A Vida Além da Vida

2009-05-04 17:06

O que acontece com a alma quando sua existência no corpo físico chega ao fim? Para os materialistas, nada — a vida simplesmente termina. Mas para a grande maioria, que compartilha de idéias tão antigas quanto o próprio homem, a existência continua, e de uma forma muito mais intensa.

Gilberto Schoereder

    O conceito de que a existência do ser humano continua depois da morte é com certeza tão ou mais antigo do que a própria religião. Na verdade, os estudiosos do assunto costumam citar diferentes motivos para o surgimento da religião — apresentando teorias que muitas vezes se conflitam — mas é certo poder dizer que entre os fatores fundamentais para o desenvolvimento das crenças em algo superior está a necessidade de explicar o universo à nossa volta, inclusive o universo invisível, que inevitavelmente inclui o além-túmulo.
    Assim como em tudo que envolve o elemento fé, as diferentes maneiras de encarar uma possível existência pós-corpo físico são palco de disputas acirradíssimas, mas a verdade é que nunca se falou tanto sobre o assunto. E apesar dos conceitos cristãos de Céu e Inferno incutidos na cultura ocidental, as últimas décadas têm visto descrições bastante detalhadas e convincentes sobre a vida depois da morte, fornecidas pelas mais diferentes correntes de pensamento.
    Em algumas delas, é comum o outro mundo ser encarado como uma nova dimensão, onde existem leis, regras e comportamentos pouco diferentes dos que conhecemos na Terra, enquanto outras apresentam diferenças tão grandes que se torna necessária uma preparação especial, uma verdadeira reeducação para poder viver bem nessa nova realidade.
    As noções atualmente discutidas e apresentadas em milhares de livros, vídeos, palestras e sites na Internet não são exatamente novas. O entendimento dos mundos e vida pos-morte que prevalece hoje em dia começou a ser moldado há milhares de anos, com as culturas mais antigas do planeta. Elas vão desde viagens surrealistas, como as apresentadas no filme Amor Além da Vida (What Dreams May Come), até cenas que muitas vezes parecem saídas de um romance de ficção científica, como as narrativas de Allan Kardec sobre a vida em outros planetas ou os textos psicografados de André Luiz.

Vagando no Além
    As mais antigas culturas do Oriente Médio viam a vida depois da vida como algo chatíssimo e sem qualquer atrativo, de modo que o ideal era aproveitar ao máximo  a existência na Terra. Diz-se que os sumérios acreditavam que a alma simplesmente penetrava no Kur, uma espécie de Inferno, onde ficava eternamente vagando sem objetivo. Antes de chegar a esse lugar ela precisava atravessar o rio devorador do homem, conduzida pelo homem da barca. Posteriormente, na Grécia, o rio seria o Estige, e o condutor da barca, Caronte.
Para as culturas subseqüentes da Mesopotâmia — na Assíria e Babilônia — a vida no além era igualmente terrível. Tanto as almas dos poderosos quanto dos humildes iam para o Arallu, um mundo subterrâneo sem ar ou alimentos, do qual ninguém jamais retornava. Demônios vigiavam as sete barreiras que separava o lugar da região dos vivos, e toda recompensa por uma vida correta era distribuída durante a própria existência, desde que os deuses não fossem desagradados.
    Não fugindo à regra, os fenícios viam as almas como sombras, vivendo num mundo sem prazeres. Apesar disso, tomavam todo o cuidado para que elas sobrevivessem, conservando os cadáveres e sepultando-os com objetos pessoais, tradição que pode ter sido absorvida dos egípcios. Os historiadores entendem que a imagem da vida após a morte que os patriarcas da religião judaica tinham era a mesma que prevalecia no tempo de Samuel e dos Reis — ou seja, uma vida sem qualquer atrativo, numa região subterrânea e sombria chamada Sheol, o país das trevas, do caos e do silêncio, onde as almas não podiam agir e louvar a Deus. Essa idéia modificou-se a partir do século I a.C., quando já se ouve mencionar a felicidade reservada aos justos. Nessa época também surge a idéia da ressurreição dos mortos e da eficácia das orações às almas para libertá-las dos pecados, o que posteriormente impregnou o pensamento cristão. O 13º artigo de fé do judaísmo, segundo fixado pelo teólogo Maimônides (1135–1204) diz que Deus dará vida aos mortos.
    A noção de julgamento das almas e ressurreição, que se tornou tão comum com a disseminação do cristianismo, também existia no masdeísmo — a religião dos persas, uma modificação do zoroastrismo original. As almas deviam atravessar uma ponte gigantesca, suspensa sobre um abismo: os justos conseguiriam atravessá-la, os maus cairiam despencariam no precipício.

