, dizendo que o maná era uma secreção das árvores e arbustos da tamargueira picados por um tipo específico de inseto. Por volta de 1927, foram obtidas as primeiras fotografias do maná na expedição do botânico Friedrich Simon Bodenheimer. Ainda hoje esse alimento é utilizado na região, mas muitos dizem que os israelitas não poderiam ter se alimentado só dele por 40 anos, o que causaria uma deficiência alimentar muito séria ou fatal.

Desaparecimento
    A Arca da Aliança jamais foi encontrada, ainda que não faltem suposições sobre seu paradeiro, inclusive que ela esteja guardada em algum local secreto, como aquele gigantesco depósito no final do filme de Spielberg. Sabe-se que a arca encontrava-se no Templo de Salomão, saqueado várias vezes, mas não existem textos dizendo que ela tenha sido furtada.
    Alguns relatos afirmam que o profeta Jeremias recebeu ordens de Deus para esconder a arca, uma vez que os babilônios estavam prestes a invadir Jerusalém. Ela teria, então, sido levada para uma caverna próxima à cidade, onde se encontraria até hoje. Nenhuma pesquisa arqueológica conseguiu localizar ou obter qualquer indício do objeto.
    Os judeus dizem que a arca continua onde sempre esteve, enterrada num local apropriado sob o Monte do Templo. Até hoje os judeus são proibidos de caminhar pelo Monte em respeito à santidade da Arca da Aliança. Segundo esse ponto de vista, Salomão teria construído o Templo seguindo instruções divinas, das quais fazia parte uma câmara na superfície, para conter a arca, e outra subterrânea.
    Vários historiadores entendem que a relíquia poder ter sido levada pelos babilônios em 586 a.C., quando Nabucodonosor tomou Jerusalém, destruindo o Templo de Salomão e exilando os judeus. Assim, quando os judeus conseguiram retornar à cidade santa em 538 a.C., a arca já não estaria ali. Os judeus iniciaram a construção do segundo Templo, mas a Arca da Aliança não mais é mencionada no Velho Testamento após essa data. Na listagem babilônica dos objetos levados do Templo não constava a arca, o que levou alguns historiadores a preferirem outras suposições.
    Uma delas inspirou o filme Os Caçadores da Arca Perdida e refere-se à provável invasão egípcia ocorrida no século X a.C., pelo faraó Shishak, que teria levado a arca para a cidade de Tânis, a capital do Egito na época. Essa tese também é combatida sob a alegação de que o exército de Shishak jamais invadiu Jerusalém, cidade que lhe pagava tributo.

A Rainha de Sabá
    Referências muito interessantes são encontradas no texto antíope Kebra Negest (ou Nagast, segundo algumas fontes), que significa glória dos reis ou esplendor dos reis. Segundo historiadores, o livro tem origem por volta de 850 a.C., mas a cópia mais antiga conhecida é uma versão árabe de 409 d.C., usada pelo historiador Carl Bezold quando traduziu o texto para o alemão.
    Entre outras coisas, o livro faz referências ao rei Salomão, aos métodos utilizados para a construção da Arca da Aliança, à rainha Makeda e ao filho que ela teve com Salomão, Baina-Iehkem —, que mais tarde tornou-se o rei Menelik da Etiópia, um dos mais importantes, ricos e poderosos reinos da África. Makeda também é conhecida entre os árabes como Bilkis, ou (Bilqis), e como a Rainha de Sabá. Ela é citada na Bíblia com esse título e seu reino ocupava a região onde hoje se localiza o Iêmen, na península arábica — o que levou historiadores a entender que o reino da Etiópia estendia-se da África até a península.
    A existência da Rainha de Sabá e seu filho não é grandemente contestada hoje em dia, assim como do esplendor e riqueza do reino, podendo ser encontradas ruínas de construções muito elaboradas no Iêmen, como a barragem de Marib, considerada uma obra-prima de engenharia, ou o Templo da Lua. Da rainha em si sabe-se pouco mais que os relatos que chegaram até nós, um deles diz que 700 anos depois de Cristo, um califa encontrou um túmulo em Tadmor, cidade ao norte do deserto da Síria, com uma inscrição que dizia tratar-se do túmulo de Bilqis, mas que mandou fechá-lo ao perceber que se tratava do túmulo de um gigante.
    Segundo o Kebra Negest, Menelik foi a Jerusalém visitar seu pai e conseguiu convencer Salomão a lhe dar a arca de presente. Como ninguém poderia saber que ela havia sido retirada do Templo, o rei deixou uma réplica em seu lugar, levando a original para a Etiópia.
    O livro etíope amplia ainda mais a aura de mistério em torno de Salomão — tido como possuidor de conhecimentos muito além de sua era e herdeiro de tecnologia extraterrestre. Além da arca dada a Menelik, Salomão teria oferecido vários presentes a Makeda, como veículos para viajar por terra e um outro capaz de voar, que Menelik teria utilizado para transportar a arca, todo o seu séquito e seus animais. O texto ainda refere-se à fantástica travessia do veículo voador pelo Egito, onde teria derrubado obeliscos por onde passava.
    O destino final da Arca da Aliança teria sido a cidade de Axum, onde se encontraria até hoje.

