Benítez Revê os Evangelhos

2009-04-17 18:55

Gilberto Schoereder

Quinze anos depois de publicar o primeiro volume da saga Operação Cavalo de Tróia, o extremamente polêmico J.J. Benítez volta a comprar uma séria briga com a Igreja em  Operação Cavalo de Tróia 6 – Hermon.

    O jornalista espanhol J.J. Benítez garante que tem amigos no clero e inclusive entre os jesuítas, que gostam muito de seus livros. Contudo, por mais que se considere essa afirmação, é certo que o número de seus inimigos, declarados ou não, supera em muito o de seus admiradores – pelo menos no meio religioso. E não é para menos, se levarmos em consideração as afirmações bombásticas que ele faz em seus livros, especialmente no mais recente: Hermon.
    Mas Benitez não parece dar muita importância para isso. Conforme declarou inúmeras vezes, tudo o que ele deseja é criar a dúvida nas pessoas, pois é a dúvida que diferencia o ser humanos dos animais e vegetais. E os 36 livros publicados, com um total de quatro milhões de exemplares vendidos parecem comprovar que o público realmente pensa diferente de seus inimigos.
    Benítez insiste em afirmar que não é um escritor — com o que muitos críticos literários concordam alegremente — mas um jornalista dedicado a pesquisar e levantar dados, especialmente sobre OVNIs e a vida de Jesus Cristo. Na verdade, foi uma investigação sobre a suposta aterrissagem de um OVNI que o levou a iniciar suas investigações em 1972, quando trabalhava no jornal La Gaceta del Norte, em Bilbao, Espanha. E ele começou a interessar-se por Jesus em 1975, quando ouviu uma notícia de que a ciência afirmava que o Santo Sudário de Turim podia realmente ter envolvido o corpo do Cristo.
    Seus estudos resultaram, em 1984, no primeiro volume da série Operação Cavalo de Tróia, que agora chega à sexta parte. Tudo ocorreu de uma forma que até hoje Benítez mantém sob uma aura de mistério. “Alguém me disse que investigasse”, ele explica, “e comecei a trabalhar. A partir de então, essa mão mágica que parece guiar o Cavalo de Tróia passou a colocar ao meu alcance uma série de peças, como se fosse um quebra-cabeça, que até hoje tento ordenar”.

Fontes Misteriosas
    Benítez cria dúvidas não apenas pelo que coloca em seus livros, mas também pelo que ele não diz sobre suas fontes de informação. Mais de uma vez já lhe disseram que é muito fácil escrever sem citar fontes, ou fazer afirmações bombásticas que jamais poderão ser comprovadas, ao que ele retruca dizendo que não pretende convencer ninguém sobre nada. Sua única intenção é pesquisar fatos com a maior honestidade e rigor possível.
    Para a elaboração de Cavalo de Tróia 6 ele consultou mais de 700 livros, entrevistou dezenas de especialistas e viajou a Israel, Jordânia, Egito e Líbano. Em entrevista para a revista espanhola Karma 7, o autor também referiu-se ao The Urantia Book (O livro de Urantia) como uma de suas fontes. As informações contidas na obra foram obtidas por um médium ou grupo de médiuns entre 1911 e 1934, tendo sido compiladas num volume com mais de 2000 páginas em 1955. Segundo alguns acreditam, essas mensagens foram enviadas por seres angelicais, espirituais ou extraterrestres e falam sobre a natureza do universo, os planetas habitados, os seres que neles vivem, e trazem relatos da história da Terra e passagens inéditas da vida de Jesus Cristo. Ao que se sabe, The Urantia Book está fechado num cofre em Chicago.
    Porém, a maior fonte de informação do escritor continua sendo um mistério, apesar dos jornalistas insistirem muito em descobrir. Benítez costuma dizer que, quando escreve seus livros, é como se alguém o dirigisse, guiasse sua mão e idéias. Ele se considera apenas a pessoa que escreve, porque alguém tem de fazer isso. E garante que só irá revelar sua fonte quando ela não estiver mais entre nós. Segundo suas próprias palavras, “É uma fonte fantástica, não-humana, e ninguém acreditaria se eu a revelasse agora”.