A Vida no Além
    Existem controvérsias sobre qual seria a mais antiga visão sobre o mundo após a morte. Para a maioria dos ortodoxos, a versão egípcia é mais antiga que a hindu, mas existem propostas paralelas que citam antecedentes às duas culturas, remontando à Atlântida e Lemúria, com datas que vão de 500 mil até 18 milhões de anos atrás, quando seres de outros planetas teriam chegado à Terra trazendo informações técnicas e um sistema de pensamento já bastante elaborado.
Um exemplo dessa dificuldade em datar corretamente os acontecimentos é o Bardo Thödol, ou Livro Tibetano dos Mortos. Segundo se diz, a obra é uma adaptação budista — portanto, mais recente — de uma tradição tibetana antiga, situada em épocas variadas de acordo com a interpretação. Basicamente, a obra estuda o período entre a morte e o renascimento, os diferentes estados de existência e os seres que povoam o Universo.
    Sabe-se que 3 mil anos antes de Cristo já se falava sobre vida após a morte e reencarnação no Egito, daí muitos pesquisadores entenderem que a doutrina hindu surgiu posteriormente. Por outro lado, existe uma grande dificuldade de datação das culturas indianas anteriores ao bramanismo, baseadas nos Vedas. A data mais comum atribuída à elaboração dos Vedas é 1.500 a.C., mas inúmeros historiadores entendem que já existia uma civilização muito evoluída bem antes disso, talvez alguns milhares de anos, de modo que a noção de reencarnação — envolvendo um período em que a alma ou espírito passa no além se preparando para o retorno — seria bem mais antiga do que se supõe. Não são poucos os que vêem a Índia como o ponto de origem das noções sobre o além, ou mesmo que a Índia tenha herdado conhecimentos de civilizações ainda mais antigas, das quais só ouvimos falar através das lendas.
    Um exemplo dessa antiguidade é o chamado Código de Manu, ou Leis de Manu, documento que se refere à reencarnação e vida depois da morte, e cuja composição os historiadores creditam entre o século II a.C. e II d.C., mas que lendariamente é atribuído ao próprio Brahma, numa época muito mais recuada. Ali existem referências às torturas do Inferno infligidas por Yama, e às delícias do paraíso, chamado Swarga.

