Astrologia Hindu e Astrologia Tropical – Diferentes e Complementares

2009-04-17 18:35

Djalma Cavalcante

    Qualquer produção cultural é sempre uma resposta às necessidades ou aspirações da sociedade que a produziu. Não poderia ser diferente com a Astrologia.
    A Astrologia Hindu, que encontra suas origens em mais ou menos 4000 a.C. –embora os primeiros textos escritos que a ela se referem datem de aproximadamente 2300 a.C. –, teve, desde sempre, um caráter sagrado. Tanto que essas suas primeiras referências escritas são encontradas nos Vedas, os quatro livros sagrados da religião hinduísta.
    Em termos práticos, a Jyotisha, nome sânscrito da Astrologia Hindu, se propõe a ser um instrumento facilitador para que os indivíduos se orientem sobre como proceder durante uma encarnação. Obviamente esta proposição só pode ser entendida de forma plena se aceitarmos como premissa o fato de que os hinduístas acreditam na reencarnação. Eles têm como certo que cada indivíduo é animado por uma energia essencial, chamada alma, que é eterna e se encarna sucessivamente em corpos físicos mortais.
    De acordo com a filosofia védica, cada encarnação é uma oportunidade para a alma se purificar, e uma alma evolui através do exercício do próprio Carma.
    A palavra Carma significa exclusivamente ação, que não deve ser avaliada em termos morais: não deve ser qualificada como positiva ou negativa.
    A Lei do Carma é o princípio universal em que cada ação corresponde a uma conseqüência que lhe é proporcional e semelhante. Esta conseqüência pode ocorrer na mesma ou em uma encarnação futura da alma em questão.
    Sempre de acordo com a filosofia védica, a Lei do Carma é a expressão máxima da justiça divina, pois através dela podemos entender e aceitar como naturais fatos que, em outro contexto filosófico ou ético, nos parecem injustos. Por exemplo, o nascimento de uma criança com defeito físico ou deficiência mental, ou ainda a ocorrência de grandes catástrofes como terremotos que matam milhares de pessoas. Acontecimentos desse tipo são exclusivamente conseqüências de ações praticadas pelas almas envolvidas em vidas anteriores.
    Com esses exemplos é possível afirmar que a justiça divina pode tardar mas inevitavelmente se fará sentir. É absolutamente verdadeiro o versículo bíblico que diz, “Aquilo que semeastes, colherás”.
    Para a Astrologia Hindu, uma alma, antes de reencarnar, escolhe o seu horóscopo – ou seja, escolhe o momento (data e hora) e o ambiente (localidade, grupo social, família, condições sócio-econômicas) em que ocorrerá sua entrada no plano terrestre. Essa escolha se deve ao inquestionável direito que a alma tem de exercer o Livre Arbítrio: ela define os carmas que deseja resgatar, submetendo-se às conseqüências de algumas das ações praticadas em vidas anteriores.
    Com os raciocínios até aqui desenvolvidos você pode perceber uma primeira importante característica da Jyotisha: seu objeto de estudo é a história das almas na sucessão de suas encarnações.

Origens da Astrologia
    Passemos agora a um pequeno histórico da Astrologia Tropical. Suas origens estão na Mesopotâmia, junto aos caldeus, mais ou menos na mesma época em que encontramos os primeiros documentos escritos da Astrologia Hindu. Em seus primórdios, a Astrologia Tropical era uma prática sacerdotal de caráter divinatório a serviço exclusivamente do Estado personificado em seu governante. Só muitos séculos depois as pessoas comuns passaram a se servir dela. Da Mesopotâmia, a Astrologia se propagou inicialmente por todo o Oriente Médio, até chegar à Grécia.
    Com os gregos, em especial durante o Período Helenístico, a Astrologia Tropical conheceu um grande desenvolvimento em termos técnicos e de popularidade.
    Foi no contexto do Império Romano, no século II da nossa Era, que esta Astrologia conheceu sua primeira, e talvez a mais importante, codificação. O trabalho foi realizado pelo astrônomo e astrólogo grego Ptolomeu.
    Aproveito essa oportunidade para sublinhar uma diferença importante entre a Astrologia Hindu e a Tropical: a partir de Ptolomeu e com o correr dos séculos, verificamos uma progressiva dissociação entre a Astronomia (ciência que estuda os fenômenos celestes) e a Astrologia (arte que estabelece relações entre os fenômenos celestes e a vida dos indivíduos). Essa dicotomia atingiu seu ápice nos séculos XVII e XVIII com o estabelecimento da hegemonia do racionalismo e empirismo como meios para a obtenção dos conhecimentos.
    Jyotisha significa indistintamente Astronomia e Astrologia, sendo que no contexto das ciências védicas jamais existiu qualquer dissociação entre esses dois campos do conhecimento humano. Para os hindus (seguidores da religião hinduísta), um astrônomo é também um astrólogo, e vice-versa.
    Na sua evolução, a Astrologia Tropical foi cada vez mais se especializando e aprimorando na análise de horóscopos individuais ao ponto de, hoje, ser extremamente útil para a análise psicológica, fato comprovado pelo depoimento de vários dos mais ilustres psicólogos modernos – como por exemplo     Jung que, em seus escritos, mais de uma vez sublinhou a utilidade da Astrologia para a Psicologia. Ele mesmo usava técnicas astrológicas para compreender problemáticas da psique humana sobre as quais não conseguia jogar luz usando outros métodos.

