Alimento da Alma
2009-05-06 15:25Para o músico Corciolli, a música vai muito além da composição de melodias, ritmos e letras bem elaboradas. Ela tem a função ainda mais nobre de alimentar a alma e elevar o espírito.
Alex Alprim e Gilberto Schoereder
Desde que começou a aprender a tocar, aos 12 anos, Corciolli já buscava a sonoridade dos sintetizadores. Primeiro, com aulas de órgão eletrônico, uma vez que na época ainda não havia professores de sintetizador no Brasil. Em seguida, ele passou ao piano erudito até dominar as técnicas do instrumento. Daí a conhecer Chopin e Debussy, e sentir-se atraído pelo jazz, foi um passo. Do erudito ao popular, o músico desenvolveu uma notável habilidade para harmonizar e improvisar, ambas características marcantes do jazz.
Já por volta dos 15 anos, Corciolli tocava em bandas de rock fazendo covers de Led Zepellin, Yes e outros grupos. “Lembro que uma vez”, ele diz, “entrei no meu quarto numa sexta-feira e só saí no domingo, depois de ‘tirar’ o Journey to the Center of the Earth, do Rick Wakeman, inteiro. Logo depois, peguei discos do Genesis, porque era uma sonoridade que realmente me interessava”. Com uma formação basicamente por iniciativa própria, Corciolli se interessou muito pelo rock progressivo e por tecladistas como Keith Emerson (Emerson, Lake & Palmer), Rick Wakeman (Yes) e Tony Banks (Genesis), mas sua primeira grande inspiração foi Jean-Michel Jarre.
“A primeira vez que ouvi Jean-Michel Jarre e Vangelis”, ele explica, “o que primeiro me chamou a atenção foi um som muito diferente do que se ouvia na época, quando o mundo musical era dominado por guitarras. O Van Halen estava no auge, com o virtuosismo do guitarrista. Quando ouvi o Jarre, fiquei fascinado com aquela sonoridade futurista, com o uso da melodia com sonoridades que não podiam ser encontradas em outros instrumentos. Esse tipo de idéia visionária sempre me atraiu. E no rock progressivo, o que me chamava muito a atenção eram os momentos mais moderados, em que os músicos tinham uma base orquestral – o adágio da música erudita – e nesse movimento podiam se expressar e evoluir”.
Corciolli diz que sua busca como artista direciona-se a algo que ele ainda não ouviu, algo que seu coração e alma anseiam escutar. E é justamente essa busca que o leva a estar sempre explorando novos territórios.
Realização
Os objetivos do compositor se estendem para além da música, uma vez que também envolvem uma busca espiritual, sua realização como pessoa, como ser consciente alinhado com a verdade, com a vida e com todo o princípio cósmico. “Essa procura e estudo”, ele diz, “acabou se refletindo na música também e, muito mais do que usá-la como processo de autoconhecimento, eu a estava empregando para um processo de desenvolvimento de vida. Começou a ser uma expressão da minha alma, do meu ser. Naturalmente, alguns tipos de música eu acabei deixando de lado. Não que eu não tenha escutado ou experimentando – por exemplo, eu gostava de heavy metal, mas aquilo começou a perder o sentido. Enquanto existia um teor de musicalidade e uma mensagem a ser passada, era interessante, mas quando se tornou apenas uma descarga elétrica, deixou de ter significado para mim. Foi quando comecei a me filtrar para um tipo de música mais apurado, voltado para o lado espiritual, e a new age estava em plena efervescência, com músicos misturando instrumentos étnicos com instrumentos ocidentais”.
Não que Corciolli se considerasse um músico de new age, mas essa era a qualificação que se dava para aquele tipo de música e, no sentido essencial, ele se achava dentro do mesmo conceito. “A Música new age é feita para o espírito, para meditação. Mas ninguém jamais disse que música para meditação não pode ser dançante, não pode ter ritmo. Na música indiana existem melodias para meditação com um tablista que entra em êxtase. E tem ritmo, tem força, evoca o elemento fogo”.
