A Grande Alma do Oriente

2009-04-29 14:30

De tempos em tempos criaturas iluminadas surgem no mundo para tocar o coração e a mente do ser humano de forma única. Mahatma Gandhi com certeza foi um dessas almas especiais, que marcou o século XX com seu exemplo de vida e deixou lições que a humanidade jamais esquecerá.

    Hoje em dia não é muito fácil conceber a idéia de que um homem apenas, ao assumir a postura de não cooperar com o que considera errado, seja capaz de transformar uma nação inteira e deter a máquina de guerra do maior império do planeta. Na verdade, nem mesmo neste final de século, quando a tecnologia permite que imagens de qualquer violência contra os direitos humanos sejam transmitidas a todas as partes do globo em questão de segundos, alguém conseguiu obter tamanha vitória sobre a violência que movimenta a relação entre nações e homens como Mahatma (grande alma) Ghandi.
    Na primeira metade do século XX, o então advogado indiano Mohandas Karamchand Gandhi, sem erguer uma arma sequer, deu início a um movimento de não-cooperação — chamado popularmente de desobediência civil — e de repúdio absoluto à violência, que culminou com a independência da Índia, em 15 de agosto de 1947. Era o fim de um período de 3 séculos e meio de influência e domínio britânico no país, na maioria das vezes exercido de forma brutal.
    Jawaharlal Nehru — que conheceu Gandhi em 1916 e, a partir de então, tornou-se seu amigo, discípulo e propagador da postura de não-violência pregada pelo grande líder — disse que o Mahatma era na verdade “um homem religioso que a força dos acontecimentos levou à política”. O que é verdade, uma vez que a inspiração maior de Gandhi foi a tradição hindu das milenares escrituras Vedas e dos Upanishads, os livros sagrados do bramanismo, e o jainismo. Nehru, que se tornou o primeiro-ministro da Índia independente, só divergia do líder quanto ao aspecto religioso do movimento, pois considerava isso uma questão pessoal. Para Gandhi, nenhuma decisão podia ser tomada sem levar em consideração seu aspecto místico ou pessoal, e foi justamente essa postura que mais ajudou a aproximá-lo do povo indiano.
    O pensamento do Mahatma teve grande influência do escritor norte-americano Henry David Thoreau (1817–1862), e ele manteve correspondência com o pensador russo Leon Tolstói (1828–1910), ambos reconhecidamente pacifistas e ligados à idéia anarquista básica que propõe a liberdade do ser humano em todas as ocasiões. No que diz respeito à religião, Gandhi sempre foi da opinião que havia espaço para todos os profetas do mundo, de modo que o Evangelho também teve uma parcela de importância em sua formação. A graduação universitária como advogado em Londres, onde recebeu o diploma em 1891, também deve ser ressaltada, pois ela o colocou em contato com os ideais de igualdade e justiça para todos.

Direitos Iguais
    A trajetória de luta de Gandhi teve início na África do Sul. Nascido na cidade indiana de Porbandar, em 1869, e membro da privilegiada casta dos comerciantes, a casta bania, Mohandas Gandhi foi para a África dois anos após sua formatura e lá permaneceu até 1915. Ele qualificou um episódio em especial como o momento decisivo de sua vida. Ao viajar num trem de primeira classe, um passageiro branco mostrou-se indignado por viajar na companhia de um homem de pele escura.  Gandhi foi retirado à força da cabine por um policial, apesar de ter mostrado seu bilhete e se identificado como advogado.
    "Descobri que, como homem e como indiano, eu não tinha direitos", declarou Gandhi. "Ou melhor, descobri que não tinha nenhum direito como homem por ser indiano". No período em que morou na África do Sul, cerca de 100 mil indianos viviam no país, geralmente realizando os trabalhos mais humilhantes numa sociedade que já mostrava uma forte segregação racial. Os indianos que conseguiam progredir ainda tinham de enfrentar leis cada vez mais racistas que lhes tiravam o direito de voto, o direito de possuir terras e de circular com liberdade.
    Em 1896, Mohandas já era um advogado de respeito e rico, ganhando cerca de 5 mil libras por ano. Com sua influência na comunidade indiana ele tentou reverter a situação desfavorável a seu povo, incentivando os indianos a acatar suas obrigações civis e esquecer o sistema de castas que os desunia. Durante a Guerra dos Boêres, em que a Inglaterra lutou contra os holandeses e seus descendentes, Gandhi formou o Corpo Indiano de Assistência Voluntária, imaginando que isso ajudaria a conquistar o respeito dos ingleses.
    Ledo engano. Na verdade, as leis restritivas à sua gente não pararam de crescer, até que, em 1907, o advogado hindu expôs pela primeira vez sua idéia de satyagraha, a resistência à opressão (veja box). Essa época também marcou o início da série de prisões pelas quais Gandhi teve de passar em sua caminhada — acontecimentos que, longe de o enfraquecerem, ajudaram a fortalecer seus pontos de vista e definir os métodos da ação que se estenderia por toda a Índia.