Indivíduo e Alma
    Do que foi dito, podemos concluir que o objeto de estudo fundamental da Astrologia Tropical é o indivíduo. Logo, aqui temos uma diferença importante entre essas duas maneiras de praticar a Astrologia: enquanto a Jyotisha se preocupa com o estudo da alma, a Astrologia Tropical se preocupa com o estudo do indivíduo.
    A partir dessa diferença observamos que essas astrologias são complementares e que seu uso em paralelo só pode beneficiar as pessoas que a elas recorrerem. Essa diferença de objeto de estudo tem uma curiosa conseqüência gráfica: a Jyotisha usa uma mandala quadrada para representar graficamente um horóscopo, enquanto a Tropical emprega uma mandala circular. Na verdade isso não foi sempre assim: até o início do século XIX, também a Astrologia Tropical usava fundamentalmente a mandala quadrada.
    Por que a partir de um determinado momento passou a haver diferença na representação gráfica? Para esclarecer essa questão precisamos, inicialmente, dizer que nas tradições esotéricas de todos os povos o quadrado sempre representa o mundo concreto e o círculo o infinito, o divino, o transcendente. Usando a mandala quadrada, simbolicamente a Astrologia pretende nos dizer que você poderá encontrar indicações de como viver no mundo concreto. Já a mandala circular pretende transmitir que você poderá encontrar indicações de como transcender o mundo concreto seja aspirando um contato mais estreito com a divindade seja desejando mergulhar no infinito de nosso universo inconsciente.
    No que diz respeito à Astrologia Tropical, de suas origens até o final do século XVIII e início do XIX, seus objetivos não eram muito diferentes daqueles da Jyotisha – por isso o uso da mandala quadrada. A partir dessa época, exatamente para tentar recuperar o prestígio que vinha perdendo desde os tempos do Renascimento, a Astrologia Tropical começou a procurar meios de se tornar uma ciência racional e empírica. Essa busca a levou, cada vez mais, a assumir um caráter acentuadamente psicológico, tendência que se tornou dominante a partir de meados do século XX. O processo evolutivo desse tipo de Astrologia justifica o abandono da mandala quadrada e o atual uso generalizado da mandala circular.
    A Jyotisha sempre trabalha com dados concretos e o astrólogo hindu deve transmitir ao seu cliente informações muito seguras e precisas. A Astrologia Hindu tem um caráter essencialmente preditivo, o que também era uma característica da Tropical – lembremos, por exemplo, das magníficas previsões de Nostradamus, ou ainda de importantes astrólogos atuando como consultores permanentes de reis e rainhas da França e Inglaterra no final da Idade Média e período do Renascimento.

