As Mulheres Guerreiras

2009-05-05 17:07

Uma das lendas mais persistentes da humanidade fala sobre as mulheres guerreiras, que teriam existido na região do Mediterrâneo e emigrado para a América. Existem inúmeros sinais de sua passagem por aqui, inclusive no Brasil.

Ubiratan Schulz

    Sempre que lemos as lendas e relatos antigos que falam das guerreiras amazonas, pensamos nos indícios da existência e presença dos vikings no Novo Mundo. Mil anos antes de Colombo, os vikings já andavam por aqui, e alguns livros de história já admitem isso.
    O filho de Cristóvão Colombo escreveu, em suas memórias, que o navegador foi à Bretanha antes de empreender a viagem ao Novo Mundo, com certeza à procura de informações muito preciosas sobre a navegação do Atlântico. Estamos a um passo da origem das lendas sobre homens brancos, barbados, altos e fortes que, a bordo de navios sem remos, andaram por aqui muito antes do que nos conta a História.
    Nas sagas dos navegadores, relatas oralmente durante séculos — sejam de origem norueguesa, celta, normanda, grega ou correlatas —, há inúmeras alusões à presença desses navegadores nas Américas. Todos os relatos, desde os mais antigos até os de 50 anos atrás, indicam sempre a presença de mulheres masculinizadas, bravas guerreiras que, sem escrúpulos com os homens, só os utilizavam para preservar a espécie. Desde a época da Grécia antiga, segundo a mitologia, surgem lendas que chegaram até nós, sobre ilhas onde só haviam mulheres governadas por mulheres, que se defendiam sozinhas dos homens que as incomodavam (ilha de Lesbos). Eram descendentes de Ares, deus da guerra, e da ninfa Harmonia.
    Também se fala que teriam vivido na região do rio do “Ponto”, em algum lugar da Ásia Menor. Além de lutarem sozinhas, e bem, cuidavam de seus filhos — e é lógico que as meninas recebiam uma atenção especial, pois eram elas que continuariam a luta das mais velhas. Usavam elmo, couraça e espada, cavalgavam com notável habilidade e eram temidas no manejo do arco e flecha. Dedicavam-se à guerra, à caça e, segundo a lenda grega, amputavam o seio direito para melhor manejar o arco. Daí vinha o nome amazonas, que em grego significa sem seios (amazón, do prefixo grego a = não, e mazós = seio). Mas disso ninguém tem certeza, pois são poucos os que as viram e sobreviveram para contar a história.

Guerreiras
    Segundo se diz, as amazonas eram guerreiras que se estabeleciam em espécies de repúblicas femininas situadas, inicialmente, na região do Cáucaso, e depois na Capadócia, às margens do rio Termodonte. As amazonas veneravam Ártemis, com quem se identificavam e cujo culto foram as primeiras a introduzir na sociedade da época. A deusa portava um arco de prata e era acompanhada por um alce e uma matilha de lobos, chamados de alani. Ártemis costumava proteger os puros e inocentes, as mulheres maltratadas. Ela era protetora dos jovens, da fertilidade feminina, etc.
    Essas guerreiras tiveram participação em diversos episódios da mitologia grega, sempre se distinguindo por seu espírito rebelde, por sua grande coragem e beleza. Na guerra de Tróia, colocaram-se ao lado dos Troianos, contra os Gregos. Durante uma batalha, Pentessiléia — uma das rainhas que as Amazonas tiveram — travou uma luta corpo a corpo com Aquiles. O combate foi feroz e equilibrado,  até Pentessiléia tombar ao chão. Quando Héracles (Hércules), em um dos seus trabalhos, arrebatou o cinturão da rainha Hipólita, e sua irmã Antíope foi raptada por Teseu, as amazonas invadiram Atenas em represália, onde foram aniquiladas.
    Uma versão da história afirma que essa derrota foi a causa delas emigrarem para além-mar, na foz de um grande rio. Tróia sempre foi um posto comercial, e com certeza os marinheiros que lá aportavam traziam notícias e conheciam novas terras. Teria sido nesse momento que elas se mudaram para a Amazônia? Diz a lenda que muitas sobreviventes atravessaram o Oceano Atlântico e formaram uma civilização nas florestas abundantes da América do Sul. Quem sabe?
    A elas é atribuída a fundação de cidades como Mitilene e Éfoso. Suas casas eram feitas de pedra, e eram muito sólidas e fortificadas. As aldeias eram cercadas por muros altos e resistentes. As sagas, referências e histórias, se consideradas isoladamente, não são prova de grande coisa, mas quando reunidas e comparadas constituem um acervo de evidências impressionante.