O caminho percorrido pelo músico foi praticamente o contrário do que ele seguia quando tocava jazz fusion com o baixista Pixinga – um tipo de música que exigia muito tecnicamente. “Foi uma experiência muito boa”, explica Corciolli, “porque era o que eu não queria fazer com a minha música, ou seja, ir no limite do virtuosismo, sem o sentimento, sem a expressão. Comecei então a desenvolver temas mais suaves, e algumas baladas chegaram a entrar no repertório da banda”.
Depois do jazz, ele participou de bandas pop e conheceu o outro lado do show business – justamente o que tem a ver com a parte comercial e lhe deu uma boa experiência em negócios, algo que lhe seria muito importante no futuro. Depois dos shows que fazia, com público de 30 a 40 mil pessoas, o músico voltava para seu quarto de hotel e ficava compondo aquele que seria seu primeiro álbum. Com as músicas prontas, começou a visitar as grandes gravadoras do país, tentando vender seu trabalho, mas sempre ouvia os executivos dizerem que não havia mercado para aquele tipo de composições no Brasil.
Criando Mercado
A recusa das gravadoras despertou em Corciolli a idéia de criar sua própria gravadora, a Azul Music, e lançar os produtos para os quais ‘não havia mercado’ no país. “Eu percebi que esse papo de ter ou não ter mercado é relativo. Se não tem mercado, não tem problema, nós fazemos o mercado. E hoje ele existe, e se chama música new age, música para meditação, relaxamento, anti-estresse, qualidade de vida. A nomenclatura vem mais por uma questão de localizar comercialmente os CDs num espaço do que aquilo que realmente significa a música. Existem tipos de rock muito distintos, de Bill Haley a Iron Maiden, e todos estão dentro daquilo que se chama rock. Numa loja, você não vai procurar Bill Haley no setor de música clássica, mas, como consumidor, sabe que é muito diferente do rock do Foo Fighters. O nome do estilo musical é uma coisa de cada um. Para uns, vai ser música para meditação; para outros, new age, ou world music, e até música pop instrumental. E para outros vai ser música para boi dormir, porque acham que não serve para nada”.
Corciolli destaca uma citação de Platão, segundo o qual a essência da música é alimentar a alma, estabelecer um canal do ser humano com a divindade. Assim, ele vê as melodias de duas formas distintas: o que é manifestação cultural e expressão política, social e artística de uma época; e o que é expressão espiritual da época. “Existiram compositores que não estavam preocupados em agradar o público, as massas, que compunham aquela verdade, aquele momento. Eles eram uma expressão cultural e artística, mas, mais do que isso, eram também a expressão espiritual. Quando se fala que a música de Bach é perfeita é porque ele estava em sintonia com Deus quando compunha. Ele era Deus, e a sua música manifesta essa verdade. E não Bach não é o único”.
Corciolli entende que a música é uma manifestação do espírito humano, que une os homens, que é capaz de fazer uma criança dormir ou uma pessoa rude chorar, desde que se coloque a melodia, a freqüência certa para abrir os corações. Esse é um poder que a música possui e, se para a pessoa esse poder é representado pela new age, rock, jazz ou música erudita, que assim seja. O importante é que a composição faça bem, que a pessoa que está ouvindo encontre nos sons aquilo que procura – seja uma distração ou um encontro consigo mesma. “A música tem um poder que vai além da letra ou dos acordes. Ela mexe no emocional e a pessoa entra no imponderável. E é no imponderável que se manifesta a Criação divina, e a pessoa pode, num lampejo, pensar que faz parte desse mundo”.
Fim da New Age
Corciolli entende que, filosoficamente, a new age já morreu e está enterrada a um bom par de anos. Contudo, por mais paradoxal que pareça, a new age nunca vai morrer. “Em todos os movimentos musicais”, ele explica”, “existe um movimento cíclico. Nos anos 70, o jazz chegou a um ponto em que não havia mais para onde ir e foi criado o free jazz, ou seja, um absoluto caos”.
