A Curva do Tempo – A Vida e a Morte

2009-05-05 15:22

A ordem mística Suddha Dharma Mandalam vê o fim de século e a virada de milênio sem apocalipses, mas como uma continuidade de práticas e aprendizados, e com muito otimismo quanto às possibilidades do homem na Terra.

José Ruguê Ribeiro Júnior

    O título dado para este artigo pode ser considerado como vários títulos, todos bastante amplos e que demandam um profundo estudo à luz dos ensinamentos dos grandes Mestres, que são os Guardiões da Sabedoria Tradicional. Esta sabedoria é transmitida há milênios através das diversas Escolas de Sabedoria, entre as quais se encontra a Suddha Dharma Mandalam, nome dado desde períodos imemoriais à Grande Fraternidade Branca, cuja sede se encontra no Himalaia.
    Porém, podemos perceber que todos estes títulos têm em comum o reconhecimento de um movimento rítmico e cíclico do universo, por meio deste inexorável fator denominado tempo.
    Em 1915, quando os Mestres revelaram a existência da Suddha Dharma Mandalam ao mundo e abriram as portas da Iniciação por intermédio do reverenciado Swami Subramanyananda (Sir Subramanya Ayer Avergal) e do Pandit Srinivasacharyar, também trouxeram de uma biblioteca oculta no Himalaia — a Maha Guha, ou grande gruta — originais de textos sagrados guardados há milênios por um processo especial. Alguns deles eram completamente inéditos no mundo, enquanto que outros eram originais de textos já conhecidos, como por exemplo, o Bhagavad Gita e alguns Upanishads. Em um destes textos, denominado Sanátana Dharma Dípika, a eterna Lei revelada, ou Anusthana Chandrika, o livro texto dos Membros da Suddha Dharma Mandalam — um extenso reservatório da mais profunda sabedoria, havendo sido publicada uma pequena parte em inglês e espanhol —, encontram-se os ensinamentos do Senhor da evolução, conhecido na literatura mística como Bhagavan Náráyaná. No Volume I, capítulo II, o Senhor Náráyaná descreve o Tempo da setuinte maneira:
134. Existência e inexistência, prazer e dor têm suas raízes no Tempo. O Tempo é aquilo que faz evoluir a todos os seres, o Tempo volta a recolher em seu seio tudo aquilo que brotou dele.
135. e o Tempo recolhe, também, sua própria energia de tudo o que destrói. O Tempo produz todas as mudanças no mundo, benéficas ou não,
136. o Tempo origina a todos os seres e o Tempo os absorve; o Tempo vigia com olhos sempre despertos enquanto os mundos dormem; o Tempo é inflexível e, ainda mais, impossível de vencer.
137. o Tempo desliza entre os seres criados, sem impedimentos, imparcial e inexorável. Passado, presente e futuro, tal como conhecidos, são somente criações do Tempo.
139. Conhecimento, Desejo, Ação e a Síntese destes três são as quatro manifestações do Tempo.
Obviamente este conceito do tempo abarca e transcende nossa noção relativa de horas, dias e noites. Algo que nos parece agradável faz o tempo passar ‘mais rápido’, enquanto que o contrário nos faz ele parece interminável — por exemplo, uma palestra que, a nosso conceito, seja enfadonha ou incompreensível.

Movimento Cósmico
    O conceito de tempo aqui expresso refere-se ao grande movimento cósmico. O modelo do Universo apresentado pelos Mestres de Sabedoria é de um dualismo, havendo ainda um princípio único, transcendente, denominado Brahm, que será motivo de um próximo estudo. Este dualismo refere-se, de um lado, à existência de uma Consciência Única, princípio de Vida, eterna, imutável, que vivifica e sustenta o outro princípio, que é a matéria-raiz cósmica, por si mesma inerte. O Sopro de Vida desta consciência Única põe em movimento a matéria-raiz, que se multiplica em infinitas formas, das mais sutis às mais densas, formando todo o universo visível e invisível, com todos os seres.
    Qual a finalidade da existência destes diversos mundos, com suas inumeráveis formas de vida, desde o mineral até o arcanjo mais elevado? É servir de veículo para a manifestação das qualidades e poderes inerentes à Consciência Única. Em outras palavras, os mundos e seres são veículos de expressão dos poderes da Consciência, tais como conhecimento, vontade e ação, como foi expresso no verso transcrito acima.     Darei um exemplo. Se não existissem os planetas do sistema solar, como o sol poderia manifestar suas qualidades inerentes de vida, calor e luz? Suas qualidades estariam eternamente imanifestadas se não existissem os planetas para absorver a energia e a transformar em vida. Da mesma maneira, a matéria absorve a energia (Sopro de Vida) da Consciência e a transforma em inteligência, vontade e atividade, da maneira mais rudimentar no mineral, ampliando-se no reino vegetal e cada vez se expressando de forma mais ampla e complexa nos animais, seres humanos e nos reinos superiores ao humano.
    Como colocado acima, este processo implica em movimento, o grande movimento cósmico que é denominado Tempo ou Kala, em sânscrito. Sua característica básica é de ser rítmico e cíclico, com períodos imponderáveis de expressão e recolhimento do Universo, denominados dias e noites de Brahma, com duração de bilhões de anos cada um. Um antigo texto da Índia, denominado Vishnu Purana, descreve e classifica esses períodos imensos de tempo, e existe um símbolo maravilhoso deste movimento rítmico do universo que é a Dança de Shiva, ou Shiva Nataraja, imagem já muita conhecida no Ocidente. Curiosamente, todos estes conceitos expressos em textos milenares ‘coincidem’ com as mais modernas teorias da astrofísica sobre a origem, expansão e recolhimento do universo.
    Estes conceitos estão sintetizados através de uma prática reflexiva diária realizada pelos yoguis em treinamento dentro da Suddha Dharma Mandalam, chamada Bhávana, que assim preceitua: penso, com amor, que todas as coisas e seres nasceram no Espírito Universal, que a tudo compenetra e sustenta, em uma ordem constante e em vida eterna. Portanto, tanto os seres inferiores como os superiores participam da mesma vida, formando no espaço infinito, um só Corpo Cósmico!

