A Parapsicologia Hoje

2009-05-05 19:01

As pesquisas e desenvolvimentos teóricos da Parapsicologia passaram por muitas modificações nos últimos anos e vêm ganhando espaço cada vez maior no meio acadêmico.

Gilberto Schoereder

    Convidamos o professor Wellington Zangari, coordenador do Grupo Inter Psi, da PUC de São Paulo, para falar sobre a atual situação da Parapsicologia em todo o mundo, particularmente no Brasil, onde os estudos científicas sobre o tema têm caminhado a todo vapor.
    Além de fornecer um panorama mais correto de como as pesquisas podem ser entendidas hoje em dia, percebemos que – apesar de não estar sendo muito divulgada na mídia –, a pesquisa científica evoluiu muito e está presente em algumas das universidades mais importantes do mundo.
Comece a entender melhor o que se passa no fascinante universo parapsicológico nesta primeira parte da entrevista com Wellington Zangari, cuja seqüência será publicada na próxima edição da Sexto Sentido.

O que pode ser compreendido atualmente como Parapsicologia?
    Quando se fala em parapsicologia e parapsicólogo, imediatamente vêm à cabeça dos brasileiros certas imagens e idéias. Alguns associam os termos à figura do Padre Quevedo que, por décadas, vale-se de sua ‘parapsicologia’ como ferramenta para combater o Espiritismo e as demais religiões mediúnicas, e para defender a existência dos milagres, que ocorreriam exclusivamente em ambiente católico. Outros associam os dois termos a certos processos de cura alternativa ou ao desenvolvimento da paranormalidade. Outros ainda, autodenominados parapsicólogos, apresentam-se como pessoas capazes de realizar feitos insólitos, como fazer previsões, ler pensamento, mover objetos, enfim, paranormais. Nada disso corresponde à Parapsicologia e à atribuição das pessoas engajadas cientificamente nessa área.
    Sou grato ao Padre Quevedo por ter, de alguma forma, mantido o tema em discussão. Seu trabalho contra o charlatanismo deve ser imitado. Por outro lado, o que ele denomina Parapsicologia não passa de uma miscelânea de informações e opiniões pessoais combinadas de tal forma a corroborar com suas posições religiosas. A Parapsicologia tampouco é uma técnica de cura ou desenvolvimento da paranormalidade, uma vez que não há qualquer evidência científica de que tais técnicas parapsicológicas sejam eficazes.
    A Parapsicologia é uma disciplina que tem como objeto de estudo experiências humanas que parecem revelar uma capacidade de conhecer algo sem o uso dos sentidos conhecidos, de agir sobre o meio sem utilizar-se dos músculos ou de qualquer outra força física conhecida. Em outras palavras, é uma disciplina que pesquisa a possibilidade de existirem fenômenos extra-sensório-motores.
    Os parapsicólogos não explicam tais experiências como violações das leis científicas conhecidas. Quando alguém diz que sonhou com um fato ocorrido no futuro, por exemplo, muitas vezes não há como excluir a coincidência, o erro de interpretação, a má fé, o engano, a fraude deliberada, a loucura. É dever dos pesquisadores levar tais hipóteses em consideração antes de apelarem para explicações paranormais. A existência dessas capacidades humanas é uma hipótese que, como qualquer outra, deve ser colocada à prova pela observação e experimentação. O cientista, por outro lado, não pode simplesmente negar a possibilidade de existirem sonhos precognitivos antes de estudá-los. A existência de fenômenos como a telepatia, a precognição e o que popularmente se chama de poder da mente sobre a matéria têm sido alvo de estudos científicos sistemáticos desde o final do século XIX, com a criação da Sociedade de Pesquisas Psíquicas, em Londres, da qual faziam parte William James, Sigmund Freud, Carl G. Jung, entre outros sábios eminentes.
    Desde então, os métodos se sofisticaram, desde a observação direta de médiuns até complexos experimentos que utilizam geradores de eventos aleatórios. A pesquisa se aprimorou para realizar os testar da maneira mais controlada possível, excluindo hipóteses alternativas. Atualmente, as pesquisas são feitas em dezenas de universidades e centros de estudo ao redor do mundo e apresentadas em congressos e revistas, tanto de Parapsicologia como de outras áreas, o que representa uma abertura crescente do mundo científico e acadêmico para tema.
    O que pode surpreender os leitores é que, internacionalmente, o termo parapsicologia está em desuso. Há um crescente reconhecimento de que os estudos não se posicionam ao lado da Psicologia. Ora, se o que pesquisamos são tipos específicos de experiências humanas, eles devem ser, como qualquer outra experiência humana, objeto de estudo da Psicologia. Mais do que isso, as implicações de tais experiências com aspectos físicos, biológicos, filosóficos e religiosos estabelecem um campo amplo, em que deveriam atuar todas estas áreas de maneira interdisciplinar. No Brasil estamos utilizando pesquisa de psi quando nos referimos a esse campo, não apenas para facilitar a dissociação com o que tradicionalmente se considera Parapsicologia, mas também para marcar uma mudança de atitude.

