Alimentação Vegetariana:Chega de Abobrinha!
2009-04-29 15:21Mestre DeRose
Jamais declare-se vegetariano num hotel, restaurante, companhia aérea ou na casa da sua tia-avó. É que todos eles têm a mesma vivacidade e vão responder, “Eu gostaria de lhe preparar uma comida decente, mas já que você não come nada vou servir uma saladinha de grama”.
E, por mais que você tente explicar que vegetariano não é o que a esvoaçante fantasia do interlocutor imagina, sua probabilidade de sucesso é nula. Na caixa preta dele já está selado, carimbado e homologado que vegetariano só come salada e ponto final.
Há vinte anos envio cartas e faço visitas de esclarecimento à comissaria e nutricionistas de uma conhecida companhia aérea brasileira. Mas nada os demove da sábia decisão de que conhecem melhor o vegetarianismo do que os próprios vegetarianos. E tome discriminação. Os mal-entendidos já começam ao fazer a reserva. Basta solicitar alimentação lacto-vegetariana, cujo código é VLML, para que o solícito funcionário do outro lado da linha registre alegremente: “Ah! Vegetariano? Perfeitamente, senhor”.
Só que a alimentação vegetariana, para as companhias aéreas, tem outro código, VGML, que designa um sistema bem diferente e absurdamente intragável, só existente na cabeça dos nutricionistas dos caterings. Fico a pensar se VGML seria a sigla para VegMeal ou se significa Você Gosta Mesmo dessa Lavagem?
E se o passageiro sabe mais do que o atendente e adverte-o para que use o código certo, invariavelmente é deixado na linha esperando enquanto ocorre uma conferência nos bastidores. Às vezes, o som vaza e podemos escutar, “Diz pra ele que esse código não existe. Não é vegetariano? Então é VGML”.
Certa vez, numa viagem internacional, minha mesinha já estava posta quando tive a infeliz idéia de informar a comissária de bordo que o pedido de alimentação vegetariana era meu. Ato contínuo, ela retirou da minha mesa o queijo, a manteiga, a maionese, o pão, o biscoito, o chocolate, a sobremesa e tirou até o sal e a pimenta. No lugar, colocou uma lavagem de legumes cozidos à moda de isopor.
Por que a gentil senhorita fez isso com este simpático cavalheiro? Será que ela pensa que queijo é carne? Que manteiga, maionese, chocolate são algum tipo perigosíssimo de carne de vaca-louca camuflada?
O pior nas viagens aéreas é que se você pedir alimentação VGML ou VLML, o pessoal do catering tira a sua sobremesa como que a puni-lo por ter-lhes dado trabalho. É como se estivessem a ralhar com o passageiro, “Menino mau. Já que não come a sua carne, vai ficar sem sobremesa”. E você é obrigado a comer legumes cozidos ou salada fria com uma uva de sobremesa, enquanto assiste ao vizinho de poltrona refastelando-se com um prato quentinho de strogonoff, suflê, parmegiana, milanesa, tudo arrumado com capricho, mais um apetitoso pudim e ainda tem que ouvi-lo comentar, “Essa comida de bordo é uma porcaria...”.
Pensa que a discriminação é só no ar? Em terra firme é pior. Se num restaurante você se declara vegetariano e consulta o maître sobre o que ele sugere, o esforçado cavalheiro poderá lhe dar duas respostas. A mais freqüente é, “O senhor é vegetariano? Nesse caso, podemos lhe oferecer frango, peixe... E a lagosta está ótima”. Inútil tentar fazê-lo entender que vegetariano não come carne de frango, nem carne de peixe, nem carne de crustáceo. Ele fará uma cara de ervilha encefálica e lhe oferecerá bacon. O leitor pensa que estou gracejando? Então faça a experiência. Entre no próximo restaurante e use a palavra mágica vegetariano. Garanto que à saída fará uma generosa doação para o Serviço de Proteção ao Vegetariano Incompreendido.
A outra resposta que o maître poderá lhe dar é a de que não tem nada para vegetarianos. Então, você lhe contrapõe: “Tem batata frita? Tem couve-flor? Tem queijo? Tem farofa? Tem palmito? Tem espaguete? Tem champignon? Tem pizza? Se tem tudo isso e muito mais, por que o senhor declara que não tem nada para vegetarianos?”. Aí, ele lhe serve uma sopa de cebola com caldo de carne.