A Arca na Etiópia
    Uma pesquisa publicada em 1991 pelo jornalista inglês Graham Hancock, no livro The Sign and the Seal, procurou confirmar historicamente a presença da arca na Etiópia. Na verdade, mesmo antes disso, vários historiadores já haviam percebido a existência de um culto ao objeto no país.     Segundo a Igreja Ortodoxa Etíope, a Arca da Aliança original está guardada numa pequena capela, próxima à Igreja de Santa Maria de Sion, em Axum. Milhares de templos na Etiópia possuem uma réplica e fazem cultos específicos para ela, com réplicas menores carregadas na cabeça. Os judeus negros do país também a reverenciam, afirmando que a arca original está na capela, ainda que ninguém a tenha visto.
    Hancock descartou a narrativa fantástica do Kebra Negest. Para ele a arca desapareceu do Templo entre os anos 701 e 626 a.C., mais provavelmente no ano 650 a.C., época em que o rei Manassés assumiu o poder e transformou o santuário num local de adoração pagã. Os sacerdotes fiéis às antigas leis teriam retirado a arca para que não fosse contaminada ou destruída.
    Na mesma época instalou-se uma colônia judaica na ilha de Elefantina, no rio Nilo, ao sul do Egito, em frente à atual cidade de Assuã. Evidências arqueológicas parecem indicar que um templo foi construído na ilha, para onde teria sido levada a arca, ainda que muitos historiadores refutem essa idéia afirmando que nenhum templo foi construído fora de Jerusalém.
    Da ilha de Elefantina os judeus teriam partido para o Lago Tana, na Etiópia, estabelecendo-se na ilha de Tanakirkos, ou Ilha do Perdão. Quando o país se converteu ao cristianismo, a arca teria sido levada para uma igreja na capital Axum. Em 950 d.C. a igreja foi destruída por uma rainha falasha e a arca novamente removida — desta vez para uma ilha no lago Zwai, permanecendo até 1020, quando o cristianismo foi restabelecido e ela voltou à capital.
    Mas a Arca da Aliança ainda teria feito mais uma viagem, em 1535, quando guerreiros muçulmanos destruíram novamente a igreja. Desta vez a arca teria sido levada para a ilha de Daga Stephanos, também no lago Tana, de onde só retornou em 1640 para a terceira igreja de Santa Maria do Sion.
Abu Salih, um geógrafo armênio do século XIII, esteve em Axum e disse ter visto a arca sendo carregada numa procissão. Segundo relatos, na época medieval ela era mostrada ao público quatro vezes por ano, o que não mais acontece. A capela onde a arca supostamente está guardada hoje foi construída em 1965 por Hailé Selassié, o último imperador da Etiópia.
    Ninguém parece tê-la visto recentemente. Não existem fotografias e a Igreja Etíope recusa-se a abrir a capela para qualquer um que não seja o monge guardião. Sem dúvida, o mistério continua, e tornou-se uma questão de fé acreditar que o objeto sagrado encontra-se em Axum ou no subsolo do Monte do Templo, em Jerusalém. Ou em algum depósito secreto, esperando o momento de ser revelada.


Para Saber Mais:
E a Bíblia Tinha Razão – Werner Keller (Melhoramentos)
História da África Negra – Joseph Ki-Zerbo (Publicações Europa-América)
História Desconhecida dos Homens – Robert Charroux (Círculo do Livro)
Eram os Deuses Astronautas? – Erich von Däniken (Melhoramentos)
Somos Todos Filhos dos Deuses – Erich von Däniken (Melhoramentos)

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