A Parapsicologia Hoje - Parte 2
2009-05-05 19:24Apresentamos a segunda parte da entrevista com o professor Wellington Zangari, coordenador do Grupo Inter Psi, da PUC de São Paulo, falando sobre os avanços dAs pesquisas parapsicológicas no Brasil e no mundo.
Gilberto Schoereder
Estão sendo realizadas experiências de psi no Brasil?
Você tocou no ponto nevrálgico. Enquanto um país não realiza seus próprios estudos em pesquisa psi, sejam eles experimentais ou de casos espontâneos, não está em pé de igualdade com países em que há grande tradição de pesquisas. Até há poucos anos, o Brasil era apenas alvo de interesse de estudiosos estrangeiros. Felizmente, este panorama está se modificando – graças, sobretudo, ao intercâmbio que tem se estabelecido entre os jovens pesquisadores brasileiros com a comunidade psi internacional. Por exemplo, vários brasileiros participaram do Programa de Estudos de Verão, oferecido pelo Rhine Research Center, em Durham, Carolina do Norte, EUA. É um curso de dois meses, baseado na transmissão de técnicas de pesquisa. Respondendo objetivamente à sua pergunta: sim, agora que estamos preparados e amparados para realizar pesquisas. Especificamente em relação às experimentais, há importantes estudos em andamento. Fábio Silva, de Curitiba, está realizando pesquisas psi-ganzfeld, seguindo a tradição de Vera Lúcia Barrionuevo e Tarcísio Pallú, os primeiros a fazer esses estudos em Curitiba. Outro curitibano, Ricardo Eppinger, acaba de terminar seu doutorado em Psicologia pela Universidade de Edimburgo através de uma pesquisa psi-ganzfeld. O Instituto de Pesquisas Psicobiofísicas de Pernambuco está se preparando para também desenvolver projetos desse tipo.
Nós, no Inter Psi, já realizamos seções-piloto de psi-ganzfeld e pretendemos ampliá-la nos próximos meses. Precisamos de voluntários! Ganzfeld, do alemão, significa campo completo, campo homogêneo. Trata-se de uma técnica criada por psicólogos da Gestalt, durante a década de 1950, com o objetivo de propiciar um estado psicofisiológico capaz de fazer o cérebro produzir maior quantidade de imagens mentais. O sujeito experimental recosta-se em uma poltrona ou cama. Seus olhos são cobertos com metades de bolinhas de pingue-pongue, sobre as quais incide luz vermelha. O sujeito fica de olhos abertos e sua visão não percebe alterações, daí o nome campo homogêneo. Além disso, usam-se fones de ouvido transmitindo ruído branco (som de rádio fora de estação). Essa técnica parece induzir estados alterados de consciência que, como já se conhece há séculos, favorecem a percepção extra-sensorial espontânea. Por isso, em meados da década de 1970, os pesquisadores de psi viram nessa técnica um meio de reproduzir a percepção extra-sensorial de maneira simples e controlada.
Apesar da complexidade do equipamento utilizado, o experimento é simples. Há, basicamente três pessoas envolvidas: o emissor, o receptor e o experimentador. O emissor é o responsável por tentar transmitir alguma imagem ou vídeo-clipe, que chamamos de alvo. O receptor é a pessoa que está em ganzfeld, com as bolinhas de pingue-pongue e fones de ouvido, e tentará manter sua mente aberta para receber o alvo. O experimentador controla os equipamentos de escolha aleatória dos alvos e de registro. Começa a seção psi-ganzfeld. O computador escolhe aleatoriamente uma entre centenas de imagens ou vídeo-clipes. O emissor, e só ele, vê o alvo em seu monitor e tenta transmiti-lo ao receptor. O receptor, por sua vez, diz em voz alta tudo o que lhe vem à mente: idéias, imagens, sentimentos e sensações. Tudo é registrado para posterior análise. É importante dizer que emissor e receptor estão separados e incomunicáveis durante o experimento. As salas, quando no mesmo prédio, são magneticamente invioláveis. Trinta minutos depois, o receptor retira as bolinhas de pingue-pongue dos olhos e os fones de ouvido, olha para o monitor a sua frente. Nele aparecem quatro imagens ou vídeo-clipes. O receptor, então, escolhe a imagem ou clipe que mais se assemelhe às suas imagens mentais. Depois disso, experimentador e emissor entram em suas salas para verificar se houve acerto ou não. Muitas vezes, a descrição do emissor é exatamente igual à do alvo. Essa pesquisa tem sido realizada às centenas pelo mundo e, apesar de muita polêmica na interpretação dos resultados, parece haver nela uma forma de repetir resultados estatisticamente favoráveis à hipótese de existir percepção extra-sensorial.