Diferença Essencial
    Essa capacidade da Astrologia Hindu de realizar predições pode ser comprovada nas obras e trabalhos do Prof. Bangalore Venkata Raman, o mais importante astrólogo hindu do nosso século que, através de seus livros e da revista mensal da qual é o editor, The Astrological Magazine, realizou previsões importantes como a invasão da Polônia pelo exército alemão em setembro de 1939, o ataque japonês à base naval de Pearl Harbour, o início da Guerra da Coréia, os assassinatos de John F. Kennedy, Martin Luther King, Indira Gandhi, e o escândalo de Watergate com o conseqüente afastamento do Presidente Richard Nixon.
    A Astrologia Tropical foi ‘perdendo a sua capacidade preditiva’ e estabelecendo uma forte ligação com a psicologia, adquirindo uma linguagem permeada de símbolos e tornando-se importante técnica de auxílio às ciências psicológicas. O fato da Astrologia Hindu trabalhar fundamentalmente no universo do concreto e a Astrologia Tropical no mundo dos símbolos explica uma outra diferença essencial entre ambas: a questão relativa ao fenômeno da mecânica celeste chamado precessão dos equinócios.
    A maioria das pessoas pensa que o zodíaco seja uma coisa única: a divisão da circunferência celeste em 12 setores iguais, cada um com o nome de uma constelação – as chamadas constelações zodiacais: Áries, Touro, Gêmeos, etc.. Pensa também que quando uma efeméride – tabela astrológica que enuncia a posição dos planetas para cada dia –assinala a presença de um planeta em determinado signo zodiacal, por exemplo, Júpiter em Sagitário, isso corresponde a uma verdade astronômica. Mas as coisas não são bem assim.
    O Zodíaco usado pela maioria dos astrólogos ocidentais modernos, o chamado zodíaco tropical, não mais se baseia diretamente nas estrelas. Hoje, esse zodíaco não corresponde a posições estelares astronomicamente observáveis. De um ponto de vista astronômico, nosso Júpiter astrológico em Sagitário se encontrará provavelmente entre as estrelas da constelação de Escorpião. Por que isso acontece?
    Em um ano existem apenas dois dias nos quais a duração do dia é exatamente igual à da noite – precisamente 12 horas cada. Esses dias são chamados de equinócio da primavera (21 de março no hemisfério norte do planeta) e Equinócio do Outono (23 de setembro no hemisfério norte). Nos primórdios de ambas as astrologias, astronomicamente no dia do equinócio da primavera, o Sol podia ser observado passando pelo início da constelação de Áries. Só que a cada ano o Sol realiza um movimento retrógrado de aproximadamente 50” (cinqüenta segundos de arco de circunferência) de maneira tal que, se em um determinado ano o Sol, no dia do equinócio da primavera, estava posicionado a 0º da constelação de     Áries, no ano seguinte ele estará a 29º 59’ 10” da constelação de Peixes; um ano a mais e o Sol, naquela data, estará a 29º 58’ 20” de Peixes, e assim por diante. É este o movimento da mecânica celeste chamado precessão dos equinócios.
    A Astrologia Tropical faz de conta que não existe a precessão dos equinócios. Para ela a cada dia do equinócio da primavera o Sol está a 0º de Áries.     Esta realidade tem  uma conseqüência muito importante: o zodíaco tropical não corresponde mais às constelações zodiacais. Hoje, o início do signo zodiacal de Áries corresponde astronomicamente às estrelas da porção inicial da constelação de Peixes. Daqui a aproximadamente 200 anos corresponderá às estrelas da parte final da constelação de Aquário, e somente daqui a mais ou menos 23.000 anos voltará a ocorrer que o signo de     Áries corresponda efetivamente à constelação de Áries – ou seja, o Sol no dia do equinócio da primavera se encontrará a 0º desse signo.
    É exatamente essa não correspondência entre signo zodiacal e constelação zodiacal que faz a Astrologia Tropical trabalhar preferencialmente com símbolos e não com fatos concretos, logo, é esta característica que a torna um ótimo suporte para os trabalhos de caráter psicológico.