Volta ao Lar
    A recepção calorosa recepção que recebeu da Índia em sua chegada, no ano de 1915, deixou claro que seus esforços na África do Sul tinham causado forte impressão no povo. Ainda assim, Gandhi preferiu primeiro inteirar-se dos problemas de seu país, do qual esteve afastado por tanto tempo, e instalar seu ashram (refúgio) em Sabarmati. O ashram era uma peça fundamental para o tipo de vida que pretendia construir a partir de então. Desde os 37 anos ele havia optado pelo voto de brahmacharya, a completa abstinência sexual.  Livrando-se dos desejos físicos, ele criou uma espécie de fazenda comunitária em sua propriedade, onde viviam cerca de duzentas pessoas segundo as mesmas normas de Gandhi: celibato, pobreza, dieta vegetariana e uma vida dedicada às preces e ao próximo.
    Já em 1917 ele deu início a uma campanha para que trabalhadores indianos não mais fossem enviados à África do Sul, apoiou camponeses, agricultores e operários que buscavam melhores condições de vida com seus empregadores ingleses. Nessa época, como Gandhi ainda acreditava no poder do império britânico e na possibilidade dos indianos obterem seus direitos civis junto ao governo de Sua Majestade, seu povo serviu com os ingleses durante a I Guerra Mundial. Mais uma vez o Mahatma se enganou amargamente, pois o império, cada vez mais fraco, não cumpriu as promessas que havia feito de criar leis igualitárias. O absurdo era tamanho que, em seu próprio país, os indianos podiam ser presos sem julgamento, ou julgados sem júri, sem qualquer possibilidade de defesa. O cenário para uma revolta estava formado.
    O confronto com o governo inglês teve início na forma de greves gerais, os hartals, que contavam com apoio público, mas resultaram em conflitos violentos, pelos quais Gandhi se desculpou e penitenciou com um jejum de 72 horas. O acontecimento que detonou a campanha decisiva contra os ingleses foi o massacre de Amritsar, em abril de 1919. Considerada uma cidade sagrada para os membros da fé sikh, lá estava sendo realizado um comício, que foi suprimido pelos britânicos com a maior violência possível: o exército cercou o local e atirou contra a multidão, matando 379 pessoas e ferindo mais de 1200.
    Desse dia em diante, Gandhi assumiu definitivamente sua posição como principal figura no movimento para a independência da Índia.