Ciclos de Evolução
    Neste grande movimento cósmico nós nascemos e morremos, ou, para dizer de uma forma mais correta, nossa Alma evolucionante, ou Individualidade eterna, se submerge nesta roda de nascimentos e mortes, expressando-se através de cada personalidade que surge em cada encarnação, desenvolvendo suas qualidades, seguindo o mesmo modelo da dualidade básica do universo, para ir progressivamente despertando e atualizando a sabedoria latente na Consciência que está “guardada como relíquia no santuário do coração”.
    As experiências de cada personalidade após a morte física e a necessária passagem pelos planos sutis são ‘absorvidas’ pela Alma Evolucionante, também denominada Jiva ou Eu Superior. Consequentemente, nossa existência como aquela personalidade que vínhamos cultivando durante toda a vida física deixa de existir, unindo-se ao maior ou menor acervo de nosso Eu Superior. Este ciclo de nascimentos e mortes no tríplice samsara cessa quando chegamos ao despertar da compreensão de que somos uno com a Consciência Cósmica. Este estado é chamado de Iluminação, santificação, Nirvana, Turiya e tantos outros nomes.
    Estes grandes ciclos da evolução humana e cósmica são catalogados pelos Mestres, que nos ensinam que estamos passando agora pela Quarta Ronda, a metade de um imenso ciclo de tempo, que aponta o planeta Terra como nossa morada atual, onde estão em pleno jogo forças duais como prazer e dor, alegria e tristeza, bem e mal, etc., que constituem o campo de nosso aprendizado. Dentro desta Quarta Ronda nos encontramos na quinta raça-raiz, que é a ariana, herdeira da quarta raça, aquela que é conhecida nas tradições como atlante. E na quinta raça, estamos na quinta sub-raça, ou sub-raça teutônica, caracterizada pelo materialismo e cientificismo, em plena atividade no atual momento em que vivemos, com o predomínio da cultura anglo-saxônica nos campos científico, filosófico, econômico, social e outros.
    Está surgindo agora, em várias partes do mundo, a sexta sub-raça, que será caracterizada por um caráter mais humanista e fraternal, preparando terreno para o surgimento da sexta e sétima raças, com características muito mais yóguicas, ou de integração e despertar das faculdades superiores nos seres humanos. Para que esta Sexta sub-raça predomine no mundo, ainda passarão alguns séculos.
    Se nos reportarmos novamente ao conceito de tempo revelado pelo Senhor Náráyaná nos versos transcritos no início deste artigo, compreenderemos que os ciclos de evolução neste mundo estão baseados no predomínio de um Dharma, que é um modo de vida que eleva o homem, protegendo-o. Uma das principais funções dos Mestres da Hierarquia Branca é revelar o Dharma mais apropriado ao ciclo do tempo vivido pela humanidade e, assim, estimular a evolução humana de forma mais efetiva.
    O período no qual predomina um Dharma é chamado Yuga ou era. Um conjunto de quatro Yugas é chamado de Chatur Yuga, no qual a humanidade completa um ciclo evolutivo. No início de cada Yuga, nasce no mundo um Maha Avatara, uma grande manifestação do Senhor da evolução do mundo, Bhagavan Náráyaná. Assim, Sri Rama nasceu no início do Dwapara Yuga, a era anterior, e Sri Krishna no início do Kali Yuga, nossa era atual. Está prevista a vinda do Kalki Avatara, o Buddha Maitreya, para o final deste Yuga, que ocorrerá em, aproximadamente, 12.000 anos. Por este motivo é, no mínimo, estranho ouvir ou ler pessoas, em nome da Fraternidade Branca, já ‘revelarem’ a presença neste mundo do Kalki Avatara ou sua vinda em breve.