Em que situação se encontra a parapsicologia hoje, no mundo e no Brasil?
    Do ponto de vista da organização internacional, os pesquisadores com propósitos científicos contam com a Parapsychological Association (PA), uma instituição profissional que congrega centenas de pessoas de todos os continentes. Desde 1969 a PA é membro da American Association for Advancement of Science (AAAS), o que revela sua importância institucional. Em 1995, membros da PA residentes em países ibero-americanos criaram a Associación Iberoamericana de Parapsicología (AIPA), que atualmente congrega cerca de uma centena de pesquisadores e interessados. Academicamente, as mais importantes instituições são a Koestler Chair of Parapsychology, da Universidade de Edimburgo, e o Princeton Engeenering Anomalies Research Laboratory, da Universidade de Princeton.
    Além da Universidade de Edimburgo, há mais 4 instituições acadêmicas na Inglaterra que, no final da década de 90, abriram programas de pós-graduação e pesquisa na área. Além disso, Alemanha e Portugal contam com as principais fundações de fomento de pesquisas científicas de Psi no mundo, oferecendo bolsas para pesquisadores inclusive do Brasil.
    No Brasil, temos alguns institutos atuantes em Pernambuco, Paraná e São Paulo. Outros estão se iniciando em Minas Gerais e no Ceará. Além disso, há muitos estudiosos isolados em todo o território, muitos até desconhecidos. Temos feito um esforço para conhecer e colocá-los em contato entre si por meio do Fórum Virtual de Pesquisa Psi, nossa lista de discussões pela Internet. Creio que o Fórum têm cumprido seu papel, uma vez que nunca em nossa história tivemos a oportunidade de estabelecer contato permanente com cerca de 60 pessoas, de várias formações acadêmicas, interessadas séria e cientificamente em Psi.
    Não posso deixar de dizer que nosso grupo (Grupo de Estudos em Semiótica, Interconectividade e Consciência, do Centro de Estudos Peirceanos, do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Semiótica da PUC-SP) é um dos poucos a se estabelecer dentro de uma universidade, o que mostra um amadurecimento e uma esperança. Temos duas dissertações de mestrado concluídas e outras em processo de desenvolvimento de projeto, além de duas teses de doutorado e uma de pós-doutorado em andamento. Isso é muito significativo em um país que gerou, em toda a história anterior à formação do grupo, apenas duas teses de doutorado sobre Psi.
    Creio que o que está por baixo dessa evolução da Parapsicologia no mundo é o resultado positivo das pesquisas. Atualmente sabemos muito mais a respeito do funcionamento de Psi. Conhecemos muitas variáveis que interferem em sua manifestação. Isso nos permite, inclusive, predizer certos resultados. Sabemos, por exemplo, quais características de personalidade, atitudes e estados psicofisiológicos são mais adequados para obtermos resultados significativos em testes de percepção extra-sensorial. Descobriram-se correlações positivas e consistentes entre variáveis físicas, como a influência dos campos geo-magnéticos sobre a eclosão de experiências Psi espontâneas e provocadas no laboratório. Há muitos resultados experimentais que têm se mostrado consistentes (com os mesmos bons resultados) ao serem repetidos por diferentes pesquisadores, e mesmo por céticos, que fizeram a Parapsicologia sair da obscuridade e se tornar mais aceita pela comunidade científica.
    Mas há um terreno fértil para o desenvolvimento da Parapsicologia. Desenvolvimentos recentes no campo da Física e das Ciências Cognitivas têm atraído a atenção dos cientistas para o estudo da consciência e, conseqüentemente, das implicações de Psi na exploração dos limites de ação da consciência. Ao fazer um levantamento das publicações da área da Psicanálise no Brasil, me surpreendeu a quantidade de artigos sobre o que eles estão chamando de comunicação intuitiva, que em última instância trata-se de processos aparentemente telepáticos entre analista e analisando. Na área da Comunicação e Semiótica há um crescente interesse por processos de anômalos de comunicação. Esses exemplos mostram um panorama auspicioso para a pesquisa de Psi para o futuro próximo.