Quando o compositor diz que a new age nunca vai morrer ele se refere ao estilo musical. “O que morre são as intenções comerciais – ou seja, num determinado momento não se está dando muita importância para aquele determinado estilo. Uma manifestação como o axé, por exemplo – que tem seu valor e foi uma expressão popular genuína e muito explorada – quando veio o boom só se falava em axé, e isso esgotou o estilo, esgotou a atenção para o estilo, sua exploração comercial. Mas a música da Bahia se alimenta desse ritmo há quase duas décadas. O termo é claro: exploração. Isso também aconteceu com a new age, com a proliferação de títulos, de projetos, um monte de gente fazendo disco de new age, alguns até genuínos. Foi um processo de saturação, como aconteceu com o jazz, o rock, etc”.
O que ocorre em momentos como esse, segundo Corciolli, é que os músicos que realmente têm algo a dizer sempre vão encontrar um canal de expressão. Aqueles que eram ou são considerados músicos de new age e continuam na ativa é porque criaram seu público e têm algo a dizer. Aqueles que se tornam repetitivos perdem fôlego e a música deles acaba morrendo, caindo no desinteresse. Os músicos também precisam evoluir, porque tudo na vida é evolução. E se os compositores de new age partirem para algo como um free new age, a exemplo do que ocorreu com o jazz, é porque esse processo tem de acontecer.
A questão também envolve a postura dos músicos diante de seu trabalho e da vida, como explica Corciolli. “Hoje eu vejo uma apatia muito grande e uma preocupação das pessoas em alcançar fama, em serem notadas, serem a maior expressão disso, o maior nome daquilo, a nova revelação do forró, a nova voz da música brasileira. Besteira! Não existe isso, o novo já é velho. Existe, sim, você buscar algo em seu interior que seja novo”.
Assim sendo, pode-se dizer que Corciolli é um músico de jazz, que acredita tanto no jazz que respira, dorme e acorda com jazz, o que torna seu jazz novo, embora o jazz seja um estilo supostamente criado em 1910. Segundo o compositor, existe uma certa apatia porque algumas pessoas se desviaram da compreensão básica de que a música é para o espírito, para a alma e, se essa compreensão está morta, a música também estará. “O estilo musical pode ser velho, mas se você faz o que é verdade para você, se isso faz parte de sua vida, se envolve sua capacidade de renovação e renascimento, aí sim eu digo que não existe morte para qualquer estilo musical, porque não existe morte para a música”.
Novos Caminhos
A renovação é necessária, e Corciolli já vê alguns indícios de que isso esteja ocorrendo, principalmente na Europa, onde existe uma forte mistura da new age com a música eletrônica. Alguns músicos que se voltaram para os ritmos eletrônicos estão começando a se sentir cansados, uma vez esse tipo de música não tem dinâmica. Os músicos começam a perceber que o movimento e a dinâmica trazem algo positivo. “Estão acontecendo algumas experiências aqui no Brasil também, misturando elementos de música eletrônica – uma batida gostosa, com elementos étnicos e percussões. Essa é uma das vertentes”.
No que diz respeito à sua própria música, ele diz que, se tivesse de encontrar um rótulo, ela poderia ser chamada de unio music, a união de todas as essências musicais. “Num dia eu posso estar tocando samba e new age e, no outro, jazz e rock, e nem por isso vai deixar de ser minha expressão como artista. As pessoas vão ver que o samba que eu toco é o samba do Corciolli, daquele músico, daquela expressão artística, e que não tem coisa alguma a ver com modismo ou com alguma necessidade de mercado, e sim com aquilo que a minha expressão musical naquele momento está pedindo”.
Corciolli reafirma que estamos num momento em que é importante deixar de lado os títulos, os nomes e procurar a essência das coisas. Certamente, essa é a maneira correta para se fazer com que a música seja, de fato, o alimento da alma.
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