A Tradição da Medicina
2009-05-06 15:08O dr. Sohaku Bastos foi um dos pioneiros da medicina oriental no Brasil, tornando as técnicas ancestrais acessíveis para grande número de pessoas a partir dos anos 70.
Gilberto Schoereder
Nos anos 70, o dr. Sohaku Bastos começou a ministrar cursos e palestras sobre medicina oriental, após oito anos de estudos no Japão, firmando-se como um pioneiro na aplicação da medicina tradicional oriental no Brasil. Segundo explica, quando foi para o Japão, seu principal objetivo era desenvolver o aspecto espiritual e, por isso, matriculou-se no Seminário de Budismo, em Kioto. Obteve o diploma de Ordenação Monástica como monge budista do Monastério Jochin-In Kyosan, e o diploma de Monge Instrutor da escola Shingon, o que lhe confere o direito de celebrar ofícios e cerimônias budistas.
Como a medicina também era um de seus objetivos desde criança, ele entrou para a Escola Imperial de Medicina, unindo três grandes interesses: a arte oriental, a filosofia e a ciência. A opção pelo Japão, segundo explica o médico, foi para que obtivesse não apenas os ensinamentos científicos, mas a filosofia da medicina oriental – algo que, na época, era pouco ou nada comentado no Brasil. Existiam praticantes de acupuntura na França, mas só isso, apesar de serem muitas as técnicas terapêuticas na medicina oriental, como o shiatsu, moxabustão e fitoterapia. Os imigrantes japoneses e chineses com conhecimento das técnicas mantinham-nas restritas à colônia, especialmente porque não havia interesse por esse conhecimento fora do ambiente das colônias e a comunidade científica encarava tais práticas com reservas.
Em 1974, o dr. Sohaku já organizava seu primeiro curso de acupuntura e, em 1979, realizou o primeiro curso destinado a médicos brasileiros, tendo como alunos professores de pós-graduação em medicina da PUC-Rio. Dedicou-se a lecionar acupuntura e eletroacupuntura a médicos e shiatsuterapia a profissionais da área da saúde. Sua estimativa é que, desde então, formou mais de dez mil profissionais.
O médico ainda foi o responsável pela introdução da eletroacupuntura no Brasil e idealizador do primeiro curso de shiatsuterapia no país. Fez cursos na China, Sri Lanka – desde 2000 é cônsul do Sri Lanka no Brasil – e Estados Unidos, possuindo graduação em medicina oriental, fisioterapia e bacharelado em medicina, com mestrados em psiconeurocinesioterapia e acupuntura, doutorados em medicina tradicional, acupuntura e filosofia, e especializações em shiatsuterapia, osteopatia, eletroacupuntura, acupuntura e fitoterapia tradicional chinesa.
Natural da Bahia e radicado no Rio de Janeiro, hoje o dr. Sohaku oferece uma série de cursos profissionalizantes em ciências da saúde e pós-graduação em várias cidades do Brasil, e até em Portugal, através do seu Instituto Politécnico de Saúde. Com o conhecimento de um dos grandes especialistas no assunto no Brasil, ele falou à Sexto Sentido sobre o shiatsu e a situação da medicina tradicional em nosso país.
Como se encontra, atualmente, a medicina oriental em comparação com a medicina ocidental, ou a chamada medicina tradicional, alopática? Ainda existe muita resistência à aplicação de conhecimentos técnicos orientais, mesmo vindo de profissionais notadamente preparados e de currículo reconhecido?
Eu gostaria de fazer uma ressalva a essa pergunta, porque a medicina ocidental é alopática, não tradicional. A medicina tradicional é a oriental. A chamada medicina tradicional do Oriente, ou medicina oriental, é considerada nova no Brasil porque foi produzida aqui no início do século com a imigração japonesa, mas só foi divulgada para os brasileiros por volta de 1960 para 1970. Antes disso, era circunscrita à colônia japonesa. Então, só os orientais tinham acesso em São Paulo e sobretudo no interior. Em relação à resistência que encontramos aqui, ela se deve a três segmentos. O primeiro é a própria comunidade científica que, não se interessa muito em pesquisar essa área, embora em outros países, como nos EUA, as pesquisa em medicina oriental estão muito avançadas, sobretudo na acupuntura e no shiatsu. Sentimos resistência também em certas corporações da área de saúde, que não têm interesse em que essas práticas evoluam, e se elas devem evoluir, que seja sob a tutela de certos profissionais, o que significa corporativismo. Outro segmento que não tem qualquer interesse em que a medicina oriental cresça no Brasil é a própria indústria farmacêutica.
Quanto aos profissionais preparados, muitos foram formados no exterior, têm bons currículos e uma formação de alta qualificação com mestrado e doutorado nessa área. Muitos desses profissionais não conseguem revalidar seus títulos no Brasil por falta de referência acadêmica nas universidades brasileiras. Nós sabemos que o mais importante para uma área profissional é a formação acadêmica; se não existe referencial acadêmico, você não tem como revalidar títulos do exterior. No dia 2 de outubro de 2001, aprovamos, no Conselho Estadual de Educação, as diretrizes curriculares complementares para a educação profissional em nível técnico de acupuntura, shiatsuterapia e terapias naturais no Estado do Rio de Janeiro. Isso é a deliberação do Conselho Estadual de Educação nº 270 de 2000. Essa deliberação cria um referencial não só para a medicina tradicional do Oriente, mas também para outras terapias já reconhecidas pela Organização Mundial de Saúde (OMS). E esses referenciais curriculares estão indo para Brasília. O Rio de Janeiro deu o primeiro passo para o reconhecimento oficial das diretrizes curriculares nessas áreas.
