Allan Kardec
2009-05-05 15:16Cento e trinta e dois anos após a passagem de Allan Kardec pelo mundo, o Espiritismo continua vivo e buscando novos rumos de experimentação, cada vez mais aliado à a ciência e à tecnologia.
Gilberto Schoereder
É verdade que o contato da humanidade com o mundo dos espíritos sempre existiu, e que hoje em dia acumulam-se relatos sobre essa comunicação originados nos tempos mais antigos. Mas ninguém pode ignorar que alguma coisa muito importante e diferente sobre o mundo do além começou a ocorrer na segunda metade do século XIX. O que até o momento pertencia a um campo especulativo, sussurrado nas trevas e pouco ou nunca discutido abertamente, ganhou um espaço até então difícil de se imaginar. Os espíritos abandonaram seu silêncio e começaram a se comunicar com quem quer que desejasse falar com eles, utilizando-se dos métodos mais variados.
Para alguns, tratou-se mais de um fenômeno social do que qualquer outra coisa, mas o fato é que a comunicação entre nosso mundo e o dos espíritos se tornou o centro das atenções, e não apenas dos leigos. Alguns conceituados cientistas da época dedicaram seu interesse ao estudo desse supostos contatos, investigando médiuns com todos os meios científicos disponíveis na época.
Há quem diga que a onda de contatos espirituais tiveram início em 1848, com as irmãs Margaret e Katherine Fox, nos Estados Unidos, mas não há dúvida de que as coisas começaram a se aclarar com o trabalho do educador francês Hippolyte Leon Dénizard-Rivail (1804–1869), que passou a ser conhecido pelo nome de Allan Kardec. Foi ele o fundador ou o codificador do Espiritismo, uma doutrina que apregoa sustentar-se em fundamentos científicos, filosóficos e morais, baseada na firme convicção de que existe um mundo pós-morte, composto por níveis ou planos de existência diferenciados, nos quais habitam os desencarnados — ou seja, aqueles que morreram depois de terem vivido na Terra.
Também é certo que hoje em dia o Espiritismo é acusado, inclusive por alguns de seus integrantes, de ter se transformado em uma espécie de religião, excessivamente dogmatizado, indo contra os preceitos estabelecidos pelo próprio Allan Kardec.
O Início
A notícia de que pessoas estavam conversando com espíritos espalhou-se rapidamente e virou moda na Europa do século XIX. Batidas em mesas, as chamadas mesas que giravam, passaram a ter destaque em inúmeras reuniões, muitas vezes levadas na brincadeira. Os médiuns, como eram chamados os que conseguiam entrar em contato com os mortos, recebiam convites para apresentações e acabaram se tornando os mais estudados pelos cientistas.
Dénizard-Rivail entrou em contato com o fenômeno em 1854 e, a partir de então, sua vida transformou-se radicalmente. O educador tinha um histórico interessante, tendo estudado na Suíça com o célebre professor Pestalozzi, que havia criado um método de ensino revolucionário. Mais que um discípulo, Rivail tornou-se colaborador de Pestalozzi e difundiu o sistema por ele desenvolvido, inclusive dirigindo a escola quando o professor se ausentava. Não só isso, ele se formou como bacharel em letras e ciências, e doutor em medicina, conhecendo também profundamente os idiomas alemão, inglês, italiano, holandês e espanhol.
Com esse conhecimento acumulado, Dénizard-Rivail era a pessoa certa para organizar os conhecimentos referentes à dimensão dos desencarnados, tarefa à qual procurou se dedicar utilizando metodologia científica. Essa postura já se verificava quando o magnetizador Sr. Fortier lhe falou pela primeira vez sobre as mesas giratórias. Rivail disse que só acreditaria quando visse o fenômeno e lhe provassem que uma mesa tinha cérebro para pensar.
No entanto, em 1855, o educador encontra um antigo amigo, o sr. Carlotti, que lhe fala demoradamente sobre o fenômeno do contato com espíritos, aumentando as dúvidas que tinha sobre o assunto. Ainda nesse ano, Rivail teve a oportunidade de participar de uma sessão em que, segundo disse, comprovou a veracidade dos fenômenos, mas sem que suas idéias se modificassem. Ele entendeu que deveria haver uma causa para o que estava acontecendo, e que deveriam existir algumas leis por trás dos eventos. Rivail promete a si mesmo, então, aprofundar-se no assunto. Mais tarde ele escreveria: “Foi aí que fiz os meus primeiros estudos sérios em Espiritismo, menos por efeito de revelações do que por observação. Apliquei a essa nova ciência, como até então o tinha feito, o método da experimentação, nunca formulando teorias preconcebidas. Observava atentamente, comparava, deduzia as conseqüências. Dos efeitos procurava chegar às causas pela dedução, pelo encadeamento lógico dos fatos, não admitindo uma explicação como válida senão quando ela podia resolver todas as dificuldades da questão”.
Surge Kardec
Dénizard-Rivail chegou a quase abandonar os estudos sobre o contato com os espíritos, persistindo apenas em consideração às pessoas que o acompanhavam — como era o caso do editor Diddier, que seguia a pesquisa dos fenômenos há cinco anos e havia coletado as mensagens obtidas durante as comunicações numa série de cadernos. Ele pediu que o educador realizasse o trabalho de organizar as informações, mas este hesitava reticente diante das dificuldades apresentadas pela tarefa e o tempo que teria de dispor para isso.