Esclarecendo
Vamos, portanto, tentar esclarecer alguns equívocos consagrados pela opinião pública leiga sobre a alimentação vegetariana, incluídos aqui os nutricionistas, especialmente das companhias aéreas, e os chefs de cuisine de restaurantes e hotéis — e, certamente, as tias-avós de todos nós.
1. Vegetariano é aquele que não come carne. Nem vermelha, nem branca, nem azul, em furta-cor. Carne alguma. Ponto. O Vegetarianismo divide-se em três grupos:
a) Vegetarianismo propriamente dito (também chamado lacto-ovo-vegetarianismo), que consiste em comer absolutamente tudo que é usado na alimentação comum, menos as carnes de qualquer espécie;
b) Vegetarianismo (também denominado lacto-vegetarianismo), que consiste no mesmo que a modalidade anterior, menos os ovos;
c) Vegetarismo (também chamado vegetarianismo puro), que não aceita carnes, nem ovos, nem laticínios.
O sistema mais comum é o primeiro. Quando alguém se declara vegetariano, em noventa por cento dos casos, está querendo dizer apenas que não ingere carnes de espécie alguma. As outras duas modalidades são extremismos geralmente atrelados a comportamentos doutrinários.
2. Vegetariano não come apenas salada. Só de vez em quando. Um absurdo é supor que só pelo fato de uma pessoa não querer comer carne de bichos mortos tenha, por isso, que se abster de todos os demais pratos de forno e fogão, tais como empadões, suflés, pizzas, massas em geral, panachés, rissolis, gratinados, dorés, empanados, milanesas, strogonoffs, fondues, farofas, molhos de tomate, acebolados, golf, rosé, maioneses e as 15 mil variedades de legumes, cereais, hortaliças, frutos, raízes, ovos, leite, queijos, iogurtes... além de toda a maravilhosa gama de especiarias como orégano, cominho, coentro, noz-moscada, tomilho, gengibre, cardamomo, páprica, louro, salsa, cravo, canela, manjericão, manjerona, chili, curry, masala e uma infinidade de outros.
O vegetariano é um gourmet sofisticado e exigente que não faz questão apenas de saúde e higiene alimentar, mas também de prazer, como qualquer outro ser humano. Se não quer cometer uma indelicadeza, não lhe ofereça "uma saladinha". Ele vai morrer de pena de você e talvez chegue até a aceitar, só por educação.
3. Vegetariano não é obrigado a comer soja. Só adota compulsivamente a soja o falso vegetariano, aquele de boutique — quero dizer, de restaurante. Vegetariano de verdade, experimentado e informado, não usa soja porque isso é uma mera bobagem. A não ser que essa leguminosa entre na composição de algum produto como kibe vegetal, etc. Soja é ruim, indigesta, desnecessária e contém excesso de proteína.
4. Vegetariano não come só produtos integrais. Não! Ou será que os refinados deixam de ser vegetais e passam a ser algum tipo de carne?
5. "Para o doutor aqui, sirva o chá sem açúcar que ele é vegetariano." Por que sem açúcar? Por acaso açúcar é carne? Vegetariano não come é carne. Açúcar é vegetal. Não temos nada contra o açúcar. Procuramos apenas evitar exageros no uso de alimentos empobrecidos pelo refino. E isso é tudo. Portanto, solicitamos às companhias aéreas que parem com a mania de suprimir a sobremesa, o chocolate e até o queijo, a manteiga e os biscoitos (que absurdo!) de quem só disse que não queria comer carnes.
6. "Vegetariano não toma refrigerante." Não estamos discutindo aqui se refrigerante é saudável ou não. Estamos denunciando o absurdo da colocação: "Quem se propõe a não comer carne não pode tomar refrigerante". Se você concorda com essa lógica transversal, cuidado para não ser reprovado em testes psiocotécnicos!
7. Tofu, missô e shoyu. Isso não faz parte da culinária vegetariana e sim da macrobiótica. São elementos procedentes da cozinha japonesa, logo, só devem ser usados em pratos japoneses. Ou macrobióticos, já que essa corrente criada por Oshawa é declaradamente nipocêntrica. Colocar algas, shoyu, missô, tofu e outros produtos macrôs em receitas que tenham a intenção de ser apenas vegetarianas é uma gafe comparável à que cometem os estrangeiros que vêm ao Brasil falando espanhol!