Ultimamente têm surgido no Brasil inúmeras pessoas que afirmam ser especialistas em medicina oriental. Estaria havendo um exagero, com muita gente despreparada aproveitando-se da onda de interesse pelas terapias orientais? Como o leigo pode fazer a distinção entre os profissionais sérios e os possíveis aproveitadores?
Essa pergunta é muito importante, porque quando não existe legislação federal, abre-se uma porta para que até o leigo exerça a profissão. Entretanto, com as instituições educacionais já aprovadas no Rio e em São Paulo para ministrar cursos na área das terapias orientais, nós já temos um referencial daquele profissional que, tendo um diploma oficial, outorgado pela Secretaria de Estado de Educação, mostra-se um profissional qualificado, sendo uma referência de idoneidade profissional.
Mas nós não podemos esquecer que alguns Conselhos na área de saúde reconheceram a acupuntura como especialidade, e isso foi muito bom. Eu posso enumerar os Conselhos que já fizeram isso: o primeiro foi o Conselho Federal de Fisioterapia e Terapia Ocupacional, reconhecendo desde 1985 a especialidade para o fisioterapeuta e, posteriormente, para o terapeuta ocupacional; em 1986, o Conselho Federal de Biomedicina reconhecia a acupuntura também como especialidade; em 1995, o Conselho Federal de Enfermagem também reconhecia a acupuntura, terapias orientais e alternativas como especialidade; em 1985, o Conselho de Medicina Veterinária; em 1995, o Conselho Federal de Medicina; em 2000, o Conselho Regional de Farmácia e, finalmente, o Conselho Federal de Fonoaudiologia reconheceram a acupuntura como especialidade. De doze Conselhos, sete já reconheceram a acupuntura e as terapias orientais que fazem parte do sistema médico oriental. Se os Conselhos da área da saúde, que são autarquias federais, reconhecem, e os próprios conselhos estaduais de educação também, só falta agora a lei federal. Para o leigo diferenciar aqueles que podem fazer acupuntura dos que não podem, basta solicitar o diploma de habilitação técnica registrado na Secretaria de Educação, ou os títulos dos especialistas dos diversos conselhos que reconheceram a profissão.
O senhor diz que existe uma grande confusão sobre o shiatsu, que é mal compreendido no Brasil. O que é exatamente o shiatsu?
Aqui no Brasil o shiatsu, chamado shiatsuterapia, tem sido confundido com massagem. Massagem é uma profissão regulamentada no país desde 1971 e ela efetivamente não significa shiatsu. Shiatsu é uma prática que tem um objetivo completamente diferente da massagem, apesar de utilizar as mãos como instrumento de trabalho. Shi vem do termo japonês que significa dedo e atsu significa pressão. Então, literalmente, seria a terapia que trata a pessoa através de pressão com o dedo. Existe no Brasil uma confusão com o termo massagem oriental, ou massoterapia oriental. Isso não existe, não é amparado por nada, é uma invenção. O que existe é a massagem, que pode ser no estilo chinês, japonês, etc, mas não é shiatsu. Por isso, é totalmente equivocado dizer que massagem oriental é shiatsu, e este equívoco costuma vir por parte dos leigos.
Existe alguma aproximação entre a medicina tradicional do Oriente, mais especificamente Japão e China, com a medicina ayurvédica?
Essa pergunta é muito interessante, porque a medicina tradicional do extremo Oriente (China e Japão) e a ayurvédica, que é do sudeste asiático e envolve a medicina da Índia e Sri Lanka, têm algo em comum. As duas são medicinas milenares. As práticas são diferenciadas, mas o perfil da filosofia médica é muito semelhante. Eu diria que são medicinas tradicionais irmãs. Ambas contemplam uma forma de fitoterapia, de farmacoterapia, parecidas. Possuem técnicas muito semelhantes, embora tenham tradições diferentes, mas com a mesma essência oriental. São medicinas tradicionais.
O senhor poderia falar um pouco sobre o Projeto Rio Saúde 2001?
Esse projeto tem o objetivo de popularizar as práticas tradicionais de saúde, reconhecidas pela Organização Mundial de Saúde (OMS). O Rio Saúde 2001 teve como parceira a própria Secretaria Municipal de Saúde, que deu respaldo ao programa divulgando, em praça pública, projetos educacionais e assistenciais. É montado em diversos bairros do Rio de Janeiro, da zona norte à zona sul, no qual vários terapeutas podem fazer demonstrações das técnicas, assim como distribuir panfletos e folders sobre as diversas práticas reconhecidas pela OMS e que deveriam estar sendo implementadas pelos serviços nacionais e estaduais de saúde – como foi estabelecido no Rio com a Lei 3.181, de 1999, sancionada pelo Governador Garotinho. Mas deveria ser em âmbito nacional. Esse projeto foi criado no ano passado com o Rio Saúde 2000 e, se Deus quiser, se tornará o Projeto Rio Saúde 2002. Isso pode ser criado em diversos estados para que essas práticas cheguem a quem mais interessa: o cidadão de menor poder aquisitivo.
Para Saber Mais:
Shiatsu Tradicional - Dr. Sohaku Bastos (Sohaku-In Edições)
Academia Brasileira de Arte e Ciência Oriental Sohaku In
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