Não Cooperação
    A forma escolhida para demonstrar que os ingleses não eram mais bem-vindos no país foi boicotar seus produtos vendidos aos indianos, especialmente os tecidos. Viajando de trem, Gandhi percorreu todo o país difundindo essa idéia, o que teve resultados positivos — as pessoas deixaram de usar vestes importadas, queimando-as, e passaram a usar trajes indianos mais simples — e também negativos, desencadeando uma onda de violência sem precedentes, o que fez Gandhi rejeitar essa linha de ação.
    Em 1922, o grande líder foi preso e condenado a seis anos por rebelião contra o governo, permanecendo em confinamento até 1924, quando foi solto de modo provisório para fazer uma operação de apendicite aguda. Fora do presídio, ele percebeu que o movimento de não cooperação tinha praticamente deixado de existir, e que uma situação complicada de antagonismo entre hindus e muçulmanos se instalara na nação. Para surpresa de todos, o Mahatma decidiu não retomar seu movimento de desobediência até que sua pena estivesse terminada e dirigiu seus esforços na tentativa de criar um entendimento entre as as duas comunidades em conflito.
    Por fim, em 1929, já com 60 anos de idade, Gandhi voltou à luta pela libertação, pregando mais uma vez a desobediência civil. Um dos maiores símbolos desse período foi a Marcha do Sal — uma caminhada de mais de 300 quilômetros até o mar empreendida por Gandhi, seguido por milhares de pessoas, para pegar o sal que os ingleses insistiam em taxar. O resultado, que o governo não esperava, foi uma explosão de desobediência, com a população extraindo sal do mar sem pagar qualquer imposto.
    Mais de 60 mil pessoas foram presas, inclusive o próprio líder indiano, mas isso não impediu que os protestos continuassem. A poetisa Sarojini Naidu dirigiu-se com 2500 voluntários às salinas Dharasana, guardadas por policiais que abateram os manifestantes com bastões de madeira. O episódio foi descrito por um jornalista e transmitido ao mundo inteiro. Os manifestantes apresentavam-se em fileiras, sem reagir à violência da polícia, eram abatidos, seus corpos retirados pelas mulheres e, em seguida, nova fileira se apresentava. O resultado do movimento foi a produção livre de sal na Índia.

Independência
    A Segunda Guerra Mundial e os anos que se seguiram marcaram um período de muita violência à Índia, que só diminuía com a interferência da grande alma. Foi uma época de perdas também para Gandhi, com a morte de seu secretário Mahadev Desai e de sua esposa, Kasturbai, que passou os últimos meses de vida ao seu lado, na prisão. Também foi durante a Guerra que cresceu a idéia de uma cisão dentro do próprio país, com os muçulmanos desejando criar o Paquistão.
    A incapacidade dos homens se entenderem devido a questões religiosas deu início a uma onda de violência sem precedentes na Índia, gerando milhares de mortos. Gandhi empreendeu então o que chamou de “a missão mais difícil de sua vida”, percorrendo as regiões onde os problemas eram maiores. Aos 77 anos, ele iniciou um jejum sob o juramento de que só voltaria a se alimentar quando muçulmanos e hindus parassem as hostilidades. Um mês depois, a Índia se acalmou. Mais tarde, o Mahatma faria o mesmo em Calcutá, declarando que jejuaria até a morte caso a violência não cessasse, o que aconteceu em quatro dias.
    A independência do país finalmente aconteceu, mas não como Gandhi pretendia. "Não há motivo para tanta festa", ele disse quando todos comemoravam, e chegou a declarar que havia perdido o interesse na vida diante de tanto ódio. A Índia separou-se e mais de 12 milhões de pessoas tiveram que deixar seus lares: muçulmanos se mudaram para o Paquistão; hindus permaneceram na Índia. E, durante o processo, ocorreram mais encontros ferozes, violência e mortes. Certa vez, em visita à Inglaterra o soberano daquele país lhe perguntou como estava a Índia, ele respondeu, apontando para seu corpo magro e vestes humildes, “Olhe para mim e saberá como está a Índia”.
    Em 1948, já com 78 anos, Mohandas realizou seu 18º e último jejum, com o objetivo de reunir os “corações de todas as comunidades”. Esse interesse de Gandhi por todos os seres vivos sem se importar com a crença religiosa, política ou casta social, não agradava a todos os hindus, especialmente os grupos mais radicais. E foi um desses extremistas que acabou por assassiná-lo em 30 de janeiro de 1948, provocando uma comoção mundial poucas vezes vista na história humana.
    Seu grande amigo e então primeiro-ministro, Nehru, em um momento de grande emoção, comunicou ao povo indiano pelo rádio que a luz havia se apagado — o que foi corrigido posteriormente, pois a luz que Gandhi trouxe à Índia e ao mundo representava um desejo eterno no coração de milhões, e não podia ser apagado tão facilmente.
    A mensagem de Ghandiji — como era carinhosamente chamado por todos —permanece até hoje como um farol de amor em um mundo cego pela violência e egoísmo. O americano Martin Luther King, outro grande defensor das liberdades e adepto da não-violência, disse, antes de ser assassinado também por radicais: "Gandhi foi infalível. Se a humanidade tem de progredir, o Mahatma é imprescindível. Ele viveu, pensou e agiu inspirado pela visão de uma humanidade que evoluía para um mundo de paz e harmonia. Se o ignorarmos, o risco será só nosso".