Visão Ocidental
    As descrições da vida após a morte chegaram ao Ocidente através do cristianismo, mais especialmente do catolicismo, cuja visão é a mais difundida. As descrições e imagens de um Inferno, um Purgatório, um Limbo e um Paraíso já se tornaram clássicas. Nesse mundo do além, na melhor das hipóteses, os que estiverem livres de pecado irão para o paraíso, onde verão Deus por percepção direta, e não indireta como ocorre na Terra. Assim, a tendência é considerar que o Paraíso é a contemplação eterna de Deus, e o Inferno a privação da felicidade que advém disso. Da mesma forma, o islamismo aceita a vida após a morte. Na verdade, segundo pesquisadores, todos os profetas referiram-se à necessidade de acreditar na vida além-túmulo, afirmando que a menor dúvida sobre essa realidade significaria negar a própria existência de Deus.
    A noção católica acabou sobrepondo-se às demais na Europa, ou incorporando outras, como a dos gregos, que igualmente acreditavam em um julgamento e numa uma espécie de Paraíso, os Campos Elíseos. Para vários dos chamados povos bárbaros europeus as almas podiam dirigir-se a um lugar especial depois da morte, como o Walhalla, que os guerreiros vikings podiam atingir se tivessem uma morte honrosa no campo de batalha. Os celtas também acreditavam na imortalidade da alma, mas segundo estudos, a vida imaterial que os druidas preconizavam não era apresentada como recompensa aos guerreiros valorosos: na verdade, ela era igual à que eles tinham na Terra, mas o Outro Mundo pertencia aos deuses e seres sobrenaturais.
    Foi mais recentemente — a partir de meados do século XIX, com a introdução das teorias teosofistas e kardecistas — que as noções de reencarnação e de um mundo extrafísico extremamente ativo propagou-se no Ocidente. Em 1848, o interesse público foi despertado pelos supostos contatos que as irmãs Fox estabeleceram com os desencarnados e, a partir de 1854, Allan Kardec começou suas investigações de caráter científico sobre do mundo dos espíritos, culminando com sua primeira e mais conhecida publicação, O Livro dos Espíritos, em 1857. Em 1875, foi a vez de Helena Petrovna Blavatsky fundar a Sociedade Teosófica, que recuperava antigas tradições orientais sobre o mundo espiritual e a vida pós-morte, tornando-as mais acessíveis ao ocidental.
    Depois disso, as coisas nunca mais foram as mesmas. A visão restrita dos cristãos foi sendo cada vez mais repelida em favor de um mundo extremamente complexo e muito bem organizado no além, com suas próprias leis. Na Europa e EUA as pessoas tentavam, de todas as formas e muitas vezes por meio de falsos médiuns, se comunicar com espíritos de parentes, para saber exatamente o que os esperava depois da vida.
    Kardec referiu-se a espíritos desencarnados vivendo em Júpiter e outros planetas do sistema solar, ainda que numa dimensão diferente daquela em que vivemos, com descrições mais ou menos detalhadas desses ambientes. Na linha do espiritismo, algumas das descrições mais surpreendentes sobre o mundo do além vieram do espírito André Luiz, por meio do médium Chico Xavier. Ele fez inúmeras referências ao local chamado Nosso Lar — na verdade uma série de cidades existentes no plano astral e normalmente invisíveis aos nossos olhos. Quem já leu as descrições contidas na obra de André Luiz e está familiarizado com livros de ficção científica pode encontrar várias semelhanças, como cidades futuristas com um fantástico sistema de transporte, administração, locais de trabalho, alimentação e diversão, mas sempre com objetivos um tanto diferentes dos nossos. Essas cidades, ainda segundo os relatos do espírito, possuem hospitais, onde desencarnados são atendidos e preparados tanto para o que precisam saber sobre a nova vida como tratados dos males que trazem da vida material.
    Mais recentemente, as pesquisas em torno das chamadas experiências de quase-morte também abriram um novo campo de especulações sobre o mundo do além, especialmente a partir dos trabalhos de Raymond Moody e Elizabeth Kubler-Ross. O que se tem constatado é que pessoas clinicamente mortas durante alguns minutos, especialmente em meio a cirurgias, chegaram a ter visões dessa dimensão, ainda que sem a riqueza de detalhes que as religiões mais antigas nos fornecem.
    Os conceitos apresentados por diferentes linhas de pensamento, inclusive o que pôde ser constatado por intermédio das experiências próximas da morte, encontram notáveis semelhanças. Por exemplo, na vida astral a mente é o elemento mais importante do homem: os padrões de pensamento nutridos durante a vida material são o que determinará a condição em que o espírito irá se encontrar quando abandonar o corpo físico. Geralmente, os que acreditam em uma realidade maior são recebidos no além por parentes ou amigos desencarnados, que o ajudam na transição, enquanto os puramente materialistas tendem a permanecer envoltos por uma espécie de névoa acinzentada — alguns sem sequer perceber que morreram fisicamente —, presos ao plano vibracional da Terra. Essa condição só muda quando o espírito consegue tomar consciência de seu estado e aceitar ajuda de entidades cuja função no além é auxiliar as almas errantes a encontrarem a luz.
    Outro fato curioso, presente em quase todo o pensamento espiritualista, é que no astral, dependendo do grau de evolução, a pessoa possui um corpo muito semelhante ao que ela deixou na Terra, só que mais sutil e capaz de captar sensações bem mais intensas. Alguns chegam a dizer que a vida material é uma versão em câmera lenta da vida astral, onde tudo é mais intenso — razão pela qual aprender a controlar a mente enquanto se está vivo é da maior importância. Através da mente, é possível materializar objetos, locomover-se com velocidade espantosa e até criar um ambiente particular, de acordo com as visões de conforto e beleza que a pessoa tem.
    Muitos espíritos relatam, através de médiuns, que em determinadas faixas vibracionais do astral é possível até mesmo manter relações sexuais. E para aqueles que, cansados da sua condição precária na Terra pensam em tirar a vida na esperança de encontrar um mundo melhor do outro lado, aqui vai um alerta: todas as correntes espiritualistas apontam o suicídio como uma das mais graves formas de violação das leis naturais, já que o ser humano é um microcosmo onde coexistem todos os princípios da criação. As conseqüências, portanto, são terríveis — na verdade, existem obras inteiras descrevendo a condição astral de uma alma que cometeu colocou fim à sua vida na Terra.
    O certo em tudo isso é que o tema vida pós-morte continua mexendo com as pessoas, e essa busca por maiores informações deve aumentar consideravelmente no futuro próximo com o avanço da transcomunicação instrumental — uma forma de manter contato com os mortos através de aparelhos eletrônicos.
    Algum sábio já disse que a morte é o mistério maior da humanidade, e apesar de todos os avanços da civilização moderna, nesse ponto nada mudou: hoje, assim como no passado mais remoto, todos querem saber o que está à nossa espera do outro lado da vida.

Para Saber Mais:
Bardo Thödol, O Livro Tibetano dos Mortos (Ed. Hemus)
O Livro das Religiões – Victor Helern, Henry Notaker e Jostein Gaarder (Cia. Das Letras)

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