Controvérsias
    Por mais incrível que possa parecer, o sexto Cavalo está criando ainda mais controvérsia que os anteriores. Hermon é o nome do monte onde Jesus toma consciência de sua natureza divina, aos 31 anos — segundo Benítez, um acontecimento ao qual os Evangelhos deram pouca importância. Assim como não mencionaram as 19 aparições de Jesus após sua ressurreição, que teriam sido testemunhadas por cerca de 1500 pessoas.
    O autor afirma que alguns episódios fundamentais do Novo Testamento, especialmente no Evangelho de Lucas, foram deliberadamente alterados. Por exemplo, a existência de uma divisão entre os apóstolos, já que três deles insistiam que Jesus não queria o nascimento de uma religião baseada em sua imagem, mas sim, em sua mensagem. Esta mensagem se resumia em algo bastante simples: todos os seres humanos são iguais perante Deus, o verdadeiro Deus não é um juiz e nos criou imortais. Jesus teria vindo ao mundo não para nos redimir, mas para lembrar-nos de que somos imortais. A noção de criar uma igreja, segundo Benítez, não está de acordo com o pensamento ou o estilo do Mestre, uma vez que tal organização deixaria muita gente de fora. Na época, uma mensagem de igualdade entre os homens seria como dizer que fenícios, egípcios ou romanos eram iguais a um judeu — algo impensável.
    Claro que os estudiosos da religião cristã podem retrucar afirmando que, impensável ou não, o cristianismo acabou sendo transmitido a todos os povos e não apenas aos judeus, o que deu origem ao caráter universal da Igreja Católica.
    Benítez toca em outro ponto delicado ao afirmar que Maria não era virgem ao conceber Jesus, e que esse dogma somente surgiu no século IV. O jornalista entende que Deus pode fazer o que bem entender, mas é sempre sensato e não quebra suas próprias leis. Em outras palavras, do ponto de vista fisiológico, se Maria tivesse engravidado sem a participação de José, um ser humano, na combinação genética ela só poderia ter tido uma filha, nunca um filho.
    Controvérsias à parte, Benítez coloca-se numa posição bem clara: ele é a favor da crença em Deus e em Jesus Cristo, é contra a Igreja e os dogmas. O escritor se coloca contra as verdades absolutas, que considera um perigo, chama a igreja de multinacional e acha a infalibilidade do papa um absurdo. Ele diz que os clérigos o ameaçam dizendo que sua alma arderá no inferno para pagar por tantos pecados.
Benítez não está nem um pouco preocupado: para ele, Céu e Inferno não passam de outra invenção da igreja.

Entrevista J.J. Benitez

    O que pensa sobre a possibilidade de serem realizadas viagens no tempo?
Hoje, isso parece fantasia. Ficção científica. Talvez no futuro não seja tanto, assim como tem ocorrido com outros aspectos da ciência e tecnologia. Além disso, creio que as grandes potências escondem muitos de seus projetos e experiências militares.
    Nos últimos tempos, surgiu uma série de grupos ligados à chamada ufologia mística. Como você vê esses grupos e as canalizações — forma através da qual os integrantes desses grupos dizem receber mensagens extraterrestres?
Estou há 27 anos realizando investigações sobre o fenômeno OVNI e já vi uma infinidade de grupos e seitas desse tipo. Ao final, todas fracassaram ou se dissolveram. Em minha opinião, o fenômeno OVNI é demasiadamente complexo e obscuro para ser simplificado e reduzido a um contato místico com essas civilizações não humanas. Não nego que esses contatos possam ser reais — eu mesmo fui testemunha de algumas exceções bem sucedidas — mas duvido profundamente que esse seja o caminho para solucionar esse grande mistério.

