A Magia Viking

2009-05-04 14:31

Os mistérios que envolvem o conjunto de letras chamadas de runas — presentes em monumentos que vão do norte da Europa à Ásia meridional — têm gerado uma constante procura por suas origens e significados. Muitos ocultistas vêem cada um dos símbolos como uma ponte entre a antiga e a nova magia.

Alex Alprim

    As runas são consideradas um enigma pelos estudiosos e ocultistas, enigma este que já tem início na própria origem da palavra, derivada do celta antigo: run, cujo significado é mistério ou oculto. O termo também encontra similaridade no galês ancestral, rhin, no inglês arcaico, to rown e no alemão, raunen.
    O estudo das runas tem atraído cada vez mais pesquisadores e praticantes de magia, já que elas não são apenas um conjunto de letras, mas um poderoso alfabeto mágico e divinatório. Esse alfabeto pode ser usado tanto para gerar feitiços e talismãs de grande poder, como antever acontecimentos e prever seus resultados. Nos últimos tempos descobriu-se muito sobre as runas e seus significados em virtude de diversos achados arqueológicos, mas essas novas informações ainda são insuficientes para desvendar suas origens e finalidades místicas.
    O alfabeto é conhecido como futhark ou futhork, dependendo da fonte. Essa palavra é formada pelo nome das primeiras letras que o compõem (o alfabeto latino deriva do grego – alfa, beta). Existem quatro futhorks conhecidos hoje em dia: o viking, com 18 runas; o anglo-saxão, com 29; o germânico tradicional, com 24; e o notumbriano, considerado pelos altos iniciados em magia como o mais forte e elaborado futhark mágico, com 33.
    As runas possuem uma peculiaridade em relação às suas formas e significados que só encontram paralelo no alfabeto hebreu. Além dos sons de cada letra, as letras também possuem significado próprio, ou seja, são sinônimo de determinada palavra. Feoh, por exemplo, significa gado, is é gelo, e assim por diante. Graças a isso, muitos textos rúnicos puderam ser transmitidos a regiões de diferentes idiomas, tornando-se um poderoso elemento de união entre os povos do norte da Europa — não só por essa razão, mas porque também constituíam um fator de união religiosa, como depois seria o latim para os cristãos.

A Origem
    Apesar das dúvidas sobre a origem das runas, historicamente é possível situar seu nascimento por volta do século II a.C. Os estudiosos acreditam que o alfabeto tenha se originado por influência dos povos que fugiam para o norte da Europa devido à expansão do Império Romano. Contudo, há não como ter certeza sobre as datas, já que as evidências arqueológicas surgem na forma de inscrições em túmulos, em armaduras e armas, e não permitem uma análise científica mais acurada.
    Já a origem mística das letras está ligada ao panteão de deuses nórdicos. Odin, o deus supremo do norte europeu é considerado ‘aquele que descobriu e divulgou as runas’. Segundo consta em vários poemas épicos, Odin teria feito um auto-sacríficio para obter o conhecimento dos símbolos, ficando dependurado por nove dias e nove noites em jejum, sem tomar água sequer. O segredo lhe teria sido revelado como em um êxtase xamânico e, utilizando-as letras, ele seria capaz de conhecer o futuro para auxiliar deuses e homens.
    Contudo, na obra Mitologia Nórdica o escritor Heinrich Niedner apresenta uma visão diferente sobre a real natureza de Odin. Para ele, existe um Odin mitológico e um histórico, e teria sido este último que, possuindo conhecimento da escrita grega e latina, adaptou as línguas locais para fortalecer a união dos povos e sobrepujar o Império Romano.
    Alguns estudiosos seguem por outra linha, afirmando que as runas são na verdade um legado dos povos antigos — elfos, anões e reis místicos que teriam habitado a região norte da Europa antes da chegada dos homens. Com o avanço das tribos nômades em direção ao norte, esses seres teriam ensinado sua língua e costumes a muitos, inclusive a escrita rúnica. Tais lendas sobre encontros com os povos antigos são bem fortes em meio à raça nórdica, e nos legaram grande parte dos textos e citações acerca das runas.
    Essa suspeita foi transformada em inúmeros livros de fantasia, com destaque para a fascinante obra de J.R.R. Tolkien, que cita em várias de seus livros, principalmente na trilogia O Senhor dos Anéis, o encontro e cooperação entre elfos, anões e homens. Embora sejam ficção, os textos se baseiam em lendas e histórias que chegaram até nossos dias — como o chamado Livro dos Anões, um conto folclórico escandinavo no qual surgem as diversas linhagens de anões e seus feitos, bem como os escritos épicos antigos Havámal (Canção no Salão de Havi) e Runátal (Canção dos Mistérios, o texto que ensinaria a maior parte da magia com as runas), e principalmente nos Eddas, que trazem narrativas sobre a criação, manutenção e destruição do mundo.