Várias pesquisas têm sido realizadas em outras áreas no Brasil, sobretudo de casos espontâneos. Em nosso grupo, por exemplo, temos pessoas estudando a comunicação intuitiva entre psicanalista e psicanalisando; relatos de experiências poltergeist; processos anômalos de comunicação entre membros de grupos ocultistas; psi e jogos de azar, entre outras coisas. Toda essa movimentação é muito significativa e representa avanço qualitativo e quantitativo do estudo psi no Brasil.
Como a parapsicologia se coloca, hoje, com relação aos casos de assombração, fantasmas e aparições? Sabe-se que existem muitas teorias interessantes – como a da influência do eletromagnetismo –, mas nada comprovado, segundo me parece. Ainda são feitos muitos estudos in loco, como nos casos dos poltergeists, que não podem ser reproduzidos em laboratório?
Essa é uma área fascinante. No Brasil, há muita discussão sobre a objetividade ou não das assombrações, fantasmas e aparições. Ou seja, as pessoas se digladiam defendendo ou não a existência concreta de entidades espirituais. A Parapsicologia adotou uma perspectiva fenomenológica para lidar com tais casos. Isso significa que estamos interessados em extrair deles o máximo, tanto do ponto de vista do experienciador(a), quando das situações de sua ocorrência. Queremos saber que características cognitivas e afetivas tais pessoas possuem, como eram as imagens vistas em todos os seus detalhes, quantas pessoas participaram da mesma experiência, quais as condições físicas do local da ocorrência.
Para que tudo isso? Para saber se há semelhanças que nos permitam reconhecer traços comuns entre os casos narrados. E há. Por exemplo, nos locais em que ocorreram os casos de aparições pesquisados modernamente foi verificada uma concentração de força eletromagnética. A partir dessa constatação, abre-se um grande número de interrogações, de hipóteses que devem ser testadas: será que algumas pessoas teriam a capacidade de sentir tais concentrações, como acontece com muitos animais? Será que estas pessoas, sensíveis ao eletromagnetismo, poderiam ser levadas a alucinar com maior facilidade? A concentração eletromagnética poderia interferir no funcionamento cerebral e, assim, mudar a capacidade perceptiva das pessoas? Ou será que há pessoas que produzem a concentração de campos eletromagnéticos?
Essas são hipóteses que estão sendo testadas. Para tanto, são realizados muitos estudos in loco. Os estudos de William Roll e Andrew Nichols são exemplos disso – este último publicou recentemente um interessante caso de poltergeist ocorrido na Flórida, diferente daqueles já conhecidos, em que pedras caem sobre o telhado de casas e fogo surge aparentemente do nada. Além de relatos de desaparição de objetos e sons estranhos, os moradores contaram que se sentiam borrifados por água à noite, na cama, e também durante o dia, enquanto executavam suas atividades habituais em diferentes partes da casa. A quantidade de água parecia aumentar com o tempo, sendo registrados, em uma ocasião, vários galões de água. Os especialistas não descobriram vazamentos nem infiltrações. Fraudes não foram verificadas. Mas os pesquisadores descobriram uma taxa excessivamente alta de campos eletromagnéticos nos locais das ocorrências, significativamente maior do que onde nenhuma ocorrência havia sido registrada. Os fenômenos aquáticos desapareceram desde que uma das moradoras iniciou seu processo psicoterapêutico. Em alguns casos que estudamos no Brasil ocorreu o mesmo.
Mas há também pesquisadores interessados em estudos laboratoriais. Convidam voluntários para terem experiências de aparição em um laboratório, enquanto seu funcionamento cerebral está sendo monitorado. Persinger, um psico-neurofisiólogo do Canadá, por exemplo, conseguiu reproduzir em laboratório a sensação de presença estimulando eletromagneticamente certas regiões do cérebro. As pesquisas de campo e experimentais convergem para indicar que há uma somatória de fatores responsáveis pelo acionamento de ocorrências desse tipo, principalmente psicológicos, culturais e físicos. Fátima Regina Machado, do nosso grupo, está desenvolvendo uma tese de doutorado sobre o tema.
Parece existir mais de um posicionamento com relação aos chamados fenômenos parapsicológicos ou psi. Alguns pesquisadores tratam a questão como se fenômenos como a telepatia, clarividência e outros – que podem ser reproduzidos em condições cientificamente controladas – já estivessem devidamente comprovados, enquanto outros se manifestam como se nada estivesse comprovado. Como devemos encarar essa questão?