    No que diz respeito à Astrologia Hindu as coisas são diferentes: ela usa o zodíaco sideral. Nele, sempre existe uma absoluta correspondência entre os signos zodiacais e as constelações zodiacais.
Este fato tem uma implicação estranha para nós ocidentais: de acordo com a Astrologia Tropical, uma pessoa nascida em determinado dia e mês terá sempre o mesmo signo solar – por exemplo, quem nasceu em 5 de julho, independentemente do ano, será um nativo de Câncer. De acordo com a Astrologia Hindu, uma pessoa nascida em 1999 naquela data terá seu signo solar em Gêmeos. Se tivesse nascido naquela mesma data, no ano de 1999 a.C., essa pessoa teria o signo solar em Leão, e nascesse em 5 de julho de 1999 seria uma pessoa de Câncer.
    A esta altura é provável que os nascidos em 5 de julho, lendo este artigo, estejam se perguntando: afinal das contas de que signo eu sou?
    A resposta é simples: depende!
    Na Astrologia Tropical a pessoa será sempre de Câncer. Na Astrologia Hindu, de Gêmeos.
    Aparentemente eu lhes arrumei uma bela dúvida existencial... só aparentemente. Para resolver a confusão basta você lembrar que o objeto de estudo dessas duas astrologias é diferente: a Tropical ajuda o indivíduo a ter maior compreensão de si mesmo e, no exemplo citado, essa a carregará importantes valores da tipologia astrológica canceriana. Por outro lado, a Astrologia Hindu pretende facilitar uma compreensão sobre o que a pessoa veio fazer nesta vida, como ela pode evoluir espiritualmente, quais são seus principais obstáculos e como fazer para superá-los.
    Para quem quiser, chegou a hora da lição de casa. Os que desejarem conhecer seu horóscopo hindu e têm em mãos um mapa natal tropical, pode fazê-lo porque a conversão de é muito simples: basta subtrair a ayanamsa das posições planetárias fornecidas pelo mapa tropical. Antes que você pergunte, ayanamsa é a diferença, em medida angular, entre 0º de Áries e a posição real do Sol em uma determinada data.
    Antes de mais nada, devemos lembrar que uma circunferência tem 360º e que a esfera celeste é representada como uma circunferência, sendo que esta, em termos astrológicos, é dividida em 12 partes iguais, de 30º cada, e cada uma dessas divisões corresponde a um signo zodiacal. Desta maneira podemos dizer que o signo de Áries vai de 0º a 30º, Touro de 30º a 60º, Gêmeos de 60º a 90º, Câncer de 90º a 120º, Leão de 120º a 150º, Virgem de 150º a 180º, Libra de 180º a 210º, Escorpião de 210º a 240º, Sagitário de 240º a 270º, Capricórnio de 270º a 300º, Aquário de 300º a 330º e, finalmente, Peixes de 330º a 360º.
    De acordo com essa tabela, podemos dizer indistintamente que o Sol, no horóscopo de uma pessoa, está a 24º de Peixes ou a 354º do zodíaco. Com duas formas diversas eu disse exatamente a mesma coisa. Normalmente, nos horóscopos tropicais a posição dos planetas nos é fornecida de acordo com a posição por signo – ou seja, no caso acima a indicação seria 24º de Peixes. Pois bem. Sua primeira tarefa será transformar a posição de todos os planetas de graus por signo, em graus no zodíaco.
    Para ficar ainda mais fácil, formulemos um exemplo concreto: façamos esta operação no horóscopo de Elis Regina (nascida em Porto Alegre em 17/03/1945, às 14h10).
SOL = 26º 45’ PEIXES = 356º 45’
LUA = 16º 50’ TOURO = 46º 50’
MERCURIO = 11º 55’ ARIES = 11º 55’
VENUS = 02º 25’ TOURO = 32º 25’
MARTE = 24º 12’ AQUARIO = 324º 12’
JUPITER = 22º 01’ VIRGEM = 172º 01’
SATURNO = 03º 57’ CANCER = 93º 57’
URANO = 09º 29’ GEMEOS = 69º 29’
NETUNO = 05º 17’ LIBRA = 185º 17’
PLUTÃO = 08º 09’ LEÃO = 128º 09’
ASCENDENTE = 06º 13’ CANCER = 96º 13’
    O próximo passo é saber qual é a ayanamsa na data do nascimento da saudosa cantora. Para isso, basta que consultar a tabela no box e ver qual é o valor para o ano de 1945. O valor é 23º 05’. Agora vamos tomar a posição zodiacal de cada planeta e subtrair o valor da ayanamsa. Os resultados serão:
SOL = 333º 40’ = 03º 40’ PEIXES
LUA = 23º 45’ = 23º 45 ARIES
MERCURIO = 348º 50’ = 18º 50’ PEIXES
VENUS = 19º 20’ = 19º 20’ ARIES
MARTE = 301º 07’ = 01º 07 AQUARIO
JUPITER = 148º 56’ = 28º 56’ LEÃO
SATURNO = 70º 52’ = 10º 52’ GEMEOS
URANO = 46º 24’ = 16º 24 TOURO
NETUNO = 162º 12’ = 12º 12’ VIRGEM
PLUTÃO = 105º 04’ = 15º 04’ CANCER
ASCENDENTE = 73º 08’ = 13º 08’ GEMEOS
    Agora procurem fazer o mesmo com o próprio horóscopo e com o de seus parentes e amigos. Claro que as diferenças entre a Astrologia Hindu e a Tropical não são apenas as expostas neste artigo, mas isso é uma outra história que fica para uma outra vez. Tenho certeza de que com o que dissemos vocês já têm muito em que pensar.
Boa diversão!

Voltar