    Você acredita que extraterrestres estejam vivendo entre nós? O que pensa das dimensões ou universos paralelos? Você acha possível que os extraterrestres estejam vindo de uma dessas dimensões?
Estou convencido de que algumas civilizações podem estar camufladas em nosso meio. O caso de Ricky-B é uma amostra disso. Suponho que a capacidade tecnológica dessas civilizações ditas não humanas lhes dê essa possibilidade. Além do que, essa seria a maneira ideal de estudar a humanidade. A respeito de outros universos ou dimensões paralelas, por que não? Não sabemos coisa alguma do que nos cerca. Algumas dessas civilizações extraterrestres podem, de fato, vir de mundos ou universos paralelos, aos quais, no momento, não temos acesso.

    Qual o seu posicionamento sobre a reencarnação?
    Tenho sérias dúvidas. Creio firmemente na vida após a morte, mas não vejo a reencarnação como algo necessário. E mais: acho que Deus é muito mais imaginativo e econômico. Nada na natureza se repete. Então, por que iria repetir-se o fenômeno da morte?
   

O que você acha da ufologia hoje em dia? As pesquisas realizadas pelos mais diversos grupos independentes estão acontecendo de maneira adequada? Que rumos essa pesquisa deve tomar no futuro?
    A ufologia de campo — a autêntica — acabará sendo absorvida pela universidade e pela comunidade científica. É o único caminho. Hoje existem investigadores muito bons, mas seu trabalho não é suficiente.
   

     Em Rebelião de Lúcifer todo o enredo leva a um encerramento onde ocorreria o julgamento de Lúcifer, que não é mostrado. Por que o julgamento não é apresentado?
    O julgamento de Lúcifer ainda está para ser escrito. Porém, eu ‘cumpro ordens’... Tudo a seu tempo.
   

O que você pensa sobre as pesquisas relacionadas à história alternativa de nosso planeta, na linha do que fez Erich von Däniken, Robert Charroux e tantos outros pesquisadores? Qual sua opinião a respeito dos fatos levantados até hoje? Existiram mesmo civilizações extremamente desenvolvidas num passado distante?
    Esses investigadores tiveram o grande mérito de quebrar o gelo e abrir as mentes. Como disse antes, não sabemos quase nada do que nos cerca e muito menos de nosso passado. É bem possível que o planeta tenha sido visitado em diferentes oportunidades por raças não humanas, que poderiam ter contribuído para o desenvolvimento dos povos autóctones. Quanto a outras civilizações anteriores à nossa — conforme continuo pesquisando — tenho dificuldades para acreditar.
   

    O que o fim do milênio representa para você? Acha que esses novos tempos ou Nova Era representam, de fato, um período de intensas mudanças para a humanidade? E que mudanças seriam essas? Em que sentido ocorreriam?
    Não acredito em catástrofes milenaristas. O mundo segue seu curso e, ainda que lentamente, segue em direção à paz e justiça. Provavelmente está se consolidando uma mudança de mentalidade. Jamais ocorreu no planeta a série de movimentos pacifistas, ecológicos e humanitários como hoje em dia. Esse é um sinal claro de que ‘algo’ acontece no coração dos homens. Vai ser necessário algum tempo, mas o mundo caminha em direção a um futuro esplêndido. Da atual semente da União Européia surgirá, brevemente, um governo planetário que vai acabar com as grandes guerras e com muitos dos conflitos atuais. Será o início de um mundo mais humano.