Despertar as Faculdades
    Voltando ao tema dos Yugas, como o ser humano, ao longo de sua trajetória evolutiva, deve desenvolver suas quatro faculdades fundamentais, o Dharma que predomina em cada Yuga visa despertar cada uma destas faculdades, que são: a capacidade de pensar (conhecimento), a capacidade de ter emoções (devoção), a capacidade de agir (ação) e a capacidade de sintetizar estes elementos (síntese ou Yoga).
    Assim, no primeiro Yuga, chamado Krita (ouro), o Dharma predominante foi o do conhecimento. No segundo Yuga, chamado Treta (prata), o Dharma predominante foi o da ação. No terceiro, Dwapara (bronze), da devoção e no quarto Yuga (ferro), nossa era atual, já estando com as capacidades de conhecimento, devoção e ação desenvolvidas, o ser humano necessita despertar a capacidade de síntese ou Yoga. Por este motivo, Sri Krisha, o Mahavatara de nossa era, revelou o Bhagavad Gita, que é considerado o Evangelho da Síntese.
    A duração de cada yuga segue o ritmo cósmico, sendo divido em três períodos — um período sandhi ou de transição com o Yuga anterior; um período de plenitude do Yuga, denominado período Suddha e outro período Sandhi, de transição com o Yuga posterior. Ainda segundo os Mestres, a era suddha do Kali Yuga tem uma duração de 24 mil anos. Estamos um pouco além da metade desta era, que ocorreu no ano de 1916. Interessante como, após esta data, a vida humana sofreu uma aceleração impressionante nos campos social, científico, artístico, tecnológico e, principalmente espiritual.
    Neste período os Grandes Seres da Divina Hierarquia têm feito esforços enormes para divulgar esta ciência sagrada pelo mundo, a fim de que um maior número de pessoas se adestre na meditação espiritual e obtenha a visão do Atma, a chama divina no coração.  Nascerão, nestes próximos 12 mil anos, nove grandes Avataras, ou encarnações divinas, já estando no mundo o primeiro deles, Bhagavan Mitra Deva, que, desde seu retiro, influencia a mudança de consciência do ser humano. Até o advento do Kalki Avatara, ou Buddha Maitreya, o Cristo do fim dos tempos, o maior de todos os Avataras deste mundo, que chegará para encerrar esta era e iniciar uma nova era de ouro, denominada Krita Yuga.

Sem Apocalipse
    Por todos estes motivos, os discípulos dos Mestres Suddhas têm grande otimismo quanto às possibilidades do homem na Terra. Não prevemos nenhum apocalipse para os próximos anos, nem muito menos algum acontecimento que possa separar bons de maus, como um Juízo Final, porque sabemos que nossa evolução deve dar-se pela proximidade do mais evoluído com o menos evoluído, o superior com o inferior, porque somente a proximidade destas forças é capaz de liberar os instrumentos internos do homem para sua evolução. Vislumbramos um progressivo aumento do número de pessoas que compreenderão as verdades eternas que vivificam as ciências, religiões e filosofias.
    Prevemos que estes três ramos de esforços humanos serão cada vez menos divorciados e passarão, em algum momento, a se integrar numa busca cada vez mais profunda e abrangente do homem em compreender a verdade e ser mais feliz. Como esta Ciência Sagrada não possui dogmas, elimina preconceitos de raças e credos, e não é propriedade de nenhum grupo, ordem ou seita, ela provavelmente unificará os esforços humanos — e poderemos ter uma sociedade mais justa e fraterna, vivenciando os quatro Dharmas da síntese, que são: não-violência, veracidade, serviço ao mundo e meditação. Com isso, a visão unitiva se tornará mais e mais disseminada e se refletirá em um cuidado cada vez mais amoroso com o meio-ambiente, afastando os fatores que possam impedir a continuidade da vida humana tal como a conhecemos, na Terra.
    Obviamente, isto inclui um trabalho intenso e imediato por parte de todos os que já sentem em seu coração o impulso para a busca da Unidade e da Verdade. Tampouco significa que o mundo deixará de passar por mudanças geológicas, cataclismos e alterações nas matérias-primas que sustentam nossa sociedade com seus valores atuais. A história contada pela Sabedoria Perene nas antigas tradições é sobre o surgimento, manutenção, queda e desaparecimento quase completo de grandes civilizações neste mundo, ao longo de milhares de anos.
    Assim sendo, nossa mensagem para o fim do século e milênio é de que todos procurem conhecer estes elevados ensinamentos yóguicos e praticá-los, buscando sempre aquilo que é essencial nessa grande massa de informações e teorias que recebem o nome de esotérico, místico, espiritual, mágico. E realmente se ocupem da prática da meditação orientados por uma Escola confiável, conforme os ensinamentos do Senhor através do Bhagavad Gita: “Repousa tua mente em mim; estabelece tua inteligência em mim e, assim, todas as tuas dúvidas se dissiparão”.
Rogamos as bênçãos dos Grandes Seres sobre todos nós.

José Ruguê Ribeiro Júnior é médico, Gnana-Dhatha (Instrutor) da Suddha Dharma Mandalam, iniciado por Sri Vájera Yogui Dasa, Diretor do Curso de formação de professores de Yoga e do Curso de Suddha Raja Yoga, Presidente do Ashram Ananda da Suddha Dharma Mandalam e da Fundação Sri Vájera. Utiliza, em sua prática clínica, os métodos da medicina ayurvédica.

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