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Satyagraha
    Toda a atividade de luta contra a opressão, que marcou a vida de Mohandas Gandhi, baseou-se na Satyagraha — termo criado por ele e traduzido como força da verdade ou força do amor. Foi definido como “a defesa da verdade infligindo sofrimento, não ao oponente, mas a si próprio”. Para atingir o objetivo proposto é preciso muito treino e autocontrole. A idéia é “curar o oponente do erro por meio da paciência e compreensão”.
    Foi assim que Gandhi treinou seus companheiros de luta durante as campanhas de resistência na África do Sul, preparando-os para agüentar todo tipo de agressão física sem reagir. Semelhante aos princípios da resistência pacífica, não cooperação e desobediência civil, a Satyagraha não foi baseada em teorias políticas ou sociais, mas nos princípios da sagrada escritura indiana Bhagavad Gita.
    É verdade que Gandhi sempre respeitou as demais religiões e até adotou muitos princípios cristãos, budistas, jainistas e islâmico sem seu modo de vida, mas da Bhagavad Gita ele extraiu o ensinamento do Samakhava, que diz que as pessoas não devem se perturbar pela dor ou prazer, e sim trabalhar pelo que é correto, sem medo do fracasso. Segundo esse pensamento, são mais importantes os meios pelos quais se atinge um fim — um princípio que traz certas semelhanças com a teoria anarquista, segundo a qual os fins não podem justificar os meios pelos quais são obtidos.
    Gandhi também seguiu o conceito do Aparigraha, que prega o desprendimento dos bens materiais para se tornar rico espiritualmente — um princípio que ele adotou ao retornar à Índia, abrindo mão de suas posses e vivendo de forma cada vez mais simples. Por último, e mais importante, o Mahatma abraçou de corpo e alma o conceito da Ahimsa, a não-violência contra todos os seres vivos, inclusive animais.
    Grande parte de sua luta também visava fazer o povo abandonar as proibições contra os párias, considerados intocáveis pelos hindus de casta. Os intocáveis — ou, como Gandhi os chamava, harijans (filhos de Deus) — não podiam freqüentar nascentes de água e templos, e dizia-se que até sua sombra podia contaminar as pessoas de forma negativa. Quando esteve preso, de 1931 a 1933, ele iniciou um jejum até a morte, sensibilizando o povo e o Congresso a votar a liberdade dos harijans, para que pudessem ser tocados, abraçados e freqüentar os locais públicos.
    Gandhi considerava fundamental a união entre hindus e muçulmanos, algo que, infelizmente, jamais conseguiu obter.

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O Pensamento de Gandhi
    * Para ver-se face a face com o espírito da verdade universal que a tudo permeia, deve-se amar a mais insignificante das criaturas como a si próprio.
    * Em minha modesta opinião, não colaborar com o mal é um dever, tanto quanto colaborar com o bem.
    * Nós temos algo mais importante do que armas. Temos a verdade e a justiça — além de tempo — ao nosso lado. Não podem segurar por muito tempo 350 milhões de pessoas determinadas a ser livres. Vocês verão!
    * O artigo de acordo com o qual sou acusado diz que a mera promoção de descontentamento é crime. Estudei alguns dos casos registrados e sei que alguns dos mais amados patriotas indianos foram condenados com base nesse artigo. Portanto, considero um privilégio ser acusado desse crime.
    * Temos de alargar as portas das prisões. É só dentro dos muros de uma prisão que se almeja a liberdade.
    * Sem sombra de dúvida, qualquer homem ou mulher pode realizar o que realizei, desde que faça o mesmo esforço e cultive a mesma esperança e fé.

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