Um importante pesquisador de psi, Richard Broughton, escreveu em seu livro que uma vez foi procurado por um repórter, que lhe perguntou: “O senhor acredita em coisas como percepção extra-sensorial?”. Ele respondeu: “Não, não acredito. Eu estudo evidências”. Essa narrativa serve perfeitamente para introduzir o assunto. Muitos acham que os parapsicólogos aceitam incontestavelmente a existência dos fenômenos paranormais, mas não é bem assim. Há pessoas envolvidas no campo psi que têm um posicionamento cético, ou seja, sustentam que as evidências (abolimos o termo prova do jargão científico) para a percepção extra-sensorial e psicocinesia não são suficientes para se afirmar que a psi existe. Mas há outros que dizem o oposto. As discordâncias não estão apenas relacionadas à diferença de conhecimento específico da área, mas principalmente ao conceito do que é uma ‘evidência forte’ e de diferenças quanto à interpretação dos resultados experimentais. Basicamente, alguns afirmam que ainda que os experimentos obtenham resultados favoráveis à hipótese da percepção extra-sensorial, não é possível jamais afirmar se estes existem ou não. A coisa parece confusa, mas há lógica aí, porque a demonstração de psi é sempre feita indiretamente, como em qualquer experimento, por meio de resultados numéricos que diferem daqueles que se esperariam pelo mero acaso. Há uma diferença, mas como explicá-la? Alguns afirmam que pode ter ocorrido fraude. Outros alegam a possibilidade de erro metodológico ou dos cálculos. Mas, pouco a pouco, as técnicas têm se aprimorado e tais erros vão sendo diminuídos por precauções metodológicas e pela presença de mágicos e observadores céticos no experimento. Ainda assim, os resultados permanecem favoráveis à psi na maioria dos experimentos.
Claro que, como em qualquer área, há fanáticos dos dois lados. Há os que consideram tudo paranormal. Há os que consideram psi uma impossibilidade lógica, portanto, inexistente. Ambos os entusiastas militam em seus grupinhos e não dialogam. Esses dois extremos não ajudam a pesquisa científica. Minha posição pessoal é que só a pesquisa científica pode auxiliar a avaliação de hipóteses, sejam elas favoráveis ou contrárias a psi. É por isso que faço questão de convidar céticos e parapsicólogos para a lista que mantemos.
Mas quero dar minha opinião pessoal a respeito do tema. Faço questão de dizer em que lado estou e por quê. Em primeiro lugar, não tenho, como muitos, qualquer interesse pessoal de que a psi exista. Não sou religioso e até posso me considerar um agnóstico. Assim, não vejo na psi uma possibilidade de provar ou legitimar minhas crenças religiosas ou aspirações espirituais. Isso não significa que eu não reconheça a importância da religião para muitas pessoas. Apenas sustento que ela não precisa ter, obrigatoriamente, um papel preponderante na vida de todos. Além disso, se a psi sustenta ou não esta ou aquela idéia ou crença religiosa, essa é uma questão em aberto. Em segundo lugar, vejo a ciência como um processo dinâmico, em que as verdades de um determinado momento histórico podem ser abandonadas se novas surgirem. As verdades científicas são as teorias, mas as teorias são social, histórica e culturalmente construídas. Assim, não me importa nada se a psi cabe ou não nas teorias científicas atuais. Importa-me saber se a psi existe de fato e, se existir, que as teorias sejam modificadas para acomodar o conceito. Se isso não for possível, que novas teorias sejam construídas.
Por fim, quero deixar claro o principal: vejo os dados obtidos pelas pesquisas como extraordinariamente favoráveis à existência de psi. E aqui eu realmente me entusiasmo. Apenas um exemplo para terminar: o mundo inteiro consome Aspirina, não apenas como poderoso analgésico, mas porque sabe-se que o ácido acetil salicílico, seu componente ativo, age como elemento anticoagulante do sangue, prevenindo ataques cardíacos. Para aceitar esta conclusão, os cientistas tiveram que realizar centenas, milhares de experimentos em que, na maioria das vezes, o resultado esperado foi atingido. Pois bem, a profa. Jessica Utts, estatística da Universidade da Califórnia, realizou um levantamento de todos os estudos psi de determinada categoria. Entraram todos os estudos, tanto favoráveis quanto os desfavoráveis à psi, e aplicou a mesma forma de tratamento dos dados utilizada no estudo da Aspirina. Resultado: estatisticamente, temos muito mais segurança da existência de psi do que do efeito do ácido acetil salicílico sobre os ataques cardíacos. Por que a psi não deveria existir?
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