As coisas começaram a mudar quando, numa sessão, o espírito protetor de Rivail, conhecido apenas como Z, lhe disse que ambos tinham se conhecido em outra existência, quando o educador era um celta chamado Allan Kardec. Z prometeu ajudá-lo na tarefa de organizar as informações e completar as lacunas existentes. Assim, assumindo o pseudônimo de Allan Kardec, Rivail organizou os cadernos do editor e preparou uma série de perguntas a serem feitas para Z, de modo que este pudesse fornecer as informações necessárias sobre a dimensão dos espíritos e nossa relação com ela.
“Até então”, escreveu Kardec, “as sessões não tinham qualquer fim determinado. Propus-me, a resolver os problemas que me interessavam sob o ponto de vista da filosofia, da psicologia e da natureza do mundo invisível. A princípio, eu visava apenas minha própria instrução. Mais tarde, quando percebi que tudo aquilo formava um conjunto e tomava as proporções de doutrina, tive a idéia de publicar para instrução de todas as pessoas. Foram essas questões que, devidamente desenvolvidas e completadas, formaram a base de O Livro dos Espíritos”.
Outras entidades, além de Z, ajudaram a compor o quadro final que resultaria na doutrina espírita. O Livro dos Espíritos foi publicado em 1857, e a ele seguiram-se outros volumes que completaram a obra geral do Espiritismo, como O Livro dos Médiuns (1861), O Evangelho Segundo o Espiritismo (1864) e A Gênese, Os Milagres e As Profecias Segundo o Espiritismo (1868). Ainda em 1868, Kardec lançou a Révue Spirite (Revista Espírita), que teve uma participação importante na difusão da doutrina e filosofia do movimento nos anos seguintes.
Expansão
Os livros de Kardec venderam e ainda vendem milhões de exemplares em todo o mundo, mostrando a recepção que a noção da vida pós-morte encontra entre as pessoas. Kardec afirmava que o Espiritismo não dependia da fé, uma vez que sua função era comprovar a realidade de fenômenos para todos os que não acreditavam neles. Uma tarefa não muito fácil numa civilização ocidental já acostumada com a noção cristã de que o mundo dos espíritos, tal como apresentado pelos espíritas, não existe, assim como a reencarnação. De pouco adiantou recorrer às evidências históricas comprovando que o cristianismo, em sua origem, defendia a idéia da reencarnação, uma vez que as provas foram e têm sido negadas pela Igreja até os dias de hoje.
Kardec sempre disse que o Espiritismo deveria se adaptar aos tempos, evoluir junto com a sociedade e as ciências, utilizando as novas tecnologias e conhecimentos para dar seqüência às pesquisas relativas ao mundo espiritual. Dessa forma, sempre foi considerado um ponto importante para o Espiritismo não ficar parado no tempo.
Mas apesar da expansão do Espiritismo em todo o mundo, é nesse ponto que residem algumas das maiores divergências entre os espíritas de hoje. Para alguns, com o aumento do número de seguidores, o movimento passou a assumir uma postura bem próxima de uma religião, que não fazia parte dos objetivos originais, havendo inclusive acusações de dogmatismo, o que afastou muitas pessoas da doutrina e criou centros de estudos mais condizentes com o pensamento do fundador.
O perigo da dogmatização, que Kardec certamente já havia previsto, é a transformação da busca científica em uma seita na qual a fé passa a ser o instrumento de trabalho. Muitos acreditam que, com a evolução acelerada da ciência, em pouco tempo ela se aproximará das respostas apresentadas pela doutrina espírita, e com conclusões ainda mais abrangentes. Outros passaram a ver os ensinamentos de Kardec como se fossem uma Bíblia, impossível de serem modificados, mesmo em face de uma evolução dos conceitos.
Muitos seguidores da doutrina espírita continuam considerando as idéias de Kardec corretas, mas sabem que é preciso continuar aprofundando as pesquisas, até mesmo para estar de acordo com a noção que o fundador tinha no sentido de buscar uma unificação entre ciência, religião, artes e filosofia. Estudos científicos mais recentes estão, de fato, desenvolvendo formas de pesquisa em que matéria e espírito não são mais vistas como elementos separados. Na verdade, a partir dos anos 70, um grupo de estudiosos da Universidade de Princeton, EUA, autodenominados neognósticos, aprofundou-se em teorias que vêem o espírito como indissociável de todos os fenômenos do universo, sejam estes físicos ou psíquicos. Cientistas de outras áreas seguem numa direção semelhante, procurando definir nosso mundo não apenas em seu aspecto visível, mas também no invisível, encontrando explicações para outras dimensões de existência. Também é um exemplo claro dessa aproximação com a ciência o trabalho da transcomunicação instrumental, que procura novas formas de contato com outros planos de existência utilizando tecnologia moderna e comprovação científica.
Como se pode se perceber, apesar do dogmatismo continuar existindo, 132 anos após a morte de Allan Kardec o Espiritismo continua procurando novos caminhos sem abrir mão da doutrina básica, e mostrando que o pensamento de seu fundador tinha uma razão de ser.
Para Saber Mais:
O Livro dos Espíritos – Allan Kardec
O Evangelho Segundo o Espiritismo – Allan Kardec
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