As Origens
    Como seria preciso um espaço muito grande para estabelecer uma análise profunda do assunto, vamos nos limitar ao essencial. Na época, em toda a região do Mediterrâneo duas grandes forças emergentes se destacavam: os gregos e o outro povo que podemos chamar de hyksos — povo de reis pastores, extremamente guerreiro, citado em obras antigas. Esse povo chegou a ocupar toda a região dos Bálcãs, chegando até os Alpes, na Europa, e aonde hoje situam-se o Irã, Iraque e a Turquia, região que na época se chamava Anatólia. Não tinham tradição de navegação, ao contrário dos gregos, que com suas conquistas acabaram por agregar em sua cultura os grandes navegadores e construtores de barcos da época. Na verdade, essa tradição se mantém até hoje, com a Grécia como uma grande potência da marinha mercante mundial.
    Desde o início, essas grandes potências entraram em choque na luta pela hegemonia do comércio na região (Tróia x Grécia). Os livros do período já falam de mulheres que se isolavam em altas montanhas, ilhas afastadas ou florestas inexpugnáveis. Como relatei na matéria Os Vikings Chegaram (Sexto Sentido 21), as histórias das mulheres guerreiras do Amazonas datam de 570 a 580 d.C., isto é, anterior ao descobrimento oficial do novo mundo. Bem antes disso, como já disse, diversas tradições nos falam das sacerdotisas que moravam em ilhas isoladas no Mediterrâneo (ler Virgílio: Eneida; Heródoto: Epítetos; Homero: Ilíada e A Odisséia), que em alguma época muito remota emigraram ou foram incorporadas por outras culturas.
    Na Antigüidade, se o poder mágico feminino fosse considerado necessário para a vitória, sempre encontramos referências à participação de mulheres nos exércitos. Os gregos nos contam em suas sagas que essas mulheres emigraram para novas e abundantes terras além das colunas de Hércules (Gibraltar). Será que emigraram e vieram mesmo para a Amazônia? Estranha lenda de índios brasileiros nos contam sobre deusas que lhes trouxeram o arco e a flecha; uma tribo de deusas, formada exclusivamente por mulheres altas, brancas e com longos cabelos trançados até a cintura, que andavam quase nuas pela floresta. Eram consideradas guerreiras belicosas, exímias pescadoras e caçadoras. Formavam uma sociedade auto-suficiente e eram chefiadas por uma rainha. O homem era apenas tolerado em sua sociedade uma vez por ano, para cumprir o papel de reprodutor. Esses encontros aconteciam sempre no mês de abril, durante a lua cheia. Os homens eram raptados das aldeias ou da beira dos rios, e os que lhes davam filhas recebiam um amuleto de boa sorte como retribuição, como penhor de felicidade eterna: o muiraquitã, feito de um material esverdeado em forma de pequenos animais.

No Brasil

    As amazonas sempre estiveram associadas aos muiraquitã ou baraquitã, pequenos objetos talhados em pedra verde e cujo tamanho varia de 4 a 6 cm. A lenda nos lembra que, em noites de lua cheia, as amazonas extraíam as pedras ainda moles do fundo de um lago sagrado, dando então a forma que desejavam antes que estas ficassem duras ao serem expostas ao ar.
    O certo é que desconheço a existência de jazidas de jade no Brasil ou em outro país americano, mesmo que em algumas regiões da Serra da Preguiça sejam encontradas jazidas de nefrita, uma variedade de jade. Mas não sabemos de ninguém que tenha trabalhado esse material. Para o nosso grande historiador brasileiro Aurélio M.G. de Abreu, autor de diversos livros, as amazonas extraíam a pedra bruta com que confeccionavam o muiraquitã de um lago considerado sagrado, chamado Jaciuaruá (Yaci-uaruá), ou seja, Espelho da Lua, talvez no vale do Jamundá, no estado do Pará. O curioso é que até hoje acreditamos que a nefrita tem poderes medicinais muito úteis para curar doenças dos rins. Tive a oportunidade de ter em minhas mãos um muiraquitã, que foi dado de presente ao Presidente Getúlio Vargas.
    As histórias também confirmam que as Amazonas viviam em uma região situada entre a cidade de Manaus e Santarém, por onde corre o rio Jamundá. Foi exatamente nessa região que, em 1542, uma expedição comandada por Francisco de Orellana (1490-1546), navegando pelo complexo Marañon-Solimões-Amazonas, deu de cara com essas bravas guerreiras. As fantasias dos bravos navegadores medievais eram povoadas de figuras prodigiosas que tinham raízes na mitologia da Arcádia e do Lácio. Assim, as mulheres guerreiras que Francisco de Orellana disse ter enfrentado na confluência do grande rio com o rio Madeira, se confundem com a lenda da Iara, a deusa das águas ou mãe das águas, e traduz a relação do caboclo ribeirinho com as mulheres que ali habitavam bem antes deles, o que confunde todos com outras lendas e histórias.
    Os colonizadores que trouxeram lembranças do além-mar formaram um novo ambiente cultural, e as lendas sobre as amazonas da Grécia transformaram as descendentes dos vikings nestas últimas. O Barão de Santana Neri, escrevendo sobre o folclore brasileiro, descreve a Iara como uma mulher branca, de olhos verdes e cabeleira loura, com conceitos pesquisados nos estados do Pará e Amazonas. Diz ainda que sua beleza física, seus métodos de sedução, seus modos de luta, suas armas e vestes, seus palácios e jóias lembram e revelam sua origem estrangeira, visto que os moradores locais desconheciam esses valores. O mito da Iara pode ser reconhecido em valores de outras culturas, como as mitológicas Nereidas da Grécia e, na Alemanha, a nórdica Loreley e as Valquírias.