A Magia e as Runas
    O alfabeto rúnico sempre esteve ligado à magia, desde sua origem mitológica até as descobertas arqueológicas atuais — como armas repletas de inscrições místicas que dariam ao seu portador poderes mágicos sobre os adversários durante um combate. É comum encontrarmos citações, nos mais diversos contos folclóricos da Escandinávia, Noruega e Islândia, sobre fatos históricos que teriam sido mudados pela utilização das runas.
    A mais antiga referência sobre o emprego mágico desses símbolos num sistema de adivinhação surge nos textos do historiador romano Tácito (aproximadamente 120 d.C.), que em sua obra Germânia narra seu pelas nações germânicas. Tácito descreve como eles cortavam os galhos de uma determinada árvore, marcavam- com runas e os jogavam para fazer predições.
    Muitos acreditam que possuir um talismã rúnico é ter de uma força muito poderosa capaz de mudar o destino. Essa crença é reforçada por diversas histórias da literatura nórdica antiga, como a do feiticeiro Thurid, na Saga de Grettir, ou um dos mais controversos heróis do folclore antigo, Egil Skallagrimsson, que se salvou de bruxas, envenenamentos, ataques dos mais diversos monstros e também auxiliou inúmeras pessoas — feitos que teria conseguido graças ao seu conhecimento dos poderes rúnicos.

A Religião Pagã
    Nos últimos dois séculos as runas despertaram cada vez mais estudos e pesquisas. Vários místicos e esotéricos vêem nelas um resgate dos conhecimentos ancestrais e da nossa ligação com os povos encantados (fadas, gnomos e duendes). Muitos dizem que, quando usam as runas no seu dia-a-dia, ampliam a capacidade de contato com tais seres.
    O número de livros sobre o assunto tem aumentado bastante, sendo que muitos autores também são bruxos e magos, e procuram passar os conceitos básicos para a utilização mágica dos símbolos. Os adeptos da wicca, a religião pagã da Deusa, têm sido os principais propagadores desse saber milenar. Eles crêem que, ao usar as letras, ficam mais próximos das energias da terra e de seus ancestrais. Como a wicca tem crescido em número de admiradores e praticantes, também ajudou a espalhar o conhecimento rúnico.
    Antigamente, para aprender sobre as runas era necessário um longo tempo de preparo seguido de uma dura iniciação, semelhante ao que ocorria nos primórdios do xamanismo. Hoje, esses requisitos já não são necessários, bastando apenas determinação, vontade de aprender e uma mente aberta, além de nunca deixar de praticar a magia, pois o verdadeiro poder rúnico se revela aos poucos e a quem está preparado.
    Na verdade, o resgate desse conhecimento faz parte da grande revolução espiritual interior por que estamos passando, e que surge para nos libertar das garras do ego e da autodestruição, seja com as runas ou qualquer outra arte esotérica. Infelizmente, como tudo mais, o alfabeto místico também pode ser usado para prejudicar o próximo. Mas o preço disso, todos os bruxos e bruxas sabem, é bastante alto e, cedo ou tarde, deve ser pago.
    Quando foram criadas, as energias rúnicas já anteviam a possibilidade de serem mal utilizadas. Nas últimas estrofes do Havámal, Odin diz:
"É melhor não rezar,
Do que fazer sacrifícios demais;
O presente pede recompensa.
Melhor não dar  nada,
Que dar demais;
Assim foi gravado,
Antes do nascer dos homens;
Naquele ponto começou,
Então voltou".
Que a força das runas e de Odin estejam com todos.


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Trabalhando a Magia
Existem duas maneiras básicas para se trabalhar a magia das runas:
1 - Utilizar os significados de cada letra para construir um encantamento. Para isso utiliza-se como base o runátal, onde podem ser encontrados vários encantos para as mais diversas finalidades na forma de versos. Nesse tipo de magia é comum unir-se várias runas para formar um desenho único e mais forte;
2 - Escreve-se o desejo e o encantamento em rúnico. Para isso, faz-se a transcrição dos fonemas das letras para seus aproximados na língua falada pelo mago ou feiticeira (latim, português, inglês e etc.). Então, escreve-se o pedido e realiza-se um pequeno ritual onde as forças dos deuses nórdicos são evocadas para concretizar o foi escrito.

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