E, seja lá quem for ou que títulos exiba, se alguém se atrever a declarar que a alimentação vegetariana não fornece todos os aminoácidos essenciais, conteste com a indignação dos justos. Diga, “Estou convencido de que você não sabe o que é o vegetarianismo...”. Afinal, um sistema alimentar que reúna todos os legumes, frutas, verduras, cereais e raízes, mais leite, queijo, coalhada e ovos, não pode ser considerado carente.
Entre os adeptos mais famosos do vegetarianismo encontram-se Bernard Shaw, Isaac Newton, Leon Tolstoi, Isadora Duncan, Xuxa, Pitágoras, Rousseau, Madonna, Paul McCartney, Éder Jofre, Thomas Koch. Não nos esqueçamos de que os maiores e mais fortes mamíferos terrestres são todos vegetarianos: o elefante, o rinoceronte, o hipopótamo, o búfalo, o bisonte...
Algumas Normas da Alimentação Biológica
*Não misture sal com açúcar na mesma refeição. Portanto, nada de sobremesas.
*De preferência, não use nem o sal nem o açúcar. Procure reduzir esses dois impostores. A redução drástica do sal ajuda muito o aumento de flexibilidade nos ásanas (posturas). O sal também torna a pessoa menos sensível, cortando as percepções sutis.
*Não misture alho com cebola, nem em pratos diferentes, na mesma refeição.
*Não misture frutas ácidas com frutas doces.
*Não tome líquidos às refeições. Só meia hora antes ou meia hora depois. (Quando convidados a comer, os índios guaranis da Argentina costumam responder, “Obrigado. Já bebi.”) Longe das refeições, beber muita água mineral.
*Faça rodízio das marcas de água mineral.
*Use água mineral até para chás e para cozinhar os alimentos.
*Não jogue fora a água que sobrar do cozimento de legumes. Ela é rica em sais minerais e pode ser usada para cozinhar outra coisa, como por exemplo, o arroz. Além da vantagem nutricional, o outro prato fica mais saboroso.
*Evite o uso de maioneses, ovos, creme de leite, manteiga e gorduras de origem animal e outras que fiquem em estado sólido sob temperatura ambiente.
*O creme de leite pode ser substituído por iogurte ou pasta de gergelim (tahine).
*Reduza os laticínios ao mínimo possível.
*A manteiga quase sempre pode ser substituída por azeite de oliva extra virgem, extração mecânica, a frio.
*O estado do seu prato pode indicar o coeficiente de limpeza ou sujeira que a comida produziu no seu organismo. Se o prato estiver tão limpo que não precise ser lavado, seu corpo também o estará. Se seu prato precisar de detergente e água quente para ficar limpo, imagine o estado de seus órgãos internos após digeri-la.
*Adote especiarias, pois além de realçar o sabor elas ajudam a digestão, auxiliam a processar gorduras, beneficiam o fígado, vesícula, intestinos, dão vitalidade, aumentam a energia sexual e tonificam todo o organismo. São elas: gengibre, cravo, canela, orégano, cominho, tomilho, coentro, curry, noz moscada, cardamomo, manjerona, manjericão, salsa e cebolinha, alho ou cebola.
*Adote fibras, alimentos integrais, lêvedo de cerveja, ginseng, alho. Cuidado para não brindar seus amigos com o bafo de alho. A melhor coisa é engolir capsulas de óleo de alho ou dentes inteiros de alho à noite, antes de dormir. Assim, pela manhã você já processou e eliminou uma boa parte do “odor-afugenta-parceiro”. Aí, escove os dentes, tome um banho, coma alguma coisa e, para garantir, saia de casa mascando cravo!
*Elimine urgentemente as panelas de alumínio. Adote as de vidro, ferro, aço, ágata, barro, pedra, etc. Evite as películas anti-aderentes — ainda não sabemos se são inofensivas.
*Olhe e veja o alimento. Não o ingira lendo ou distraindo-se com outra coisa. Você vai notar que o alimento passará a dar mais prazer e satisfará mais com menos quantidade.
Nossa recomendação é sempre evitar o fanatismo. Mas, onde fica a fronteira entre o fanatismo e a seriedade? Para dedicar-nos a alguma coisa com seriedade é preciso um coeficiente de determinação que os não-comprometidos com o mesmo ideal geralmente tacham de fanatismo. Só o bom senso de cada um poderá julgar. O importante é não chatear as pessoas com as nossas excentricidades. Aliás, quanto menos elas ficarem sabendo, melhor.
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