Os Exploradores

    Voltamos à coincidência entre as lendas e as histórias que os vikings e seus descendentes trouxeram para o Brasil. Tivemos uma expedição que, em outubro de 1637, comandada por um tal Pedro Teixeira, a mando da Coroa Portuguesa, partiu de Gurupá com o intuito de explorar o rio Amazonas, que era dominado por mulheres guerreiras. Essa expedição, que podemos considerar como a maior até então, contava com 47 grandes canoas, 70 soldados e 1200 índios. O intuito era chegar à região das minas de prata do Peru via oceano Atlântico, e reivindicar sua posse para a Coroa Portuguesa, com a cidade de Belém como seu portão de entrada. Alcançaram a cidade de Quito em 1638, tomando posse das terras.
    Essa expedição foi descrita no livro Novo Descobrimento do Grande Rio das Amazonas, editado em Madri em 1641. Além de contar todos os pormenores da viagem, também relata o descobrimento de inscrições muito antigas em forma de cruzes e desenhos geométricos. Imediatamente, o governo da Espanha mandou queimar toda a edição, mas essa medida não impediu que a expedição de Pedro Teixeira fosse usada pela Coroa Portuguesa para reivindicar a posse da Amazônia peruana.
    Cristóvão Colombo mencionou, mais de uma vez, a existência de uma tribo de mulheres guerreiras nas Antilhas e, em 1493, imaginava estar ancorando na Ilha da Mulher — que segundo Marco Polo ficava no Oceano Índico —, da qual ouvira falar com o nome de Ilha do Matrimônio, ou atual Ilha de Martinica, onde viviam mulheres com suas armaduras de cobre.
    Walter Raleigh, poeta inglês, estadista e explorador, confirma a existência de amazonas nas Guianas. Francisco Cortés, em 1524, foi avisado para que ficasse atento às amazonas que provavelmente ali viviam, ao explorar a costa do México. Em 1545, Francisco Orellana resolveu retornar à Amazônia, dessa vez no comando de 500 homens, mas não conseguiu o seu intento, falecendo na foz do grande rio. Há pouco tempo atrás, foi lançado um filme contando a história do cineasta da selva e um livro de fotografias obtidas nos anos 50 pelo famoso fotógrafo brasileiro Eduardo Barros Prado, trazendo imagens de mulheres que ele afirma serem descendentes das amazonas. Estavam enfeitadas com desenhos que lembram cruzes semelhantes às encontradas nos documentos vikings, e seus cabelos eram presos para cima, dando a impressão de estarem trançados e presos em coque.
    Também segundo alguns autores, as amazonas representam a época histórica em que o matriarcado reinou na humanidade, e o mito também é representado como a transição do matriarcado para o patriarcado, já que as amazonas sempre foram vencidas e domadas. Durante muitos anos, e até hoje, exploradores procuram essas ferozes guerreiras e uma cidade mística aqui no Brasil, a qual podemos chamar de El Dorado. Mas tudo continua no nosso folclore, rico em lendas, e cheio de verdades.

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