Que tipo de discussões teóricas estão sendo realizadas no Brasil?
    As discussões refletem o momento de impasse que vive a pesquisa Psi. Se, por um lado, temos registradas experiências espontâneas aos montes – como dados experimentais altamente significativos em favor da realidade de Psi –, por outro, não temos uma teoria capaz de dar conta de sua interpretação. Sabemos que temos algo nas mãos, mas não sabemos como compreendê-lo totalmente. Não é que não existam teorias de psi. Ao contrário, temos muitas. Esse é o problema.
    Cada uma delas trata de um grupo de fenômenos, o que cientificamente não é aceitável. Ou a teoria explica tudo ou não tem condições de ser aceita. Não temos uma teoria suficientemente abrangente capaz de dar conta tanto das pesquisas de casos quanto as experimentais. Alguns céticos acham que, pelo fato da pesquisa de Psi não ter uma teoria completa, ela não deveria ser aceita. Ora, muito do que estudamos nas ciências reconhecidas não encontra respostas teóricas satisfatórias. É o caso do cérebro, da consciência, da energia e até mesmo de fenômenos aparentemente menos complexos.
    Apesar disso, temos discutido algumas teorias que parecem promissoras. As principais se amparam na Física Moderna e/ou Psicobiologia. Ao contrário do que se costuma imaginar, a tentativa primeira dos pesquisadores de Psi não é procurar interpretações paranormalóides, ou seja, fora do âmbito teórico convencional. Considera-se que, se psi é um fenômeno natural, normal e até comum, deve poder ser compreendido pelas teorias vigentes, ainda que estas tenham de sofrer algumas modificações ou expansões para acomodarem Psi. Basicamente, temos as teorias observacionais, baseadas na Física Quântica. A partir do momento em que a própria Física descobriu um lugar para a consciência, afirmando que esta poderia influenciar aquilo que é observado, os fenômenos Psi encontraram algum respaldo. Há vários físicos que se perguntam se a mente não poderia agir diretamente sobre o mundo físico, alterando-o de alguma forma. Psi, então, seria um fenômeno absolutamente comum, existente nas interações mais elementares. Agregada a esta teoria, há desenvolvimentos sobre o motivo e a direção desta interatividade. Algumas teorias psico-biológicas sustentam que Psi seria uma ferramenta a serviço da sobrevivência da espécie, e que cada ser vivo a utilizaria de acordo com suas necessidades biológicas e psicológicas. Apesar de relativamente recentes, alguns teóricos de Psi já puderam organizar grupos de evidências experimentais favoráveis às suas hipóteses básicas. São teorias promissoras que se desenvolvem rapidamente. Creio que dentro de dez anos teremos uma teoria ampla e satisfatória de Psi.

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