Trecho do livro Cavalo de Tróia 6
    Foi em Alexandria, na “presença” número doze, onde o Ressuscitado, de repente, manifestou alguma coisa que, em nosso tempo, poderia ser mal interpretada.
    “Este evangelho” — afirmou — “não deve ser confiado exclusivamente aos sacerdotes.”
    A afirmação, na minha humilde opinião, contém mais do que aparece num primeiro exame literal. Duvido que o Mestre se referisse unicamente às castas sacerdotais daquela época. Pelo que sei, e pelo que me foi dado a conhecer em nossa longa permanência junto ao Rabi, o aviso era infinitamente mais sutil. Estava claro que os sacerdotes que haviam conspirado contra Ele fariam sua a mensagem. Eles estavam a milhões de anos-luz da boa nova. Eles se consideravam os sagrados depositários da verdade e os únicos com acesso à Divindade. Para essas castas, Yaveh era inacessível, vingativo e discriminador. Como digo, não acredito que Jesus de Nazaré estivesse pensando nesses ciumentos custódios da Torá quando formulou a advertência. Era óbvio. Sim, eu me inclino pelos “outros sacerdotes”. Assim como demonstrou em diferentes aparições, sabia o que ia acontecer. E quis pôr as coisas no seu devido lugar. Sabia que, com o tempo, esses “outros sacerdotes” – a hierarquia definitiva que nasceria com a primitiva igreja — monopolizariam sua imagem e suas palavras. Quer dizer, seu evangelho. Um evangelho mutilado e contaminado, mas, afinal de contas, contendo parte da verdade.
    A pergunta chave é “por quê?”. Por que o Ressuscitado não deseja que a boa nova seja “propriedade” exclusiva dos sacerdotes? Hoje, do jeito que estão as coisas, a maior parte dos crentes aceita que o ministério deve descansar precisamente nesses supostos representantes do “Senhor Jesus”.     A verdade é que ele repetiu isso à exaustão. Seu evangelho — a grande mensagem — nada tinha a ver com as estruturas, tradições, dogmas, leis, primados e demais intermediários. Tudo era simples e fascinante. Sua grande revolução foi esta: mostrar ao mundo que Deus não era uma idéia mais ou menos abstrata, remota e fiscalizadora. A revelação que justificou sua vida dizia outra coisa: Deus é um Ab-bã, um Pai. Um Ser amoroso que só pede confiança. Em outras palavras, Jesus de Nazaré não pregou, nem propagou uma religião tradicional. O que fazia era um estilo de vida. Compartilhar seu ideal — seu evangelho — significa entender e aceitar que existe esse Pai e que, em conseqüência, os seres humanos são fisicamente irmãos. Este “achado”, para quem tem sorte de descobri-lo, muda radicalmente a bússola do pensamento. A pessoa entra numa nova e esperançosa dinâmica na qual só vale a experiência pessoal. É o início de uma aventura na qual o homem não dependerá mais de velhas servidões.     Ao procurar Deus por esse atraente atalho, Deus já está com ele. Este evangelho, por fim, como insistiu o Mestre exaustivamente, não precisa, pois, de recintos sagrados, livros revelados ou veneráveis depositários da verdade.
    A advertência, contudo, como reflete a História, não teve eco. Nem Pedro, nem Paulo, nem o resto dos primeiros cristãos tiveram isso em mente. Muito pelo contrário. Aos poucos, uma engrenagem cada vez mais hierarquizada e dogmática foi abrindo caminho, monopolizando, condenando e discriminando. E hoje essa “maquinária” — tão alheia aos propósitos do grande Rabi da Galileia — continua controlando e dirigindo vontades.


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Viagem no Tempo
    A série de livros escritos por J.J. Benítez tem como enredo uma operação secreta da Força Aérea dos EUA chamada Operação Cavalo de Tróia que, em 1973, iniciou uma série de experiências de viagens no tempo, enviando dois astronautas ao ano 30 de nossa era. Eles chegaram à região da Palestina para observar a vida de Jesus Cristo e confirmar ou não os dados históricos que chegaram até nossos dias.
    Os viajantes são Eliseu e Jasão, o major. Eles se utilizam de um módulo que se instala no Monte das Oliveiras, tendo Eliseu como o piloto —  que nunca abandona o aparelho —, enquanto Jasão utiliza seu conhecimento da época para obter dados científicos que comprovem a existência do Cristo.

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